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Conhecimento botânico tradicional e conservação em uma área de caatinga. 273

by Ulysses Paulino De Albuquerque, Laise De Holanda Cavalcanti Andrade
Acta Botanica Brasilica (2002)

Abstract

(Conhecimento botânico tradicional e conservação em uma área de caatinga no estado de Pernambuco, Nordeste do Brasil). No presente trabalho, sintetiza-se algumas informações sobre o conhecimento botânico tradi- cional em uma comunidade rural situada no município de Alagoinha, agreste do estado de Pernambuco, como parte de um projeto etnobotânico desenvolvido na região. Utilizou-se uma boa variedade de métodos de pesquisa, incluindo levantamentos florísticos em sistemas agroflorestais e em vegetação natural. As pessoas identificam e/ou usam mais de 108 espécies de plantas distribuídas em 10 categorias: comida, medicinal, madeira (para combustível, construção etc), uso doméstico (tecnologia), forragem, veneno, repelente de inseto, ornamentação, sombra e místi- co. Discute-se as formas como os recursos da floresta estacional são utilizados e manejados, e a implicação disso na conservação da caatinga.

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Conhecimento botânico tradicional e conservação em uma área de caatinga. 273

Acta bot. bras. 16(3): 273-285, 2002
Conhecimento bot nico tradicional e conserva ªo em uma Ærea de caatinga. 273
CONHECIMENTO BOT´NICO TRADICIONAL E CONSERVA˙ˆ O EM UMA ` REA
DE CAATINGA NO ESTADO DE PERNAMBUCO, NORDESTE DO BRASIL
Ulysses Paulino de Albuquerque
1
Laise de Holanda Cavalcanti Andrade
1 2
Recebido em 20/07/2001. Aceito em 18/12/2001.
RESUMO (Conhecimento bot nico tradicional e conserva ª o em uma Ærea de caatinga no estado de Pernambuco,
Nordeste do Brasil). No presente trabalho, sintetiza-se algumas informa ı es sobre o conhecimento bot nico tradi-
cional em uma comunidade rural situada no munic pio de Alagoinha, agreste do estado de Pernambuco, como parte
de um projeto etnobot nico desenvolvido na regiª o. Utilizou-se uma boa variedade de mØtodos de pesquisa,
incluindo levantamentos flor sticos em sistemas agroflorestais e em vegeta ª o natural. As pessoas identificam e/ou
usam mais de 108 espØcies de plantas distribu das em 10 categorias: comida, medicinal, madeira (para combust vel,
constru ª o etc), uso domØstico (tecnologia), forragem, veneno, repelente de inseto, ornamenta ª o, sombra e m sti-
co. Discute-se as formas como os recursos da floresta estacional sª o utilizados e manejados, e a implica ª o disso
na conserva ª o da caatinga.
Palavras-chave Florestas tropicais, conserva ª o, conhecimento tradicional, etnobot nica
ABSTRACT (Traditional botanical knowledge and conservation in an area of caatinga in Pernambuco state,
Northeast Brazil). In this paper we synthesized information on the traditional botanical knowledge of a rural
community in the municipal district of Alagoinha, Pernambuco state, as part of an ethnobotanical project developed
in the area. We used a variety of research methods, including floristic surveys in agroforestry systems (homegardens)
and in the natural vegetation. People identify and use over 108 plant species distributed in 10 categories: food,
medicinal, wood (for fuel, construction etc), domestic use (technology), forage, poison, insect repellent, ornamen-
tal, shade and mystic. This work discusses the ways by which the forest resources are used and managed, and the
implications for conservation of the caatinga.
Key words Tropical forests, conservation, traditional knowledge, ethnobotany
1
Universidade Federal Rural de Pernambuco, UFRPE, Dpt
o
de Biologia, área de Botânica, R. Dom Manoel de
Medeiros S/N, Dois Irmãos, Recife-PE, Brasil.
2
Universidade Federal de Pernambuco, UFPE, CCB, Laboratório de Etnobotânica e Botânica Aplicada (LEBA),
Departamento de Botânica, Cidade Universitária, CEP 50670-901, Recife, PE, Brasil.
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274 Albuquerque, U. P. de. & Andrade, L. H. C.
Acta bot. bras. 16(3): 273-285, 2002
Introdu ª o
A caatinga, como uma forma ª o vegetal
altamente amea ada, estÆ envolvida pela idØia
da improdutividade, segundo a qual seria uma
fonte menor de recursos naturais. Essa idØia
parece estar sempre relacionada s Æreas Æridas
e semi-Æridas de todo o mundo. Comumente a
caatinga estÆ associada ao fornecimento de re-
cursos madeireiros e medicinais, e pelas formas
de obten ª o de alguns desses produtos da natu-
reza nª o se tem enxergado outra alternativa que
nª o seja a prote ª o total das Æreas remanescen-
tes, principalmente quando se considera o uso
intenso de algumas espØcies que apresentam uma
esparsa distribui ª o e/ou pequenas popula ı es.
Algumas questı es se colocam prontamente
quando se pensa na cria ª o de Æreas protegidas:
quais os critØrios que devem ser levados em con-
sidera ª o? Somente critØrios biol gicos podem
responder satisfatoriamente a tal necessidade?
O que tŒm demonstrando as experiŒncias
com outros ecossistemas? Durante muito tempo
se negligenciou o papel das popula ı es locais
na cria ª o de Æreas protegidas, e as conseq Œn-
cias dessa falta de aten ª o estª o bem explicita-
das por alguns autores, como Diegues (1994).
O conhecimento acumulado pelas popula ı es
locais constitui uma poderosa ferramenta da qual
desenvolvimentistas e conservacionistas podem
se valer no planejamento e manuten ª o dessas
Æreas. Begossi (1998) desenvolveu a questª o ao
abordar o caso das popula ı es cai aras e reser-
vas extrativistas na floresta atl ntica, e muitos
outros autores tŒm levantado o tema sob dife-
rentes aspectos, desde o saber das comunidades
locais sobre o uso e manejo dos recursos natu-
rais atØ as implica ı es Øticas, biol gicas e cul-
turais frente questª o da conserva ª o (Diegues
1994; Albuquerque 1999a,b; Begossi 1998;
Adams 2000; Moreira 2000).
Todavia, como usar, coletar e manejar o
saber local? A etnobiologia e a etnoecologia tŒm
sido campos que vŒm contribuindo no forneci-
mento de dados que muitas vezes corroboram a
idØia de que as prÆticas locais de ind genas ou
campesinos sª o ecologicamente sustentÆveis e
podem fornecer alternativas para as prÆticas
importadas pelos cientistas que nª o raro olvi-
dam a realidade local. Um dos campos que mais
progrediu nessas anÆlises foi a etnobot nica,
principalmente na regiª o amaz nica. Contudo,
os trabalhos tŒm se limitado regiª o Norte do
pa s (Silva 1997), e ecossistemas como a mata
atl ntica e a caatinga sª o ainda pobres em in-
vestiga ı es da rela ª o seres humanos/natureza.
Qual a import ncia em se conhecer essa rela-
ª o? Para combinar o saber cient fico com o
saber local visando contribuir com o planeja-
mento de estratØgias de desenvolvimento. As
popula ı es locais sª o a chave para o sucesso
desses programas; fica dif cil administrar Uni-
dades de Conserva ª o se a comunidade local nª o
deseja participar ou nª o se sente comprometida
durante todo o processo.
Em se tratando disso, geralmente sª o dois
os caminhos seguidos: o primeiro consiste em
afastar as comunidades locais das Æreas protegi-
das e limitar ou evitar o acesso aos recursos lo-
cais; o segundo Ø chegar na comunidade com as
idØias e propostas constru das que vª o alØm das
reais necessidades e interesses das pessoas. To-
davia, ainda Ø grande a discussª o sobre a per-
manŒncia ou nª o das popula ı es locais nas uni-
dades de conserva ª o (cf. Adams 2000). Mes-
mo assim, saber a maneira como as pessoas se
relacionam e utilizam os recursos pode resultar
em vÆrios benef cios. Muitas comunidades pos-
suem sistemas pr prios de manejo, resultado da
experiŒncia acumulada durante sØculos de rela-
ª o com os recursos, que permitem suprir suas
necessidades com um preju zo ambiental m ni-
mo. Algumas dessas tØcnicas sª o mais produti-
vas do que as que os cientistas desejam aplicar,
pois estª o adaptadas s condi ı es locais de cli-
ma, solo, vegeta ª o etc. Assim, essas comuni-
dades podem se constituir em bons modelos,
sobre os quais o saber cient fico, historicamen-
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te constru do, pode se basear. Isso jÆ vem sendo
feito em muitas Æreas do conhecimento, como
na busca de novos produtos naturais a partir do
saber local.
Estudos etnobot nicos indicam que as pes-
soas afetam a estrutura de comunidades vege-
tais e paisagens, a evolu ª o de espØcies indivi-
duais, a biologia de determinadas popula ı es de
plantas de interesse, nª o apenas sob aspectos
negativos como comumente se credita inter-
ven ª o humana, mas beneficiando e promoven-
do os recursos manejados. AliÆs, o manejo de
comunidades vegetais Ø uma prÆtica comum
entre os ind genas das regiı es neotropicais, e a
sustentabilidade dessas prÆticas, em pequena
escala, jÆ foi noticiada. Um breve resumo des-
sas prÆticas nas regiı es tropicais pode ser en-
contrado em Albuquerque (1999b). Salick
(1995) completa informando que a rela ª o plan-
tas/pessoas pode ser interpretada sob vÆrios as-
pectos e que pode contribuir para o progresso,
por exemplo, da ecologia evolutiva; esclarece
que na ecologia genØtica as pessoas agem como
agentes seletivos para as plantas; na biologia de
popula ı es, alterando ciclo de vida, padrı es de
mortalidade, reprodu ª o e sobrevivŒncia de po-
pula ı es de plantas; e na ecologia qu mica, as
pessoas modificam e tiram vantagem das defe-
sas qu micas das plantas para seu benef cio.
Salick (1995) ainda alerta que as pessoas
manipulam muitas variÆveis das comunidades
vegetais. No entanto, os estudos de ecologia de
comunidades estª o constru dos sobre ecossiste-
mas naturais, e o ser humano como um agente
de mudan as nª o Ø enfocado. Sem dœvida, con-
siderar como as pessoas usam os recursos e afe-
tam as popula ı es vegetais e paisagens pode ser
œtil na constru ª o de modelos que agreguem um
maior nœmero de variÆveis. Tudo isso acima foi
dito para demonstrar a necessidade de tais abor-
dagens para o ecossistema caatinga, pouco in-
vestigado do ponto de vista etnobot nico. A mai-
oria das contribui ı es resume-se a listas de re-
cursos œteis sem uma aten ª o mais especial so-
bre a percep ª o dos recursos e o seu manejo pe-
las comunidades estudadas.
No presente texto, apresenta-se um resumo
dos dados obtidos a partir de pesquisas explora-
t rias realizadas em uma Ærea de caatinga em
Pernambuco, levantando problemas e sugerin-
do alternativas para a questª o da sustentabilida-
de e uso dos recursos desse bioma.
Local de trabalho
O munic pio de Alagoinha, de 181 Km
2
, estÆ
localizado no Nordeste do Brasil na sub-zona
do agreste de Pernambuco (08
0
27 59 S e
36
0
46 33 W), distando 225,5 Km da capital
deste estado (Fidem, 2001) (Fig. 1). O clima Ø
semi-Ærido quente de baixas latitudes. Segundo
a classifica ª o de K ppen, esse clima enqua-
dra-se no tipo BSHs . A temperatura mØdia anu-
al Ø de 25
0
C e a precipita ª o pluviomØtrica anu-
al Ø de 599mm, com chuvas distribu das irregu-
larmente durante o ano. A vegeta ª o natural con-
siste de floresta tropical seca do tipo caatinga
arb rea hiperxer fila, a qual se caracteriza pela
presen a de espØcies xer fitas e dec duas, bem
como de representantes das fam lias Cactaceae
e Bromeliaceae que contribuem na forma ª o da
paisagem. Apresenta espØcies que permanecem
com folhas na esta ª o seca, como Ø o caso do
juÆ (Ziziphus joazeiro Mart.) ou parcialmente,
como o umbu (Spondias tuberosa Arr. Cam.). O
estrato herbÆceo, efŒmero, surge com vigor na
esta ª o chuvosa. Uma descri ª o mais detalha-
da da Ærea de estudo pode ser consultada em
Albuquerque (2001).
Material e mØtodos
Diferentes tØcnicas foram utilizadas duran-
te os trabalhos de campo, realizando-se entre-
vistas com informantes em suas pr prias resi-
dŒncias, observa ª o participante, amostragem de
vegeta ª o, e identifica ª o e anÆlise de sistemas
agroflorestais praticados na regiª o. Os infor-
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Fig. 1. Local de trabalho. Município de Alagoinha, estado de Pernambuco, Nordeste do Brasil.
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mantes foram questionados sobre as plantas co-
nhecidas e o uso que se faz delas na regiª o.
Observa ı es sobre prÆticas agr colas e de ma-
nejo tambØm foram processadas atravØs de ob-
serva ª o participante. Um detalhado levanta-
mento etnobot nico foi obtido e todo o material
bot nico decorrente dele foi coletado com o au-
x lio dos informantes que identificaram as plan-
tas no campo por seu nome vernÆculo. Em ou-
tras situa ı es amostras de plantas foram leva-
das diretamente para a identifica ª o e aprecia-
ª o dos informantes. Detalhamento dos proce-
dimentos metodol gicos podem ser encontrados
em Albuquerque (2001).
Resultados e discussª o
Como as comunidades que vivem na caa-
tinga, ou nos seus dom nios, se relacionam com
os recursos vegetais?
A manipula ª o de plantas pelas pessoas em re-
giı es semi-Æridas depende de vÆrios fatores que
vª o desde a disponibilidade temporal dos recur-
sos atØ o grau de interesse por um recurso em
especial. Parece existir diferentes padrı es de uso
e manejo dos recursos vegetais entre florestas
œmidas e secas, ainda que nª o existam estudos
espec ficos sobre o assunto. As formas de inte-
resse e relacionamento com as plantas determi-
nam diferentes graus de aten ª o (uma explica-
ª o um pouco mais extensa sobre isso se encon-
tra em Caballero 1994; Albuquerque 1999b). As
plantas podem ser coletadas, a partir de Æreas
de floresta primÆria, secundÆria, ou zonas an-
tropogŒnicas (como margens de estrada, culti-
vos abandonados ou ativos), incluindo-se as
obtidas a partir de uma prÆtica extrativista am-
plamente disseminada. o caso do umbu (Spon-
dias tuberosa Arr. Cam.) e da aroeira (Myracro-
druon urundeuva Fr. All.). Outras plantas sª o
toleradas e protegidas, o que revela um grau
maior de aten ª o por parte das pessoas. Aqui
estª o envolvidas as espØcies que sª o toleradas
em Æreas de cultivo ou ao redor de casas e que
nª o foram eliminadas por alguma razª o especi-
al, seja por suas propriedades medicinais, como
o angico (Anadenanthera colubrina (Vell.) Bre-
nan var. cebil (Griseb.) Altschul), ou pelo for-
necimento de frutos e sombra, como Ø feito em
rela ª o ao mulungu (Erythrina velutina Willd.).
HÆ ainda as plantas cultivadas que sª o de gran-
de import ncia no semi-Ærido, como no caso da
palma (Opuntia ficus-indica Mill.), sem falar das
plantas silvestres favorecidas ou fomentadas que
as pessoas manejam de forma a aumentar sua
dispersª o ou disponibilidade. Alguns estudos
realizados no MØxico tŒm apontado que esses
diferentes graus de aten ª o podem afetar as plan-
tas de diferente formas (Caballero 1994).
AlØm de todo esses aspectos, os sistemas agro-
florestais constituem uma forma de manejar os
recursos compatibilizando o cultivo, o pastoreio
e prÆticas extrativistas. Nesses sistemas, hÆ um
cons rcio de plantas silvestres, cultivadas e ani-
mais domØsticos, e pelo menos a caracter stica
bÆsica deles Ø a de subsistŒncia da unidade fa-
miliar. Na verdade nª o existe um padrª o r gido
de organiza ª o desses sistemas, e dados e ob-
serva ı es sugerem que existem algumas linhas
evolutivas que conduziram a caminhos distin-
tos de especializa ª o. Alguns estª o basicamen-
te voltados para o comØrcio, predominando plan-
tas frut feras, raras silvestres e cria ª o de ani-
mais domØsticos. Outros combinam subsistŒn-
cia com produ ª o para comØrcio, enquanto al-
guns estª o voltados somente para a manuten ª o
da unidade familiar. Todavia, na Ærea estudada,
a contribui ª o desses sistemas para a auto-sufi-
ciŒncia alimentar de muitas fam lias Ø quase
nula, o que contrasta com alguns dos relatos
coletados em vÆrias partes do mundo.
Os sistemas agroflorestais sª o considerados
uma alternativa para as regiı es tropicais, e as co-
munidades que vivem nessas regiı es desenvol-
veram sistemas adaptados s necessidades locais
e caracter sticas ambientais (Altieri 1988 ). Es-
tudando esses sistemas e prÆticas, que estª o in-
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seridos nos dom nios da vegeta ª o, Ø poss vel
verificar as formas de uso, manejo, aproveita-
mento dos recursos, bem como os mais impor-
tantes, e a partir da verificar o impacto das prÆ-
ticas locais sobre a vegeta ª o e as melhores for-
mas de interven ª o local. Basicamente, as co-
munidades locais tŒm uma concep ª o sistŒmica
e conservacionista dos recursos, e altera ı es
nesse modo de ver e se relacionar com os recur-
sos vŒm crescendo, como resultado de pressı es
externas a que as comunidades se encontram
submetidas (interesses econ micos, pressı es
sociais, Œxodo etc.). Todavia, Ø bom lembrar que
nem todas as comunidades possuem atitudes
conservacionistas e algumas de suas prÆticas sª o
altamente agressivas.
Como se dÆ a apropria ªo dos recursos da caa-
tinga?
A extra ª o de produtos da floresta tem uma
grande import ncia, variando de intensidade de
acordo com a utilidade e disponibilidade do re-
curso. Entre estes recursos se incluem as ma-
deiras, como a jurema (Mimosa tenuiflora (Wi-
lld.) Poir.) e os produtos medicinais, como o
angico (Anadenanthera colubrina (Vell.) Bre-
nan var. cebil (Griseb.) Altschul). A tab. 1 apre-
senta uma lista da diversidade de recursos e seus
usos. HÆ muitos problemas sociais e econ mi-
cos relacionados a extra ª o de recursos e uma
carŒncia de estudos que venham desvendar os
fatores que se relacionam com algumas espØci-
es em particular. Da caatinga se obtØm alØm dos
citados recursos, plantas forrageiras e aliment -
cias. A quantidade de recursos comest veis Ø
muito maior do que primeira vista se poderia
supor, pois as pessoas tendem a aproveitar uma
gama muito maior cotidianamente ou quando
submetidas a pressı es diversas. Entre as plan-
tas comest veis encontram-se as frut feras e as
que fornecem ra zes e folhas como verduras. A
pr pria palma, que Ø usada como forragem, tem
seus frutos bastante apreciados para o consumo
humano. Muitos dos recursos poderiam ser me-
lhor aproveitados para garantir s pessoas os
meios de sobrevivŒncia. Somando o saber tradi-
cional sobre os recursos com o conhecimento
cient fico, poderiam ser desenvolvidas tØcnicas
para um melhor aproveitamento dos mesmos,
ampliando as possibilidades de desenvolvimen-
to local.
Muitos recursos medicinais da caatinga sofrem
uma forte pressª o extrativista nª o apenas pelo
seu uso local, mas pela existŒncia de um amplo
mercado consumidor que se estende por todo o
estado de Pernambuco. Esse comØrcio (formal
ou informal) causa sØrio risco s popula ı es
dessas plantas, pois muitas vezes as pessoas en-
volvidas com a coleta desse recurso sª o descom-
prometidas e/ou desconhecem as tØcnicas ade-
quadas de obter o produto desejado sem agredir
as popula ı es. Entre essas plantas pode-se des-
tacar a aroeira, o mulungu, a baraœna, o angico
e a imburana-de-cheiro. Alguns fatores sª o con-
siderados capazes de comprometer a existŒncia
futura dessas plantas: 1. intenso consumo; 2.
ausŒncia de cultivos ou pelos menos de alguma
forma de propaga ª o dessas plantas; 3. uso para
um mercado local, tradicional, e consumo por
empresas para produ ª o de fitoterÆpicos, o que
exige grande quantidade de matØria-prima; 4.
desconhecimento da distribui ª o e amplitude das
popula ı es naturais dessas plantas de interesse
econ mico; 5. ausŒncia de estudos que avaliem
o impacto das tØcnicas extrativistas na estrutura
e biologia das popula ı es.
Como os recursos da caatinga sªo percebidos?
Aqui se coloca uma questª o de vital impor-
t ncia para as Æreas de gestª o e planejamento
ambiental. A percep ª o das pessoas que vivem
em um determinado ambiente, sobre os recur-
sos locais Ø imprescind vel no planejamento de
estratØgias, uma vez que Ø poss vel compreen-
der melhor suas formas de relacionamento e con-
dutas com rela ª o a esses recursos. Quando se
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Tabela 1: Plantas usadas em uma comunidade rural do Município de Alagoinha, estado de Pernambuco. Convenções, A:
comestível; B: medicinal; C: madeira; D: uso doméstico (tecnologia); E: forragem; F: veneno; G: repelente de insetos;
H: ornamentação; I: sombra; J: místicas. Fonte do recurso: a: quintais; b: mata; c: outras áreas antropogênicas; d:
campos de cultivo.
Amaranthaceae
Amaranthus spinosus L. Bredo-de-espinho A,G c,d
Amaranthus viridis L. Bredo-de-porco A,G,E c,d
Gomphrena vaga Mart. Alento B b
Anacardiaceae
Anacardium occidentale L. Caju A,B a
Mangifera indica L. Manga A a
Myracrodruon urundeuva (Engl.) Fr. All. Aroeira B,C a,b
Schinopsis brasiliensis Engl. Braúna B,C a,b
Spondias purpurea L. Ciriguela A a
Spondias tuberosa Arr. Cam. Umbu A a,b
Annonaceae
Annona muricata L. Graviola A a
Annona squamosa L. Pinha A a
Apocynaceae
Aspidosperma pyrifolium Mart. Pereiro C a,b
Arecaceae
Bactris sp. ——— I a
Cocos nucifera L. Coqueiro A,I a
Asteraceae
Acanthospermum hispidum DC. Espinho-de-cigano B c,d
Ageratum conyzoides L. ——— B c
Egletes viscosa Less. Macela B c
Bignoniaceae
Tabebuia sp. Pau d’arco C a
Tecoma stans Fuss. Ipezinho H a
Bombacaceae
Chorisia glaziovii (O. Kuntze) E.M. Santos Barriguda H,I a
Boraginaceae
Cordia leucocephala Moric Moleque-duro A,C b
Cordia globosa (Jacq.) H.B.K. ——— C b
Heliotropium indicum L. Fedegoso B c,d
Cactaceae
Cereus jamacaru DC. Mandacaru A,B b
Opuntia ficus-indica Mill. Palma A,E a
Melocactus zehntneri (Britton & Rose) Coroa-de-frade A b
Lutzelb.
Caesalpiniaceae
Bauhinia cheilantha (Bong.) Steud. Mororó A,B,C a,b
Caesalpinia echinata Lam. Pau-brasil H,I a
Caesalpinia ferrea Mart. Jucá B a,b
Táxons Nome vulgar Usos Fonte
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Caesalpinia pyramidalis Tul. Catingueira B,C b
Delonix regia (Boj. ex Hook) Raf. flamboyant H,I a
Hymenaea courbaril L. Jatobá A,B b
Senna martiana (Benth.) H.S. Canafístula B a,b,c
Irwin & Barneby
Senna spectabilis (Irw. & Barn.) var. excelsa
(Schrader) Irw. & Barn. Canafístula B.H a,b
Capparaceae
Capparis flexuosa L. Feijão-de-boi, Feijão-bravo B,E a,b,c
Capparis jacobinae Moric. Icó A b,c
Cleome spinosa Jacq. Mussambê B c
Crataeva tapia L. Trapiá A a
Caricaceae
Carica papaya L. Mamão A a
Celastraceae
Maytenus rigida Mart. Bom-nome B a,b
Chenopodiaceae
Chenopodium ambrosioides L. Mastruz B a
Crassulaceae
Kalanchoe brasiliensis Cam. Pratudo B a
Combretaceae
Thiloa glaucocarpa (Mart.) Eichl. Supaúba C b
Cucurbitaceae
Momordica charantia L. Melão-de- São Caetano B c
Euphorbiaceae
Chamaesyce hyssopifolia (L.) Small. Quebra-pedra B c
Cnidoscolus urens (L.) Arthur Urtiga B c
Croton argirophylloides Muell. Arg. Sacatinga, B,C,D,G b,c
Marmeleiro-branco
Croton rhaminifolius Muell. Arg. Velame B b,c
Croton sonderianus Muell. Arg. Marmeleiro B,C b,c
Euphorbia prostrata Ait. Quebra-pedra B c
Jatropha curcas L. Pinhão-bravo B a
Jatropha gossypiifolia L. Pinhão-roxo H,J a
Jatropha molissima (Pohl) Baill. Pinhão-manso B a,b
Manihot glaziovii Muell. Arg. Maniçoba F a
Phyllanthus niruri L. Quebra-pedra B c
Sapium sp. Burra-leiteira F a,b
Fabaceae
Amburana cearensis (Arr. Cam.) Imburana-de-cheiro B,C a,b
A.C. Smith.
Cajanus cajan (L.) Millsp. Feijão-guandu A a
Canavalia sp. Chorão I a
Dioclea grandiflora Mart. Mucunã A,B,F c
Tabela 1. (continuação)
Táxons Nome vulgar Usos Fonte
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Conhecimento bot nico tradicional e conserva ª o em uma Ærea de caatinga. 281
Erythrina velutina Willd. Mulungu B a
Lamiaceae
Ocimum campechianum Mill. Mangericão B a,c
Plectranthus sp. Hortelã B a
Rosmarinus officinalis L. Alecrim B a
Malpighiaceae
Malpighia glabra L. Acerola A a
Malvaceae
Gossypium herbaceum L. Algodão H a
Hibiscus rosa-sinensis L. Papoula H a
Mimosaceae
Acacia sp. Avoador-vermelho C a
Anadenanthera colubrina (Vell.) Angico-de-caroço B,C,F a,b
Brenan var. cebil (Griseb.) Altschul
Leucena leucocephala (Lam.) DC Witim Leucena E,I a
Mimosa cf. malacocentra Mart. Rasga-beiço C b
Mimosa arenosa (Willd.) Poir. Avoador C b
Mimosa tenuiflora (Willd.) Poir. Jurema-preta B,C a,b,c
Piptadenia stipulacea Ducke Carcará, rasga-beiço B,C a,b
Piptadenia zehntneri Harms Angico-liso C b
Prosopis julifora DC. Algaroba A,C,E a
Myrtaceae
Eucalyptus sp. Eucalipto B a
Eugenia sp. Pirim A a
Eugenia sp. Ubaia A a
Eugenia uniflora L. Pitanga A a
Myrciaria caulifora Berg. Jabuticaba A a,b
Psidium sp. Araça A b
Psidium guajava L. Goiaba A,B a
Nyctaginaceae
Boerhavia diffusa L. Pega-pinto B c
Bougainvillea glabra Choisy a
Oleaceae
Jasminum sp. Jasmim H a
Oxalidaceae
Oxalis insipida St. Hil. Chumbinho A b
Papaveraceae
Argemone mexicana L. Cardo-santo B c
Passifloraceae
Passiflora foetida L. Maracujá-de-estalo A,B b
Poaceae
Echinocloa colonum (L.) Link. Unha-de-gato B c
Cymbopogon citratus (DC) Stapf. Capim-santo B a
Tabela 1. (continuação)
Táxons Nome vulgar Usos Fonte
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Acta bot. bras. 16(3): 273-285, 2002
estuda percep ª o, o campo de enfoque Ø o pro-
cesso mental, sendo por isso necessÆrio uma ade-
quada metodologia que vise cobrir todas as for-
mas de expressª o da percep ª o pelo ser huma-
no. De modo geral, os grupos humanos que vi-
vem em regiı es de caatinga tendem a conceber
os recursos vegetais dentro de um significado
muito amplo de utilidade, que necessariamente
nª o tem que ver com a compreensª o dos cien-
tistas. O significado de œtil varia culturalmente
(e intraculturalmente) e isso determina a forma
com que as pessoas se relacionam com os recur-
sos do ambiente. Para o sertanejo, todas as plan-
tas da caatinga sª o consideradas œteis, sem que
obrigatoriamente tenham uma utiliza ª o direta
das pessoas. Todavia, essa percep ª o estÆ rela-
cionada com a visª o de mundo e o pr prio co-
nhecimento do recurso por quem dele se utiliza,
o que dita normas e padrı es de conduta com re-
la ª o a esses recursos. Muitos grupos ind genas
do semi-Ærido pernambucano consideram a ju-
rema (Mimosa tenuiflora (Willd.) Poir.) uma
planta sagrada, cercada de profundo respeito e
de todo um cerimonial, com as popula ı es des-
sa planta tendendo a ser protegidas. Contudo, Ø
uma planta muito apreciada pela qualidade de
sua madeira, sendo muito utilizada para confec-
ª o de cercas e fabrico de carvª o.
Polygonaceae
Ruprechtia laxiflora Meissn. Caixão C a,b
Portulacaceae
Portulaca oleracea L. Beldroega B c
Rhamnaceae
Ziziphus joazeiro Mart. Juá A,B a,b
Rutaceae
Citrus sp. Limão A a
Citrus aurantium L. Laranja A,B a
Citrus nobilis Lour Laranja-cravo A a
Ruta graveolens L. Arruda B a
Sapindaceae
Sapindus saponaria L. Sabonete B,D a
Serjania comata Radlk. Ariu B c
Talisia esculenta (St. Hil.) Radlk. Pitomba A a
Sapotaceae
Sideroxylon obtusifolium (Roem. & Schult.) Quixaba A,B b
T.D. Penn.
Solanaceae
Capsicum parvifolium Sendt. Pimenta-de-passarinho C b
Solanum paniculatum L. Jurubeba B c
Sterculiaceae
Melochia tomentosa L. Vermelhinho, malva B b,c
Verbenaceae
Lippia alba (Mill.) Brow. Erva-cidreira B a
Lippia sp. Alecrim B b
Violaceae
Hibanthus cf. ipecacuanha (L.) Baill. Pepaconha B c
Tabela 1. (continuação)
Táxons Nome vulgar Usos Fonte
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Acta bot. bras. 16(3): 273-285, 2002
Conhecimento bot nico tradicional e conserva ª o em uma Ærea de caatinga. 283
Padrıes de manejo e uso de recursos.
As pessoas na caatinga tendem a utilizar uma
boa diversidade de produtos oriundos de varia-
dos s tios ecol gicos (naturais ou manejados)
como Æreas de vegeta ª o nativa, Æreas perturba-
das totalmente descaracterizadas, e de seus quin-
tais (sistemas agroflorestais). As formas como as
pessoas obtŒm esses recursos, suas preferŒncias
e tØcnicas de manejo, refletem adapta ı es ecol -
gicas, culturais, sociais e econ micas, a situa ı es
flutuantes relacionadas a pressı es ambientais ou
de mercado. Na tab. 1 sª o mostradas as 108
espØcies identificadas neste estudo. Alguns pro-
dutos medicinais sª o mais abundantes nas proxi-
midades das casas, todavia nª o parecem ter a pre-
ferencia das pessoas, como Ø o caso de espØcies
ruderais. Em muitas Æreas sª o encontrados frutos
comest veis e os mais preferidos normalmente sª o
observados em Æreas perturbadas e/ou pr ximo
aos campos de cultivo.
Outros produtos sª o coletados durante todo
o ano, incluindo as plantas medicinais e madei-
ras, mas muitos produtos estª o fortemente rela-
cionados com uma pronunciada sazonalidade.
Durante a ampla esta ª o seca (que pode durar
atØ oito meses) as pessoas dispı em principal-
mente dos troncos e ramos de Ærvores, e deles
produzem medicamentos ou utens lios e mate-
riais de constru ª o, carvª o etc. Nesse per odo
hÆ uma forte redu ª o das atividades diÆrias e
cresce progressivamente a busca de alternativas
para os alimentos tradicionais. Nesse caso se
estabelece o extativismo oportun stico de pro-
dutos que sª o coletados especialmente por mu-
lheres e crian as. Todo esse comportamento des-
crito Ø muito semelhante ao relatado por Camp-
bell et al. (1997) para uma Ærea de savana no
Zimbabue. AlØm disso, nª o hÆ iniciativas de ar-
mazenamento de produtos e a comunidade
aguarda as chuvas para garantir a colheita de
suas lavouras policulturais. Suas prÆticas agr -
colas e o seu modo de vida estª o sendo forte-
mente amea ados. Infelizmente nª o se dispı e
aqui da hist ria antiga da comunidade, o que
permitiria avaliar com seguran a os processos
de manejo e cultivo implantados e praticados
ao longo do tempo. Todavia Ø poss vel perceber
o progresso crescente dos processos de conver-
sª o ambiental e de pobreza na Ærea.
A regiª o estÆ sendo utilizada para extra ª o
de madeira com a amplia ª o das grandes pro-
priedades. As pequenas propriedades que exis-
tem e que ainda mantŒm seus sistemas e prÆti-
cas tradicionais se vŒem amea adas pela falta
de incentivo e apoio, associados a pr pria de-
sarticula ª o social e cultural que existe interna-
mente. Os pequenos produtores estª o abando-
nando seus sistemas e utilizando tØcnicas irra-
cionais impostas por uma forte pressª o econ -
mica. Outros, por sua vez, abandonam suas pro-
priedades que sª o posteriormente ocupadas por
pessoas totalmente estranhas a comunidade, al-
gumas vezes sem hist rico de trabalho com a
terra, que vivem em situa ª o de misØria apesar
de disporem de uma Ærea œtil e dos recursos na-
turais dispon veis. Quando se considera a sus-
tentabilidade ecol gica na regiª o Ø preciso lem-
brar toda a sua heterogeneidade e que a domi-
n ncia de determinadas espØcies depende do
local a ser estudado. Contudo, as pessoas tŒm
percebido que muitos produtos declinaram com
o tempo, principalmente algumas espØcies fru-
t feras e que isso estaria relacionado mais com
defloresta ª o do que com a sobrexplora ª o.
Conclusı es
Alguns problemas bÆsicos que inicialmen-
te nortearam o projeto de pesquisa que deu ori-
gem ao presente trabalho podem ser levantados
e as conclusı es subtra das de suas respostas.
1. De que forma a comunidade aproveita os
recursos da regiªo? Os produtos obtidos dos
recursos dispon veis na regiª o sª o aproveitados
para diversas finalidades, mas principalmente na
medicina, tecnologia e produ ª o de energia.
Apesar da ampla variedade de recursos hÆ uma
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284 Albuquerque, U. P. de. & Andrade, L. H. C.
Acta bot. bras. 16(3): 273-285, 2002
pressª o extrativista sobre uma minoria de espØ-
cies, enquanto outras, embora com usos conhe-
cidos, sª o negligenciadas. Isso indica por um
lado, dado as espØcies preferidas, que a comu-
nidade preserva o conhecimento sobre as espØ-
cies nativas da regiª o, mas por outro, sofre pri-
va ı es em fun ª o dessa op ª o. Como o conhe-
cimento desses recursos Ø estratificado e nª o
existe uma rede de comunica ª o dentro da co-
munidade, o conhecimento bot nico tradicional
tende a se tornar cada vez mais restrito.
2. Aproveitando os recursos dispon veis, estes
sªo diretamente utilizados no atendimento das
necessidades gerais do grupo ou se convertem,
em maior ou menor grau, em produtos de venda
ou troca? Os recursos sª o usados na satisfa ª o
das necessidades bÆsicas do grupo e s ocasio-
nalmente, ou oportunisticamente, alguns sª o
comercializados em feiras livres. Poucas pesso-
as cultivam fruteiras exclusivamente para fina-
lidade comercial, restringindo-se a duas ou trŒs
espØcies, e estando a colheita sujeita s intem-
pØries ambientais.
3. HÆ diferen as etnoflor sticas dos recursos
obtidos entre Æreas de vegeta ªo nativa e per-
turbadas? Se essas diferen as existirem, reve-
lam preferŒncias da comunidade na utiliza ªo
de fitorecursos? Olhando os dados representa-
dos na tab. 1 fica fÆcil concluir que essas dife-
ren as se referem tanto a composi ª o flor stica
quanto as categorias de uso, ou voca ı es utili-
tÆrias, desses dois locais, demonstrando que esse
dado pode se constituir numa ferramenta impor-
tante para projetos de uso e manejo de recursos
que se queira implantar ou desenvolver na loca-
lidade. As Æreas perturbadas concentram espØ-
cies que podem ser suced neos eficazes para as
espØcies vulnerÆveis da vegeta ª o nativa.
A literatura etnobot nica jÆ vem relatando essas
diferen as para muitas florestas tropicais; to-
davia as diferen as flor sticas por si s nª o in-
dicam preferŒncia da comunidade por um deter-
minado s tio ecol gico. No caso da comunidade
em questª o, as pessoas preferem os recursos da
vegeta ª o nativa e isso Ø muito curioso, pois
recursos de usos similares podem estar mais
acess veis e ainda sª o negligenciados. Esse com-
portamento difere do que Ø conhecido para mui-
tos grupos humanos que habitam as regiı es tro-
picais, sugerindo que estudos devem ser con-
centrados em comunidades que habitam regiı es
Æridas ou semi-Æridas para testar se esse com-
portamento Ø isolado ou reflete um padrª o de
comportamento das pessoas que habitam nes-
ses ecossistemas.
4. A disponibilidade desses recursos e atendi-
mento das necessidades do grupo obedece a fa-
tores temporais? A preferŒncia citada anterior-
mente parece ter suas bases assentadas na dis-
ponibilidade temporal e sazonalidade dos recur-
sos. Na Ærea estudada, os recursos das regiı es
perturbadas sª o em sua maioria herbÆceos, de
ciclo curto, dispon veis apenas no per odo das
chuvas, enquanto os recursos usados da vegeta-
ª o nativa sª o basicamente arb reos e dispon -
veis durante todo o ano. Contudo, a satisfa ª o
das necessidades do grupo estÆ relacionada a sua
saœde, nos produtos medicinais, por que do ponto
de vista aliment cio a comunidade padece de
grande necessidade, mesmo dispondo de recur-
sos que brotam no per odo da chuvas. A maioria
das pessoas desconhece a utiliza ª o desses re-
cursos, e quando conhecem nª o providenciam
seu armazenamento para os per odos em que nª o
estarª o dispon veis na natureza.
Na regiª o muitos problemas foram identi-
ficados, sendo a retirada da cobertura vegetal o
mais grave de todos, ao lado da difusª o de tec-
nologias e atividades impr prias para a regiª o.
A subutiliza ª o dos espa os produtivos, como
os quintais, revela uma agricultura extremamen-
te deficiente e incapaz de atender as necessida-
des locais de alimento. As atividades desenvol-
vidas na comunidade sª o diversas, bem como a
qualidade de vida alcan ada pelos diferentes mo-
radores. O primeiro passo para qualquer estra-
tØgia de desenvolvimento na regiª o deve priori-
tariamente passar pela organiza ª o comunitÆria,
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Acta bot. bras. 16(3): 273-285, 2002
Conhecimento bot nico tradicional e conserva ª o em uma Ærea de caatinga. 285
para viabilizar a difusª o das estratØgias e tecno-
logias utilizadas com sucesso por algumas pes-
soas da regiª o e seu conhecimento de plantas
œteis. HÆ um grande potencial de inser ª o de
produtos vegetais no mercado, alØm de seu apro-
veitamento nas atividades de subsistŒncia. To-
davia, a riqueza biol gica da caatinga merece
ser melhor estudada levando em considera ª o
outros par metros socioculturais e ecol gicos
(grau de resiliŒncia, por exemplo).
Por fim, considerando todos esses aspec-
tos, Ø preciso incentivo para o desenvolvimento
de estudos etnobiol gicos na caatinga e em ou-
tras florestas secas como forma de se obter pa-
r metros para o conhecimento das estratØgias de
manejo e uso dos diferentes recursos. AlØm dis-
so, um grande incentivo deve ser dado ao estu-
do dos sistemas agroflorestais tradicionais que
sª o alternativas viÆveis de uso da terra e que
podem ser usados para garantir s pessoas o aces-
so a sua seguran a alimentar. Atividades cient -
ficas e extensionistas devem ser desenvolvidas
na regiª o, numa mª o dupla, envolvendo a co-
munidade e pesquisadores/extensionistas para o
melhor conhecimento dos problemas da comu-
nidade propiciando a sua organiza ª o em torno
de objetivos comuns.
Agradecimentos
comunidade estudada do munic pio de
Alagoinha pela hospitalidade e receptividade
durante os trabalhos de campo, e pelos ricos
momentos de aprendizado. Ao WWF (Fundo
Mundial para a Natureza) e USAID (AgŒn-
cia de Desenvolvimento Internacional dos Es-
tados Unidos) pelo suporte financeiro para o
desenvolvimento do projeto do qual este arti-
go Ø uma parte. CAPES (Coordena ª o de
Aperfei oamento de Pessoal de N vel Superi-
or) pela bolsa de estudos concedida ao primei-
ro autor. Aos graduandos Fernando Valen a,
Cec lia Almeida, Ana Carolina Silva, Fernan-
da Melo, KÆtia Chisaki e Mirtes Guedes, pelo
aux lio numa determinada etapa dos trabalhos
de campo.
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