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Cartografias Imaginárias: Identidade e Ruptura em Três cartas da memória das Índias, de Al Berto

by Rui Torres
Literatura e Geografia (2010)

Abstract

Partindo da dimensão metapoética da obra Três Cartas da Memória das Índias, de Al Berto, avalia-se com esta comunicação a relação estabelecida, pela escrita, entre uma construção de espaços de dissolução e de exílio (discurso de ruptura) e uma poética dos regressos e dos lugares (agenciamento de identidade). Escritas e publicadas em 1986, estas três Cartas situam-se no espaço conceitual da ambiguidade e da melancolia, através do qual se articulam distanciamentos e semelhanças, diferenças e conexões. Promovida por uma procura das/de "Índias por descobrir", a viagem, realizada no domínio da escrita e do "corpo viandante" que dela emana, inscreve-se no percurso criativo do poeta: transgressão e ruptura, na escrita e pela linguagem, contra o deslocamento de uma identidade divergente.

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Cartografias Imaginárias: Identidade e Ruptura em Três cartas da memória das Índias, de Al Berto

Cartografias Imaginárias: Identidade e Ruptura em Três cartas da memória das Índias, de Al Berto
apeCartografias Imaginárias:
Identidade e Ruptura em Três cartas da memória das Índias de Al Berto
Rui Torres*
RESUMO: Partindo da dimensão metapoética da obra Três Cartas da Memória das Índias, de Al
Berto, avalia-se com esta comunicação a relação estabelecida, pela escrita, entre uma construção de
espaços de dissolução e de exílio (discurso de ruptura) e uma poética dos regressos (agenciamento
de identidade). Escritas e publicadas em 1986, estas três Cartas situam-se no espaço conceitual da
ambiguidade e da melancolia, através do qual se articulam distanciamentos e semelhanças,
diferenças e conexões. Promovida por uma procura das/de “Índias por descobrir”, a viagem, realizada
no domínio da escrita e do “corpo viandante” que dela emana, inscreve-se no percurso criativo do
poeta: transgressão e ruptura, na escrita e pela linguagem, contra o deslocamento de uma identidade
divergente.
PALAVRAS-CHAVE: Literatura e viagem; identidade(s); cartografias imaginárias; geografia humana.
Introdução
Pretendo propor uma leitura das Três Cartas da Memória das Índias, de Al Berto (1948-
1997), à luz de certos conceitos, dispersos, da teoria crítica contemporânea, relacionando os
temas da viagem, lugar e espaço, desse modo registando a forma como, pela escrita,
memória e identidade são articulados. Mais do que a provocação queer das suas obras
iniciais, lemos nestas Cartas um trabalho de encenação de uma despedida.
Al Berto joga a sua subjectividade num espaço de escrita marcado parcialmente pela
biografia, sua topografia e heterotopia próprias. Este espaço é móvel, encontrando-se em
permanente reformulação – e em trânsito. Encenação biográfica e inscrição identitária
contribuem pois para movimentações em direcção à dissolução e à fragmentação. Mesmo
assim, embora marcada pelo exílio e pela ruptura, é também uma poesia dos regressos.
É aparente, o paradoxo. As dicotomias que o alimentam são redutoras, mas explícitas:
visível / invisível, espaço / lugar. Fractura exposta, Al Berto escreve sempre de um outro
lugar, sem negociação no horizonte.
Essencialmente, vou argumentar que estas três cartas estão ligadas, circularmente, por uma
mesma vontade de desterritorialização (conceitual e normativa, não apenas topográfica).
Elas são uma construção, partindo de uma ficcionalização, partilhando de uma longa relação
da literatura com geografias imaginárias: como na viagem à volta do meu quarto de Xavier
de Maistre, os passos em volta de Herberto Helder, ou as cidades invisíveis de Calvino.
Essa construção ajudar-nos-á, por outro lado, a situar as novas geografias da acção
humana.
* Professor associado da Faculdade de Ciências Humanas e Sociais da Universidade Fernando Pessoa, Porto.
Email: rtorres@ufp.edu.pt; Website: http://www.telepoesis.net
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Construção – mas também deambulação melacólica. Como explica Caren Kaplan, num
estudo sobre o conceito de viagem na pós-modernidade (Questions of travel: postmodern
discourses of displacement), a ambiguidade articulada nos discursos Pós-Modernos e Pós-
Coloniais deve ser lida como construção: “that is, while distance and difference are desired
and achieved, similarity and connection are subsumed.” (Kaplan 70). Mas uma viagem assim
realizada, no decurso e no percurso do espelho, implica um certo tom que lhe seja
apropriado. Segundo a autora, tratar-se-iam, esses textos, de “lamentações melancólicas.”
Certo é que o “corpo viandante” vai rasurando o mundo em que se inscreve e participa. E é
no ofício criativo - o da escrita -, que se sobrevive, aquele “(...) enigma de escrever para me
manter vivo” (Quinta de Santa Catarina 277) de que nos falava o poeta.
Epístolas, as Cartas reforçam nessa escritura do sujeito a impossibilidade de circunscrever o
desejo, que nunca é preenchido na totalidade. Derrida, em La Carte Postale, chama ao
género - e “la lettre, l’épître ... n’est pas un genre mais tous les genres, la littérature même”
(54) – uma invocação de fantasmas: “Des fantômes, pourquoi convoque-t-on toujours les
fantômes quand on écrit des lettres? On les laisse venir, on les compromet plutôt, et on écrit
pour eux, on leur prête la main...” (40).
Os fantasmas – os fantasmas e a memória, que se reconstrói permanentemente, pela
descoberta do eu no outro. E viajar é re-conhecer(-se), inscrever o corpo no mundo,
mapeando-o (ao corpo e ao mundo). Pela escrita faz Al Berto uma cartografaria – uma
cartografia da memória. E desse modo “[t]ransforma-se o amador na coisa amada”, como
cantava Camões. Ou, mais acertadamente ainda, como Helder: “‘Transforma-se o amador
na coisa amada’ com seu / feroz sorriso, os dentes, / as mãos que relampejam no escuro.
Traz ruído / e silêncio.”
O abismo entre “o que se diz” e “o que se quer dizer”, encenado nestas “lamentações”,
corresponde, segundo Linda Kauffman, a uma crítica ao próprio sistema da linguagem, bem
como à organização do poder:
Because desire lies between the needs to which the body responds and the demands that
speech articulates, it is always a gap in language that cannot be filled, and consequentely, every
discourse of desire is a critique of language: it cannot encapsulate, enclose, sum up desire –
much less satisfy it. (301)
Na obra de Al Berto o sentido desloca-se, constantemente, entre desvios e quedas, por
linhas de fuga. O destino, neste caso, as “Índias por descobrir”. Desde logo se inaugura um
espaço sem referente, um espaço de múltiplas entradas e aberturas.
É certamente também por causa de textos e representações com estas características que a
teoria crítica tem se preocupado crescentemente com o espaço como co-relativo à vida
humana (biológica, social e cultural). De Foucault (do tempo ao espaço, as heterotopia(s) e
as relações entre espaço, conhecimento e poder) aos não-lugares (non-places) de Marc
Augé, no auge da supermodernidade (1995), mas também em diálogo com outras posições
conceituais, como as de Lyotard ("Scapeland"), Virilio (insegurança do território), Deleuze &
Guattari (geofilosofia), as estéticas do nomadismo e os espaços-vazio.
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1. Leitura das três cartas
As Três Cartas são enquadradas por certos elementos paratextuais que podem servir de
chave de leitura do processo triangular aqui delineado.
Um desses elementos é a utilização de extractos do livro Tradução e descrição dos animais,
árvores e frutos das Índias Orientais (1661), do francês Francisco Pyrard de Laval, para
diálogo intertextual com as Índias que servem ao poeta de ponto de fuga. Acentua-se
também aí a operação de inscrição do outro e no outro, representando um elemento
simbólico de metamorfose(s) da identidade que sairão elencadas. Assim, a “árvore triste”, a
“região mais fértil” e a “flor do sol”, baseadas em descrições de Laval, assumem funções
diversas na operação do texto, de acordo com a ruptura que sustentam.
A triangulação entre mulher, pai e amigo, destinatários (imaginários), respectivamente, das
três cartas, encontra correspondência na árvore triste, na terra fértil e na flor do sol, que é
dizer, abre-se a novas figurações e a novas produção de sentido. Dentro de um extenso rol
de associações possíveis, destacamos, na primeira carta, os campos semânticos ligados à
casa, ao sangue e ao medo. Na segunda carta, à vida, aos mapas e à memória. E, na
terceira carta, à rua, ao corpo e à viagem.
1.1. Carta da árvore triste
A árvore triste, segundo Laval, “é assim chamada porque não floresce senão de noite.
Quando o sol se põe não se vêem nela flores algumas; e todavia meia hora depois do sol
posto, esta árvore fica toda florida, e apenas o sol lança novamente os seus raios, caem lhe
as flores, sem lhe ficar alguma. É do tamanho da pereira. A folha assemelha se à do loureiro
quando é um pouco cortada. A semente serve para lançar na comida; e a água que se
espreme destas flores serve para remédio contra a moléstia dos olhos.”
Qual árvore triste, também o corpo viandante, regressado da noite, inicia o seu primeiro
ensaio de despedida:
quando te levantares e abrires as janelas
a luz espalhar se á por toda a casa
cobrirá suavemente os objectos e o mobiliário
devolvendo lhes os seus pesos formas e volumes
acordá los á para as quotidianas utilizações
e as petúnias em plástico na jarra da sala agitar se ão
à tua passagem em direcção à cozinha
Desde logo, a rotina aparece associada a um cenário pseudo-familiar, com o mundo urbano
a aparecer difuso em cenário de fundo, como hipótese de desvio, encruzilhada dissipada
apenas pela insistência em oposições: noite / luz; corpo / memória; casa / longe; cidade /
mar; sangue / água; silêncio / desejo; escrever / morte.
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Instituída assim a domesticidade dos lugares estáticos do quotidiano – tudo aquilo que
pretende abandonar -, sobra o despojamento final. A linguagem é apocalíptica e a rotina faz-
se prever:
o dia instalar se á igual aos outros milhares de dias
com a banal crueldade dos acontecimentos
ouves rádio enquanto o café aquece
deixas queimar um pouco as torradas
passas os dedos pelos cabelos atados numa fitinha de chita
ajeitas o roupão para cobrires o peito desarrumado
Birdwell-Pheasant e Lawrence-Zúñiga (1999) entendem esta house life como o espaço
conceitual em que se materializam as relações vividas. A vida caseira (household) está,
além disso, localizada em um contexto de proximidade, de integração com os espaços
circundantes. Utilizando a conhecida expressão de H. Lefebvre, a produção de espaço
familiar reproduz as relações sociais. Disciplina da inclusão, a vida familiar reflecte as
interacções humanas, a retórica dos espaços e sua arquitectura de percursos pré-definidos
e pré-determinados:
depois
com a chávena de café na mão mexendo o açúcar
arrastando os chinelos de borracha virás até aqui
onde encontrarás esta carta
serão talvez nove horas
a rádio cospe anúncios de sabonetes e detergentes
o irritante pi do sinal horário
suspiras ao pegar no envelope
e apenas o teu suspiro te parecerá deslocado
de resto há muito que os teus dias são o decalque uns dos outros
A casa é o espaço que organiza a vida familiar - e seus valores relativos – de vários modos
distintos. Mas a casa e a vida familiar convertem esse poder e essa intensidade numa
influência marcante também na organização dos comportamentos da sociedade em geral.
Isto é, eles são por essência espaços de inclusão – e portanto também de exclusão.
Os objectos – em sua colocação concretista – são parte do problema. No seu Sistema dos
objetos, Baudrillard explicou que “[e]m face do objeto funcional o homem torna-se
disfuncional, irracional e subjetivo, uma forma vazia e aberta então aos mitos funcionais, às
projeções fantasmáticas ligadas a esta estupefaciente eficiência do mundo” (63).
De facto, os objectos ocupam um lugar central na configuração da família burguesa
moderna. Ora, a “vida” urbana pós-moderna, inclusiva e global, dilui essa organização
cultural e social – mostrando ao poeta o outro lado da história (do espelho), o de árvore, a
que chamam triste, que acorda de noite. Os ciclos interrompem-se, a lógica da linearidade
deixa aqui de fazer o seu efeito:
tenho a certeza de que parto para sempre
não haverá regresso nenhum
creio que se tornaria mais fácil escrever te de longe
na deambulação por algum país cujo nome ainda não me ocorre
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num país com sabor a tamarindos rodeados de mar
onde flores mirrassem ao entardecer e devagar
a paixão nascesse durante o sono
um país um pouco maior que este quarto
O espaço procurado pelo poeta é um espaço desterritorializado: ele não tem centro nem
complexo de posse:
digo tudo isto mas já não te amo
não te amo
olho em redor pela última vez demoradamente
sinto me como uma ilha cuja base se desprendeu do fundo do mar
O sonho e o delírio aparecem, então, como mecanismos de regulação dessa máquina-
família de produção de intensidades. A partida é onde se articula esse desejo:
a noite corrói
balbucio algarismos nomeio peixes e flores de todos os mares
de todos os continentes os ventos os naufrágios por vir
o estrume humano a seiva viva das plantas os astros
uma a uma as aves
as cidades onde me perco e me reencontro
O percurso está construído, mas apenas virtualmente: ele é um caminho aberto, expressão
de “um lugar único / em que a escuridão da noite parece eterna claridade”:
eu estarei longe
nas costas dalguma Etiópia
onde quantidades de lumes se avistam
longe
no cimo lúcido de meu próprio corpo contemplando
o fulgurante sangue dos astros
muito longe
Reconhece o autor destas cartas que é “frágil planta noturna e triste” (385), em oposição a
um mundo de “televisão cabeleireiros tricots intermináveis / conversas idiotas ao telefone
concursos de rádio / furtivas saídas ao cinema do bairro e à leitaria da esquina” (388). Por
isso, a procura é, a este nível, a procura por um não-lugar (ou um terceiro lugar, como E.
Soja pretende) onde todas as fronteiras se dissolvem, isto é, fora dos imperativos morais.
Esse não-lugar vai ser ocupado pela amizade de um amigo, de que o poeta receia, ainda,
falar: “achas que deveria explicar esta amizade? / não posso não tenho coragem” (390).
Mas o dizer ausente faz-se pela desmontagem do discurso – e suas estratégias.
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1.2. Carta da região mais fértil
A região mais fértil é assim chamada porque aí as frutas
(...) são mui boas e excelentes; e todo o país é coberto de árvores de fruto, laranjas
doces e azedas, limões de gosto mui suave e deliciosos, romãs, cocos, ananases e
outras frutas da Índia. Carnes de todas as qualidades são ali abundantes; o peixe nunca
falta. Há milho, mel, canas, açúcar e manteiga em abundância; mas não se cria ali o
arroz, que é o principal alimento e vem de Bengala. Mas toda a canela do mundo só de
lá vem e há dela florestas inteiras. Há também grande número de elefantes, muita
quantidade de pedras preciosas, como rubis, jacintos, safiras, topázios, granadas,
esmeraldas, olhos de gato e outras, as melhores da Índia, e por cima de tudo é lá que há
a bela e grande pescaria de pérolas mui finas e belas; mas não há diamantes. (Laval)
Ao contrário da carta à mulher, centrada na (des)localização, na carta ao pai é a sua
associação ao tempo que sobressai:
vai certamente estranhar esta quase interminável carta
pai
há muito que o silêncio se fez entre nós
o pai com os seus trabalhos por aí onde o tempo custa a passar
e eu pobre de mim
tão aflito me sinto com a velocidade desse mesmo tempo
O tempo / o pai intermedeia(m) a relação entre a mulher e o amigo, lugar e espaço. O tempo
do pai é o tempo dos ciclos da terra, da sua fertilidade. Um tempo germinado em outra
ordem de pensamento. O tempo do pai desconhece portanto a vida decadente da cidade e
do filho, o grito e o terror dos espaços alternativos – com seu lixo e seus luxos. Mas é, para
o poeta, um tempo de memória, de sonhos contados.
Explica por isso ao pai, e a mais ninguém, algumas das razões que levam a esta partida, de
entre as quais se salientam, mais uma vez, a monotonia do amor conjugal: “já não consigo
suportar minha mulher” (395); o conforto burguês: “este conforto enoja-me esta vida dá-me
vertigem e diarreia” (396); a diluição da identidade: “perco-me... à procura não sei de quê”
(395); a solidão e a melancolia: “estou terrivelmente só” (395).
Mais uma vez também, a escrita do desejo é reprimida: também o pai se situa no lugar do
tabu sexual: “arranjei outras compensações /a amizade segura de um amigo / talvez seja
melhor não lhe revelar grande coisa sobre este / assunto / poderia chocar o pai por
demasiado íntimo e delicado.” (396)
Tudo isto conduz ao inevitável e repetido apelo/aviso - demarcação: “pai /decidi partir / não
me pergunte por onde nem porquê / partir é o que ressoa na minha cabeça / viajar sem fim
e jamais voltar” (396).
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O carácter fictício desta partida é acentuado pelo facto de o seu destino ser incerto, uma
partida continuamente renovada: “não sei o que me espera longe daqui / nem onde pararei
de viajar / sei que devo partir de todos os lugares onde chegar” (397).
A ruptura faz-se sem razão nem justificação: “também é inútil perguntar me as razões de
tudo abandonar / este conforto enjoa me esta vida dá me vertigens e diarreia / de resto
duvido que existam razões de peso”.
Mais do que qualquer chegada, interessa a partida: “não sei o que me espera longe daqui /
nem onde pararei de viajar / sei que devo partir de todos os lugares onde chegar”.
Esta cartografia imaginária serve a Al Berto para des-essencializar-se e reconhecer-se, não
como corpo estranho, mas como corpo incluso / inscrito, um próprio diferente:
quem sabe se não sou habitado pela sombra dum país qualquer
muito antigo e distante
ou apenas pelo eco duma língua que estala no coração
uma voz um rosto murmurado um presságio
A ser assim, esta viagem-construção é dos ofícios do desejo: “se calhar esta viagem não
passa de pura imaginação”.
David Morley, autor de Home Territories, livro no qual questiona a relação entre média,
mobilidade e identidade, explica que as concepções tradicionais de casa (home), país
(homeland) e nação (nation) têm vindo a desestabilizar-se, devido, por um lado, aos novos
padrões de migração e, por outro, devido às novas tecnologias da comunicação. Para o
autor, haverá, com estas alterações, uma transgressão das fronteiras simbólicas
estabelecidas tradicionalmente entre a private household e o nation state. Estaríamos,
desse modo, avisados relativamente à necessidade de interpretar as variedades de exílio
com novas ferramentas conceptuais. Diáspora, deslocamento, ligação e mobilidade –
conceitos e vivências que abalam as estruturas familiares tradicionais...
Segundo o autor, os territórios domésticos (casa) representam zonas de segurança – ao
passo que o estranhamento próprio do "unheimlich" (ou do "uncanny") se relaciona com a
desfamilizarização.
A sintonia desta leitura com a herança do formalismo russo na análise do estranhamento é
relevante. De qualquer modo, interessa salientar que, para o autor, os fluxos da era pós-
moderna estariam a criar espaços híbridos casa/nação (Home/Nation).
Não é forçada, esta relação. Espaço físico e território retórico, também a casa abre para a
exclusão e para todo o tipo de criação de fronteiras (boundary-making). Exílio e deslocação,
temporal e espacial, imaginada ou vivida, contribuem para a compreensão de novos
territórios pós-coloniais – a partir dos quais poderemos, em diálogo, criar as condições para
um novo mundo.
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1.3. Carta da flor do sol
Diz Laval, citado por Al Berto, que “[h]á ainda outra árvore de natureza mui singular,
chamada irudemaus, que em sua língua significa flor do sol, porque as suas flores não
abrem nem aparecem nunca senão ao nascer do sol, e caem quando ele se põe; o que é o
contrário da árvore triste. É a mais excelente flor, lança melhor cheiro que todas as outras; e
da qual fazem ordinariamente uso o rei e as rainhas.”
Ao amigo reservou o poeta a atribuição metafórica, na sua terceira e última carta. Aqui, o
desdobramento do eu no outro é plenamente evidente: “vou partir / como se fosses tu que
me abandonasses” (403).
Mas a interrogação mantém-se: “seria inútil falar-te das razões da minha viagem / no fundo
nada a justifica” (407) e o país / nação começa a configurar-se no âmbito d'o medo, como
denúncia desse “povo que não sonha”: “a tua infância a tua adolescência e o medo / de não
conseguires sobreviver ao estrume deste país”.
De resto, é em relação a esse exílio intelectual bem explícito:
sempre habitei este país de água por engano
estas planícies asfaltadas pelo tédio estes prédios de urina
estas paredes vomitadas
onde as diáfanas aves da solidão embatem e definham
A viagem assim preparada “às Índias imaginadas” continua construção melancólica:
disseram me que só ali se pode descansar da vida
e da morte
perscruto a razão profunda desta viagem
ou talvez seja já a torna viagem o que vislumbro
e não valha a pena partir porque já estou de volta
sem o saber
Por fim -
abandono te para além da linha nítida da manhã
onde dizem que tudo existe se transforma e continua vivo
longe
muito longe desta inocente memória das Índias
Percorre-se assim uma geografia outra. Tal como Edward Soja refere, estamos num terceiro
espaço (thirdspace), somos parte da sua formação, que se vai traduzindo nesses lugares
reais-imaginários/imaginados (real-and-imagined).
Se há, como pretende Soja, um pensamento espacial (spatial thinking) ou uma imaginação
espacial / geográfica (geographical or spatial imagination), então ela não pode ficar
confinada às duas habituais aproximações críticas: nem formas concretas de mapeamento,
criadoras de um território que pode ser analisado, explicado, descrito, formalizado e contido;
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nem apenas como construções mentais, ideais acerca de representação e significação. Pelo
contrário, poderemos aproximar-nos de um modelo aberto (quântico?) das sobreposições?
Na sua avaliação dos pressupostos epistemológicos em que assenta a teoria quântica e o
novo pensamento científico, como modelo de compreensão do mundo habitado e pensado,
Pedro Barbosa parece dizer-nos que sim, salientando o facto de estarmos perante, entre
outros,
1) “uma lógica não aristotélica que supera o princípio da identidade ou da não-contradição e
assume o princípio do terceiro incluído (no sentido de Basarab Nicolescu)”;
2) “uma lógica triádica, assente numa unidade dialéctica da coincidência e superação dos
opostos (algo da tese, antítese, síntese e também algo do pensamento oriental)”;
3) “o pensamento sistémico do complexo exercendo-se sobre a ideia do múltiplo em lugar
do pensamento mecanicista assente na ideia do uno”.
Ora, o que motiva Edward Soja é precisamente a necessidade de re-avaliar o dualismo que
faz depender da relação material / mental as dimensões de espaço e espacialidade,
alargando a outros modos cognitivos de pensar espacialmente. Thirdspace refere-se pois, a
partir de Lefebvre, a uma trialéctica que ajuda a localizar, criticamente, este e outros
discursos da/de margem (bell hooks).
Al Berto situa-se confortavelmente neste espaço conceitual da teoria crítica actual,
promovendo articulações entre as novas geografias humanas que descreve, a identidade (e
sua ruptura), através da criação de mapas imaginários da memória e do desejo.
Passados quatro anos sobre a publicação destas Três Cartas, Al Berto escreveu O Livro
dos Regressos (1989), onde se diz de um viajante que “... hoje, quem passar à porta dos
seus livros, vê-lo-á sentado, as mãos sulcadas de caminhos, como um mapa, pousadas
sobre os joelhos...” (566).
Bibliografia
AL BERTO. (1991). Três Cartas da Memória das Índias. [1985]. in: O Medo (Trabalho Poético 1974-
1990). Lisboa, Contexto, pp. 377-412.
BIRDWELL-PHEASANT, D. & LAWRENCE-ZÚÑIGA, D. (1999). House Life: Space, Place and Family
in Europe. Berg, Berg Publishers.
DERRIDA, J. (1980). La Carte Postale: de Socrate à Freud et au-delà. Paris, Flammarion.
KAPLAN, C. (1996). Questions of travel: postmodern discourses of displacement. Durham, Duke U P.
KAUFFMAN, L. S. (1986). Discourses of Desire. Gender, Genre, and Epistolary Fictions. Ithaca,
Cornell U P.
MORLEY, D. (2000). Home Territories: Media, Mobility and Identity. London, Routledge.
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PITTA, E. (2006). “Al Berto, a biografia”, in MIL FOLHAS, 1-12-2006, p. 14.
SOJA, E. W. (1996). Thirdspace: Journeys to Los Angeles and Other Real-and-imagined Places.
London, Blackwell Publishing.
TUAN, Y.-F. (2001). Space and place: the perspective of experience. Minnesota, U of Minnesota
Press.
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