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Evolução da balança comercial brasileira no período de câmbio flutuante.

by Márcio Salvato, Pedro Sant'Anna, Leonardo Da Silva
Economia Tecnologia (2008)

Abstract

Desde a opção por adotar um sistema de câmbio flutuante o Brasil experimentou três períodos distintos na trajetória da balança comercial. Um primeiro período com trajetórias de exportações e importações muito próximas, um segundo período com maior expansão das exportações gerando grandes ganhos na balança comercial e um terceiro período com maior crescimento das importações. Além da taxa de câmbio, o crescimento do comércio mundial liderado pela demanda chinesa por commodities, comportamento de preços de tradables diferenciado para a pauta de exportação e importação e choques internos e externos explicam o comportamento da balança comercial nestes períodos.

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Evolução da balança comercial brasileira no período de câmbio flutuante.


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__________________________________________________________________ 1
Economia & Tecnologia - Ano 04, Vol. 13 – Abril/Junho de 2008
ÍNDICE........................................................................................................................................................... 1
EDITORIAL.................................................................................................................................................. 3
SIMPÓSIO
Evolução da balança comercial brasileira no período de câmbio flutuante..............
Márcio Antônio Salvato
Pedro Henrique Sant’Anna
Leonardo Augusto Gomes da Silva
5
O equilíbrio da inflação e os efeitos sobre a economia brasileira....................................
Luciano Nakabashi
Marcelo Luiz Curado
19
Crescimento sustentável da economia brasileira: há um dilema entre o equilíbrio
interno e externo?............................................................................................................................
João Basílio Pereima Neto
Márcio José Vargas da Cruz

33
NÍVEL DE ATIVIDADE, INFLAÇÃO E POLÍTICA MONETÁRIA
O desempenho dos principais indicadores da economia brasileira em 2008................
Guilherme R. S. Souza e Silva
47
POLÍTICA FISCAL E DÍVIDA PÚBLICA
Dívida pública: composição, transformações recentes e impacto na economia..........
Marcos Wagner da Fonseca
55
A aritmética do ajuste fiscal e o crescimento econômico no Brasil.................................
Fernando Motta Correia
65
ECONOMIA PARANAENSE
Condicionantes históricos e econômicos da agroindústria canavieira paranaense:
breves inferências............................................................................................................................
Susã Sequinel de Queiroz
Pery Francisco Assis Shikida
Régio Marcio Toesca Gimenes

71
Fatores diferenciais e estruturais na localização e crescimento da população rural
no oeste do Paraná..........................................................................................................................
Ricardo Rippel
Jandir Ferrera de Lima

83
Uma análise dos setores exportadores das economias brasileira e paranaense...........
Luciano Nakabashi
Luis Esteves
Marcio José Vargas da Cruz
95
SETOR EXTERNO E ECONOMIA INTERNACIONAL
O crescimento da China e seus impactos sobre a economia mineira.............................
Gilberto Libânio
103
ECONOMIA E TECNOLOGIA
Por que os “nossos” empresários não inovam?.....................................................................
Renato Dagnino
111
Interação Universidade–Empresa..............................................................................................
Ana Paula Cerrón
José Gabriel Porcile Meirelles
Luiz Alberto Esteves
121
FINANÇAS E MERCADOS FINANCEIROS
Determinantes e impactos dos ratings soberanos brasileiros............................................
Rafael Camargo de Pauli
Karlo Marques Junior
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Economia & Tecnologia - Ano 04, Vol. 13 – Abril/Junho de 2008
OPINIÃO
O novo IOF e o fim da cobertura cambial para exportadores...........................................
Marcelo de Oliveira Passos
141
Educação, economia e o governo Lula.....................................................................................
Igor Zanoni Constant Carneiro Leão
147
INDICADORES ECONÔMICOS
Índices de Preços......................................................................................................................................... 155
Índices de Confiança................................................................................................................................... 157
Vendas Reais no Varejo............................................................................................................................ 158
Contas Nacionais....................................................................................................................................... 159
Finanças Públicas....................................................................................................................................... 160
Receitas e Despesas..................................................................................................................................... 160
Atividade Industrial................................................................................................................................... 161
Consumo de Energia Elétrica..................................................................................................................... 162
Taxa de Desemprego.................................................................................................................................. 163
Pessoal Ocupado e Rendimentos.................................................................................................................. 164
Taxa de juros/Reservas Internacionais....................................................................................................... 165
Setor Externo............................................................................................................................................. 166
Taxa de Câmbio........................................................................................................................................ 167
Agregados Monetários................................................................................................................................ 168

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Economia & Tecnologia - Ano 04, Vol. 13 – Abril/Junho de 2008
EDITORIAL

É com grande satisfação que apresento o décimo terceiro volume do boletim
Economia & Tecnologia. O foco do simpósio é o atual ciclo de elevação dos juros e da inflação e
a relação destas variáveis com o setor externo da economia brasileira. Os professores e
pesquisadores do IBMEC-MG e da UNA Márcio Antônio Salvato, Pedro Henrique
Sant’Anna e Leonardo Augusto Gomes da Silva fazem uma análise da evolução da balança
comercial brasileira desde 1999. Os autores chamam a atenção para o crescimento recente das
importações e consideram esse processo como natural para equilibrar o fluxo de divisas. No
entanto, os professores e pesquisadores do departamento de economia da UFPR Marcelo
Curado, Luciano Nakabashi, Márcio Cruz e João Basílio Pereima Neto chamam a atenção
para os efeitos da mudança na conta corrente sobre a restrição externa da economia brasileira
no médio prazo. O efeito da elevação dos juros, ao levar a uma maior apreciação do real, só
tende a acentuar tal problema.
Na área de política fiscal e dívida pública, contamos com a participação de Marcos
Wagner da Fonseca (UNIOESTE/Cascavel), que avalia o debate sobre o alongamento e a
composição da dívida pública ocorrido no Brasil entre 2004 e 2006, além da análise das
transformações da administração da dívida mobiliária federal interna (DPMFi) entre 2000 e
2007. Fernando Motta Correia (UFPR) trata da relação entre o ajuste fiscal e o crescimento da
economia brasileira.
Os professores e pesquisadores da UNIOESTE e da Universidade Paranaense, Susã
Sequinel de Queiroz, Pery Francisco Assis Shikida e Régio Marcio Toesca Gimenes tratam
dos condicionantes históricos e econômicos da agroindústria canavieira paranaense, enquanto
que Ricardo Rippel e Jandir Ferrera de Lima (UNIOESTE) fazem uma análise dos fatores
diferenciais e estruturais que influenciam a localização da população urbana e rural nos
municípios do Oeste paranaense. Contamos também com um artigo de Gilberto Libâneo
(CEDEPLAR/UFMG) que trata dos impactos do crescimento da China na economia
mineira.
Por fim, contamos com um instigante artigo do professor do Departamento de
Política Científica e Tecnológica (UNICAMP) Renato Dagnino sobre os determinantes da
inovação dos empresários brasileiros. Tão interessante e relevante quanto o artigo acima
mencionado é aquele dos professores e pesquisadores do departamento de economia da
UFPR Ana Paula Cerrón, José Gabriel Porcile Meirelles e Luiz Alberto Esteves que faz uma
discussão da importância da cooperação Universidade-Empresa no Brasil.
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Economia & Tecnologia - Ano 04, Vol. 13 – Abril/Junho de 2008

Na firme convicção de que o décimo terceiro volume do boletim Economia &
Tecnologia será uma leitura agradável e útil a todos os interessados nos problemas da economia
brasileira e paranaense, subscrevo atenciosamente,



Prof. Dr Luciano Nakabashi
Coordenação Geral do boletim Economia & Tecnologia
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Economia & Tecnologia - Ano 04, Vol. 13 – Abril/Junho de 2008
SIMPÓSIO
Evolução da balança comercial brasileira no período de câmbio flutuante

Márcio Antônio Salvato*
Pedro Henrique Sant’Anna**
Leonardo Augusto Gomes da Silva***

RESUMO - Desde a opção por adotar um sistema de câmbio flutuante o Brasil
experimentou três períodos distintos na trajetória da balança comercial. Um primeiro período
com trajetórias de exportações e importações muito próximas, um segundo período com
maior expansão das exportações gerando grandes ganhos na balança comercial e um terceiro
período com maior crescimento das importações. Além da taxa de câmbio, o crescimento do
comércio mundial liderado pela demanda chinesa por commodities, comportamento de preços
de tradables diferenciado para a pauta de exportação e importação e choques internos e
externos explicam o comportamento da balança comercial nestes períodos.

Palavras-chave: Balança Comercial. Commodities. Taxa de câmbio.

1 INTRODUÇÃO
A partir de janeiro de 1999, no segundo governo de Fernando Henrique Cardoso, o
país passou a adotar um sistema de câmbio flutuante. Observou-se na seqüência um
movimento natural de depreciação da moeda nacional, já que se reconhecia que o câmbio
estava artificialmente valorizado. Como era de se esperar pela hipótese de overshooting, após
movimento acelerado de depreciação da moeda ocorre um processo natural de apreciação, de
modo que a taxa de câmbio se acomoda num patamar superior ao inicial, mas inferior ao pico
do processo. Este processo se repete por mais algumas vezes e de forma acentuada, devido a
choques ocorridos que levaram a movimentos de saída dos capitais aqui investidos: em 1999,
crise de balança de pagamentos no Brasil; em 2001, crise Argentina, crise de confiabilidade de
ativos financeiros (Enron), crise energética brasileira e o 11 de setembro americano; em 2002,
a crise de confiança ocasionada pelo período eleitoral brasileiro; e, mais recentemente, desde
meados de 2007, a crise iniciada nos créditos subprime do setor imobiliário norte-americano.
Estes períodos de choque e crise de confiança refletem-se adequadamente no índice de risco

* Doutor em Economia, professor do IBMEC MG. Professor da PUC Minas e IBMEC MG. Pesquisador do
Instituto de Desenvolvimento Humano Sustentável (IDHS) da PUC Minas. Coordenador do Curso de Ciências
Econômicas (Economia de Empresas) da PUC Minas (graduação). Endereço eletrônico:
marcio.salvato@gmail.com.
** Graduando em Economia, IBMEC MG. Endereço eletrônico: pedrohcgs@gmail.com
*** Mestre em Economia, professor do Centro Universitário UNA. Endereço eletrônico:
leoaugusto9@yahoo.com br
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Economia & Tecnologia - Ano 04, Vol. 13 – Abril/Junho de 2008
país (EMBI+, Emerging Markets Bonds Index Plus calculado pelo J.P.Morgan Chase). Todas
essas crises influenciaram a Balança Comercial brasileira, associando efeitos na taxa de câmbio
à queda do nível de renda dos países.
Após um primeiro período de saldos comercial pequenos e uma crise de confiança
interna, inaugura-se um período de ventos favoráveis, com estabilidade de preços e
manutenção de uma política econômica previsível, que facilita a formação de expectativas
pelos vários agentes no comércio internacional. O novo governo de Lula mantém uma
política monetária alinhada com um programa de metas inflacionárias, uma política fiscal
acompanhada por meta de superávit primário, não intervenção direta no câmbio,
cumprimento de contratos pré-estabelecidos que, juntamente com um cenário externo
favorável, contribui para um processo de redução do risco-país o qual se reflete na entrada de
capitais no país, apreciando a moeda nacional. Contudo, mesmo no período de câmbio
apreciado ainda observa-se recordes constantes de crescimento das exportações e a
manutenção de elevados saldos na balança comercial, ancorado pelo crescimento do comércio
mundial. Os saldos positivos da balança comercial só retraem a partir de 2007.
Em síntese, neste período de câmbio flutuante podem-se observar três fases bem
distintas de comportamento das exportações e importações brasileiras cujas causas vão além
da simples análise de depreciação e apreciação do câmbio. Além do movimento da taxa de
câmbio, outros fatores como ambiente externo favorável com crescimento acelerado do
comércio mundial, principalmente por causa do crescimento da demanda chinesa por
commodities, trajetórias de preços de exportação e importação distintos, crescimento da
demanda interna e choques adversos que assolaram a economia brasileira desde 1999,
explicam o comportamento da balança comercial. Neste trabalho tenta-se identificar a
importância desses fatores para explicar a evolução das exportações e importações brasileiras.
Na próxima seção discorre-se sobre a avaliação teórica em relação a capacidade da
taxa de câmbio definir a trajetória do saldo da balança comercial ao alterar a competitividade
implícita da pauta de exportações e importações, considerando a introdução de outros fatores
nesta análise. Na seqüência, analisa-se o comportamento da balança comercial brasileira,
avaliando sua trajetória vis-à-vis a um conjunto de variáveis relevantes: taxa de câmbio, risco-
país, comércio mundial e preços. As principais conclusões são destacadas na seção final.



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Economia & Tecnologia - Ano 04, Vol. 13 – Abril/Junho de 2008
2 REVISÃO DE LITERATURA
Para avaliar o comportamento da balança comercial é comum a construção de
funções de demanda de exportação e importação de modo a estimar as elasticidades-renda e
preço (câmbio), além de outros fatores de controle. Nesta direção, Blecker (1996) utilizou
uma abordagem analítica para tentar explicar o constante déficit em conta corrente da
economia americana como um todo, para tal, ele estimou funções de demanda de exportação
e importação para obter as respectivas elasticidades-renda e preço. Como resultado, o estudo
indicou que nos setores deficitários, as estimativas dos coeficientes elasticidade-renda da
demanda de exportação foram inferiores às obtidas para os da demanda de importação.
Além de fatores específicos como renda e preços relativos, a literatura aponta que
mudanças na pauta de comércio e parceiros também têm sido importantes para explicar o
comportamento da balança comercial. David e Nonnenberg (1997) fizeram estudo que trata
das mudanças e da evolução na composição do comércio, dos preços e das principais
modificações no peso relativo dos parceiros comerciais. A análise é feita com base em uma
série de indicadores de competitividade, vantagens comparativas reveladas e evolução da
demanda mundial.
Nonnenberg (1998) destaca também que houve mudança na orientação do destino
das exportações e que os principais fatores responsáveis são os diversos processos de
integração regional provocados por alterações recentes na estrutura tarifária, como no caso do
Nafta, e a evolução comercial intrabloco, nos casos da CEE e do Mercosul. Fernandes (2003)
aplicou a mesma abordagem para o estudo das exportações e importações brasileiras de bens
de capital, bens de consumo durável, bens de consumo não-durável, bens intermediários e
bens combustíveis no período de 1974 a 2001. Como resultado, suas estimativas foram
também consistentes com os déficits em conta corrente presentes na economia brasileira no
passado recente.
Segundo Kannebley (2002), não existe uma relação de longo prazo estável entre a
evolução do nível da taxa de câmbio real e o quantum exportado para a maioria dos setores.
Argumenta-se, entretanto, que a manutenção de um nível de taxa real de câmbio capaz de
preservar a rentabilidade e/ou competitividade dos setores exportadores é condição
necessária, porém não suficiente, para a expansão das exportações ao longo do tempo.
Silva (2006), em trabalho sobre a competitividade do açúcar brasileiro, utilizando a
metodologia proposta inicialmente por Blecker identificou a variável taxa de câmbio como
sendo não significativa para a análise do modelo, e sim a variável renda externa.
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Economia & Tecnologia - Ano 04, Vol. 13 – Abril/Junho de 2008
O gráfico 2 apresenta a evolução das exportações e importações (FOB) que geram o
saldo da balança comercial brasileira desde janeiro de 1999. Podemos, claramente, identificar
3 períodos distintos: i) até meados de 2002, quando o saldo da balança comercial se mantém
próximo de zero e o movimento de exportações e importações é muito semelhante; ii)
segunda metade de 2002 até final de 2006, quando as exportações se mantém acima das
importações e com crescimento do saldo da balança comercial; iii) a partir de 2007 com
redução do saldo da balança comercial, a despeito da manutenção do crescimento das
exportações.
GRÁFICO 2 - SALDO DAS CONTAS DE EXPORTAÇÕES, IMPORTAÇÕES E BALANÇA
COMERCIAL (FOB) – 1999- 2008
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U
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$
m
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s
Importações - (FOB) Exportações - (FOB) Balança comercial - (FOB)
FONTE: IPEADATA, elaboração própria.

Para avaliar o crescimento do saldo das contas de exportações e importação
consideremos a taxa de variação de 12 meses que elimina o problema de sazonalidade de
comércio. O Gráfico 3 considera o crescimento do fluxo de exportações, importações e do
comércio mundial, juntamente com o valor da taxa de câmbio real. Observa-se que a taxa de
variação do comércio mundial é muito relevante para determinar a evolução das exportações e
importações no primeiro período identificado (em 2000 e 2001). A partir do final do ano de
2000 ocorre um processo de forte depreciação do Real até meados de 2001, quando o
processo se reverte. Mesmo a fase de depreciação do câmbio, num contexto de redução do
comércio mundial, o que se observa é uma redução das exportações, acompanhando a queda
da taxa de crescimento das importações, sendo esta mais forte que aquela. Destaca-se que o
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Economia & Tecnologia - Ano 04, Vol. 13 – Abril/Junho de 2008
processo de apreciação do câmbio que se seguiu a partir do final de 2001 não foi suficiente
para recuperar as importações. A trajetória declinante do comércio mundial dominou nesse
período o efeito do câmbio real.
No segundo período, iniciado em 2002, observa-se um aumento da taxa de
crescimento do comércio mundial, conjuntamente com um novo processo de depreciação do
câmbio. Esta combinação de fatores puxa fortemente a taxa de crescimento das exportações,
fazendo com que o saldo da balança comercial crescesse rapidamente.
A taxa de crescimento do comércio mundial se mantém elevada desde então,
permitindo que a taxa de crescimento das exportações se mantenha positiva e elevada, mesmo
depois da reversão do processo de depreciação do câmbio. O momento de apreciação do
câmbio iniciado neste período favorece o crescimento das importações, que passa a
apresentar taxas de crescimento agora muito próximas das verificadas para as exportações.
Como as importações ainda são inferiores às exportações, taxa de crescimento no mesmo
patamar não implica em saldo na balança comercial constante, ao contrário, o saldo continua
crescendo.
Apenas a partir do final de 2006 que começamos observar taxas de crescimento das
importações ligeiramente superiores às da exportação. A partir de 2007, as importações
aceleram sua taxa de crescimento, favorecidas pelo câmbio apreciado, enquanto as
exportações mantêm seu patamar de crescimento. Esse movimento das importações é
também influenciado pelo crescimento da demanda interna, quando a renda per capita
brasileira inicia um aumento mais sustentável. Esse novo contexto configura um terceiro
período em que o saldo da balança comercial começa declinar embora ainda bastante positivo.
Logo, o fenômeno de natureza global de queda do valor do dólar americano nos
mercados internacionais, em virtude tanto do fortalecimento da moeda européia, o “euro”,
quanto do enfraquecimento paulatino da economia norte-americana e de seus discutidos
déficits gêmeos (balança comercial e do setor público), parece dominar o comportamento das
importações. Por outro lado, a manutenção de elevadas taxas de crescimento da China,
posicionando-se como um grande consumidor das commodities mundiais, ainda tem mantido as
exportações de commodities brasileiras em alta, sobretudo as minerais, inclusive com o preço
alto no mercado internacional.
Neste sentido, a manutenção de superávits na balança comercial com câmbio
valorizado é dependente de um contexto em que o comércio mundial continue aquecido. Se
essa alta demanda do comércio mundial por commodites também é identificada por causar
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Economia & Tecnologia - Ano 04, Vol. 13 – Abril/Junho de 2008
INSTITUTO DE PESQUISA ECONÔMICA APLICADA – IPEA. Disponível em:
<http://www.ipeadata.gov.br>. Acesso em: 22 jun. 2008.
KANNEBLEY, Jr., S. Desempenho exportador brasileiro recente e taxa de câmbio real: uma
análise setorial. Revista Brasileira de Economia, v. 56, n. 3, 2002.
NONNENBERG, M. J. B. Competitividade e crescimento das exportações brasileiras.
Technical report, Rio de Janeiro: IPEA, 1998. (Texto para Discussão, 578).
SILVA, L. A. G. A competitividade do açúcar brasileiro no mercado mundial no
período de 1974 a 2004. 2006. 77 f. Dissertação (Mestrado em Economia Aplicada) –
Universidade Federal de Viçosa, Viçosa, MG.
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Economia & Tecnologia - Ano 04, Vol. 13 – Abril/Junho de 2008
respectivamente. Considerando que houve uma queda do prazo até 2004, a melhora, a partir
desse ano, foi significativa.
GRÁFICO 3 – PRAZO MÉDIO DAS OPERAÇÕES DE CRÉDITO AOS SETORES PÚBLICO E
PRIVADO COM RECURSOS LIVRES – PESSOA FÍSICA, PESSOA JURÍDICA E
TOTAL - (DIAS)
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2
Prazo Médio - Pessoa Física - Dias Prazo Médio - Pessoa Jurídica - Dias
FONTE: Boletim do Banco Central do Brasil.
Uma das conseqüências da melhora nas condições de financiamento e do aumento
de renda das pessoas físicas e jurídicas é a queda na taxa de inadimplência dos agentes, como
se pode verificar no Gráfico 4.
O próprio processo da queda de inadimplência gera um estímulo para que novos
créditos sejam concedidos, gerando um circulo virtuoso de aumento do crédito e da demanda
por bens de consumo duráveis e investimentos.
GRÁFICO 4 – TAXA DE INADIMPLÊNCIA OPERAÇÕES DE CRÉDITO AOS SETORES PÚBLICO E
PRIVADO COM RECURSOS LIVRES PESSOA FÍSICA, PESSOA JURÍDICA E TOTAL (
%)
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Inadimplência - Pessoa Física Inadimplência - Pessoa Jurídica Inadimplência - Total
FONTE: Elaboração própria a partir de dados do Boletim do Banco Central do Brasil.
O problema da elevação da taxa básica de juros da economia (Selic) é seu impacto
sobre as demais taxas de juros da economia, com efeito na geração de um processo inverso,
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Economia & Tecnologia - Ano 04, Vol. 13 – Abril/Junho de 2008
GRÁFICO 6 – TAXA BÁSICA DE JUROS (SELIC) REAL E NOMINAL - 04/2001 – 05/2008
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08
Selic fixada pelo COPOM Juros Reais (ex-ante) COPOM
FONTE: Elaboração própria a partir de dados do Boletim do Banco Central do Brasil.
No entanto, é importante ressaltar que o aumento da taxa básica de juros ainda não é
suficiente para compensar o aumento das expectativas de aumento da inflação, ocorrendo,
desse modo, uma redução da taxa de juros reais até maio de 2008, conforme apresentado no
Gráfico 6.
Finalmente, considerando as expectativas dos agentes, há uma percepção de que os
juros nominais continuarão em um processo de elevação com impactos sobre a redução da
demanda e da inflação, ou seja, as expectativas em relação ao nível da taxa de juros real é de
alta.
Desse modo, a recente mudança na trajetória da taxa de juros nominal tem impactos
sobre as expectativas futuras das taxas reais de juros. Os efeitos são de uma redução no valor
do capital, pois este é composto pelos fluxos futuros esperados de seus rendimentos
descontados pela taxa de juros esperada. Considerando que não ocorram variações no preço
do capital, esse efeito leva a uma queda do nível de investimentos.
Além disso, a redução do consumo realizado através de financiamento e o efeito
sobre as expectativas dos agentes em relação à queda da renda permanente favorecem uma
redução das vendas e, conseqüentemente, do retorno do capital, com efeitos negativos sobre
os investimentos.
Como visto anteriormente, os efeitos da redução da demanda favorecem a queda da
inflação no curto prazo. No entanto, as implicações de uma elevação da taxa real de juros
sobre o nível de investimentos é crucial na determinação do equilíbrio interno da economia
brasileira na medida em que reduz a capacidade de crescimento econômico futuro sem
pressões inflacionárias.

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Economia & Tecnologia - Ano 04, Vol. 13 – Abril/Junho de 2008
está somente levando a uma especialização em setores menos dinâmicos tecnologicamente
que ainda poderá gerar maiores problemas de restrição externa futuramente.

2.4 DÍVIDA PÚBLICA
Finalmente, quanto mais elevado o nível dos juros, maior o valor pago pelo governo
federal para um dado nível da dívida pública, o que pressiona ainda mais o nível dos seus
gastos com pagamentos de juros.
A dívida pública teve um aumento significativo a partir do início de 1998, de acordo
com os dados apresentados no Gráfico 9. Como citado anteriormente, um dos fatores que
influenciou o crescimento da dívida foi a própria elevação da taxa de juros dos títulos
públicos, sendo este um importante instrumento utilizado para conter fuga de capitais em
períodos de crise nos anos 90 e começo dos anos 2000.

GRÁFICO 9 – EVOLUÇÃO DA DÍVIDA LÍQUIDA TOTAL DO SETOR PÚBLICO (% DO PIB):
01/2001 A 04/2008
0
10
20
30
40
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19
91
.0
1
19
91
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1
19
92
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9
19
93
.0
7
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94
.0
5
19
95
.0
3
19
96
.0
1
19
96
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1
19
97
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9
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.0
7
19
99
.0
5
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00
.0
3
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01
.0
1
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01
.1
1
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9
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03
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7
20
04
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5
20
05
.0
3
20
06
.0
1
20
06
.1
1
20
07
.0
9
Dívida total do setor público - líquida - (% PIB)
FONTE: Elaboração própria a partir de dados do Boletim do Banco Central do Brasil.

Os efeitos dos juros ficam mais claros com os dados apresentados no Gráfico 10
(próxima página).













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Economia & Tecnologia - Ano 04, Vol. 13 – Abril/Junho de 2008

GRÁFICO 10 – EVOLUÇÃO DA DÍVIDA LÍQUIDA TOTAL DO SETOR PÚBLICO (% DO PIB):
01/2001 A 04/2008
0
10
20
30
40
50
60
19
96
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7
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3
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97
.1
1
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.0
3
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99
.1
1
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00
.0
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01
.0
3
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01
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1
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03
.1
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.0
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05
.0
3
20
05
.1
1
20
06
.0
7
20
07
.0
3
20
07
.1
1
Taxa de Juros Selic (% a.a.) Dívida total do setor público - líquida - (% PIB)
FONTE: Elaboração própria a partir de dados do Boletim do Banco Central do Brasil.
Percebe-se, pelo Gráfico 10 que a dívida pública líquida total do setor público
começou a se elevar com os grandes aumentos das taxas nominais de juros, em 1997/1998 e
1999, para conter a fuga de capitais com as crises dos países asiáticos, da Rússia, da Argentina
e do próprio Brasil. A taxa nominal de juros ultrapassou a faixa de 40% em dezembro de
1997 e janeiro de 1998 e chegou a 42%, em abril de 1999.
Nota-se ainda, pelos dados apresentados no Gráfico 10, que a dívida interna
continuou a se elevar mesmo com a redução da taxa de juros. Entre outros fatores, a
depreciação do real teve um papel importante na medida em que boa parte da dívida pública
estava atrelada ao câmbio. A partir de 2003, ocorreu uma queda da dívida pública
paralelamente à redução da taxa nominal de juros.

3 INFLAÇÃO E TAXA DE JUROS
Outro ponto relevante que merece destaque é que apesar de a taxa de juros ser o
principal instrumento de combate à inflação no curto prazo, existem evidências que esse
instrumento possa ser mais prejudicial do que o normal na atual conjuntura da economia
brasileira. O argumento central é que, embora existam pressões de demanda relevantes, as
causas centrais do processo inflacionário encontram-se nas elevações dos preços dos
alimentos, fenômeno mundial e intimamente ligado ao choque do petróleo e ao crescimento
na demanda por alimentos nos países emergentes, com destaque para China e Índia. Trata-se,
portanto, de um clássico choque de oferta adverso.
A Tabela 1 apresenta o comportamento dos preços de alguns setores/produtos
selecionados e que compõe o IPCA
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Economia & Tecnologia - Ano 04, Vol. 13 – Abril/Junho de 2008
TABELA 1 - IPCA – ITENS SELECIONADOS – ACUMULADO ABRIL DE 2007-ABRIL DE 2008
IPCA 5,04
1.Alimentação e bebidas 12,62
1101051.Feijão – mulatinho 159,33
1101052.Feijão – preto 125,47
1102012.Farinha de trigo 25,44
1103043.Cebola 56,86
1107.Carnes 24,49
1111.Leites e derivados 17,80
1112.Panificados 16,90
1112015.Pão francês 23,11
1113013.Óleo de soja 58,30
3201.Eletrodomésticos e equipamentos -2,35
3201001.Refrigerador -1,74
3201002.Condicionador de ar -4,07
3201003.Máquina de costura 2,24
3201006.Máquina de lavar roupa -6,03
3201012.Liquidificador 2,83
3201013.Ventilador 2,26
3201021.Fogão -0,01
3201065.Forno de microondas -8,97
3202.TV, som e informática -10,87
3202001.Televisor -12,63
3202003.Aparelho de som -4,44
3202005.Aparelho de DVD -20,24
3202028.Microcomputador -12,78
33.Consertos e manutenção -1,15
3301.Consertos e manutenção -1,15
3301002.Conserto de refrigerador e freezer -3,22
3301006.Conserto de televisor -1,27
3301009.Conserto de aparelho de som -2,21
FONTE: IBGE.
Setores em que poderia se esperar a ocorrência de uma inflação de demanda interna,
tais como o de eletrodomésticos e equipamentos, pressionados pela expansão do crédito, tem
registrado deflação nos últimos meses, fruto da valorização cambial e dos avanços
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Economia & Tecnologia - Ano 04, Vol. 13 – Abril/Junho de 2008
Adicionalmente, a contração monetária e seu efeito recessivo sobre a demanda e,
portanto, sobre o nível de atividade tende a acirrar o efeito de recessivo derivado do choque
de oferta. Esses dois efeitos combinados podem reduzir a taxa de crescimento da economia
brasileira já em 2009, o que daria continuidade ao processo de crescimento stop and go que
caracteriza o ritmo de crescimento da economia desde o começo dos anos 80.
Desse modo, para compensar a elevação da demanda mundial, o Banco Central está
reduzindo a demanda interna e o crescimento da economia brasileira, além de mantê-la em
um circulo vicioso de baixo crescimento. Em outras palavras, estamos pagando pela
negligência de outros países com o controle de suas respectivas taxas de inflação. Talvez fosse
o momento de agir de forma similar e acomodar uma inflação mais alta que não tem raiz na
economia brasileira e, desse modo, é passageira.


REFERÊNCIAS

PORCILE, G.; PEREIRA, W. (2008). A ascensão da China na economia mundial: efeitos
sobre o Brasil e a America Latina. Economia & Tecnologia, UFPR, v.12, p.19-28, 2008.

JAYME JR, F.G. E RESENDE, M.C. (2008). Restrição externa ao crescimento: evidências
recentes no Brasil. Economia & Tecnologia, UFPR, v.12, p.5-17, 2008.


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Economia & Tecnologia - Ano 04, Vol. 13 – Abril/Junho de 2008
Crescimento sustentável da economia brasileira: há um dilema entre o
equilíbrio interno e externo?

João Basílio Pereima Neto*
Márcio José Vargas da Cruz**

RESUMO - Este artigo discute a sustentabilidade do atual ciclo de crescimento da economia
brasileira. Ao longo dos último 60 anos o país teve apenas dois ciclos longos de crescimento,
que duraram 15 anos aproximadamente cada um. O último vigorou entre 1966-1981. Dos
anos 1980 até 2004 vigorou um padrão cíclico de crescimento culminando numa sucessão de
seis ciclos de expansão e retração. No conjunto estes mini ciclos causaram um rebaixamento
da taxa de crescimento de longo prazo. Parte da explicação dos ciclos longos e dos ciclos
curtos recentes é explicada pelo comportamento das contas externas. O último ciclo de
expansão (atual) teve um empuxo inicial causado pelo aumento de exportação, em
decorrência da desvalorização cambial ocorrida no início dos anos 2000. Posteriormente, o
efeito da demanda das exportações foi complementado pela expansão do consumo interno
baseado em crédito e mais recentemente por aumentos de gastos públicos. Argumentamos
que o crescimento atual, baseado em aumento da demanda, é passageiro, posto que é
insustentável. Crescimento puxado pela demanda tende a redundar em inflação quando a
capacidade de utilização da economia chega ao seu limite. No caso do setor externo, a
inversão rápida para os saldos negativos em transações correntes, ao invés de estimular o
crescimento atuarão no sentido de travá-lo. A continuidade do crescimento da economia
brasileira dependerá do comportamento do investimento. Para o país continuar crescendo de
forma sustentada é preciso que o investimento ocupe o lugar do consumo como determinante
da expansão. Mas isto é improvável, se o regime macroeconômico continuar como está, com
juros altos, câmbio valorizado e carga tributária elevada. A tendência, se nada for feito, é de
transformação do início de um processo de crescimento longo e sustentado no sétimo
episódio de crescimento passageiro.

Palavras Chave: Crescimento. Setor Externo. Macroeconomia.

1 INTRODUÇÃO
O atual ciclo de expansão da economia brasileira iniciado em 2004 apresenta boas
perspectivas em função da mudança de uma trajetória de aproximadamente 25 anos de
estagnação, ao mesmo tempo em que se depara com um grande desafio: como manter a
sustentabilidade desse crescimento ao longo do tempo?
O cenário atual torna esse desafio ainda mais complexo diante de pressão
inflacionária liderada pela alta dos preços das commodities no mercado internacional, que

* Doutorando em Desenvolvimento Econômico pela UFPR, e professor do Departamento de Economia da
mesma instituição. Endereço eletrônico: joaobasilio@unibrasil.com.br.
** Mestre em Desenvolvimento Econômico pela UFPR, e professor do Departamento de Economia da mesma
instituição. Atualmente é vice-coordenador do curso de Ciências Econômicas da UFPR. Endereço eletrônico:
marciocruz@ufpr.br.
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Economia & Tecnologia - Ano 04, Vol. 13 – Abril/Junho de 2008
crescimento sustentado comporta, portanto, dois requisitos: um diz respeito à geração de
equidade, na forma de distribuição de renda e riqueza, o outro diz respeito à capacidade
endógena de financiamento, de forma que haja equilíbrio intertemporal entre endividar-se no
presente sem inviabilizar as gerações futuras.
O padrão de crescimento da economia brasileira nunca atendeu aos dois requisitos
simultaneamente. O mais intenso período de crescimento, que coincidiu com a ditadura
militar, proporcionou crescimento sem equidade e sem equilíbrio intertemporal. É possível
alegar que o problema do equilíbrio intertemporal não existiria se não tivessem ocorrido: a
crise de petróleo em 1973 e 1979; o fenômeno da estagflação; e a desregulação do sistema
financeiro mundial além das flutuação das moedas promovidas pelo fim da era Bretton
Woods em 1971, ou então, as crises financeiras da década de 1990. Entretanto, as crises
cíclicas do sistema capitalista tendem a ser uma regra e não uma exceção. Logo, um processo
de crescimento que respeite essas condições deve considerar ex ante esse comportamento
sistêmico.
Em relação à equidade, tomando uma taxa de crescimento populacional de 2% a.a.,
o Brasil precisaria crescer 4% a.a. ininterruptamente durante 35 anos para ter sua atual renda
per capita de R$ 13.517,00 (IBGE, Contas Nacionais 2007) dobrada de tamanho, como pré-
condição para distribuir os frutos do crescimento e gerar com isso mais equidade, enquanto
cresce. No entanto, o crescimento econômico de longo prazo não é uma subida suave e
contínua. Ciclos econômicos se sucedem ao longo ou em torno de uma trajetória média de
crescimento, geralmente assumida como sendo a linha de tendência de cada país.
A Tabela 1 mostra o que está acontecendo com a taxa de crescimento de longo
prazo ou com a linha de tendência da economia brasileira. Nos últimos 40 anos o país cresceu
a uma taxa média de 5,24% a.a. O número em si pode parecer alentador, pois a taxa de
crescimento foi acima do dobro do crescimento populacional. Entretanto, esse período inclui
o ciclo de industrialização de 1968-1980, um período que contrasta a ausência de liberdades
individuais e democracia com o acelerado crescimento proveniente da presença de um plano
nacional de industrialização. Como é vastamente reconhecido na literatura e história
econômica e social, o robusto crescimento do período 1968-1980 não proporcionou uma
melhoria na distribuição da renda e da riqueza. Ao contrário, concentrou-a em níveis
expressivos, se comparado à experiência de outras economias que fizeram sua transição para
industrialização com mais equidade.


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Economia & Tecnologia - Ano 04, Vol. 13 – Abril/Junho de 2008
TABELA 1 – CRESCIMENTO REAL MÉDIO ANUAL DO BRASIL
PERÍODO % A.A.
Período da ditadura (1964-1980) 7,57%
Últimos 40 anos (1968-2007) 5,54%
Últimos 30 anos (1978-2007) 3,47%
Últimos 20 anos (1988-2007) 2,82%
Últimos 10 Anos (1998-2007) 2,75%
Últimos 5 anos (2003-2007) 3,59%
FONTE: IBGE (2008). Elaboração própria.

O crescimento acelerado entre 1968 e 1980 não foi sustentável no sentido social,
pois culminou na atual estrutura concentrada de renda e riqueza. Também não o foi no
sentido financeiro, pois a década de 80 passou para a história econômica do Brasil como a
década perdida. Um dos fatores que contribuiu para o baixo crescimento da década inteira foi
a crise da dívida externa, herdada do período de crescimento acelerado do período da
ditadura.
A ausência de sustentabilidade fica evidenciada nas décadas seguintes em função do
rebaixamento da linha de tendência de longo prazo. Se tomarmos a taxa média de
crescimento, calculada em diferentes horizontes de tempo, percebe-se que ela vem caindo e
somente nos últimos cinco anos tem se recuperado, todavia encontra-se abaixo da média dos
últimos 40 anos.
A dificuldade de manter um ritmo de crescimento sustentado ao longo do tempo é
mostrada no Gráfico 1, a seguir. As áreas em destaques significam episódios de recessão ou
desaceleração aguda do ritmo de crescimento.
GRÁFICO 1 – CICLOS ECONÔMICOS NO BRASIL (TAXAS ANUAIS DE CRESCIMENTO)








FONTE: IBGE apud IPEADATA (2008).
-2,0
0,0
2,0
4,0
6,0
8,0
10,0
12,0
14,0
16,0
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5
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8
1
9
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9
6
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9
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7
0
1
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7
3
1
9
7
6
1
9
7
9
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9
8
2
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9
8
5
1
9
8
8
1
9
9
1
1
9
9
4
1
9
9
7
2
0
0
0
2
0
0
3
2
0
0
6
Linha de Tendência
% PIB
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Economia & Tecnologia - Ano 04, Vol. 13 – Abril/Junho de 2008
GRÁFICO 2 – CRESCIMENTO DO PIB E TRANSAÇÕES CORRENTES (TAXAS ANUAIS DE
CRESCIMENTO)
-8
-6
-4
-2
0
2
4
6
8
10
12
14
19
50
19
52
19
54
19
56
19
58
19
60
19
62
19
64
19
66
19
68
19
70
19
72
19
74
19
76
19
78
19
80
19
82
19
84
19
86
19
88
19
90
19
92
19
94
19
96
19
98
20
00
20
02
20
04
20
06
PIB - var. real anual - (% a.a.) Transações correntes - últimos 12 meses - (% PIB)
FONTE: IBGE apud IPEADATA (2008).
Chama à atenção o fato de que o atual ciclo de crescimento da economia brasileira,
iniciado em 2004, estava até então, apresentando uma característica distinta dos ciclos
anteriores, pelo fato de estar acompanhado de resultados positivos em transações correntes.
Porém, percebe-se que a partir de 2007 há uma mudança nesta tendência, a qual apresenta
perspectiva de uma intensificação do déficit a partir de 2008. Isto leva a crer que, a despeito
do otimismo exagerado das autoridades públicas, o que teremos é, talvez, mais período de
crescimento curto. O déficit externo (aumento das importações) terá efeitos negativos sobre o
PIB com redução da taxa de crescimento. A depender da dinâmica do setor externo, e em
ficando tudo como está hoje, é provável que tenhamos crescimento menor do PIB nos
próximos anos. Na próxima seção explicamos porque o padrão de crescimento atual ameaça
em se transformar no sétimo episódio de ciclo curto.

3 CRESCIMENTO, CONSUMO E INVESTIMENTO
O atual ciclo de crescimento, 2004-2007, tem se caracterizado pelo aumento da
demanda com base nos setores interno e externo (via exportações). O consumo interno
aumentou devido ao crescimento da massa de rendimentos das classes C e D, ao aumento do
crédito ao consumo e de uma política fiscal de gastos em custeio expansionista; o consumo
externo cresceu em função do aumento das exportações a partir de 2002, estimuladas pelo
câmbio desvalorizado da época e pela conjuntura internacional favorável aos exportadores de
commodities, esta trajetória foi significantemente influenciada pelo crescimento dos países
asiáticos.
A sustentabilidade do processo de crescimento, inicialmente estimulado pela
ampliação do consumo depende da ampliação da capacidade produtiva. Uma das condições
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Economia & Tecnologia - Ano 04, Vol. 13 – Abril/Junho de 2008
financiamento atua no sentido de diminuir a renda disponível para o consumo, de forma que
é possível prever uma redução no seu ritmo de expansão. A única possibilidade de expansão
futura do consumo em ritmo acelerado é a incorporação de novos trabalhadores no processo
produtivo e o aumento do salário real. Como o salário real cresce à custa da participação dos
lucros na renda, em algum momento este canal também se esgota, não constituindo numa
fonte permanente de estímulo ao crescimento. O segundo motivo básico é inversão nas
contas externas, que até 2007 eram positivas. A diminuição do saldo da balança comercial
devido ao aumento das importações, somados ao aumento dos déficits em serviços e rendas,
transformou o saldo em transações corrente deficitário. De ora em diante, dos dois
determinantes básicos da demanda um, o consumo, tende a seguir o crescimento ao invés de
impulsioná-lo, e o outro, o setor externo, tende a freá-lo, tanto pela valorização do câmbio
quanto pela desaceleração da economia mundial.
Além do auto-esgotamento da capacidade de financiamento do consumo, a
expansão da demanda já aproximou a economia do limite de sua capacidade de produção, e
daqui para frente, ampliação da demanda sem ampliação da oferta implica em inflação. Neste
caso, sem a ampliação da oferta, o que resta ao país é o costumeiro stop-and-go que já
observamos nos últimos seis ciclos de crescimento, destacados no Gráfico 1, acima.
A única opção de crescimento sustentado passa pela ampliação dos investimentos.
Não negamos a importância da participação do Estado no processo, mas grande parte do
crescimento sustentado de longo prazo caberá aos investimentos privados. Neste cenário a
participação do mercado financeiro e de capitais como meios de captação de recursos para
financiar os investimentos tende a ser relevante. Aliás, boa parte do crescimento da relação
investimento/PIB de 2007 deve-se a financiamento obtido no mercado de capitais, que bateu
recorde de emissões primárias, atingindo R$ 33,1 bilhões em 2007 contra apenas R$ 0,477
bilhões em 2006.
Dada a centralidade da variável investimento na obtenção de crescimento
sustentado, doravante as preocupações e decisões naturalmente se dirigem para as condições
macroeconômicas de médio prazo que devem ser atendidas para que o investimento ocorra.

4 CONJUNTURA MACROECONÔMICA E CRESCIMENTO
Embora as expectativas atuais de boa parte dos agentes, privados e públicos sejam
otimistas quanto ao crescimento futuro, não temos garantias que elas se mantenham.
Expectativas, por constituição, são voláteis. As expectativas atuais sobre crescimento refletem
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Economia & Tecnologia - Ano 04, Vol. 13 – Abril/Junho de 2008
em parte um contágio pelo sucesso do passado recente. No ciclo atual, o investimento
privado começou a crescer apenas em 2007 como uma resposta adaptativa a três anos
consecutivos de aumento da demanda interna. As dúvidas quanto à sazonalidade ou
transitoriedade do crescimento foram exauridas no início de 2007 quando as expectativas
futuras mudaram e as projeções de crescimento subiram justificando o aumento observado no
investimento em 2007 e início de 2008.
No entanto a mudança no setor externo, a ameaça de inflação e políticas fiscais
contraditórias emitem sinais negativos para o médio prazo. As expectativas podem mudar,
como de fato estão fazendo, com o próprio governo acenando para um ritmo de crescimento
menor no futuro imediato. O cenário macroeconômico exige ajustes para que o crescimento
migre definitivamente para uma tendência sustentada, apoiada em expansão do investimento.
Atualmente há três grandes desafios macroeconômicos a serem superados, de difícil
equalização simultânea: desajuste no setor externo, ameaça de inflação e reduzida capacidade
fiscal do setor público. No centro de todos está a política monetária, que ao determinar a taxa
básica de juros, afeta as condições de equilíbrio do setor externo e a capacidade de
financiamento do Estado.
Na seção seguinte apresentamos algumas reflexões sobre as questões apresentadas
no início do artigo.

4.1 O BRASIL ESTÁ DIANTE DE UM DILEMA ENTRE EQUILÍBRIO INTERNO E
EXTERNO?
A resposta a essa questão depende a princípio da definição utilizada entre equilíbrio
interno e externo. Se considerarmos equilíbrio interno como sendo um nível de atividade
econômica que proporciona um crescimento da renda per capita ao longo do tempo sem que
haja pressões inflacionárias (no caso do regime de metas de inflação, havendo o cumprimento
da meta estabelecida); e se considerarmos equilíbrio externo como sendo uma situação na
qual o país apresenta equilíbrio no balanço de pagamentos, então as evidências nesta direção
não são muito positivas e fortes para o curto prazo.
O Gráfico 3 demonstra que o balanço de pagamentos tem se apresentado positivo,
com um ingresso expressivo na conta capital e financeira, o qual resultou no aumento das
reservas internacionais do país, sem que houvesse necessidade de financiamento, em função
de déficits das transações correntes, no período 2004-07.

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Economia & Tecnologia - Ano 04, Vol. 13 – Abril/Junho de 2008
No comparativo do primeiro trimestre de 2008 com igual período de 2007, o PIB a
preços de mercado apresentou elevação de 5,8%. O Valor Adicionado a preços básicos
apresentou um aumento de 5,5% e os Impostos sobre Produtos uma elevação de 8,0%.
Pelo lado da demanda, a despesa de consumo das famílias apresentou crescimento
de 6,6% em relação ao mesmo trimestre do ano anterior. Tal demanda foi favorecida,
segundo o IBGE, pelo aumento da massa salarial real dos trabalhadores e pelo crescimento,
em termos nominais, do saldo de operações de crédito do sistema financeiro com recursos
livres para as pessoas físicas. A despesa de Consumo da Administração Pública registrou
crescimento de 5,8% no primeiro trimestre de 2008 contra o mesmo período de 2007. A
Formação Bruta de Capital Fixo apresentou elevação de 15,2%, mostrando a disposição dos
empresários em aumentar a capacidade produtiva. Cabe salientar que a aceleração do
crescimento da Construção Civil foi fundamental para o desempenho positivo da Formação
Bruta de Capital Fixo.
Ainda pelo lado da demanda, porém considerando o setor externo, as exportações
de bens e serviços apresentaram uma redução de 2,1% em relação ao mesmo trimestre do ano
anterior. As importações de bens e serviços, por outro lado, registraram crescimento de
18,9%, certamente influenciadas pela apreciação do real frente ao dólar americano.

4 SETOR EXTERNO
O desempenho das principais variáveis do setor externo é apresentado na tabela 3.
Em abril de 2008 o saldo da balança comercial ficou em US$ 1,74 bilhões, acumulando no
ano de 2008 um valor de US$ 4,58 bilhões. As exportações e as importações já acumulam, no
ano, um valor de US$ 52,75 bilhões e US$ 48,17 bilhões, respectivamente. Em doze meses, a
balança comercial apresentou um superávit de US$ 31,71 bilhões, as exportações um valor de
US$ 166,95 bilhões e as importações US$ 135,24 bilhões. O saldo em transações correntes,
em abril, apresentou um déficit de US$ 3,31 bilhões.
As expectativas de mercado para dezembro de 2008 mostram que se espera uma
redução no saldo da balança comercial em relação aos números acumulados nos últimos 12
meses, indicando uma elevação maior nas importações do que nas exportações, conforme
destacado na tabela 3. Este comportamento é esperado, em certa medida, devido à
considerável apreciação cambial que vem ocorrendo no Brasil nos últimos meses.
É interessante notarmos que, mesmo agora, o valor das importações vem crescendo
a um ritmo mais forte do que as exportações, fazendo com que o saldo comercial brasileiro
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Economia & Tecnologia - Ano 04, Vol. 13 – Abril/Junho de 2008
POLÍTICA FISCAL E DÍVIDA PÚBLICA
Dívida pública: composição, transformações recentes
e impacto na economia

Marcos Wagner da Fonseca*

RESUMO - Este trabalho tem por objetivo apresentar o debate sobre o alongamento e a
composição da dívida pública ocorrido no Brasil entre 2004 e 2006 e analisar as
transformações por que passou a administração da dívida mobiliária federal interna (DPMFi)
entre 2000 e 2007 à luz deste debate. Percebeu-se que houve uma mudança na composição da
DPMFi na direção apontada pelos economistas, aumentando a participação dos títulos pré-
fixados e dos títulos indexados a índices de preços em detrimento da queda da participação
dos títulos pós-fixados (indexados à taxa Selic). O alongamento da dívida está sendo
conquistado de forma mais lenta, pois o prazo médio aumentou apenas 10 meses entre 2000 e
2007. O ajuste fiscal da economia deve tomar contornos definitivos para evitar a percepção
dos agentes de pouca sustentabilidade do mesmo. O alongamento do perfil da dívida pública
deve ser buscado, ao mesmo tempo em que se constrói uma curva de rendimentos com
inclinação positiva. Isto permitiria uma queda do patamar da taxa de juros de curto prazo e
com isso uma diminuição da taxa de juros real na economia. Outra questão é quanto a baixa
eficácia da política monetária, que ainda se verifica na economia brasileira, o que indica a
necessidade de se completar o processo de mudança de composição e alongamento da dívida
pública.

Palavras-chave: Dívida pública. Política monetária. Política fiscal.

1 INTRODUÇÃO
A estabilização da inflação alcançada pelo Brasil, por meio do Plano Real, restaurou
a importância da moeda na economia brasileira. Após a adoção do regime de metas de
inflação, em 1999, a política monetária tornou-se o principal mecanismo de manutenção da
estabilidade macroeconômica.
Após 1994, o Brasil trilhou o caminho da reconstrução dos chamados mecanismos
de transmissão da política monetária. A possibilidade de se utilizar os instrumentos de política
monetária para ir além da simples “zeragem do sistema”, permitiu que a economia fosse
identificando os passos que o controle impetrado na taxa básica de juros (Selic) desempenha
sobre as variáveis reais, atingindo a variável fundamental no atual regime, isto é, a taxa de
inflação. Assim, o Banco Central do Brasil passou a atuar de forma semelhante aos demais
bancos centrais do mundo na condução da política monetária.
Contudo, o Brasil ainda sofre com especificidades geradas durante o longo período

* Professor de Economia da Universidade Estadual do Oeste do Paraná - UNIOESTE, Campus Cascavel,
Pesquisador do GPEA – Grupo de Pesquisa em Economia Aplicada e Doutorando em Desenvolvimento
Econômico pela UFPR. Endereço eletrônico: mwfonseca@unioeste.br.
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Economia & Tecnologia - Ano 04, Vol. 13 – Abril/Junho de 2008
de inflação elevada por que passou. Dentre tantas, destaca-se a dívida pública, com sua
estrutura de curto prazo e sua composição com títulos indexados à taxa Selic desempenhando
papel ainda relevante.
Após ser dominada a turbulência do início do primeiro mandato do governo Lula,
por volta da metade de 2004, um debate tomou proporção nacional: o alongamento e
mudança na composição da dívida pública.
Este debate veio acompanhado das discussões sobre a ineficácia da política
monetária em afetar o nível do produto e da inflação com pequenas modificações na taxa
Selic. Verificou-se que naquele ambiente, a política monetária não contava com um canal de
transmissão ideal sobre o nível de atividade, já que prevalecia o efeito positivo sobre a renda
quando havia elevação dos juros nominais, sem haver desvalorização da riqueza privada3.
O objetivo deste artigo é discutir a mudança na composição da dívida pública e
também as alterações no prazo desta dívida. Uma vez que as mudanças tenham ocorrido na
direção indicada pelos analistas à época, se isso indica uma melhora na eficiência da política
monetária na economia.

2 O DEBATE SOBRE O ALONGAMENTO E MUDANÇA NA COMPOSIÇÃO DA
DÍVIDA PÚBLICA
O debate em torno da dívida pública ganhou contornos significativos com a
publicação de alguns textos. Um texto publicado em 2004 trouxe uma proposta que ficou
conhecida por proposta Kawall, contida em Ferreira, Robotton Filho e Dupita (2004). Carlos
Kawall Ferreira e os demais autores apresentaram uma proposta para o alongamento da
dívida pública brasileira, frente as especificidades da política monetária e da estrutura do
mercado de dívida do país.
Ferreira, Robotton Filho e Dupita (2004) partem de um diagnóstico sobre a dívida
pública naquele momento. A composição da dívida mobiliária federal, em maio de 2004,
contava com 60% dos títulos pós-fixados (indexados à taxa Selic), apenas 17% de títulos pré-
fixados, cerca de 15% de títulos corrigidos por índices de inflação e 9% atrelados ao câmbio.
O prazo médio da dívida pública mobiliária federal interna (DPMFi) era de 30,20 meses,
enquanto que o prazo médio dos títulos pré-fixados era de apenas 7,37 meses.
Os títulos pós-fixados são compostos pelas LFTs4 (Letra Financeira do Tesouro) e
são corrigidos diariamente pela variação da taxa Selic. Portanto, a proposta Kawall busca

3 Nestes termos concordam Ferreira, Robotton Filho e Dupita (2004), Pastore (2006) e Loyo (2006).
4 As LFTs foram introduzidas em maio de 1986, sob o nome de Letras do Banco Central (LBCs), como forma
de reduzir os custos de rolagem da dívida pública.
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Economia & Tecnologia - Ano 04, Vol. 13 – Abril/Junho de 2008
discutir um possível formato de condução da política monetária e gestão da dívida pública que
vise superar, no médio prazo (um a três anos), a concentração excessiva da dívida pública
brasileira em títulos de curto prazo e predominantemente ligados a taxa flutuantes.
A proposta de Ferreira, Robotton Filho e Dupita (2004) pode ser assim resumida: o
Banco Central buscaria gradualmente (de um a dois anos) reduzir o patamar real da taxa de
juros básica, com sua atuação sobre o nível de atividade e inflação sendo determinada pelo
comportamento das taxas de juros de médio e longo prazos (inicialmente, a taxa de juros de
180 a 360 dias). A idéia era buscar a garantia de um diferencial entre taxas nominais de juros
do overnight e de médio e longo prazos no intervalo de 3 a 5 pontos percentuais. A médio
prazo seria objetivo situar a taxa de juros básica em um patamar compatível com níveis
internacionais (entre 0 e 3% em termos reais). Ao mesmo tempo, o Tesouro Nacional
alongaria a dívida interna de modo gradual, criando um mercado de investidores em papéis
pré-fixados de médio e longo prazos, somando a estes os títulos indexados a índices de
preços.
Esta atuação do Tesouro Nacional sustentaria o diferencial positivo entre as taxas de
curto e médio/longo prazos, criando um custo de oportunidade relevante para o investidor se
manter em investimentos remunerados pela taxa de curtíssimo prazo (CDI). A expectativa era
que, ao criar de forma consistente um mercado para títulos públicos de médio e longo prazos,
construindo uma curva de taxa de juros que fosse positivamente inclinada em relação aos
prazos, esta estratégia permitiria que a política monetária operasse no sentido clássico.
Em suma, Ferreira, Robotton Filho e Dupita (2004) não apresentaram uma proposta
de mudança radical na condução da política monetária, mas apenas uma adequação entre a
mesma e a administração da dívida pública, que abrisse espaço para um processo de melhora
do perfil da dívida, que permitiria que os preços dos ativos deixassem gradualmente de ser um
fator perturbador dos mecanismos de transmissão da política monetária sobre os preços
correntes. Esta proposta chamou a atenção para o debate que teve vários textos publicados na
seqüência. O aprofundamento do debate levou a um diagnóstico mais preciso do problema e
também a construção de outras propostas para resolver o problema da dívida pública no
Brasil.
Assim, a dívida pública foi o tema central de Bacha e Oliveira Filho (2006), livro
publicado como resultado das discussões em dois workshops e um seminário realizado em
2005. O conjunto de textos desta publicação é bastante rico em análises e propostas quanto a
mudanças na composição e prazos da dívida pública.
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Economia & Tecnologia - Ano 04, Vol. 13 – Abril/Junho de 2008
O diagnóstico à época era que se tinha uma dívida pública cara, predominantemente
de curto prazo e indexada diariamente à taxa Selic. Isto impunha ao mercado de capitais
brasileiro a característica de ação no curto prazo. Este comportamento do mercado de capitais
não permite que o mesmo atue no financiamento do crescimento sustentado da economia
brasileira, como se observa em outros países.
Em Garcia e Salomão (2006), analisam-se as possibilidades de alongamento da dívida
pública brasileira com base nas experiências de países como a Polônia, México e Israel. O
ponto de destaque é que o alongamento da dívida depende da queda do risco sistêmico. O
exemplo destes países poderia apresentar um caminho a ser trilhado pelo Brasil neste
processo.
As características comuns verificadas nestes países foram:
a) o alongamento do mercado de renda fixa (dívida pública) em moeda doméstica
ocorreu simultaneamente à desdolarização; houve uma queda na participação da
dívida em moeda estrangeira (externa e interna);
b) tais movimentos ocorreram no contexto de programas de estabilização baseados
em fortes fundamentos fiscais, que levaram a razão dívida/PIB a uma queda
significativa;
c) o regime monetário dos três países é o de metas de inflação, tendo em todos eles
ocorrido forte redução da inflação;
d) à medida que a inflação caiu, a taxa de juros real também caiu, produzindo uma
queda mais acentuada na taxa de juros nominal e incentivando sobremaneira o
alongamento;
e) o aumento da maturidade média da dívida pública ocorreu concomitantemente ao
aumento da parcela pré-fixada (não indexada) da dívida;
f) a obtenção do investment grade pelos três países confirma a redução do risco
sistêmico;
g) os mercados privados não são muito desenvolvidos e miram o mercado de dívida
pública para desenvolver seus contratos.
Estas características podem ser tomadas para analisar o caminho que Brasil
percorreu até o final de 2007. Para isso, na próxima seção se avalia a evolução da composição
e dos prazos médios da DPMFi.

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Economia & Tecnologia - Ano 04, Vol. 13 – Abril/Junho de 2008
2006 houve a queda sistemática da participação dos títulos pós-fixados e aumentaram os
títulos pré-fixados e também os títulos indexados a índices de preços.
Em dezembro de 2007, conforme consta na Tabela 1, os títulos pré-fixados
atingiram 37,31%, contra 33,39% dos títulos indexados à taxa Selic. Outra observação que se
pode fazer é que a soma dos títulos pré-fixados e os indexados a índices de preços atingiu a
participação de 63,57%, cerca de 2/3 do total da DPMFi.
Percebe-se que houve uma inversão entre os títulos pós-fixados (indexados à taxa
Selic) e os títulos que se enquadram na recomendação dos especialistas como adequados para
compor a dívida pública, isto é, os títulos pré-fixados e os atrelados aos índices de preços.
Um destaque deve ser dado a queda da participação dos títulos indexados ao câmbio,
que atingiu o patamar de 29,87%, em junho de 2002, passando a inexpressivos 0,95%, em
dezembro de 2007.
TABELA 1 - EVOLUÇÃO DA COMPOSIÇÃO DA DPMFI EM PODER DO PÚBLICO (%) - 2000 -2007
Mês Prefixados Selic
Índice
Preços
Câmbio TR Outros Total
jan/00 9,45 56,73 5,46 22,52 5,67 0,17 100
jun/00 13,31 54,68 5,43 21,08 5,38 0,13 100
dez/00 14,76 52,24 5,94 22,27 4,71 0,07 100
jun/01 10,83 50,24 7,15 26,8 4,95 0,03 100
dez/01 7,82 52,79 6,99 28,61 3,77 0,02 100
jun/02 8,6 50,35 8,91 29,87 2,24 0,03 100
dez/02 2,19 60,83 12,54 22,38 2,05 0,01 100
jun/03 4,48 67,19 12,83 13,49 2,01 - 100
dez/03 12,51 61,39 13,55 10,76 1,79 - 100
jun/04 16,82 57,52 14,94 8,89 1,82 - 100
dez/04 20,09 57,14 14,9 5,15 2,72 - 100
jun/05 22,95 57,13 13,88 3,55 2,49 - 100
dez/05 27,86 51,77 15,53 2,7 2,14 - 100
jun/06 31,45 42,52 21,73 2,29 2 - 100
dez/06 36,13 37,83 22,54 1,3 2,21 - 100
jun/07 38,71 34,06 23,88 1,06 2,29 - 100
dez/07 37,31 33,39 26,26 0,95 2,09 - 100
FONTE: Secretaria do Tesouro Nacional.
O Gráfico 2 e a Tabela 2 apresentam a evolução do prazo médio da DPMFi.
Percebe-se que houve um aumento de 10 meses no prazo médio total, entre janeiro de 2000 e
dezembro de 2007. Um alongamento bastante modesto perto do que se verifica em outros
países.
Quando se analisa o prazo médio por indexador, verifica-se que os títulos pré-
fixados tiveram um aumento significativo, saindo de 2,53 meses em 2000, atingindo 16,53
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Economia & Tecnologia - Ano 04, Vol. 13 – Abril/Junho de 2008
meses em dezembro de 2007. Verifica-se em 2007 uma inversão nos prazos dos títulos
indexados à Selic, que tem seu prazo médio aumentado de 22 para perto de 70 meses, e dos
títulos indexados aos índices de preços, que caem de 66 para 24 meses.
Estes números demonstram as dificuldades existentes no Brasil para alongar o perfil
de vencimento da dívida pública. Houve uma significativa mudança na composição, com a
predominância de títulos pré-fixados e indexados a índices de preços, mas não se conseguiu
ainda transpor a estrutura de curto prazo da dívida pública.

GRÁFICO 2 - EVOLUÇÃO DO PRAZO MÉDIO DA DPMFI EM PODER DO PÚBLICO POR
INDEXADOR 2000 -2007
0
20
40
60
80
100
120
ja
n/
00
ju
n/
00
no
v/
00
ab
r/0
1
se
t/0
1
fe
v/
02
ju
l/0
2
de
z/
02
m
ai
/0
3
ou
t/0
3
m
ar
/0
4
ag
o/
04
ja
n/
05
ju
n/
05
no
v/
05
ab
r/0
6
se
t/0
6
fe
v/
07
ju
l/0
7
de
z/
07
%
Prefixados Selic Índice Preços Câmbio
TR Outros Total
FONTE: Secretaria do Tesouro Nacional.

















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Economia & Tecnologia - Ano 04, Vol. 13 – Abril/Junho de 2008
fiscal gera expectativas incertas quanto a trajetória das variáveis fiscais e por conseqüência
incertezas quanto a possibilidade de se preservar uma dívida sustentável; estamos, portanto
lidando com políticas do tipo discricionária.
O uso de políticas do tipo discricionárias pode contribuir para a adoção de medidas
fiscais onde, em alguns momentos, haja uma redução do esforço fiscal, tornando o custo
financeiro de manter a dívida pública estável um pouco menos sufocante. Neste cenário as
expectativas de déficits futuros e o efeito dessas expectativas sobre os gastos públicos e
tributos teriam importantes implicações no atendimento da restrição fiscal do governo, de
modo que a autoridade fiscal age caso a caso escolhendo a política mais adequada num dado
momento.
Se a conduta da política fiscal é do tipo discricionária, o governo deve ter a
preocupação de não incorrer em problemas os quais os economistas chamam de
“inconsistência temporal” da política econômica. Em alguns casos, embora haja a clara
preocupação de manter um orçamento equilibrado, com a não utilização de políticas fiscais
pró-cíclicas, os indivíduos tendem a desconfiar dos anúncios das medidas fiscais, o que
compromete as expectativas quanto aos déficits futuros prejudicando todo o arcabouço da
política econômica. É bem verdade que políticas fiscais pró-cíclicas sinalizam um
descomprometimento quanto à manutenção de um orçamento equilibrado no lado dos gastos
públicos. No entanto, em muitos casos a elevada demanda por recursos públicos inviabiliza a
consecução de uma política fiscal anti-cíclica, o que compromete também a implantação de
programas de ajuste fiscal devido o elevado esforço orçamentário exigido. Em alguns casos,
um importante elemento do perfil de muitos governos justifica a inviabilidade na consecução
de políticas fiscais anti-cíclicas, como o caso de governos populistas.
Até que ponto a política fiscal é considerada um instrumento que minimiza as
instabilidades suscetíveis em qualquer economia diante dos anseios e demandas por
investimentos sociais? Mais ainda, em que medida pode-se atribuir a origem de uma política
pro-cíclica, seja por elevadas demandas sociais ou por características de governos populistas?
Em países como o Brasil esses dois elementos se confundem, dando margem aos governos
populistas a fazer gastos desenfreados tendo como justificativa o anseio social por maiores
gastos em serviços públicos.
O que devemos apreender antes de tudo é que justificar o tipo de política fiscal, seja
ela anti-cíclica ou pro-cíclica, exige um esforço analítico subjetivo, sobretudo porque uma das
características fundamentais do atual estágio da modernidade é a legitimidade da democracia
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Economia & Tecnologia - Ano 04, Vol. 13 – Abril/Junho de 2008
como mecanismo ordeiro político nas sociedades contemporâneas; como na democracia
revezam-se agremiações partidárias de cunho ideológico adversos, a reposta que justifica a
origem de qualquer política fiscal pode estar nas interpretações acerca das mudanças que
acompanham o processo de transição política.
O mais importante aqui é perceber o teor discricionário envolvido no gerenciamento
da política fiscal, sobretudo no lado dos gastos públicos, mas não isenta a necessidade de
envolvimento da autoridade fiscal como cônjuge atuante para o sucesso de uma política de
aumento no crescimento econômico. Projetar um ajuste fiscal pautado em incrementos nos
impostos, além de gerar incertezas acerca do modo como as receitas serão utilizadas, acaba
estimulando cortes nos gastos em investimentos, variável de suma importância na promoção
do crescimento econômico, haja vista o vício que os governos populistas têm em ampliar os
gastos correntes.
Assim, a perseguição de uma meta de superávit primário suficiente para pagar os
juros e estabilizar relação dívida/PIB, embora seja necessária para garantir o crescimento
sustentado, sem inflação e sem aumento da taxa de juros, poderia buscar um teor menos
convencional de desestimulo ao crescimento econômico, se pautando em cortes em gastos
correntes, não ampliando a carga tributária e reduzindo gastos em investimentos.

REFERÊNCIAS

Necessidade de financiamento do setor público (NFSP) - setor público - juros
nominais - com desvalorização cambial. Ipeadata, 2008. Disponível em:
<<http://www.ipeadata.gov.br/
ipeaweb.dll/ipeadata?SessionID=1692991861&Tick=1213895858912&VAR_FUNCAO=Ser
_Temas%28127%29&Mod=M>>. Acesso em: 14/06/2008.

Necessidade de financiamento do setor público (NFSP) - setor público - conceito
primário - com desvalorização cambial. Ipeadata, 2008. Disponível em:
<<http://www.ipeadata.gov.br
/ipeaweb.dll/ipeadata?SessionID=1692991861&Tick=1213895858912&VAR_FUNCAO=Se
r_Temas%28127%29&Mod=M>>. Acesso em: 14/06/2008.

Necessidade de financiamento do setor público (NFSP) - setor público - conceito
nominal - com desvalorização cambial. Ipeadata, 2008. Disponível em: <
http://www.ipeadata.gov.br/
ipeaweb.dll/ipeadata?SessionID=1692991861&Tick=1213895858912&VAR_FUNCAO=Ser
_Temas%28127%29&Mod=M >>. Acesso em: 14/06/2008.

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Economia & Tecnologia - Ano 04, Vol. 13 – Abril/Junho de 2008
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Economia & Tecnologia - Ano 04, Vol. 13 – Abril/Junho de 2008
ECONOMIA PARANAENSE
Condicionantes históricos e econômicos da agroindústria canavieira
paranaense: breves inferências

Susã Sequinel de Queiroz *
Pery Francisco Assis Shikida **
Régio Marcio Toesca Gimenes ***

RESUMO - A agroindústria canavieira paranaense teve quatro períodos distintos em sua fase
evolutiva (DIAS, 2003): até 1942, “fase primitiva”; de 1942 até 1975, “expansão lenta”; de
1975 até 1990, “expansão acelerada”; e a partir de 1990, “desregulamentação setorial”. De um
setor periférico aos grandes centros produtores (como de São Paulo), a produção de açúcar e
álcool do Paraná alcançou status de importância nacional e regional.

Palavras-chave: Evolução. Agroindústria. Cana-de-açúcar. Paraná.

O Brasil é o maior produtor de cana-de-açúcar do mundo, seguido por Índia e
China. Planta-se cana no Centro-Sul e no Norte-Nordeste, o que permite internamente
ocorrer dois períodos de safra. Produz-se, portanto, o ano todo. Dependendo do momento
do plantio, a cana demora de um ano a um ano e meio para ser colhida e processada pela
primeira vez. A mesma cana pode ser colhida até cinco vezes, mas a cada ciclo devem ser
feitos investimentos significativos para manter sua produtividade (UNICA, 2007).
Segundo Alves (2002) e Shikida e Frantz (2002), não se pode deixar de mencionar
que a agroindústria canavieira brasileira teve seu desenvolvimento marcado por grande
intervenção governamental. Com a criação do Instituto do Açúcar e do Álcool (IAA) em
1933, pelo Governo Vargas, reafirmou-se o paradigma intervencionista na agroindústria
canavieira, no qual o Estado “auxiliava” na solução de problemas econômicos, ficando o
processo produtivo ainda mais determinado pela ação governamental. Foram poucos os
períodos da história nacional em que isso não ocorreu, citam-se apenas durante o Império e
nas primeiras décadas do regime republicano. Sua prática intensa ocorreu durante o período

* Economista e Mestre em Desenvolvimento Regional e Agronegócio pela Universidade Estadual do Oeste do
Paraná (UNIOESTE), Centro de Ciências Sociais Aplicadas.. Endereço eletrônico: susasqueiroz@hotmail.com
** Professor Associado da Universidade Estadual do Oeste do Paraná (UNIOESTE), Centro de Ciências Sociais
Aplicadas. Bolsista de Produtividade em Pesquisa do CNPq e Pesquisador do GEPEC. Endereço
eletrônico:pfashiki@unioeste.br
*** Professor Titular da Universidade Paranaense, COPSS - Coordenadoria de Pós-Graduação Stricto Sensu.:
toesca@unipar.br
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Economia & Tecnologia - Ano 04, Vol. 13 – Abril/Junho de 2008
colonial, acentuando-se após a Revolução de 1930, entretanto arrefeceu-se no começo dos
anos 1990 (com a extinção do IAA, em março de 1990).
Isto posto, os dados da agroindústria canavieira paranaense para períodos anteriores
a 1933 são raros. Somente a partir da criação do IAA que se tornou possível a
disponibilização de dados da economia canavieira. Ainda assim, Kaefer e Shikida (2000)
conseguiram prospectar a gênese da agroindústria canavieira no Paraná, definindo-a em seus
estágios iniciais como primitiva e periférica à São Paulo, o centro considerado dinâmico e
irradiador deste setor.
Não obstante, foi na região norte que a atividade canavieira paranaense conseguiu se
desenvolver, representada pelo surto sucroalcooleiro a partir da década de 1940, quando o
governo federal perdeu temporariamente o controle da manutenção das cotas de produção de
açúcar (ANDRADE, 1994).
As primeiras usinas paranaenses foram criadas na década de 1940. Através da
Portaria n.º 17, de 3 novembro de 1942, o IAA autorizou a instalação de novas usinas em
várias unidades da Federação, refletindo, no Paraná, o surgimento de duas usinas de açúcar e
álcool: a Central do Paraná, localizada em Porecatu, teve sua montagem concluída em 1945; e
a de Bandeirantes, fundada em 1942, que estava situada no município de mesmo nome
(BRAY e TEIXEIRA, 1985).
Segundo relatos apresentados por Padis (1981), a região norte do Paraná foi
responsável por 86% da produção canavieira obtida pelo Estado no período de 1964/1968.
Mesmo sendo a maioria dos municípios produtores de cana-de-açúcar, dois apresentaram
destaque: Porecatu e Bandeirantes. Estes municípios produziram 70% da produção da região
norte.
Da colonização do Paraná até o final da década de 1970, o estado continuou
apresentando pouca expressão em termos de cultura canavieira. O Paraná tinha uma
produção de açúcar bastante tímida, destinada basicamente ao consumo interno, sendo
habitual a importação de açúcar, na maioria das vezes de São Paulo. Os estabelecimentos
produtivos eram atrasados, compostos por engenhos e engenhocas. A produção dividia-se
entre açúcar e derivados como o álcool, a rapadura e, principalmente, a aguardente (KAEFER
e SHIKIDA, 2000).
De acordo com Andrade (1994), o norte do Paraná teve uma mudança da cultura
dominante a partir de 1979, quando começou se expandir a cultura da cana. Essa fase (1975-
1979) é considerada a fase de “expansão moderada” do Proálcool. A princípio houve
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Economia & Tecnologia - Ano 04, Vol. 13 – Abril/Junho de 2008
0,2% a.a.), todos os demais indicadores (produção da cana moída, açúcar, álcool anidro e
total) tiveram taxas de crescimento positivas, e em alguns casos, com taxas bastante
significativas.
Ainda na Tabela 1, as taxas geométricas de crescimento médio das produções
paranaenses de cana-de-açúcar, açúcar, álcool total (anidro e hidratado) foram de,
respectivamente, 6,6%, 16,7%, 3,07% a.a.; para efeito de cotejo, em termos nacionais, estas
taxas foram de, respectivamente, 3,8%, 8,9% e 1,3% a.a.. Outrossim, com uma participação
média (para o período 1990/91 a 2005/06) de 6,9% da produção nacional de cana-de-açúcar,
5,4% da produção nacional de açúcar, 4,8% e 9,1% das produções nacionais de álcool anidro
e hidratado, respectivamente, o Paraná configura-se como um dos maiores Estados
produtores da agroindústria canavieira, sendo superado apenas por São Paulo.
TABELA 1 – HISTÓRICO DA PRODUÇÃO CANAVIEIRA NO PARANÁ – 1990-2001
Álcool (em m³)
Safras Área de Cana
(hectares)
Cana Moída
(toneladas)
Açúcar
(toneladas) Anidro Hidratado Total
90/91 - 10 862 957 221 113 47 491 579 588 627 079
91/92 179 684 11 401 098 235 827 107 369 629 608 736 977
92/93 180 850 11 989 326 232 776 97 024 635 347 732 371
93/94 191 314 12 475 268 305 148 67 250 663 449 730 699
94/95 202 203 15 531 485 430 990 77 612 809 180 886 792
95/96 236 511 18 596 119 555 842 99 099 979 613 1 078 712
96/97 273 679 22 258 512 789 858 199 998 1 047 023 1 247 021
97/98 313 928 25 035 471 983 013 425 002 915 756 1 340 758
98/99 315 819 24 524 685 1 273 408 366 185 673 197 1 039 382
99/00 313 052 24 537 742 1 438 230 432 412 604 034 1 036 446
00/01 293 633 19 416 206 1 007 798 262 429 536 839 799 268
1/fev 296 077 23 120 054 1 367 066 367 141 593 071 960 212
2/mar 319 781 23 990 528 1 481 723 409 082 568 489 977 571
3/abr 332 123 28 508 496 1 854 528 488 210 736 037 1 224 247
4/mai 356 377 29 059 588 1 814 525 419 418 794 445 1 213 863
5/jun 363 843 24.809.178 1 503 421 347 368 692 463 1 039 831
Taxa de
crescimento
5,3* 6,6* 16,7* 15,8* -0,17** 3,07*
FONTE: Alcopar (2008).
NOTA: (*) significativo a 5%. (**) Não significativo.
A respeito das exportações paranaenses de açúcar, estas passaram a obter destaque a
partir da década de 1990, ou seja, após a desregulamentação setorial, quando este quesito foi
liberado. A Tabela 2 retrata a elevação da participação percentual do açúcar paranaense nas
exportações brasileiras deste produto, assim como a alteração do peso e da receita obtida por
estas vendas.
Observando-se os dados, nota-se que, de uma participação praticamente nula nos
anos de 1992 e 1993, em 2005 o Paraná passou a representar 6,98% das vendas brasileiras de
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açúcar ao resto do mundo. Nesse período, a quantidade total de açúcar exportada mudou de
60 para 1.266.258 toneladas. A receita total passou de US$ 15.000,00 para US$
242.745.000,00, o que corrobora o crescimento da agroindústria canavieira paranaense
também em termos de market-share externo.
TABELA 2 – EXPORTAÇÕES PARANAENSES DE AÇÚCAR – 1992 -2005
Em Toneladas Em US$ FOB (mil)
Ano
Bruto Refinado Total Bruto Refinado Total
Participação % do
PR no total do
BR (ton)
1992 60 0 60 15 0 15 0
1993 117 0 117 30 0 30 0
1994 156 31 850 32 006 253 9 763 10 016 0,29
1995 52 842 48 954 101 796 16 756 15 183 31 939 0,9
1996 297 189 189 297 378 84 661 68 84 729 2
1997 518 194 26 121 544 315 141 078 7 722 148 800 3,07
1998 632 462 211 935 844 397 133 434 46 389 179 823 4,25
1999 841 784 228 363 1 070 147 122 439 37 701 160 140 4,07
2000 638 589 126 986 765 575 113 033 25 620 138 653 3,16
2001 771 731 132 127 903 858 152 512 29 014 181 526 3,41
2002 851 760 151 860 1 003 619 128 550 25 371 153 921 2,7
2003 1 111 962 74 806 1 186 768 172 738 12 641 185 380 9,19
2004 1 038 859 118 931 1 157 790 154 953 20 234 175 187 7,34
2005 1 189 406 76 852 1 266 258 222 701 20 044 242 745 6,98
FONTE: Alcopar (2008).
No tocante ao ambiente institucional, a agroindústria canavieira paranaense, tal qual
a do restante do país, vivenciou uma profunda reformulação, causada pela extinção de
organismos oficiais de intervenção, como a extinção do IAA em 1990, crise fiscal do Estado e
a desarticulação do Proálcool a partir de 1986. Neste ínterim, as empresas estão agora
dependendo de sua eficiência administrativa e econômica em face à concorrência mais intensa
(CARVALHEIRO, 2005).
Procurando agregar forças, o que aumenta as chances de um determinado grupo
vencer os desafios impostos pelo mercado, os produtores de açúcar e álcool do Paraná
constituíram, no início dos anos 80, a Alcopar (Associação de Produtores de Álcool e Açúcar
do Estado do Paraná), o Sialpar (Sindicato da Indústria de Fabricação de Álcool do Estado do
Paraná) e o Siapar (Sindicato da Indústria de Açúcar do Estado do Paraná), exatamente com o
escopo de proporcionar novas alternativas para compensar as deficiências observadas nas
ações individualizadas das usinas (SHIKIDA e FRANTZ, 2002; RISSARDI Jr., 2005).
Nesse contexto também se colocam como estruturas institucionais de
desenvolvimento do setor sucroalcooleiro a Ridesa/UFPR (Rede Interuniversitária de
Desenvolvimento Sucroalcooleiro, que desenvolve pesquisas de melhoramento genético), o
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Conselho Temático Sucroalcooleiro da Federação das Indústrias do Estado do Paraná (FIEP-
PR), que foi instalado em 2004 (ALCOPAR, 2005), o Instituto Paranaense de
Desenvolvimento Econômico e Social – Ipardes (2004), e o Conselho dos Produtores de
Cana-de-açúcar, Açúcar e Álcool do Estado do Paraná (CONSECANA – PR, 2000).
A produção da cana em terras paranaenses tem acompanhado as necessidades da
indústria sucroalcooleira. O aumento de produção regional tem ocorrido em razão de
investimentos na ampliação da área de cultivo e no volume de cana produzida, além do
aumento da produtividade e da melhoria da qualidade da matéria-prima. As 29 unidades
produtoras de açúcar e álcool atingem economicamente 126 municípios, gerando 80 mil
postos de trabalho (ALCOPAR, 2008).
A região norte do Estado continua a ser a região de maior expansão da indústria
sucroalcooleira no Paraná. Um dos motivos desta expansão está ligado à fertilidade das terras,
à disponibilidade da mão-de-obra, à facilidade de transporte da produção e à proximidade
com São Paulo. Outro fator que favorece esta região é a pouca ocorrência de geadas, que em
outras regiões do Estado é grande e no norte não passa de 10%, ocorrência verificada entre os
meses de junho e de agosto. A produção está concentrada nos municípios de Umuarama,
Maringá, Jacarezinho, Paranavaí, Londrina, Cornélio Procópio, Campo Mourão, Apucarana e
Ivaiporã (OLIVEIRA, 2007).
Nos estudos de Rissardi Jr. (2005) confirma-se que o desenvolvimento da
agroindústria canavieira do Paraná acompanha, de certo modo, o desenvolvimento do Brasil
como um todo. Seus diferenciais, como produtividade e organização, é que dão destaque ao
Estado. Ainda que tenha sofrido com a crise do setor no final dos anos 1990, o Paraná
conseguiu retomar e ampliar sua produção.
No setor açucareiro, com objetivo de dar agilidade ao fluxo da produção em direção
aos diferentes mercados, através de um projeto da Alcopar, algumas usinas paranaenses
somaram esforços e investimentos e instalaram a Paraná Operações Portuárias S.A. (PASA),
no Porto de Paranaguá (PR). Trata-se do primeiro terminal especializado no embarque de
açúcar a granel da Região Sul do país, que começou operar em abril de 2002. Seu custo Free on
Board (FOB) é US$ 42,50/m3 (certificação, fobagem, taxas, seguros, frete). Outro avanço, este
ainda em curso, trata-se do alcoolduto que integrará o Mato Grosso do Sul e o Paraná ao
Porto de Paranaguá – informações cedidas pela diretoria da Alcopar.
A conjuntura comercial para os produtos derivados da cana-de-açúcar tem sido
favorável nos dias atuais, principalmente em relação ao mercado externo, e as informações
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A VLD corresponde, ao contrário, aquela parte do efeito total determinada por uma
maior ou menor participação no crescimento domiciliar a nível regional. Um sinal positivo
para a VLD se explica pela especialização regional em domicílios dinâmicos.
Simbolicamente, tem-se para o domicilio i, na Município j:
VLTij = VLDij + VLPij
Interessa conhecer esses efeitos em nível regional. Para tanto, basta somar os valores
encontrados para os k setores:


= 1i
k
VLTij = ∑
=1i
k
VLDij + ∑
= 1i
k
VLPij

Tem-se então:
VLTj = VLDj + VLPj (10)
A equação (10) é idêntica à equação (9), apenas os símbolos foram modificados.
Na aplicação ao caso demográfico regional, utilizaram-se ambas as equações; a (9)
para fins de cálculo dos valores, e a (10) para a interpretação dos dados.

3 O PERFIL DO CRESCIMENTO POPULACIONAL REGIONAL
De uma sociedade exclusivamente agrária de meados do século XX, o Oeste
paranaense chegou ao inicio do século XXI como uma região urbanizada de expressiva
densidade populacional. Na área, a partir de 1970, iniciou-se uma forte expansão da rede
urbana, que passou a funcionar estritamente vinculada ao dinamismo da atividade rural e por
ela impulsionada. Da mesma forma, nos anos 1980, devido à industrialização e à mecanização
agrícola, houve significativa perda da população nas áreas rurais e o crescimento acelerado das
cidades. Entre 1970 e 2000 o contingente populacional da região Oeste paranaense aumentou
em 51,18%. No entanto, o fato mais marcante foi que a população urbana apresentou uma
evolução de 520,92% no mesmo período. Ao contrário, a população rural demonstrou uma
redução de -65,31% no período analisado. Os principais fatores responsáveis pela diminuição
da população rural foram a significativa reestruturação da base produtiva da região,
ocasionada pela modernização da base técnica de produção, e o esgotamento da fronteira
agrícola. Por isso, as mudanças populacionais na região Oeste do Paraná relacionam-se
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diretamente com a dinâmica do espaço rural. Essa dinâmica influi na formação da estrutura
produtiva regional (FERRERA DE LIMA et all, 2003).
Atualmente, a região está economicamente embasada nas atividades da pecuária e da
agricultura moderna de exportação, que impulsionam o comércio e a economia regional,
fornecendo as bases para implantação de indústrias, principalmente as ligadas ao setor
agropecuário. Isto se traduz em efeitos de difusão da base de exportação sobre a economia da
área, provocando um expressivo movimento de capitais, de serviços e de pessoas,
principalmente nas áreas urbanas da região, notadamente nos maiores municípios. Esse
movimento refletiu no acelerado crescimento das cidades da região, e possui uma clara
dependência das atividades agroindustriais da área, que por sua vez, induzem o crescimento
de atividades econômicas complementares.
Nesse panorama os fatores demográficos endógenos exercem papel preponderante
no processo, e têm características muito particulares na região, inerentes às peculiaridades da
sua ocupação e de desenvolvimento. Tais particularidades da região estão fortemente ligadas à
sua própria formação econômica, política e social, oriundas da forma de ocupação recente e
da produção em pequenas e médias propriedades rurais, assim como passaram a ter coesão no
discurso político dos empresários e das autoridades regionais para reivindicações em prol da
região (Rippel, 2005).
Entretanto, rapidamente o Oeste do PR se converteu numa área em que substantivas
transformações na sua economia e no seu sistema produtivo deflagraram intensos processos
de esvaziamento das áreas rurais, exacerbação dos movimentos de urbanização e expressivas
perdas populacionais da área com um todo via emigração. É evidente que esses processos,
nos seus diversos âmbitos de operação, interestadual, intra-estadual, e intra-regional
desenvolveram-se, muitas vezes, de modo heterogêneo e com diferentes intensidades,
imprimindo dinâmicas diferenciadas de crescimento populacional, e provocando re-
ordenamentos contínuos da distribuição espacial da população da área.
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Economia & Tecnologia - Ano 04, Vol. 13 – Abril/Junho de 2008
no Oeste paranaense. Além disso, a região é menos urbana do que parece, em função de três
elementos: O primeiro é o perfil da ocupação fundiária. A área rural do Oeste paranaense é
caracterizada pela presença das pequenas propriedades até 50 ha. Essas propriedades
representam 87% do total regional segundo o Censo Agropecuário de 1996 (IBGE, 2007). O
segundo elemento é a atração dos imigrantes. Nos últimos anos o Oeste paranaense recebeu
diversos contingentes populacionais. Segundo RIPPEL (2005), Toledo, Cascavel e Foz do
Iguaçu concentraram 48,07% da imigração interestadual na região Oeste do Paraná no
período de 1970 a 1980, 60,04% no período de 1980 a 1991, e 61,51% no período de 1991 a
2000. No entanto, além de Toledo, Cascavel e Foz do Iguaçu, os municípios de Guaíra,
Medianeira e Santa Terezinha de Itaipu estão num estágio onde a concentração da população
urbana é superior à população rural. O terceiro elemento é o número de distritos existes na
região. Segundo IBGE (2007), existiam no ano de 2000, 96 distritos na região Oeste do
Paraná. Destes, 50 eram as sedes urbanas municipais e os 49 distritos restantes localizavam-se
nos arredores dessas sedes. Cerca de 25% da população rural da região estava concentrada, no
ano de 2000, nestes distritos.

4 CONCLUSÃO
Como se pôde perceber o desenvolvimento da região de modo geral vinculou a
dinâmica populacional e a organização do capital na área, isto porque foram estes fatores os
principais responsáveis pela transformação das condições “ambientais locais”, moldando-as
segundo seu interesse. Como o deslocamento de pessoas e de investimentos para a área está
relacionado com o comportamento da economia e com o processo de inserção e unificação
dos mercados da região, a análise da relação migração, população e desenvolvimento foram
evidentes no local, pois o Oeste do Paraná conjugou uma situação na qual o seu
desenvolvimento deu-se conectado com a migração e o crescimento demográfico da área, isto
porque a região inseriu-se no modelo de desenvolvimento nacional de ocupação de fronteiras
e no processo de transnacionalização do capital agrícola, acontecimentos que impactaram
diretamente no crescimento e na distribuição a população regional.
Muito embora isto tenha ocorrido apesar de que na etapa de ocupação de seu
território o local atraiu uma grande leva de imigrantes, seu desenvolvimento inverteu este
processo, tornando a área um lugar de elevada evasão populacional, em curto espaço de
tempo. Esta evasão conforme se pode verificar deu-se fundamentalmente nas áreas rurais da
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Economia & Tecnologia - Ano 04, Vol. 13 – Abril/Junho de 2008
região, sendo que o crescimento do setor urbano, apesar de expressivo não conseguiu reverter
o processo.
Tanto que os dados coletados demonstram que não ocorreram mudanças
significativas no padrão de localização da população urbana entre os municípios da região
Oeste do Paraná. Os municípios que concentravam a população urbana no ano de 1970
continuaram concentrando durante todo o período de análise. Enquanto, a população rural
está mais difusa na região. Há porém que se destacar que uma característica interessante desta
região é que ainda há uma presença significativa da população rural na maioria dos
municípios, com exceção de Cascavel, Foz do Iguaçu, Guaíra, Medianeira, Santa Terezinha de
Itaipu e Toledo que concentraram com mais intensidade a população urbana.
Os maiores centros urbanos da região (Cascavel, Foz do Iguaçu e Toledo), se
converteram num local de grandes possibilidades econômicas, não apenas em termos da
valorização (e conseqüente concentração) fundiária, mas também em termos dos
investimentos produtivos na agricultura para exportação e na agroindústria do complexo
carne (suíno, frango e peixes). Esse movimento, atrelado à modernização do campo e à
urbanização acelerada da área tornaram a região um local de forte evasão populacional
favorecendo as cidades mais industrializadas, no caso Cascavel, Toledo, Medianeira, Marechal
Candido Rondon e Palotina. Tanto que no contexto regional, todos os municípios têm perda
de população rural. Os valores negativos da componente estrutural refletem a diferença de
crescimento desse domicilio em relação ao crescimento regional. Assim, no agregado geral, o
Oeste paranaense perdeu população rural, perda esta que não foi totalmente absorvida pelo
crescimento das áreas urbanas.

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Núcleo de Estudos de População/UNICAMP, 2004. 225p. (Diagnósticos regionais do Estado
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