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LIMITES E RUPTURAS NA ESFERA DA INFORMAÇÃO

by Laymert Garcia Dos Santos
São Paulo em Perspectiva (2000)

Abstract

Controlar os consumidores e principalmente monitorar as potencialidades de cada uma das dimen- sões de suas vidas tornam-se uma exigência do próprio processo do capitalismo contemporâneo, impondo a coleta e o tratamento de informações. Ora, se lembrarmos que uma parcela cada vez maior da vida e das ativi- dades do homem contemporâneo tende a passar pelas redes, quem melhor colocado para acessar os seus dados senão os provedores de acesso ao ciberespaço?

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LIMITES E RUPTURAS NA ESFERA DA INFORMAÇÃO

SÃO PAULO EM PERSPECTIVA, 14(3) 2000
32
N
LIMITES E RUPTURAS NA ESFERA
DA INFORMAÇÃO
e analisada por Paul Virilio em La bombe informatique.
Como conta o pensador das tecnologias, essa americana
de 25 anos instalou 14 câmeras em pontos estratégicos de
sua casa para lutar contra os fantasmas que parecem
assombrá-la. Tais câmeras estão ligadas e conectadas à
rede para captar e transmitir aos visitantes do site Fly
Vision as aparições que porventura vierem a se manifes-
tar. Graças a uma janela interativa, os “espreitadores de
fantasmas” podem alertar por e-mail a presença de algum
“ectoplasma”. “É como se os internautas se tornassem
meus vizinhos, testemunhas do que acontece comigo”, diz
June Houston, acrescentando: “Não quero que as pessoas
venham fisicamente ao meu espaço. Não podia portanto
receber ajuda externa, até que compreendi o potencial da
Internet” (Virilio, 1998:70).
É evidente que, aqui, não se trata de transformar o lar
num palco para a encenação da vida privada; mas sim,
como bem percebeu Paul Virilio, de torná-lo objeto de
uma televigilância diferente daquela a que estamos habi-
tuados. Com efeito, diz o pensador da tecnologia, não se
trata mais de se precaver contra a intrusão de ladrões, mas
de compartilhar as angústias e os medos com toda uma
rede, graças à superexposição do local onde se vive. Na
verdade, segundo Virilio, estamos diante da emergência
de um novo tipo de TELE-VISÃO, cujo objetivo não é
mais informar ou divertir a massa de telespectadores, mas
expor e invadir o espaço doméstico com uma nova ilumi-
LAYMERT GARCIA DOS SANTOS
Professor do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Unicamp
o dia 1o de julho último, o jornal Los Angeles
Daily News publicou um artigo de David Bloom
intitulado: “Internet oferece voyeurismo em tem-
po integral”. Nele o jornalista relata como a vida privada
pode hoje não ser simplesmente vivida, mas exposta e en-
cenada para um público de telespectadores que não se con-
tenta mais com os programas de realidade na televisão,
nem com o sexo ao vivo dos sites de pornografia, mas quer
agora poder assistir a vida em tempo real (Bloom, 2000).1
Aprendemos, então, que há vários sites de Lifecam, com
nomes sugestivos: AspiringActresses.com, Crushedplanet.com,
TheRealHouse.com, CoupleTV, FirstApartment.com.
Neles, jovens que querem sair do anonimato, exibicionistas,
gente em busca de uma experiência diferente, estudantes,
aceitam viver suas vidas para as câmeras da web e interagir
com os fãs, em troca de parte da renda paga por assinantes
mensalistas, dividida com os proprietários dos sites. Dá para
pagar algumas contas e não precisar “ter de ser garçonete
sete noites por semana” – declara Lisa Nowicki, cujo coti-
diano é bisbilhotado diariamente por cerca de quatro mil es-
pectadores de todo o mundo que, segundo o proprietário do
site, mantêm uma janela aberta em seus computadores para
monitorar o que está acontecendo na vida dela, enquanto
vivem as suas próprias.
À experiência de Lisa e de tantos outros exibicionistas
da rede, valeria a pena acrescentar a de June Houston, re-
latada pelo jornal Le Monde (em 18 de novembro de 1997)
Resumo: Controlar os consumidores e principalmente monitorar as potencialidades de cada uma das dimen-
sões de suas vidas tornam-se uma exigência do próprio processo do capitalismo contemporâneo, impondo a
coleta e o tratamento de informações. Ora, se lembrarmos que uma parcela cada vez maior da vida e das ativi-
dades do homem contemporâneo tende a passar pelas redes, quem melhor colocado para acessar os seus dados
senão os provedores de acesso ao ciberespaço?
Palavras-chave: controle digital; informação e consumo.
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LIMITES E RUPTURAS NA ESFERA DA INFORMAÇÃO
nação capaz de revolucionar a noção de vizinhança. “Gra-
ças a esta iluminação em “tempo real”, escreve Virilio, o
espaço-tempo do apartamento de cada um torna-se poten-
cialmente comunicante com todos os outros, e o medo de
expor sua intimidade cotidiana dá lugar ao desejo de
superexpô-la aos olhares de todos, fazendo que a tão te-
mida vinda dos “fantasmas” seja para June Houston ape-
nas um pretexto para a invasão de seu domicílio pela “co-
munidade virtual” dos inspetores, dos investigadores
furtivos da Internet” (Virilio, 1998:70).
Virilio vê nessa espécie de luz indireta, que devassa
todos os cantos da vida cotidiana de June Houston e de
todos os exibicionistas da Internet, a expressão de um pro-
cesso mais amplo, generalizado, de superexposição de todo
tipo de atividade, no mercado global. Como se tudo pre-
cisasse ser mostrado e propagandeado incessantemente,
como se tudo pudesse ser observado e comparado a todo
momento. “Hoje, comenta Virilio, o controle do ambien-
te suplanta (...) em larga medida o controle social do Es-
tado de direito e, para tanto, deve instaurar um novo tipo
de transparência: a transparência das aparências instan-
taneamente transmitidas à distância...” (Virilio, 1998:72).
A nova televigilância e esse novo tipo de transparên-
cia, porém, não são exercidas unicamente por meio da
transmissão de imagens digitalizadas das pessoas e de seu
ambiente doméstico, controlados à distância. Há um modo
muito mais sutil e perverso da vigilância eletrônica violar
a privacidade, método que prescinde da instalação de
câmeras no espaço domiciliar e até mesmo do consenti-
mento do vigiado que se encontra superexposto. Trata-se
do cruzamento e processamento dos dados que cada um
de nós gera ao entrar, sair e transitar nos diversos siste-
mas informatizados e nas diversas redes que compõem a
vida social contemporânea.
Diferentemente dos exemplos mencionados anterior-
mente, o que será invocado agora para explicitar esse con-
trole à distância foi extraído de Idoru, o último livro de
ficção científica de William. A escolha desse exemplo fic-
tício é propositada: o que interessa é perceber por um caso-
limite a lógica de um processo que se encontra em franca,
e aparentemente irrefreável, expansão.
Colin Laney, o personagem central de Idoru, é um
internauta que gosta de ver a si mesmo como pesquisa-
dor. Mas não é um voyeur. O narrador descreve-o da se-
guinte maneira: “Tinha uma aptidão peculiar com a ar-
quitetura de compilação de dados e um déficit de atenção
documentado medicamente que ele conseguiu transformar,
sob certas condições, num estado de hiperfocalização pa-
tológica. Isso fazia dele (...) um pesquisador extremamente
competente. (...) O dado relevante (...) era o fato de ele
ser um pescador intuitivo de padrões de informação: do
tipo de assinatura que um indivíduo inadvertidamente cria
na rede na medida em que vai dando seguimento ao ofício
mundano e, no entanto, infinitamente multiplex, de viver
numa sociedade digital. O déficit de atenção de Laney,
pequeno demais para ser registrado em algumas escalas,
fazia dele um zapeador natural de canais, indo de progra-
ma a programa, de um banco de dados a outro, de plata-
forma a plataforma, de um modo bem... intuitivo” (Gibson,
1999:32).
Laney é, portanto, mais do que um navegador compe-
tente; ele conjuga seu conhecimento dos processos infor-
macionais a um déficit de atenção que na verdade é um
ganho. Assim como o psicanalista, que ouve seu paciente
com a atenção flutuante e por isso mesmo capta intuitiva-
mente na trama da fala a falha de seu discurso e a irrupção
do desejo, Laney, zapeando na esfera digital, focaliza no
cruzamento dos padrões e na teia dos dados uma peculia-
ridade informacional, a diferença qualitativa que confere
novo relevo ao conjunto e conduz o investigador a túneis
de informação “que poderiam ser seguidos até um outro
tipo de verdade, outro modo de saber, bem no fundo de
minas de informação”. Essas singularidades, o internauta
chama “pontos nodais”.
É importante sublinhar que Laney trabalha para um
programa na rede, um certo tipo de noticiário que faz e
desfaz celebridades para um público perpetuamente fa-
minto da sua vida íntima; na verdade, uma versão hiper
high-tech dessa imprensa sensacionalista que está cres-
cendo e proliferando no Brasil. Ali o internauta integra a
equipe que se dedica aos aspectos mais privados das vi-
das dos ricos e famosos; e no exercício de sua função, uma
coisa começa a ficar clara para Laney: a mulher que ele
televigia descobre que está sendo controlada. Escreve o
narrador: “Alison Shires sabia, de alguma forma, que ele
estava lá, observando. Como se ela pudesse senti-lo olhan-
do para o mar de dados que eram um reflexo da sua vida:
sua superfície feita de todos os pedaços que formavam o
registro diário de sua vida à medida que ficava registrada
na tecitura digital do mundo. Laney viu um ponto nodal
começando a se formar a partir do reflexo de Alison Shires.
Ela ia cometer suicídio” (Gibson, 1999:46).
O trecho acima merece algumas considerações. Em
primeiro lugar, convém notar que Laney não vê direta-
mente nem a imagem nem a performance de Alison Shires,
mas sim o diagrama, isto é, as linhas de força e as tendên-

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