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Lente de contato escleral na reabilitação ocular de pacientes com síndrome de Stevens-Johnson

by Anac Punzi, Siqueira, CC Santos
Arq Bras (2010)

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Lente de contato escleral na reabilitação ocular de pacientes com síndrome de Stevens-Johnson

Arq Bras Oftalmol. 2010;73(5):428-32428
ARTIGOS ORIGINAIS | ORIGINAL ARTICLES
Trabalho realizado no Departamento de Oftalmologia da Universidade Federal de São Paulo -
UNIFESP.
1 Médico, Setor de Cirurgia Refrativa e Setor de Córnea e Doenças Externas, Departamento de
Oftalmologia, Instituto da Visão, Universidade Federal de São Paulo - UNIFESP - São Paulo
(SP), Brasil.
2 Médico, Setor de Córnea e Doenças Externas, Departamento de Oftalmologia, Instituto da
Visão, Universidade Federal de São Paulo - UNIFESP - São Paulo (SP), Brasil.
Endereço para correspondência: Ana Carolina Punzi de Siqueira. Rua Bartolomeu de
Gusmão, 302 - Apto. 61 - São Paulo (SP) - CEP 04111-020
E-mail: anacarolinapunzi@yahoo.com.br
Recebido para publicação em 04.06.2009
Última versão recebida em 24.08.2010
Aprovação em 20.10.2010
Lente de contato escleral na reabilitação ocular de pacientes
com síndrome de Stevens-Johnson
Scleral contact lens for ocular rehabilitation in patients with Stevens-Johnson syndrome
ANA CAROLINA PUNZI DE SIQUEIRA1, MYRNA SERAPIÃO DOS SANTOS2, CHARLES COSTA DE FARIAS2, TELMA REGINA MARIA PEREIRA BARREIRO2,
JOSÉ ÁLVARO PEREIRA GOMES2
RESUMO
Objetivo: Avaliar a eficácia do uso das lentes de contato esclerais no manejo
das sequelas oculares de pacientes portadores de síndrome de Stevens-
Johnson.
Métodos: Foram avaliados, retrospectivamente, pacientes com sequelas ocu-
lares da síndrome de Stevens-Johnson que iniciaram o uso de lente de contato
escleral. Os pacientes foram submetidos a avaliação subjetiva dos sintomas
através de um questionário; exame oftalmológico (medida da acuidade visual,
biomicroscopia, coloração da superfície ocular com colírio de fluoresceína,
teste de Schirmer).
Resultados: Dez olhos de 7 pacientes foram analisados. A acuidade visual dos
pacientes variou de movimentos de mão a 20/25. Todos os pacientes apre-
sentavam algum grau de opacidade corneal e simbléfaro leve. A lente de
contato escleral foi adaptada com sucesso em 90% dos olhos. Em todos estes
casos os pacientes referiram melhora dos sintomas e da visão. Com relação
aos achados biomicroscópicos observou-se melhora da hiperemia conjuntival
e da ceratite, e diminuição da secreção mucosa em 90% dos olhos.
Conclusões: Foi possível uma adaptação bem sucedida da lente de contato
escleral em grande parte dos pacientes, com melhora dos sintomas e da
acuidade visual provavelmente consequentes à melhora da regularização da
superfície ocular. As lentes de contato esclerais representam uma importante
e acessível alternativa para a redução da limitação ocasionada pelos danos
sequelares da síndrome de Stevens-Johnson.
Descritores: Lente de contato; Esclera; Olho seco; Síndrome de Stevens-
Johnson/terapia
ABSTRACT
Purpose: To evaluate the efficacy of scleral contact lenses use on the manage-
ment of ocular sequelae from Stevens-Johnson syndrome patients.
Methods: In a retrospective study, patients who suffered sequelae of Stevens-
Johnson syndrome and started the use of scleral contact lenses were followed.
Patients were submitted to an evaluation of symptoms through a questionnaire;
ophthalmologic exam (visual acuity measurement, biomicroscopy, ocular surface
staining with fluorescein drops, Schirmer test).
Results: Ten eyes of seven patients were analyzed. Visual acuity varied from
hand movements to 20/25. All patients presented some degree of corneal
opacity and slight symblepharon. In patients whose adaptation to scleral
contact lenses was successful (90%), they all refered improvement of symptoms
and sight. As for the biomicroscopic findings it was observed an improvement
of conjunctival hyperemia and keratitis and a reduction of the mucous secretion
in 90% the cases.
Conclusions: A successful adaptation to scleral contact lenses was feasible on
most patients, with relief of symptoms and better visual acuity, probably due
to regularization of the surface. Scleral contact lenses represent an important
and accessible alternative to reduce the limitations inferred by the damages
from Stevens-Johnson syndrome.
Keywords: Contact lenses; Sclera; Dry eye; Stevens-Johnson syndrome/therapy
por comprometimento sistêmico com febre, vômitos, cefaléia
e prostração e pode durar até seis semanas. Pode ainda se
apresentar sob a forma de necrólise epidérmica tóxica (NET)
ou síndrome de Lyell, entidade rara caracterizada por necrose
extensa da epiderme(2). O comprometimento ocular inicia-se
com conjuntivite catarral ou mucopurulenta bilateral(3). Após o
quadro agudo, surgem cicatrizes conjuntivais e olho seco. Nos
casos mais graves, podem ocorrer alteraçõs palpebrais (como
por exemplo, triquíase e entrópio), simbléfaro, deficiência
límbica, neovascularização e até queratinização corneal, com-
prometendo a acuidade visual dos pacientes(4).
Não há um tratamento específico na fase aguda. Recomen-
da-se higiene palpebral, lubrificantes, corticosteróide e anti-
bioticoterapia profilática tópica. Corticosteróide e imunossu-
pressão sistêmicos são controversos. Para os quadros crônicos,
medidas adjuvantes, como lubrificação ocular e epilação de
cílios, podem ajudar(4). Correção cirúrgica das alterações pal-
pebrais é importante, assim como tarsorrafia para diminuir a
evaporação lacrimal. O transplante de membrana amniótica
na fase aguda pode auxiliar na redução da inflamação e suas
sequelas(5). Nos quadros com comprometimento corneal, ou-
tros procedimentos, como transplante de células tronco do
INTRODUÇÃO
A síndrome de Stevens-Johnson, também chamada deeritema multiforme maior, faz parte de um conjunto dealterações de pele e mucosas(1) desencadeada por rea-
ção de hipersensibilidade tipo 3 após uso de determinadas
drogas (por exemplo, as sulfonamidas, anti-inflamatórios, pe-
nicilina, barbitúricos, alopurinol e vacinas) ou contato com
micro-organismo (Mycoplasma pneumoniae, vírus como Her-
pes simplex, entre outros). O quadro clínico é acompanhado
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limbo, transplante de córnea e transplante de membrana
amniótica, podem ser necessários(4). No entanto, o prognósti-
co, principalmente nos casos com olho seco severo, continua
reservado.
Uma opção terapêutica não invasiva para casos de síndro-
me de Stevens-Johnson na fase crônica é o uso de lente de
contato escleral, a qual é composta por uma porção óptica que
recobre a córnea e uma porção escleral(6-7). Além da função
óptica, protege do trauma palpebral e dos cílios e forma uma
câmara úmida, mantendo a córnea lubrificada por um tempo
maior. Sua centração independe da topografia corneal, o que
facilita a adaptação em córneas irregulares. Além de ser indi-
cada em casos de olho seco severo, também pode ser usada
em ectasias corneais (como ceratocone e degeneração margi-
nal pelúcida) e outras doenças que afetam as pálpebras e a
superfície ocular(6).
MÉTODOS
PACIENTES
Foram avaliados retrospectivamente todos os pacientes
portadores de sequelas oculares de síndrome de Stevens-
Johnson no Ambulatório de Córnea e Doenças Externas Ocula-
res da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), que inicia-
ram o uso da lente de contato escleral. Estes pacientes foram
acompanhados durante um ano.
Os critérios de inclusão foram um ou mais dos que seguem:
• História de síndrome de Stevens-Johnson diagnosticada
na UNIFESP ou em outro serviço de referência;
• Ausência de opacidade corneal total que comprometes-
se toda a espessura da córnea;
• Presença de olho seco severo diagnosticado com teste
de Schirmer (<5 mm em 5 minutos);
• Presença de alterações palpebrais (entrópio, triquíase,
simbléfaro leve e queratinização da margem palpebral);
• Presença de sintomas relacionados a olho seco e altera-
ções palpebrais (dor, secreção ocular, lacrimejamento,
sensação de corpo estranho, fotofobia e baixa da acuida-
de visual).
Foram excluídos os casos com opacidade corneal total, infec-
ção ocular, defeito epitelial, acuidade visual melhor que 20/40
e simbléfaro que impossibilitasse a adaptação da lente de con-
tato escleral.
LENTE DE CONTATO ESCLERAL
As lentes de contato esclerais foram obtidas de um único
fornecedor e adaptadas por este mesmo fornecedor (Froillens,
São Paulo), sendo confecciondas com polimetilmetacrilato ou
fluorcarbonato (Figura 1). Os diâmetros das lentes esclerais
variaram de acordo com a superfície ocular, a partir de 18 mm.
A adaptação foi realizada artesanalmente pelo protético, de
modo personalizado, de acordo com as características do olho
(fenda palpebral, curvaturas, simbléfaro) (Figura 2). Nos casos
das lentes de polimetilmetacrilato, foram feitas pequenas fe-
nestrações, em geral de 2 a 6, a fim de promover maior oxi-
genação e lubrificação ocular. Foram adaptadas 3 lentes de
fluorcarbonato e 7 de PMMA. Quando indicada, foi realizada
sobrerrefração e a lente foi reconfeccionada com a refração
encontrada.
AVALIAÇÃO SUBJETIVA DOS SINTOMAS
Os pacientes responderam a um questionário que avaliou
a presença ou não de sintomas como dor, secreção ocular,
lacrimejamento, sensação de corpo estranho, fotofobia e baixa
da acuidade visual.
AVALIAÇÃO OFTALMOLÓGICA
Na avaliação oftalmológica, os pacientes foram submeti-
dos aos seguintes exames:
1) Medida da acuidade visual sem correção, com estenopeico
e com lente de contato escleral.
2) Biomicroscopia do segmento anterior e da superfície ocu-
lar externa: foram avaliadas a presença das seguintes altera-
ções:
• Entrópio, triquíase, queratinização da margem palperal,
cicatrização de pontos lacrimais e ductos glandulares e
simbléfaro;
• Hiperemia conjuntival e injeção ciliar;
• Presença de secreção;
• Alterações corneais: defeito epitelial, opacidades e irre-
gularidades.
3) Coloração da superfície ocular externa com fluoresceína:
• Os pacientes foram submetidos à coloração da superfí-
cie ocular com fluoresceína 0,5% (Allergan, Brasil). Após
a instilação do colírio de fluoresceína no fórnice inferior,
foi observado o padrão de coloração com auxílio da luz
azul de cobalto (localização e intensidade) da conjunti-
va nasal e temporal e da córnea.
4) Teste de Schirmer I:
• Em todos os pacientes foi realizado o teste de Schirmer I,
para o qual utilizamos um papel filtro com 35 mm de
Figura 2. Adaptação de lente de contato escleral em paciente com olho seco
severo secundário a síndrome de Stevens-Johnson. Note presença de filme
lacrimal pré-corneal.
Figura 1. Lente de contato escleral de PMMA.
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