Cultura e natureza: os desafios das práticas preservacionistas na esfera do patrimônio cultural e ambiental
Revista Brasileira de História (2006)
- ISSN: 01020188
- DOI: 10.1590/S0102-01882006000100007
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or
Abstract
Este artigo trata das práticas preserva- cionistas adotadas na América Latina, privilegiando o desafio de associar o re- conhecimento de identidades plurais à preservação do patrimônio cultural. Pa- ra tanto, destaca como as relações entre natureza e cultura têm se manifestado nas concepções do patrimônio e nortea- do ações pontuais na esfera da reabilita- ção dos núcleos históricos e no âmbito da educação patrimonial e ambiental, tomadas como instrumentos para a construção da cidadania e do desenvol- vimento sustentável.
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Cultura e natureza: os desafios das práticas preservacionistas na esfera do patrimônio cultural e ambiental
As relações entre a natureza e a cultura, desde a Antiguidade clássica, vêm
sendo cotejadas por intermédio de uma série de diferenciações que, em últi-
ma instância, buscam celebrar as singularidades do prodígio humano frente
aos desígnios da natureza. Apesar de permeadas por interpretações que, de
certa forma, tendem a tratar essas duas acepções como categorias antagôni-
cas, as concepções de natureza adquiriram um sentido particular no engen-
dramento da sociedade humana. A acepção de natureza, ora rivalizando com
Revista Brasileira de História. São Paulo, v. 26, nº 51, p. 115-140 - 2006
Cultura e natureza: os desafios das
práticas preservacionistas na esfera
do patrimônio cultural e ambiental
Sandra C. A. Pelegrini
Universidade Estadual de Maringá
RESUMO
Este artigo trata das práticas preserva-
cionistas adotadas na América Latina,
privilegiando o desafio de associar o re-
conhecimento de identidades plurais à
preservação do patrimônio cultural. Pa-
ra tanto, destaca como as relações entre
natureza e cultura têm se manifestado
nas concepções do patrimônio e nortea-
do ações pontuais na esfera da reabilita-
ção dos núcleos históricos e no âmbito
da educação patrimonial e ambiental,
tomadas como instrumentos para a
construção da cidadania e do desenvol-
vimento sustentável.
Palavras-chave: Bens culturais; Desen-
volvimento sustentável; Educação patri-
monial e ambiental.
ABSTRACT
This article treats of the preservation
practices adopted in Latin America,
focusing the challenge of associating the
recognition of plural identities with the
preservation of cultural patrimony. It
highlights how the relationships between
nature and culture have appeared in the
conceptions of historical patrimony and
orientated punctual actions in the sphere
of the rehabilitation of the historical
nuclei and in the extent of the patrimo-
nial and environmental education, taken
as instruments for the construction of
citizenship and maintainable develop-
ment.
Keywords: Cultural goods; Maintainable
development; Patrimonial and environ-
mental education.
sendo cotejadas por intermédio de uma série de diferenciações que, em últi-
ma instância, buscam celebrar as singularidades do prodígio humano frente
aos desígnios da natureza. Apesar de permeadas por interpretações que, de
certa forma, tendem a tratar essas duas acepções como categorias antagôni-
cas, as concepções de natureza adquiriram um sentido particular no engen-
dramento da sociedade humana. A acepção de natureza, ora rivalizando com
Revista Brasileira de História. São Paulo, v. 26, nº 51, p. 115-140 - 2006
Cultura e natureza: os desafios das
práticas preservacionistas na esfera
do patrimônio cultural e ambiental
Sandra C. A. Pelegrini
Universidade Estadual de Maringá
RESUMO
Este artigo trata das práticas preserva-
cionistas adotadas na América Latina,
privilegiando o desafio de associar o re-
conhecimento de identidades plurais à
preservação do patrimônio cultural. Pa-
ra tanto, destaca como as relações entre
natureza e cultura têm se manifestado
nas concepções do patrimônio e nortea-
do ações pontuais na esfera da reabilita-
ção dos núcleos históricos e no âmbito
da educação patrimonial e ambiental,
tomadas como instrumentos para a
construção da cidadania e do desenvol-
vimento sustentável.
Palavras-chave: Bens culturais; Desen-
volvimento sustentável; Educação patri-
monial e ambiental.
ABSTRACT
This article treats of the preservation
practices adopted in Latin America,
focusing the challenge of associating the
recognition of plural identities with the
preservation of cultural patrimony. It
highlights how the relationships between
nature and culture have appeared in the
conceptions of historical patrimony and
orientated punctual actions in the sphere
of the rehabilitation of the historical
nuclei and in the extent of the patrimo-
nial and environmental education, taken
as instruments for the construction of
citizenship and maintainable develop-
ment.
Keywords: Cultural goods; Maintainable
development; Patrimonial and environ-
mental education.
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a arte, ora competindo com a técnica, tendeu a cristalizar-se na historiografia
como pressuposto da negação das conexões do homem com o estado natural.
Mas, se no Renascimento, as filosofias humanistas tenderam a proclamar
a “superioridade” do homem em relação ao “reino da natureza”, na Moderni-
dade essa interpretação adquiriu maior complexidade, à medida que a condi-
ção biológica humana foi sendo admitida e que a própria natureza passou a
ser concebida como um fenômeno em permanente transformação. Ademais,
os impasses referentes ao possível aniquilamento da biodiversidade, às desco-
bertas da engenharia genética e às alterações ambientais observadas no sécu-
lo XX, suscitaram a progressiva politização dessa temática no espaço público,
criaram demandas no sentido da proteção do patrimônio natural e cultural
da humanidade.
O presente artigo visa, inicialmente, debater de que maneira as relações
entre natureza e cultura têm se manifestado nas concepções do patrimônio,
buscando apreender alguns programas e políticas públicas em prol dos bens
culturais latino-americanos.1
AS ACEPÇÕES DO PATRIMÔNIO CULTURAL E AMBIENTAL
A noção de patrimônio advém etimologicamente da concepção de “he-
rança paterna”. Esse termo nas línguas românicas, segundo Pedro Paulo Fu-
nari,2 deriva do latim patrimonium e faz alusão à “propriedade herdada do
pai ou dos antepassados” ou “aos monumentos herdados das gerações ante-
riores”. Para o referido historiador e arqueólogo, essas expressões fazem men-
ção a moneo, que em latim significa “levar a pensar”. Portanto, as noções de
patrimônio cultural mantêm-se vinculadas às de lembrança e de memória —
uma categoria basal na esfera das ações patrimonialistas, uma vez que os bens
culturais são preservados em função dos sentidos que despertam e dos vín-
culos que mantêm com as identidades culturais.
Nos recônditos da memória residem aspectos que a população de uma
dada localidade reconhece como elementos próprios da sua história, da tipo-
logia do espaço onde vive, das paisagens naturais ou construídas. A memó-
ria, do ponto de vista de Jaques Le Goff,3 estabelece um “vínculo” entre as ge-
rações humanas e o “tempo histórico que as acompanha”. Tal vínculo, além
de constituir um “elo afetivo” que possibilita aos cidadãos perceberem-se co-
mo “sujeitos da história”, plenos de direitos e deveres, os torna cônscios dos
embates sociais que envolvem a própria paisagem, os lugares onde vivem, os
Sandra C. A. Pelegrini
Revista Brasileira de História, vol. 26, nº 51116
como pressuposto da negação das conexões do homem com o estado natural.
Mas, se no Renascimento, as filosofias humanistas tenderam a proclamar
a “superioridade” do homem em relação ao “reino da natureza”, na Moderni-
dade essa interpretação adquiriu maior complexidade, à medida que a condi-
ção biológica humana foi sendo admitida e que a própria natureza passou a
ser concebida como um fenômeno em permanente transformação. Ademais,
os impasses referentes ao possível aniquilamento da biodiversidade, às desco-
bertas da engenharia genética e às alterações ambientais observadas no sécu-
lo XX, suscitaram a progressiva politização dessa temática no espaço público,
criaram demandas no sentido da proteção do patrimônio natural e cultural
da humanidade.
O presente artigo visa, inicialmente, debater de que maneira as relações
entre natureza e cultura têm se manifestado nas concepções do patrimônio,
buscando apreender alguns programas e políticas públicas em prol dos bens
culturais latino-americanos.1
AS ACEPÇÕES DO PATRIMÔNIO CULTURAL E AMBIENTAL
A noção de patrimônio advém etimologicamente da concepção de “he-
rança paterna”. Esse termo nas línguas românicas, segundo Pedro Paulo Fu-
nari,2 deriva do latim patrimonium e faz alusão à “propriedade herdada do
pai ou dos antepassados” ou “aos monumentos herdados das gerações ante-
riores”. Para o referido historiador e arqueólogo, essas expressões fazem men-
ção a moneo, que em latim significa “levar a pensar”. Portanto, as noções de
patrimônio cultural mantêm-se vinculadas às de lembrança e de memória —
uma categoria basal na esfera das ações patrimonialistas, uma vez que os bens
culturais são preservados em função dos sentidos que despertam e dos vín-
culos que mantêm com as identidades culturais.
Nos recônditos da memória residem aspectos que a população de uma
dada localidade reconhece como elementos próprios da sua história, da tipo-
logia do espaço onde vive, das paisagens naturais ou construídas. A memó-
ria, do ponto de vista de Jaques Le Goff,3 estabelece um “vínculo” entre as ge-
rações humanas e o “tempo histórico que as acompanha”. Tal vínculo, além
de constituir um “elo afetivo” que possibilita aos cidadãos perceberem-se co-
mo “sujeitos da história”, plenos de direitos e deveres, os torna cônscios dos
embates sociais que envolvem a própria paisagem, os lugares onde vivem, os
Sandra C. A. Pelegrini
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