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Empreendedorismo feminino: tecendo a trama de demandas conflitantes

by Eva G Jonathan, Taissa M R Da Silva
Psicologia Sociedade (2007)

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Empreendedorismo feminino: tecendo a trama de demandas conflitantes

Psicologia & Sociedade; 19 (1): 77-84, jan/abr. 2007
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EMPREENDEDORISMO FEMININO: TECENDO
A TRAMA DE DEMANDAS CONFLITANTES
Eva G. Jonathan
Taissa M. R. da Silva
Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Brasil
RESUMO: Face à multiplicidade dos papéis femininos, este artigo se propõe a discutir as demandas conflitantes viven-
ciadas por mulheres empreendedoras e as estratégias que elas utilizam para enfrentá-las. A análise do discurso de entre-
vistas feitas com donas de negócios próprios revela a existência de três categorias de situações conflituosas: conflitos
no espaço do trabalho; conflitos entre demandas familiares e profissionais; conflitos entre demandas do trabalho e
pessoais. Para fazer frente às demandas conflitantes, as empreendedoras recorrem principalmente às seguintes estra-
tégias: auto-organização do tempo, estabelecimento de parcerias e cumplicidade, e uso de dispositivos de alívio de
tensão. À luz da literatura sobre empreendedorismo feminino, os dados indicam que as empreendedoras inovam no
confronto dos impasses, introduzindo transformações nos contextos familiar, profissional e pessoal.
PALAVRAS-CHAVE: empreendedorismo feminino; conflito família-trabalho; gênero e trabalho.
WOMEN’S ENTREPRENEURSHIP:
WEAVING THE WEB OF CONFLICTING DEMANDS
ABSTRACT: In the face of multiple gender roles, this article aims to discuss the conflicting demands experienced by
women entrepreneurs and the strategies they use to cope with them. Content analysis of interviews carried out with
women business owners reveals three categories of conflicting situations: conflicts at work; family-work conflicts;
conflicts between work and personal demands. The main strategies these women use in order to oppose the conflicting
situations are: self-organization of time; establishment of partnerships and complicity; and stress alleviation mecha-
nisms. In the light of gender entrepreneurship literature, data indicates that women entrepreneurs innovate when con-
fronting with dilemmas, introducing changes in the professional, family and personal context.
KEYWORDS: women’s entrepreneurship; work-family conflict; gender and work.
Introdução
Na atualidade, várias contingências cercam a inserção
das mulheres no espaço público do trabalho e, em todo o
mundo, cresce o interesse pela análise das características
e conseqüências do trabalho feminino. Neste sentido, este
artigo pretende provocar discussões e reflexões sobre uma
forma específica de inserção das mulheres no mundo do
trabalho constituída pelo empreendedorismo feminino.
Segundo Hisrich & Peters (2002), o empreendedorismo
se caracteriza por uma capacidade de identificar oportu-
nidades e criar algo inovador sob condições de incerteza,
assumindo os riscos aí envolvidos. Persistência e visão de
futuro envolvem o processo de empreender que tem como
resultantes uma nova maneira de realizar um trabalho –
um novo produto, serviço ou atividade – ou a criação de
um novo empreendimento. Tal concepção, aqui adotada
para analisar o empreendedorismo feminino no Brasil,
deixa evidente que variados fatores psicológicos, tais como
motivação, atitudes e comportamentos estão envolvidos
na noção de empreendedorismo, como mostraram os estu-
dos pioneiros de McClelland (1961).
A análise do empreendedorismo feminino tem desper-
tado a atenção de investigadores, como Moore & Buttner
(1997), que examinam diversas características psicológi-
cas e sociais das empreendedoras. Busca-se mapear as expe-
riências de mulheres que, ao criarem e/ou assumirem a
liderança de seus próprios negócios, inovam, transpondo
o denominado “teto de vidro”, entendido como uma bar-
reira simbólica que dificulta a ascensão das mulheres aos
níveis mais altos da administração empresarial (Morrison,
White & Van Velsor, 1987). No Brasil, as empreendedoras
inovam também na cultura organizacional, ao se coloca-
rem como um contraponto à exclusão das mulheres do
processo sucessório de empresas familiares, fato obser-
vado por Macêdo, Caixeta, Guimarães, Macedo & Hernandez
(2004).
A questão da criação e condução de firmas por mulhe-
res brasileiras possui grande relevância social e econômica
no âmbito das micro, pequenas e médias empresas, pois
é neste contexto que se concentram os empreendedores
brasileiros dos quais 46% são mulheres, somando a ex-
pressiva cifra de 6,4 milhões de empreendedoras (Global
Entrepreneurship Monitor [GEM], 2003). A atividade
das empreendedoras brasileiras se insere no significativo
potencial econômico do empreendedorismo feminino prati-
cado na América Latina e no Caribe (Weeks & Seiler, 2001).
Estas autoras verificam que as empreendedoras destas
regiões compartilham muitas características com outras mu-
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Jonathan, E.G.; Silva, T.M.R. “Empreendedorismo Feminino: tecendo a trama de demandas conflitantes”
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lheres empreendedoras. Independentemente da naciona-
lidade, são semelhantes, por exemplo, os tipos de negócios
mantidos, bem como as modalidades de desafios e as ques-
tões enfrentadas pelas empreendedoras para fazer seus ne-
gócios crescerem.
No entanto, são escassas as pesquisas mais aprofundadas
sobre o empreendedorismo feminino no Brasil. Busca-se,
então, com uma abordagem psicossocial da questão, contri-
buir para a construção do conhecimento nesta área. Neste
sentido, o objetivo específico deste artigo é analisar os
impasses vivenciados pelas empreendedoras brasileiras e
as formas de ação que utilizam para lidar com as deman-
das profissionais, familiares e pessoais.
Multiplicidade de papéis e a articulação
Família-Trabalho-Pessoa
Mizrahi (2004), ao analisar a interface entre o mundo
da família e o do trabalho, tece pertinentes críticas às exigên-
cias da produção e à ausência de questionamento acerca
da organização do trabalho, afirmando que sua atual estru-
tura tem reflexos negativos na relação pais e filhos, bem
como na vida familiar como um todo.
Por sua vez, Barnett (2004) argumenta que tanto a
organização do trabalho quanto a da família repousam em
mitos, ainda hoje existentes, relativos à diferença entre
os gêneros. A idéia de que as mulheres têm necessidades,
inclinações e capacidades para cuidar e se ocupar do lar,
ao passo que os homens têm habilidades para atividades
fora do lar e para prover, cria uma armadilha. Homens e
mulheres se tornam prisioneiros de expectativas e com-
portamentos vinculados a ideais em relação a quem tra-
balha (“trabalhador ideal”) e a quem cuida do lar (“dona
de casa ideal”).
A questão gera barreiras e desvantagens que atingem
especialmente as mulheres que são mães e que trabalham.
Em relação a elas, há dois estereótipos que prevalecem:
ou são percebidas como calorosas e pouco competentes,
não merecendo novas oportunidades de emprego, de promo-
ção ou de educação adicional, ou, ao contrário, são vistas
como competentes e frias (Cuddy, Fiske & Glick, 2004).
A representação social da maternidade se constitui, por-
tanto, em um imenso muro que dificulta o trânsito das
mulheres no espaço público e reforça as imagens ideali-
zadas acima discutidas.
Assim, tradicionalmente, as mulheres têm se dedicado
às atividades no espaço privado e seu ingresso no mercado
de trabalho não implicou na supressão destas atividades.
Um forte envolvimento em atividades produtivas fora do
lar, bem como a dedicação e a participação ativa na admi-
nistração da casa e nos cuidados com a família, faz parte
da vida das mulheres contemporâneas. A chamada “dupla
jornada”, que remete ao acúmulo de tarefas – públicas e
privadas –, constitui a origem de conflitos, problemas e
desgastes (Jablonski, 1996; Rocha-Coutinho, 2003).
No entanto, pode-se argumentar que a multiplicidade
de papéis femininos não envolve demandas incompatí-
veis em sua natureza, sendo necessário reconhecer que os
papéis de gênero são construídos socialmente e que os
processos de socialização demarcam espaços, expectati-
vas, e atividades a serem desempenhadas pelos membros
da sociedade. É neste contexto de construção social do
sujeito que emerge e circula a percepção do inconciliável,
do “ou isso ou aquilo”, e o discurso da culpa feminina,
internalizada pelas mulheres no processo de socialização.
Nesta abordagem da condição feminina, não há saída para
a mulher contemporânea: culpada por trabalhar; culpada
por não o fazer.
A questão ganha complexidade na medida em que mu-
lheres, e especificamente mães, que trabalham apresen-
tam melhores índices de bem-estar e de satisfação do que
aquelas que não trabalham (Cherlin, 2001; Vandewater,
Ostrove & Stewart,1997). Tais dados sugerem a necessi-
dade de modificar o pensamento em relação ao trabalho
feminino, de questionar o tabu do fardo que o trabalho
fora do lar representa para as mulheres. Como observa
Cherlin, uma vida que contempla trabalho e maternagem
traz satisfação e sentimento de realização à protagonista.
Dessa forma, o desempenho de múltiplos papéis contribui
para o aumento das fontes de satisfação (Possati & Dias,
2002), e, portanto, transitar simultaneamente nos espa-
ços públicos e privados pode se constituir como um fator
enriquecedor e, não, de estresse e culpa.
Por outro lado, embora muitos observadores do com-
portamento feminino atribuam às mulheres uma aptidão
para pensar e fazer diversas coisas simultaneamente e
considerem a multiplicidade de papéis uma característica
do universo feminino, faz-se necessário ganhar uma me-
lhor compreensão acerca das formas utilizadas pelas mu-
lheres para lidar com tal multiplicidade. Neste sentido,
segundo Uchitelle (2002), as mulheres têm encontrado um
meio termo entre trabalho e família.
Por sua vez, Tiedge (2004) mostra que mães que tra-
balham freqüentemente utilizam cinco estratégias para
enfrentar as tensões entre as demandas do trabalho e as
da maternagem. São elas: (a) estratégia super-mulher, que
envolve buscar atingir com eficiência todas as expectativas
vinculadas aos diferentes papéis sociais; (b) planejamento
e administração do tempo, que implica em otimizar o de-
sempenho dos papéis; (c) reinterpretação cognitiva das
demandas, envolvendo, por exemplo, diminuir seu pró-
prio padrão de exigências; (d) afastamento de atividades
menos importantes, que pode incluir não assumir novas
responsabilidades; (e) estratégia multitarefa, que envolve
desempenhar várias atividades ao mesmo tempo. Confir-
mando Cherlin (2001), a autora observa que as próprias
mulheres percebem conseqüências positivas decorrentes
do envolvimento em múltiplos papéis, ao mesmo tempo

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