A Medida do Olhar: Objetividade e Autoria na Reportagem
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A Medida do Olhar: Objetividade e Autoria na Reportagem
ROGÉRIO CHRISTOFOLETTI
A medida do olhar:
objetividade e autoria
na reportagem
Tese apresentada à Área de
Concentração: Jornalismo e Editoração
da Escola de Comunicações e Artes da
Universidade de São Paulo, como
exigência parcial para obtenção do
Título de Doutor em Ciências da
Comunicação, sob orientação da Profª
Drª Cremilda Celeste de Araújo Medina.
São Paulo
2004
A medida do olhar:
objetividade e autoria
na reportagem
Tese apresentada à Área de
Concentração: Jornalismo e Editoração
da Escola de Comunicações e Artes da
Universidade de São Paulo, como
exigência parcial para obtenção do
Título de Doutor em Ciências da
Comunicação, sob orientação da Profª
Drª Cremilda Celeste de Araújo Medina.
São Paulo
2004
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DEFESA DA TESE A MEDIDA DO OLHAR – OBJETIVIDADE E
AUTORIA NA REPORTAGEM, DE ROGÉRIO CHRISTOFOLETTI
BANCA JULGADORA
____________________________________
____________________________________
____________________________________
____________________________________
____________________________________
PROFª DRª CREMILDA C.A. MEDINA
ORIENTADORA
SÃO PAULO (SP), ______ DE _____________ DE 2004.
DEFESA DA TESE A MEDIDA DO OLHAR – OBJETIVIDADE E
AUTORIA NA REPORTAGEM, DE ROGÉRIO CHRISTOFOLETTI
BANCA JULGADORA
____________________________________
____________________________________
____________________________________
____________________________________
____________________________________
PROFª DRª CREMILDA C.A. MEDINA
ORIENTADORA
SÃO PAULO (SP), ______ DE _____________ DE 2004.
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Para
minha mãe Marlene,
minha mulher Ana e
meu filho Vinicius,
a quem tento impressionar. Sempre.
Para
minha mãe Marlene,
minha mulher Ana e
meu filho Vinicius,
a quem tento impressionar. Sempre.
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AGRADECIMENTOS
Quero registrar meu reconhecimento
À Universidade do Vale do Itajaí (UNIVALI) pela
concessão de uma bolsa de estudos e pelo
afastamento integral de minhas funções,
fundamentais para a conclusão desta pesquisa no
tempo em que ela se realizou;
À professora Cremilda Medina, minha bússola nesta
caminhada, minha referência maior neste trajeto;
A Josenildo Guerra, Patrícia Patrício e Edélcio
Mostaço, gentis e atentos interlocutores durante a
escritura desta tese;
Ao meu irmão Rodrigo Christofoletti, leitor mais sagaz
e bem-humorado destas páginas;
Aos colegas do Núcleo de Epistemologia do
Jornalismo (NEJ/ECA) pelos conselhos e idéias
trocadas ao longo de nossas sempre proveitosas
reuniões;
Ao Paulo César Bontempi, o meu mais eficiente
apoio operacional na Escola de Comunicações e
Artes da USP;
A Manoel Gonçalves Corrêa, amigo e mestre, meu
anfitrião em muitas tardes paulistanas;
A Jefferson Bittencourt e Gláucia Grígolo, amigos
que não faltaram nos últimos minutos desta tese;
A Ricardo Laux, querido sogro a quem devo apoio
afetivo e logístico;
Aos meus companheiros do Sindicato dos Jornalistas
de Santa Catarina, especialmente Silvio e Luciana,
que cobriram minhas ausências em momentos
cruciais deste processo;
E a minha amada Ana, que respirou esta tese
comigo por pelo menos dois anos.
AGRADECIMENTOS
Quero registrar meu reconhecimento
À Universidade do Vale do Itajaí (UNIVALI) pela
concessão de uma bolsa de estudos e pelo
afastamento integral de minhas funções,
fundamentais para a conclusão desta pesquisa no
tempo em que ela se realizou;
À professora Cremilda Medina, minha bússola nesta
caminhada, minha referência maior neste trajeto;
A Josenildo Guerra, Patrícia Patrício e Edélcio
Mostaço, gentis e atentos interlocutores durante a
escritura desta tese;
Ao meu irmão Rodrigo Christofoletti, leitor mais sagaz
e bem-humorado destas páginas;
Aos colegas do Núcleo de Epistemologia do
Jornalismo (NEJ/ECA) pelos conselhos e idéias
trocadas ao longo de nossas sempre proveitosas
reuniões;
Ao Paulo César Bontempi, o meu mais eficiente
apoio operacional na Escola de Comunicações e
Artes da USP;
A Manoel Gonçalves Corrêa, amigo e mestre, meu
anfitrião em muitas tardes paulistanas;
A Jefferson Bittencourt e Gláucia Grígolo, amigos
que não faltaram nos últimos minutos desta tese;
A Ricardo Laux, querido sogro a quem devo apoio
afetivo e logístico;
Aos meus companheiros do Sindicato dos Jornalistas
de Santa Catarina, especialmente Silvio e Luciana,
que cobriram minhas ausências em momentos
cruciais deste processo;
E a minha amada Ana, que respirou esta tese
comigo por pelo menos dois anos.
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RESUMO
O olhar está entre os sujeitos e os objetos, preenchendo a distância
entre esses extremos na relação do conhecimento, onde o próprio
Jornalismo se inscreve. A partir do estudo do olhar, reflito sobre um dos
pilares sobre os quais o Jornalismo se edificou: a objetividade. Num
paradigma de crise, o Jornalismo questiona esse conceito, e aprofundo
tal discussão, alargando seu foco para o exercício da subjetividade na
reportagem. Concentro esforços na conceituação do que vem a ser
uma autoria em jornalismo e enumero as principais condições para o
seu efetivo exercício na reportagem. Esse mapeamento é
acompanhado da apresentação de uma experiência que fiz como
repórter em busca de inscrição de uma autoria jornalística. Tanto a
reflexão teórica quanto a pesquisa-experiência atuam num processo
que busca a desautomatização das práticas jornalísticas,
desmistificando as gramáticas da área e apontando para novos
procedimentos na apuração das informações e na escritura dos textos.
PALAVRAS-CHAVE
OBJETIVIDADE – AUTORIA – TEXTO – JORNALISMO – OLHAR
ABSTRACT
The glance is in between subjects and objects, fullfilling the distance
between these terms at a knowledge relation, where Journalism itself
inscribes. From the glance’s analysis, I reflect about one of the basis in
which Journalism built itself: objectivity. At a crisis paradigm, Journalism
questions this concept, and I deepen this discussion, widening its focus
to the exercise of subjectivity in newspaper reporting. I concentrate
efforts at the definition of what comes to be autorship in journalism and
enumerate the main condition for its effective exercise in newspaper
reporting. This cartography is followed by the presentation of an
experience I have done as a reporter searching for a journalistic
autorship criterion. Theoric reflection acts as much as experience-
research at a process that looks after a non automation of journalistic
practices, those of which will unmystify grammar rules of the area and
point out to new procedures relating the checking of information and
text writing.
KEYWORDS
Objectivity – Autorship – Text – Journalism – The glance
RESUMO
O olhar está entre os sujeitos e os objetos, preenchendo a distância
entre esses extremos na relação do conhecimento, onde o próprio
Jornalismo se inscreve. A partir do estudo do olhar, reflito sobre um dos
pilares sobre os quais o Jornalismo se edificou: a objetividade. Num
paradigma de crise, o Jornalismo questiona esse conceito, e aprofundo
tal discussão, alargando seu foco para o exercício da subjetividade na
reportagem. Concentro esforços na conceituação do que vem a ser
uma autoria em jornalismo e enumero as principais condições para o
seu efetivo exercício na reportagem. Esse mapeamento é
acompanhado da apresentação de uma experiência que fiz como
repórter em busca de inscrição de uma autoria jornalística. Tanto a
reflexão teórica quanto a pesquisa-experiência atuam num processo
que busca a desautomatização das práticas jornalísticas,
desmistificando as gramáticas da área e apontando para novos
procedimentos na apuração das informações e na escritura dos textos.
PALAVRAS-CHAVE
OBJETIVIDADE – AUTORIA – TEXTO – JORNALISMO – OLHAR
ABSTRACT
The glance is in between subjects and objects, fullfilling the distance
between these terms at a knowledge relation, where Journalism itself
inscribes. From the glance’s analysis, I reflect about one of the basis in
which Journalism built itself: objectivity. At a crisis paradigm, Journalism
questions this concept, and I deepen this discussion, widening its focus
to the exercise of subjectivity in newspaper reporting. I concentrate
efforts at the definition of what comes to be autorship in journalism and
enumerate the main condition for its effective exercise in newspaper
reporting. This cartography is followed by the presentation of an
experience I have done as a reporter searching for a journalistic
autorship criterion. Theoric reflection acts as much as experience-
research at a process that looks after a non automation of journalistic
practices, those of which will unmystify grammar rules of the area and
point out to new procedures relating the checking of information and
text writing.
KEYWORDS
Objectivity – Autorship – Text – Journalism – The glance
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SUMÁRIO
INTRODUÇÃO
Crise de Paradigmas na Ciência – Paradigma de crise no
Jornalismo: p. 08
1.O OLHAR
1.1 O olhar é uma leitura do mundo: p. 14
1.2 O olhar como processo e relação: p. 18
1.3 O olhar jornalístico: p. 27
1.3.1 O Jornalismo como campo de saber, fazer e ser: p. 29
1.3.2 O conhecimento jornalístico: p. 32
1.3.3 A constituição do olhar no Jornalismo: p. 34
1.3.4 Jornalismo e os sentidos humanos: p. 43
1.4 O olhar estabelece sujeitos e objetos: p. 49
2. OBJETIVIDADE
2.1 Uma idéia em cinco séculos: p. 53
2.1.1 O conceito na filosofia: p. 55
2.1.2 O conceito na ciência: p. 60
2.1.3 Como o Jornalismo emprega a idéia: p. 64
2.2 Pequena História da Objetividade no Jornalismo: p. 68
2.3 Resguardando a objetividade: p. 72
2.3.1 Imperativo ético da atividade: p. 72
2.3.2 Uma meta para o mito: p. 77
2.4 A objetividade questionada: p. 81
2.4.1 Uma categoria mitificada: p. 84
2.4.2 O ritual profissional e os interesses incidentes: p. 88
2.4.3 Objetividade como efeito de discurso: p. 93
3. ENTRE A DÚVIDA E A INCERTEZA
3.1 Descartes, a dúvida e o método: p. 100
3.1.1 Jornalismo e cartesianismo: p. 104
3.2 Heisenberg e a incerteza: p. 110
3.3.O Jornalismo entre a dúvida e a incerteza: p. 114
4. SUBJETIVIDADE
4.1 Apontamentos sobre o sujeito: p. 119
4.2 Consciência, atestado do sujeito: p. 124
4.3 Subjetividade na atividade jornalística: p. 128
4.4 Assinatura: marca do sujeito: p. 132
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO
Crise de Paradigmas na Ciência – Paradigma de crise no
Jornalismo: p. 08
1.O OLHAR
1.1 O olhar é uma leitura do mundo: p. 14
1.2 O olhar como processo e relação: p. 18
1.3 O olhar jornalístico: p. 27
1.3.1 O Jornalismo como campo de saber, fazer e ser: p. 29
1.3.2 O conhecimento jornalístico: p. 32
1.3.3 A constituição do olhar no Jornalismo: p. 34
1.3.4 Jornalismo e os sentidos humanos: p. 43
1.4 O olhar estabelece sujeitos e objetos: p. 49
2. OBJETIVIDADE
2.1 Uma idéia em cinco séculos: p. 53
2.1.1 O conceito na filosofia: p. 55
2.1.2 O conceito na ciência: p. 60
2.1.3 Como o Jornalismo emprega a idéia: p. 64
2.2 Pequena História da Objetividade no Jornalismo: p. 68
2.3 Resguardando a objetividade: p. 72
2.3.1 Imperativo ético da atividade: p. 72
2.3.2 Uma meta para o mito: p. 77
2.4 A objetividade questionada: p. 81
2.4.1 Uma categoria mitificada: p. 84
2.4.2 O ritual profissional e os interesses incidentes: p. 88
2.4.3 Objetividade como efeito de discurso: p. 93
3. ENTRE A DÚVIDA E A INCERTEZA
3.1 Descartes, a dúvida e o método: p. 100
3.1.1 Jornalismo e cartesianismo: p. 104
3.2 Heisenberg e a incerteza: p. 110
3.3.O Jornalismo entre a dúvida e a incerteza: p. 114
4. SUBJETIVIDADE
4.1 Apontamentos sobre o sujeito: p. 119
4.2 Consciência, atestado do sujeito: p. 124
4.3 Subjetividade na atividade jornalística: p. 128
4.4 Assinatura: marca do sujeito: p. 132
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5. AUTORIA
5.1 Uma genealogia do autor no Ocidente: p. 137
5.1.1 Digressão jurídica: a autoria como direito: p. 143
5.1.2 Retorno à genealogia: p. 145
5.2 Reconhecimento do sujeito e afirmação do singular: p. 149
5.3 A função autor: p. 152
5.4 Autoria como exercício de estilo: p. 159
5.5 Estilo e Autoria no Jornalismo: p. 165
5.6 A narrativa da contemporaneidade: p. 174
5. 7 Condições para uma autoria na reportagem: p. 178
6. EM BUSCA DE UMA AUTORIA NA REPORTAGEM
6.1 O pesquisador como cobaia: p. 199
6.2 O ambiente do laboratório e as condições do repórter: p. 205
6.2.1 As revistas: p. 206
6.2.2 A rotina do repórter: p. 211
6.2.3 O recorte: p. 214
6.3 As tentativas de inscrição de uma assinatura: p. 217
6.4 O que os editores têm a dizer: p. 258
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Um jornalismo com impressões digitais: p. 264
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
p. 269
ANEXOS
As reportagens analisadas: p. 275
5. AUTORIA
5.1 Uma genealogia do autor no Ocidente: p. 137
5.1.1 Digressão jurídica: a autoria como direito: p. 143
5.1.2 Retorno à genealogia: p. 145
5.2 Reconhecimento do sujeito e afirmação do singular: p. 149
5.3 A função autor: p. 152
5.4 Autoria como exercício de estilo: p. 159
5.5 Estilo e Autoria no Jornalismo: p. 165
5.6 A narrativa da contemporaneidade: p. 174
5. 7 Condições para uma autoria na reportagem: p. 178
6. EM BUSCA DE UMA AUTORIA NA REPORTAGEM
6.1 O pesquisador como cobaia: p. 199
6.2 O ambiente do laboratório e as condições do repórter: p. 205
6.2.1 As revistas: p. 206
6.2.2 A rotina do repórter: p. 211
6.2.3 O recorte: p. 214
6.3 As tentativas de inscrição de uma assinatura: p. 217
6.4 O que os editores têm a dizer: p. 258
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Um jornalismo com impressões digitais: p. 264
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
p. 269
ANEXOS
As reportagens analisadas: p. 275
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INTRODUÇÃO
Crise de paradigmas na Ciência
Paradigma de crise no Jornalismo
“Na verdade, nós redefinimos a função da ciência
como a descoberta de leis que nos permitirão predizer
os eventos dentro dos limites impostos
pelo princípio da incerteza”
Stephen Hawking – físico inglês
“O Jornalismo, tal como está disposto nos
meios de comunicação atuais, pratica ao
mesmo tempo técnicas de informação
e desinformação”
Leão Serva – jornalista brasileiro
s planetas e o sol giravam em torno da Terra até que um polonês
perturbou a ordem do sistema. Era a primeira metade do século XVI, e
Nicolau Copérnico concluía o volume De revolutionibus orbium
caelestium, onde apresentava a teoria segundo a qual a Terra dava uma volta diária em
torno de si e uma volta anual ao redor do sol. O modelo colocava por terra a idéia de
que o planeta era o centro do universo, tese que vigorava há 1300 anos pelo menos.
Mais do que avançar nos estudos astronômicos de então, a intervenção de Copérnico
desencadeou uma revolução na ciência, na filosofia e na religião. O deslocamento da
Terra do centro do universo propiciava pensar num outro papel e importância do
homem na natureza e acabava por questionar alguns dogmas da Igreja.
Trezentos anos depois, viriam outros dois graves golpes nas certezas humanas
no Ocidente: o homem deixava de ser o centro da natureza e da História. No século
XIX, o cientista inglês Charles Darwin e o filósofo alemão Karl Marx vão soterrar essas
idéias ao afirmar que o homem é resultado de leis e processos evolutivos que incidem
sobre todas as espécies vivas e que existem outras variáveis que determinam os
caminhos e descaminhos da trajetória humana.
O
INTRODUÇÃO
Crise de paradigmas na Ciência
Paradigma de crise no Jornalismo
“Na verdade, nós redefinimos a função da ciência
como a descoberta de leis que nos permitirão predizer
os eventos dentro dos limites impostos
pelo princípio da incerteza”
Stephen Hawking – físico inglês
“O Jornalismo, tal como está disposto nos
meios de comunicação atuais, pratica ao
mesmo tempo técnicas de informação
e desinformação”
Leão Serva – jornalista brasileiro
s planetas e o sol giravam em torno da Terra até que um polonês
perturbou a ordem do sistema. Era a primeira metade do século XVI, e
Nicolau Copérnico concluía o volume De revolutionibus orbium
caelestium, onde apresentava a teoria segundo a qual a Terra dava uma volta diária em
torno de si e uma volta anual ao redor do sol. O modelo colocava por terra a idéia de
que o planeta era o centro do universo, tese que vigorava há 1300 anos pelo menos.
Mais do que avançar nos estudos astronômicos de então, a intervenção de Copérnico
desencadeou uma revolução na ciência, na filosofia e na religião. O deslocamento da
Terra do centro do universo propiciava pensar num outro papel e importância do
homem na natureza e acabava por questionar alguns dogmas da Igreja.
Trezentos anos depois, viriam outros dois graves golpes nas certezas humanas
no Ocidente: o homem deixava de ser o centro da natureza e da História. No século
XIX, o cientista inglês Charles Darwin e o filósofo alemão Karl Marx vão soterrar essas
idéias ao afirmar que o homem é resultado de leis e processos evolutivos que incidem
sobre todas as espécies vivas e que existem outras variáveis que determinam os
caminhos e descaminhos da trajetória humana.
O
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Se, como escreveu Nietzsche, Deus está morto; se a terra é só mais um planeta
perdido no espaço a reboque de uma estrela finita; se o homem não domina o reino
animal, só resta mesmo não ser ele o centro de si mesmo. Pois não faltou muito para que
alguém apontasse isso. Em 1900, o psiquiatra e neurologista austríaco Sigmund Freud
publica A interpretação dos sonhos, obra que inaugura o campo da Psicanálise, onde o
sujeito não é monolítico e centrado, e o inconsciente tem papel decisivo nas ações
humanas.
Os golpes na estabilidade da racionalidade ocidental continuam. Contemporâneo
a Freud, o físico alemão Albert Einstein formula, na primeira década do século XX,
algumas bases da sua Teoria da Relatividade, tese que vai provocar nova reviravolta não
apenas no mundo científico, mas também na filosofia e cultura mundiais. Com a nova
teoria, acontece uma profunda renovação científica, que altera algumas idéias básicas da
física clássica, oferecendo explicação coerente e unificada para grande número de
fenômenos da natureza. Com a Teoria da Relatividade, espaço e tempo são variáveis
relativas, massa pode se converter em energia e um objeto com velocidade próxima à da
luz sofre aumento de sua massa, ao passo em que o espaço se contrai e o tempo se
dilata.
Pelos estudos em física quântica, passa-se a perceber que não existe nenhum
fenômeno totalmente objetivo, quer dizer, independente do estado do seu observador. A
incerteza cresce em 1926, quando o físico alemão Werner Heinsenberg enuncia o
Princípio da Indeterminação, de acordo com o qual é impossível medir,
simultaneamente e com absoluta precisão, a posição e a velocidade de uma partícula de
átomo. A tese produz rachaduras graves no sonho de uma ciência determinista: afinal,
se não é possível medir o estado atual do universo, que dirá prever eventos futuros sem
erros.
Se, como escreveu Nietzsche, Deus está morto; se a terra é só mais um planeta
perdido no espaço a reboque de uma estrela finita; se o homem não domina o reino
animal, só resta mesmo não ser ele o centro de si mesmo. Pois não faltou muito para que
alguém apontasse isso. Em 1900, o psiquiatra e neurologista austríaco Sigmund Freud
publica A interpretação dos sonhos, obra que inaugura o campo da Psicanálise, onde o
sujeito não é monolítico e centrado, e o inconsciente tem papel decisivo nas ações
humanas.
Os golpes na estabilidade da racionalidade ocidental continuam. Contemporâneo
a Freud, o físico alemão Albert Einstein formula, na primeira década do século XX,
algumas bases da sua Teoria da Relatividade, tese que vai provocar nova reviravolta não
apenas no mundo científico, mas também na filosofia e cultura mundiais. Com a nova
teoria, acontece uma profunda renovação científica, que altera algumas idéias básicas da
física clássica, oferecendo explicação coerente e unificada para grande número de
fenômenos da natureza. Com a Teoria da Relatividade, espaço e tempo são variáveis
relativas, massa pode se converter em energia e um objeto com velocidade próxima à da
luz sofre aumento de sua massa, ao passo em que o espaço se contrai e o tempo se
dilata.
Pelos estudos em física quântica, passa-se a perceber que não existe nenhum
fenômeno totalmente objetivo, quer dizer, independente do estado do seu observador. A
incerteza cresce em 1926, quando o físico alemão Werner Heinsenberg enuncia o
Princípio da Indeterminação, de acordo com o qual é impossível medir,
simultaneamente e com absoluta precisão, a posição e a velocidade de uma partícula de
átomo. A tese produz rachaduras graves no sonho de uma ciência determinista: afinal,
se não é possível medir o estado atual do universo, que dirá prever eventos futuros sem
erros.
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Um brevíssimo percurso pela história da ciência mostra como as mentalidades se
modificaram nos últimos quinhentos anos, tempo que não significa quase nada no
período de permanência do homem sobre a Terra. Os últimos acontecimentos
fragilizaram o modelo monolítico de saber científico, deslocando a atenção para
aspectos como a complexidade, a incerteza e a descontinuidade. Se tempos atrás a
ciência consolidou-se enquanto saber hegemônico na explicação dos fenômenos da
natureza, orientando, inclusive, a trajetória de desenvolvimento social em muitos pontos
do planeta, atualmente, a ciência disputa espaço e preferência com outros saberes. É o
que se pode chamar de crise do paradigma científico: tem-se a consciência de que o
conhecimento científico não é o mais coerente de todos, nem oferece as únicas respostas
aos problemas da humanidade.
Não é o descarte da ciência, mas o questionamento da sua onipotência. O
cidadão comum continua acreditando no desenvolvimento científico e tecnológico, mas
ao mesmo tempo não deixa de consultar a astrologia diariamente, prossegue
alimentando sua mitologia particular e não se desvencilha dos seus vínculos religiosos.
De maneira direta, não é a ciência que está em crise, mas a ciência como se
construiu e se apresentou nos últimos séculos: metodologicamente determinista,
pretensamente absolutista, excludentemente ocidental, paradoxalmente dogmática. O
que vive uma crise de paradigma é a ciência filha da Razão surgida no século XVII
como um método de conhecimento fundado na lógica e no cálculo. Para René
Descartes, a razão é o poder de bem julgar e discernir o verdadeiro do falso. É em torno
dela que o conceito moderno de homem (e de sujeito) vai ser desenhado, sustentado
pela idéia de consciência. Com um novo homem sobre a Terra, é preciso desenvolver
um percurso que lhe permita dominar a natureza e alcançar uma condição mais digna no
reino animal.
Um brevíssimo percurso pela história da ciência mostra como as mentalidades se
modificaram nos últimos quinhentos anos, tempo que não significa quase nada no
período de permanência do homem sobre a Terra. Os últimos acontecimentos
fragilizaram o modelo monolítico de saber científico, deslocando a atenção para
aspectos como a complexidade, a incerteza e a descontinuidade. Se tempos atrás a
ciência consolidou-se enquanto saber hegemônico na explicação dos fenômenos da
natureza, orientando, inclusive, a trajetória de desenvolvimento social em muitos pontos
do planeta, atualmente, a ciência disputa espaço e preferência com outros saberes. É o
que se pode chamar de crise do paradigma científico: tem-se a consciência de que o
conhecimento científico não é o mais coerente de todos, nem oferece as únicas respostas
aos problemas da humanidade.
Não é o descarte da ciência, mas o questionamento da sua onipotência. O
cidadão comum continua acreditando no desenvolvimento científico e tecnológico, mas
ao mesmo tempo não deixa de consultar a astrologia diariamente, prossegue
alimentando sua mitologia particular e não se desvencilha dos seus vínculos religiosos.
De maneira direta, não é a ciência que está em crise, mas a ciência como se
construiu e se apresentou nos últimos séculos: metodologicamente determinista,
pretensamente absolutista, excludentemente ocidental, paradoxalmente dogmática. O
que vive uma crise de paradigma é a ciência filha da Razão surgida no século XVII
como um método de conhecimento fundado na lógica e no cálculo. Para René
Descartes, a razão é o poder de bem julgar e discernir o verdadeiro do falso. É em torno
dela que o conceito moderno de homem (e de sujeito) vai ser desenhado, sustentado
pela idéia de consciência. Com um novo homem sobre a Terra, é preciso desenvolver
um percurso que lhe permita dominar a natureza e alcançar uma condição mais digna no
reino animal.
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Da razão, decorrem os conceitos de racionalização e racionalidade, que vão ser
alicerces para os esforços da tecnologia e da ciência. A racionalidade é a adequação
entre uma coerência lógica e uma determinada realidade empírica. A racionalização, por
sua vez, é o conjunto de práticas que vai tornar viável uma racionalidade. Desta forma,
resulta uma conseqüência fácil: na ciência, a objetividade vai ser uma das condições de
sustentação do processo de racionalização. A objetividade estará ligada ao que se
entende por mundo objetivo, ou mundo dos estados de coisa dados no espaço-tempo. O
mundo dos fatos. A objetividade é a faculdade de tornar uma situação, um ser ou uma
coisa objetos. Tudo aquilo que o sujeito não reconhece como uma extensão de si é
entendido como objeto, uma exterioridade, uma alteridade.
A objetividade vai servir a ciência durante muitos anos, tempo em que a
natureza será observada a uma distância segura. Deus não estará por perto, e a
perspectiva e as condições íntimas do observador serão ignoradas. Quando o objeto é
uma bactéria ou uma molécula gasosa, todos sobrevivem relativamente ilesos neste
distanciamento. Mas e quando se observa a psique humana ou um ecossistema urbano,
objetos em que o homem – e até mesmo o observador – está envolvido? O que vai
determinar a distância e as fronteiras entre o sujeito e o objeto?
O surgimento das ciências humanas vai colocar este impasse epistemológico,
trazendo à tona a discussão sobre a metodologia na pesquisa e sobre a própria definição
de objetividade. Embora isso ocorra, em diversos campos do conhecimento, um certo
culto à objetividade permanecerá, já que ela estaria intimamente ligada à observação
direta dos fenômenos e, portanto, mais próxima deles. No exercício do Jornalismo,
mesmo apesar do intenso debate que suscita, a objetividade se mantém como uma
categoria de suporte da atividade jornalística. Pelo menos é o que defendem muitos
autores e profissionais, e é o que professam empresas e instituições.
Da razão, decorrem os conceitos de racionalização e racionalidade, que vão ser
alicerces para os esforços da tecnologia e da ciência. A racionalidade é a adequação
entre uma coerência lógica e uma determinada realidade empírica. A racionalização, por
sua vez, é o conjunto de práticas que vai tornar viável uma racionalidade. Desta forma,
resulta uma conseqüência fácil: na ciência, a objetividade vai ser uma das condições de
sustentação do processo de racionalização. A objetividade estará ligada ao que se
entende por mundo objetivo, ou mundo dos estados de coisa dados no espaço-tempo. O
mundo dos fatos. A objetividade é a faculdade de tornar uma situação, um ser ou uma
coisa objetos. Tudo aquilo que o sujeito não reconhece como uma extensão de si é
entendido como objeto, uma exterioridade, uma alteridade.
A objetividade vai servir a ciência durante muitos anos, tempo em que a
natureza será observada a uma distância segura. Deus não estará por perto, e a
perspectiva e as condições íntimas do observador serão ignoradas. Quando o objeto é
uma bactéria ou uma molécula gasosa, todos sobrevivem relativamente ilesos neste
distanciamento. Mas e quando se observa a psique humana ou um ecossistema urbano,
objetos em que o homem – e até mesmo o observador – está envolvido? O que vai
determinar a distância e as fronteiras entre o sujeito e o objeto?
O surgimento das ciências humanas vai colocar este impasse epistemológico,
trazendo à tona a discussão sobre a metodologia na pesquisa e sobre a própria definição
de objetividade. Embora isso ocorra, em diversos campos do conhecimento, um certo
culto à objetividade permanecerá, já que ela estaria intimamente ligada à observação
direta dos fenômenos e, portanto, mais próxima deles. No exercício do Jornalismo,
mesmo apesar do intenso debate que suscita, a objetividade se mantém como uma
categoria de suporte da atividade jornalística. Pelo menos é o que defendem muitos
autores e profissionais, e é o que professam empresas e instituições.
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As gramáticas do ramo orientam para que o jornalista reporte os fatos de forma
objetiva e direta, desapaixonadamente. Há que se perceber que o Jornalismo se inspira
na ciência para construir seu modelo de representação do mundo. Isto é, o Jornalismo
vai se inscrever numa tradição narrativa que tenta ser o reflexo do mundo, e nesta
perspectiva, a reportagem dos fatos precisa atender a critérios rigorosos de observação e
de descrição. Assim, no Jornalismo, tal como na ciência, a objetividade vai ser uma
condição que liga os sujeitos a acontecimentos e a fenômenos. Como essas ligações são
distintas, diferentes também são as formas de constituição do efeito de objetividade.
Um produto do capitalismo, a atividade jornalística vai se desenvolver sob o
signo da modernização industrial e da racionalização produtiva. Dessa forma, surte
natural que venha se espelhar na ciência para determinar alguns dos seus
procedimentos. Apegar-se à objetividade pode ser entendido como condição necessária
para a construção de uma credibilidade, por exemplo.
Mas a exemplo do saber científico, o Jornalismo também sente os tremores de
contestação das suas bases. O desenvolvimento das ciências da linguagem facilitou o
entendimento e a disseminação de explicações que denunciavam o mito da neutralidade
das palavras. Então, a cada formulação de frase, o jornalista não poderia desviar-se da
escolha nada objetiva do vocabulário que usaria no relato do fato. Segundo algumas
correntes lingüísticas, incidiriam neste processo - mesmo que involuntariamente –
aspectos ideológicos e do inconsciente psíquico.
Uma outra impossibilidade ajuda a minar a objetividade jornalística: o
profissional precisa estar próximo do fato o suficiente para apreendê-lo, mas ao passo
que faz isso, deixa de estar alheio, isolado do acontecimento. A cena se contamina com
a presença do jornalista, permite distorções da realidade.
As gramáticas do ramo orientam para que o jornalista reporte os fatos de forma
objetiva e direta, desapaixonadamente. Há que se perceber que o Jornalismo se inspira
na ciência para construir seu modelo de representação do mundo. Isto é, o Jornalismo
vai se inscrever numa tradição narrativa que tenta ser o reflexo do mundo, e nesta
perspectiva, a reportagem dos fatos precisa atender a critérios rigorosos de observação e
de descrição. Assim, no Jornalismo, tal como na ciência, a objetividade vai ser uma
condição que liga os sujeitos a acontecimentos e a fenômenos. Como essas ligações são
distintas, diferentes também são as formas de constituição do efeito de objetividade.
Um produto do capitalismo, a atividade jornalística vai se desenvolver sob o
signo da modernização industrial e da racionalização produtiva. Dessa forma, surte
natural que venha se espelhar na ciência para determinar alguns dos seus
procedimentos. Apegar-se à objetividade pode ser entendido como condição necessária
para a construção de uma credibilidade, por exemplo.
Mas a exemplo do saber científico, o Jornalismo também sente os tremores de
contestação das suas bases. O desenvolvimento das ciências da linguagem facilitou o
entendimento e a disseminação de explicações que denunciavam o mito da neutralidade
das palavras. Então, a cada formulação de frase, o jornalista não poderia desviar-se da
escolha nada objetiva do vocabulário que usaria no relato do fato. Segundo algumas
correntes lingüísticas, incidiriam neste processo - mesmo que involuntariamente –
aspectos ideológicos e do inconsciente psíquico.
Uma outra impossibilidade ajuda a minar a objetividade jornalística: o
profissional precisa estar próximo do fato o suficiente para apreendê-lo, mas ao passo
que faz isso, deixa de estar alheio, isolado do acontecimento. A cena se contamina com
a presença do jornalista, permite distorções da realidade.
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destes trabalhadores nas suas práticas cotidianas. Operar na observação desta relação –
o olhar – é tracejar um campo de ação, de saber, de constituição específica. É operar na
delimitação de um quadrante na epistemologia do Jornalismo.
Assim, para o jornalista, o olhar é a encruzilhada entre os conhecimentos
técnicos da captação da informação e da conversão do fato em notícia, dos valores
éticos que dão base à sua conduta, e dos cuidados e preocupações estéticas próprios das
linguagens em que apresenta seus produtos informativos. Em outros termos, penso que
uma epistemologia do Jornalismo reúne pontes que interligam Técnica, Ética e Estética.
O olhar imprime tudo isso. É o olhar crítico, curioso, cético; é o olhar clínico,
preocupado, compromissado, crônico.
A construção de um olhar se apóia num pré-construído, num discurso sustentado
por indícios, regras de conduta técnica e ética: assim, espera-se que o jornalista tenha
um olhar crítico, busque “a verdade acima de tudo”, ouça “os diversos lados da
questão”, seja “objetivo e imparcial”.
Um olhar específico para o jornalista reserva-lhe uma identidade própria, na
medida em que contribui para a produção de subjetividades e para a consolidação de um
padrão de subjetivação. Um olhar de jornalista está apoiado num discurso singular,
crivado de valores, de normas, de recomendações, o que desencadeia certas práticas.
Audálio Dantas (1998) lembra a definição do jornalista Acácio Ramos sobre a
própria profissão: “repórteres são pessoas que perguntam”. Para além disso, é preciso
lembrar que jornalistas são pessoas que lêem o mundo. E tal operação, demandada por
um olhar aguçado e atento, chama a nossa atenção para uma problematização do
conceito de leitura, na dimensão epistemológica que proponho para esta pesquisa. Que
leitura é esta que o jornalista faz da vida e do mundo? Seu olhar – premeditadamente
crítico – orienta uma leitura diferenciada dos fatos?
destes trabalhadores nas suas práticas cotidianas. Operar na observação desta relação –
o olhar – é tracejar um campo de ação, de saber, de constituição específica. É operar na
delimitação de um quadrante na epistemologia do Jornalismo.
Assim, para o jornalista, o olhar é a encruzilhada entre os conhecimentos
técnicos da captação da informação e da conversão do fato em notícia, dos valores
éticos que dão base à sua conduta, e dos cuidados e preocupações estéticas próprios das
linguagens em que apresenta seus produtos informativos. Em outros termos, penso que
uma epistemologia do Jornalismo reúne pontes que interligam Técnica, Ética e Estética.
O olhar imprime tudo isso. É o olhar crítico, curioso, cético; é o olhar clínico,
preocupado, compromissado, crônico.
A construção de um olhar se apóia num pré-construído, num discurso sustentado
por indícios, regras de conduta técnica e ética: assim, espera-se que o jornalista tenha
um olhar crítico, busque “a verdade acima de tudo”, ouça “os diversos lados da
questão”, seja “objetivo e imparcial”.
Um olhar específico para o jornalista reserva-lhe uma identidade própria, na
medida em que contribui para a produção de subjetividades e para a consolidação de um
padrão de subjetivação. Um olhar de jornalista está apoiado num discurso singular,
crivado de valores, de normas, de recomendações, o que desencadeia certas práticas.
Audálio Dantas (1998) lembra a definição do jornalista Acácio Ramos sobre a
própria profissão: “repórteres são pessoas que perguntam”. Para além disso, é preciso
lembrar que jornalistas são pessoas que lêem o mundo. E tal operação, demandada por
um olhar aguçado e atento, chama a nossa atenção para uma problematização do
conceito de leitura, na dimensão epistemológica que proponho para esta pesquisa. Que
leitura é esta que o jornalista faz da vida e do mundo? Seu olhar – premeditadamente
crítico – orienta uma leitura diferenciada dos fatos?
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1.2 O olhar como processo e relação
“Até quanto posso entender, nós conhecemos o mundo
porque as partículas dos objetos ferem os nossos olhos.”
John Locke, filósofo inglês
Apesar de forte e profundamente influenciadora, a intuição de um olhar
específico do jornalista não é suficiente para atestar sua real existência. É preciso buscar
este olhar, verificar onde se configura, de que forma e sob quais condições. Mas antes
disso ainda, seria necessário averiguar como o conceito de olhar é problematizado em
outros campos de saber, exteriores ao Jornalismo.
De forma geral, o olhar é estudado pela Psicologia por diversas correntes2, mas
três áreas são destacáveis: a Psicofisiologia, que se preocupa com o olho e a visão, a
Psicologia Cognitiva, que se concentra na percepção visual, e a Psicologia Social, atenta
ao olhar nas interações sociais. Em La psychologie du regard – de la perception visuelle
aux regards, Alain Brossard distingue os conceitos: visão é a estrutura neuro-fisiológica
desta modalidade sensorial; percepção visual reúne os processos psicológicos
individuais de recepção, tratamento e integração das estimulações visuais; e por fim,
olhar encerra as condutas visuais observáveis numa situação de interação social,
compreendendo dois ou mais indivíduos.
Visando contemplar as perspectivas individual e social, Brossard concebe o
olhar como uma função sócio-cognitiva, o que permite, por exemplo, que nas interações
sociais, a criança adquira novas ferramentas cognitivas. Assim, o olhar possibilita que o
indivíduo se oriente por ele e edifique seus pensamentos e atos. “Perceber é uma noção
epistêmica que reúne importantes afinidades com a de conhecer. Se se imputa a algum
conhecimento de um estado de coisas, ela implica que este estado de coisas exista
2 Não há unidade entre as vertentes psicológicas que estudam o olhar ou um fio condutor que as ligue,
mesmo diante do grande volume de estudos na área. As abordagens são modulares, e uma noção de
conjunto pode ser buscada na interface entre estas perspectivas.
1.2 O olhar como processo e relação
“Até quanto posso entender, nós conhecemos o mundo
porque as partículas dos objetos ferem os nossos olhos.”
John Locke, filósofo inglês
Apesar de forte e profundamente influenciadora, a intuição de um olhar
específico do jornalista não é suficiente para atestar sua real existência. É preciso buscar
este olhar, verificar onde se configura, de que forma e sob quais condições. Mas antes
disso ainda, seria necessário averiguar como o conceito de olhar é problematizado em
outros campos de saber, exteriores ao Jornalismo.
De forma geral, o olhar é estudado pela Psicologia por diversas correntes2, mas
três áreas são destacáveis: a Psicofisiologia, que se preocupa com o olho e a visão, a
Psicologia Cognitiva, que se concentra na percepção visual, e a Psicologia Social, atenta
ao olhar nas interações sociais. Em La psychologie du regard – de la perception visuelle
aux regards, Alain Brossard distingue os conceitos: visão é a estrutura neuro-fisiológica
desta modalidade sensorial; percepção visual reúne os processos psicológicos
individuais de recepção, tratamento e integração das estimulações visuais; e por fim,
olhar encerra as condutas visuais observáveis numa situação de interação social,
compreendendo dois ou mais indivíduos.
Visando contemplar as perspectivas individual e social, Brossard concebe o
olhar como uma função sócio-cognitiva, o que permite, por exemplo, que nas interações
sociais, a criança adquira novas ferramentas cognitivas. Assim, o olhar possibilita que o
indivíduo se oriente por ele e edifique seus pensamentos e atos. “Perceber é uma noção
epistêmica que reúne importantes afinidades com a de conhecer. Se se imputa a algum
conhecimento de um estado de coisas, ela implica que este estado de coisas exista
2 Não há unidade entre as vertentes psicológicas que estudam o olhar ou um fio condutor que as ligue,
mesmo diante do grande volume de estudos na área. As abordagens são modulares, e uma noção de
conjunto pode ser buscada na interface entre estas perspectivas.
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Aprender a observar visualmente, ver uma cultura em todos os seus
complexos detalhes, pode ser uma tarefa de muito empenho para o
pesquisador. A natureza fragmentada da vida moderna torna difícil o
ajustamento à visão global. A capacidade de visão de conjunto do
observador depende da proporção de envolvimento dele em
relação ao seu meio ambiente. Nós, modernos, nos afastamos de um
relacionamento muito envolvente com o ambiente que nos
circunda, pois comumente lidamos apenas com partes desse
esquema de grande amplitude.
O autor explica que, em geral, o desenvolvimento cultural foi orientado para
dominar a natureza pela tecnologia, o que provocou a organização de funções
fragmentadas. Collier Jr. admite que em certas áreas específicas, o homem é um analista
visual bastante perspicaz, principalmente no que tange ao campo de trabalho: o
radiologista pode diagnosticar uma tuberculose através do raio X e o bacteriologista
pode reconhecer os bacilos pelo microscópio. Mas são olhares exclusivos,
compartimentados, recortados. “Somente podemos considerar-nos os mais acurados
observadores na história humana se considerarmos a soma total de nossas
especializações”.
O isolamento desses olhares – chamado pelo autor de cegueira pessoal - está
diretamente ligado à orientação positivista, mecanicista das sociedades urbanas
contemporâneas. “Aprendemos a ver apenas o que praticamente precisamos ver.
Atravessamos nossos dias com viseiras, observando somente uma fração do que nos
rodeia. E quando observamos criticamente, é quase sempre com o auxílio de alguma
tecnologia” (op.cit.: 3). Há uma domesticação do olhar3.
No caso específico do Jornalismo, a mecânica do olhar não é mediatizada por
instrumentos tecnológicos, já que recorre a uma série de comportamentos, de ações
humanas, que são comuns a todos, mas levadas a um grau de especialização que motiva
3 A domesticação do olhar vai ao encontro ao que aponta o artista plástico inglês David Hockneyn (1937).
Ícone da Pop Art, sua arte sinaliza para um olhar atravessado pela linguagem, pelo simbólico. Para além de
suas já célebres pinturas de piscinas, são os trabalhos fotográficos dos anos 80 que enfatizam essa hipótese:
com sua lente, Hockney capta um objeto num enquadramento que privilegie a parte e não o todo. Em
Aprender a observar visualmente, ver uma cultura em todos os seus
complexos detalhes, pode ser uma tarefa de muito empenho para o
pesquisador. A natureza fragmentada da vida moderna torna difícil o
ajustamento à visão global. A capacidade de visão de conjunto do
observador depende da proporção de envolvimento dele em
relação ao seu meio ambiente. Nós, modernos, nos afastamos de um
relacionamento muito envolvente com o ambiente que nos
circunda, pois comumente lidamos apenas com partes desse
esquema de grande amplitude.
O autor explica que, em geral, o desenvolvimento cultural foi orientado para
dominar a natureza pela tecnologia, o que provocou a organização de funções
fragmentadas. Collier Jr. admite que em certas áreas específicas, o homem é um analista
visual bastante perspicaz, principalmente no que tange ao campo de trabalho: o
radiologista pode diagnosticar uma tuberculose através do raio X e o bacteriologista
pode reconhecer os bacilos pelo microscópio. Mas são olhares exclusivos,
compartimentados, recortados. “Somente podemos considerar-nos os mais acurados
observadores na história humana se considerarmos a soma total de nossas
especializações”.
O isolamento desses olhares – chamado pelo autor de cegueira pessoal - está
diretamente ligado à orientação positivista, mecanicista das sociedades urbanas
contemporâneas. “Aprendemos a ver apenas o que praticamente precisamos ver.
Atravessamos nossos dias com viseiras, observando somente uma fração do que nos
rodeia. E quando observamos criticamente, é quase sempre com o auxílio de alguma
tecnologia” (op.cit.: 3). Há uma domesticação do olhar3.
No caso específico do Jornalismo, a mecânica do olhar não é mediatizada por
instrumentos tecnológicos, já que recorre a uma série de comportamentos, de ações
humanas, que são comuns a todos, mas levadas a um grau de especialização que motiva
3 A domesticação do olhar vai ao encontro ao que aponta o artista plástico inglês David Hockneyn (1937).
Ícone da Pop Art, sua arte sinaliza para um olhar atravessado pela linguagem, pelo simbólico. Para além de
suas já célebres pinturas de piscinas, são os trabalhos fotográficos dos anos 80 que enfatizam essa hipótese:
com sua lente, Hockney capta um objeto num enquadramento que privilegie a parte e não o todo. Em
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a excelência no seu funcionamento. Isto é, outros profissionais vêem o mundo, assistem
aos fatos, mas não treinaram seus olhos para enxergar certos aspectos que são
importantes para os jornalistas. O jornalista não precisa de um telescópio ou de um
microscópio especial para atuar profissionalmente, mas de um olhar educado,
domesticado, treinado. Entretanto, precisa de uma técnica de ver, de um conjunto de
procedimentos que o capacite a observar as cenas de uma forma precisa.
Neste sentido, o olhar do jornalista se aproxima de uma tecnologia. Os antigos
gregos chamavam de tecnologia o tratado sobre uma arte, conjunto de conhecimentos e
princípios científicos que se aplicavam a determinado ramo de atividade. Uma
tecnologia é um feixe de técnicas, um coletivo de saberes, uma filosofia de ação. Se o
olhar do jornalista encerra procedimentos próprios no trabalho e determina processos de
entendimento dos fatos que cobre, este olhar pode ser qualificado como uma tecnologia.
***
Mas para além de qualquer instrumentalidade que se possa impingir ao olhar, é
preciso alargar o entendimento de como ele vem sendo refletido pelo pensamento
ocidental. Talvez a forma mais saliente dos estudos filosóficos sobre o olhar seja a
fenomenológica4. Merleau-Ponty vai se debruçar sobre a questão na metade do século
20. Para o pensador, os olhos de carne são mais do que meros “receptores para as luzes,
para as cores e para as linhas”. Os olhos “são computadores do mundo, que têm o dom
do visível como se diz que o homem inspirado tem o dom das línguas” (1980: 90).
seguida, ele faz as composições com as polaroids tiradas, como quem monta um quebra-cabeças. A
percepção é selvagem.
4 O programa desta corrente filosófica ajuda a amparar algumas preocupações sobre o olhar. A
fenomenologia, por definição, é o estudo das essências, e não tenta compreender o homem e o mundo
senão a partir de sua factidade. Segundo Merleau-Ponty no prefácio de Fenomenologia da Percepção,
“trata-se, então, de descrever, não de explicar ou analisar”. Um fenômeno se apresenta ao mundo, e neste
momento, mostra-se. Cabe ao homem – e aí entra o olhar -, captar sua essência.
a excelência no seu funcionamento. Isto é, outros profissionais vêem o mundo, assistem
aos fatos, mas não treinaram seus olhos para enxergar certos aspectos que são
importantes para os jornalistas. O jornalista não precisa de um telescópio ou de um
microscópio especial para atuar profissionalmente, mas de um olhar educado,
domesticado, treinado. Entretanto, precisa de uma técnica de ver, de um conjunto de
procedimentos que o capacite a observar as cenas de uma forma precisa.
Neste sentido, o olhar do jornalista se aproxima de uma tecnologia. Os antigos
gregos chamavam de tecnologia o tratado sobre uma arte, conjunto de conhecimentos e
princípios científicos que se aplicavam a determinado ramo de atividade. Uma
tecnologia é um feixe de técnicas, um coletivo de saberes, uma filosofia de ação. Se o
olhar do jornalista encerra procedimentos próprios no trabalho e determina processos de
entendimento dos fatos que cobre, este olhar pode ser qualificado como uma tecnologia.
***
Mas para além de qualquer instrumentalidade que se possa impingir ao olhar, é
preciso alargar o entendimento de como ele vem sendo refletido pelo pensamento
ocidental. Talvez a forma mais saliente dos estudos filosóficos sobre o olhar seja a
fenomenológica4. Merleau-Ponty vai se debruçar sobre a questão na metade do século
20. Para o pensador, os olhos de carne são mais do que meros “receptores para as luzes,
para as cores e para as linhas”. Os olhos “são computadores do mundo, que têm o dom
do visível como se diz que o homem inspirado tem o dom das línguas” (1980: 90).
seguida, ele faz as composições com as polaroids tiradas, como quem monta um quebra-cabeças. A
percepção é selvagem.
4 O programa desta corrente filosófica ajuda a amparar algumas preocupações sobre o olhar. A
fenomenologia, por definição, é o estudo das essências, e não tenta compreender o homem e o mundo
senão a partir de sua factidade. Segundo Merleau-Ponty no prefácio de Fenomenologia da Percepção,
“trata-se, então, de descrever, não de explicar ou analisar”. Um fenômeno se apresenta ao mundo, e neste
momento, mostra-se. Cabe ao homem – e aí entra o olhar -, captar sua essência.
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Assim, atraído pelas incertezas da visibilidade e da invisibilidade, Merleau-
Ponty projeta em seus escritos as bases de uma busca do espírito e do ser, pela matriz do
olhar. Desse modo, o processo da visão não se resume a uma modalidade de
pensamento ou de presença, de constituição de lugar; mas sim “o meio que me é dado
de estar ausente de mim mesmo, de assistir de dentro a fissão do Ser, só no termo da
qual eu me fecho sobre mim” (108). A visão funciona como o encontro de todos os
aspectos do Ser. Mas ver é entrar num universo de seres que se mostram. Com isso,
olhar um objeto é vir habitá-lo e dali apreender todas as coisas
segundo a face que elas voltam para ele. Mas, na medida em que
também as vejo, elas permanecem moradas abertas ao meu olhar
e, situado virtualmente nelas, percebo sob diferentes ângulos o
objeto central de minha visão atual. (1999:105)
Olhar e ver não são a mesma coisa. A simples visão supõe e expõe um campo de
significações; o olhar as procura, seguindo a trilha do sentido. O pensamento não é
conjunto de enunciados, mas afastamentos determinados no interior do Ser. Marilena
Chaui (1992) esclarece que, na leitura de uma filosofia da visão, os conceitos não
podem ser vistos como representações fechadas, mas pontos de convergência, de
generalidade; e as idéias funcionariam como eixo de equivalências, fios provisórios para
o estabelecimento dos entendimentos. O olhar aponta para um pensar generoso, “que,
entrando em si, sai de si pelo pensamento de outrem que o apanha e o prossegue. O
olhar, identidade do sair e do entrar em si, é a definição mesma do espírito” (63).
Para Alfredo Bosi (1992), uma teoria completa do olhar poderia coincidir com
outras duas teorias, uma do conhecimento e outra, da expressão. Os gregos têm na sua
língua uma forte vinculação entre ver e conhecer. Mas esta coincidência entre olhar e
conhecer não é direta, já que o homem dispõe de outros sentidos que atuam neste
processo do ver e do ter em mente. Vincular a percepção visual com os estímulos
captados pelos outros sentidos é um dos temas básicos para uma fenomenologia do
Assim, atraído pelas incertezas da visibilidade e da invisibilidade, Merleau-
Ponty projeta em seus escritos as bases de uma busca do espírito e do ser, pela matriz do
olhar. Desse modo, o processo da visão não se resume a uma modalidade de
pensamento ou de presença, de constituição de lugar; mas sim “o meio que me é dado
de estar ausente de mim mesmo, de assistir de dentro a fissão do Ser, só no termo da
qual eu me fecho sobre mim” (108). A visão funciona como o encontro de todos os
aspectos do Ser. Mas ver é entrar num universo de seres que se mostram. Com isso,
olhar um objeto é vir habitá-lo e dali apreender todas as coisas
segundo a face que elas voltam para ele. Mas, na medida em que
também as vejo, elas permanecem moradas abertas ao meu olhar
e, situado virtualmente nelas, percebo sob diferentes ângulos o
objeto central de minha visão atual. (1999:105)
Olhar e ver não são a mesma coisa. A simples visão supõe e expõe um campo de
significações; o olhar as procura, seguindo a trilha do sentido. O pensamento não é
conjunto de enunciados, mas afastamentos determinados no interior do Ser. Marilena
Chaui (1992) esclarece que, na leitura de uma filosofia da visão, os conceitos não
podem ser vistos como representações fechadas, mas pontos de convergência, de
generalidade; e as idéias funcionariam como eixo de equivalências, fios provisórios para
o estabelecimento dos entendimentos. O olhar aponta para um pensar generoso, “que,
entrando em si, sai de si pelo pensamento de outrem que o apanha e o prossegue. O
olhar, identidade do sair e do entrar em si, é a definição mesma do espírito” (63).
Para Alfredo Bosi (1992), uma teoria completa do olhar poderia coincidir com
outras duas teorias, uma do conhecimento e outra, da expressão. Os gregos têm na sua
língua uma forte vinculação entre ver e conhecer. Mas esta coincidência entre olhar e
conhecer não é direta, já que o homem dispõe de outros sentidos que atuam neste
processo do ver e do ter em mente. Vincular a percepção visual com os estímulos
captados pelos outros sentidos é um dos temas básicos para uma fenomenologia do
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Em O nascimento da clínica, Michel Foucault empreende um minucioso estudo
sobre um olhar específico, o do médico, na passagem do século XVIII para XIX na
França. Um olhar ativo, direcionado, único. O surgimento da medicina moderna se dá
com a instituição de um novo olhar que os profissionais lançam sobre os corpos dos
enfermos, enxergando de outra forma a doença, vendo novos sintomas, observando
comportamentos até então desconsiderados. A experiência clínica e a fundação de um
olhar determinarão novas práticas, novas compreensões dos fenômenos: “O olho torna-
se o depositário e a fonte da clareza; tem o poder de trazer à luz uma verdade que ele só
recebe à medida que lhe deu à luz” (1998: XI-XII).
Foucault afirma que existe um trabalho da medicina para alcançar sua condição,
mas por um caminho em que ela deve apagar cada um de seus
passos, desde que atinja seu fim, neutralizando não somente os casos
em que se apóia, mas sua própria intervenção. Daí a estranha
característica do olhar médico; ele é tomado em uma espiral
indefinida: dirige-se ao que há de visível na doença, mas a partir do
doente, que oculta este visível, mostrando-o; conseqüentemente,
para conhecer, ele deve reconhecer. E este olhar, progredindo,
recua, visto que só atinge a verdade da doença, deixando-a vencê-
lo, esquivando-se e permitindo ao próprio mal realizar, em seus
fenômenos, sua natureza. (8)
É um olhar clínico: atento, qualitativo, com sutil percepção, sensível,
direcionado, que não descarta o essencial. Parcialmente, Foucault formula uma
definição para este olhar clínico:
Um ato perceptivo subentendido por uma lógica das operações; é
analítico, porque reconstitui a gênese da composição; mas está
isento de toda intervenção, na medida em que esta gênese nada
mais é do que a sintaxe da linguagem que falam as próprias coisas
em um silêncio originário. O olhar da observação e as coisas que ele
percebe se comunicam por um mesmo Logos, que é, em um caso,
gênese dos conjuntos e, no outro, lógica das operações. (123)
Se antes os relatos médicos eram recheados de explicações míticas, fantasiosas,
em poucas décadas, as descrições patológicas revestem-se de minúcias que garantem
Em O nascimento da clínica, Michel Foucault empreende um minucioso estudo
sobre um olhar específico, o do médico, na passagem do século XVIII para XIX na
França. Um olhar ativo, direcionado, único. O surgimento da medicina moderna se dá
com a instituição de um novo olhar que os profissionais lançam sobre os corpos dos
enfermos, enxergando de outra forma a doença, vendo novos sintomas, observando
comportamentos até então desconsiderados. A experiência clínica e a fundação de um
olhar determinarão novas práticas, novas compreensões dos fenômenos: “O olho torna-
se o depositário e a fonte da clareza; tem o poder de trazer à luz uma verdade que ele só
recebe à medida que lhe deu à luz” (1998: XI-XII).
Foucault afirma que existe um trabalho da medicina para alcançar sua condição,
mas por um caminho em que ela deve apagar cada um de seus
passos, desde que atinja seu fim, neutralizando não somente os casos
em que se apóia, mas sua própria intervenção. Daí a estranha
característica do olhar médico; ele é tomado em uma espiral
indefinida: dirige-se ao que há de visível na doença, mas a partir do
doente, que oculta este visível, mostrando-o; conseqüentemente,
para conhecer, ele deve reconhecer. E este olhar, progredindo,
recua, visto que só atinge a verdade da doença, deixando-a vencê-
lo, esquivando-se e permitindo ao próprio mal realizar, em seus
fenômenos, sua natureza. (8)
É um olhar clínico: atento, qualitativo, com sutil percepção, sensível,
direcionado, que não descarta o essencial. Parcialmente, Foucault formula uma
definição para este olhar clínico:
Um ato perceptivo subentendido por uma lógica das operações; é
analítico, porque reconstitui a gênese da composição; mas está
isento de toda intervenção, na medida em que esta gênese nada
mais é do que a sintaxe da linguagem que falam as próprias coisas
em um silêncio originário. O olhar da observação e as coisas que ele
percebe se comunicam por um mesmo Logos, que é, em um caso,
gênese dos conjuntos e, no outro, lógica das operações. (123)
Se antes os relatos médicos eram recheados de explicações míticas, fantasiosas,
em poucas décadas, as descrições patológicas revestem-se de minúcias que garantem
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1.3 O olhar jornalístico
“En effet les regards variant en fréquence, dureé et direction
pour un même individu placé dans des contexts situationnels différents,
mas aussi pour plusiers individus placés dans une même situation”
Alain Brossard – La psychologie du regard
Por uma lei da física newtoniana, dois corpos não podem ocupar um mesmo
lugar no espaço, fato que traz como conseqüência, por exemplo, a impossibilidade de
duas pessoas terem a mesma visão de um objeto. Mesmo se postadas lado a lado, suas
perspectivas serão ligeiramente distintas, e é bem possível que, se estes indivíduos se
alternarem no ponto de vista, suas visões não sejam as mesmas. Esta formulação
impede, então, a existência de um olhar comum?
Fisiologicamente, sim. Mas filosoficamente, há uma brecha. Isto é, cada
observador tem seu par de olhos que captam as imagens dos objetos iluminados,
identificando-os cada um em seu cérebro. Porém, pode-se considerar que um olhar seja
também uma maneira de ler o mundo, uma forma de entendê-lo, de se colocar como
observador. Assim, se os dois indivíduos do exemplo seguem as mesmas diretrizes
ideológicas ou religiosas, se foram educados nas mesmas matrizes de pensamento, se
acreditam em valores morais comuns, etc., eles podem enxergar a vida sob um mesmo
prisma, como se usassem óculos semelhantes. Assim, os indivíduos podem alcançar
condições semelhantes de visibilidade e observação, somando-se a isso fatores
individuais como acuidade visual, por exemplo.
Embora pareça um tanto determinista, os diversos modelos de representação –
científico, ideológico, simbólico, religioso... – grosseiramente funcionam como
corredores que levam as pessoas a várias janelas, de onde se olha para o mundo. Seguir
uma crença ou repetir os procedimentos de uma mesma formação profissional podem
redundar numa mesma perspectiva de leitura do mundo (e por conseguinte, de ação
nele) para diferentes indivíduos.
1.3 O olhar jornalístico
“En effet les regards variant en fréquence, dureé et direction
pour un même individu placé dans des contexts situationnels différents,
mas aussi pour plusiers individus placés dans une même situation”
Alain Brossard – La psychologie du regard
Por uma lei da física newtoniana, dois corpos não podem ocupar um mesmo
lugar no espaço, fato que traz como conseqüência, por exemplo, a impossibilidade de
duas pessoas terem a mesma visão de um objeto. Mesmo se postadas lado a lado, suas
perspectivas serão ligeiramente distintas, e é bem possível que, se estes indivíduos se
alternarem no ponto de vista, suas visões não sejam as mesmas. Esta formulação
impede, então, a existência de um olhar comum?
Fisiologicamente, sim. Mas filosoficamente, há uma brecha. Isto é, cada
observador tem seu par de olhos que captam as imagens dos objetos iluminados,
identificando-os cada um em seu cérebro. Porém, pode-se considerar que um olhar seja
também uma maneira de ler o mundo, uma forma de entendê-lo, de se colocar como
observador. Assim, se os dois indivíduos do exemplo seguem as mesmas diretrizes
ideológicas ou religiosas, se foram educados nas mesmas matrizes de pensamento, se
acreditam em valores morais comuns, etc., eles podem enxergar a vida sob um mesmo
prisma, como se usassem óculos semelhantes. Assim, os indivíduos podem alcançar
condições semelhantes de visibilidade e observação, somando-se a isso fatores
individuais como acuidade visual, por exemplo.
Embora pareça um tanto determinista, os diversos modelos de representação –
científico, ideológico, simbólico, religioso... – grosseiramente funcionam como
corredores que levam as pessoas a várias janelas, de onde se olha para o mundo. Seguir
uma crença ou repetir os procedimentos de uma mesma formação profissional podem
redundar numa mesma perspectiva de leitura do mundo (e por conseguinte, de ação
nele) para diferentes indivíduos.
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29
1.3.1 O Jornalismo como campo de saber, fazer e ser
O Jornalismo é uma atividade profissional relativamente recente se se considerar
que seus primódios remetem ao século XVII6. A invenção da imprensa por Gutenberg
em 1456 possibilitou condições tecnológicas que redundaram no surgimento de um
sistema, que mais tarde seria chamado de mediático.
Historicamente, contam-se trezentos anos das primeiras manifestações próximas
ao Jornalismo como o conhecemos hoje7. Neste curto período, ele foi se constituindo
enquanto campo específico de fazer (consolidando uma técnica), de saber (estruturando
uma teoria) e de ser (constituindo uma ética).
De acordo com Didier Hussen e Olivier Robert (1991:162), toda profissão
encoraja um certo conformismo e com o Jornalismo não é diferente. “Fazer carreira
supõe um respeito às regras estabelecidas”. Assim, a fixação destes parâmetros vai
auxiliar na demarcação de um ofício próprio, preenchendo com um espírito comum o
conjunto das atividades profissionais.
No manual Jornalismo para principiantes, Natalício Norberto (1978:13) define
a profissão como o “ofício de escrever, publicar ou dirigir um jornal, departamento de
notícia de emissora de rádio ou de televisão, ou uma assessoria de comunicação social”.
Para o autor, a área demanda dos profissionais nela envolvidos certas qualidades e
qualificações que vão da vocação ao conhecimento técnico (“saber ler e escrever e
outros atributos indispensáveis como saber outras línguas”), passando por dotes físicos
(“boa saúde, bons músculos e bons nervos”) e mentais (“o jornalista precisa de algo
mais que a inteligência”, “o repórter deve ser responsável, persistente, sincero,
imparcial”). Outro atributo mencionado é o que chama de “senso de notícia”:
6 Apesar de a primeira folha periódica impressa sob processo tipográfico – a Relatio Historica – ter sido
lançada em 1583, com publicação semestral, só a partir do século XVII surgem os primeiros jornais diários:
The Tatler (1709-1711) e The Spectator (1711-1712), ambos na Grã-Bretanha.
1.3.1 O Jornalismo como campo de saber, fazer e ser
O Jornalismo é uma atividade profissional relativamente recente se se considerar
que seus primódios remetem ao século XVII6. A invenção da imprensa por Gutenberg
em 1456 possibilitou condições tecnológicas que redundaram no surgimento de um
sistema, que mais tarde seria chamado de mediático.
Historicamente, contam-se trezentos anos das primeiras manifestações próximas
ao Jornalismo como o conhecemos hoje7. Neste curto período, ele foi se constituindo
enquanto campo específico de fazer (consolidando uma técnica), de saber (estruturando
uma teoria) e de ser (constituindo uma ética).
De acordo com Didier Hussen e Olivier Robert (1991:162), toda profissão
encoraja um certo conformismo e com o Jornalismo não é diferente. “Fazer carreira
supõe um respeito às regras estabelecidas”. Assim, a fixação destes parâmetros vai
auxiliar na demarcação de um ofício próprio, preenchendo com um espírito comum o
conjunto das atividades profissionais.
No manual Jornalismo para principiantes, Natalício Norberto (1978:13) define
a profissão como o “ofício de escrever, publicar ou dirigir um jornal, departamento de
notícia de emissora de rádio ou de televisão, ou uma assessoria de comunicação social”.
Para o autor, a área demanda dos profissionais nela envolvidos certas qualidades e
qualificações que vão da vocação ao conhecimento técnico (“saber ler e escrever e
outros atributos indispensáveis como saber outras línguas”), passando por dotes físicos
(“boa saúde, bons músculos e bons nervos”) e mentais (“o jornalista precisa de algo
mais que a inteligência”, “o repórter deve ser responsável, persistente, sincero,
imparcial”). Outro atributo mencionado é o que chama de “senso de notícia”:
6 Apesar de a primeira folha periódica impressa sob processo tipográfico – a Relatio Historica – ter sido
lançada em 1583, com publicação semestral, só a partir do século XVII surgem os primeiros jornais diários:
The Tatler (1709-1711) e The Spectator (1711-1712), ambos na Grã-Bretanha.
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Isso não acontece por motivos de ordem psicológica, como dizem os
manuais. Não é porque o indivíduo está psicologicamente envolvido
com o fato, mas porque toda a forma de conhecimento pressupõe
também um posicionamento do sujeito diante do objeto. Essa é a
razão mais profunda, porque o próprio Jornalismo implica uma visão
ideológica, implica um posicionamento ético e político sobre a
realidade. (31-2)
O posicionamento de Meditsch se aproxima bem das formulações de Javier Del
Rey Morato (1988), para quem se pode pensar numa filosofia da atualidade e daí
considerar que a atualidade é uma ideologia. Conforme aponta, a atualidade é a nossa
circunstância, nossa cultura, nossa sensibilidade. E o critério para tal realidade é o
universo gerado pelos meios de comunicação. É por meio deles que o cidadão
contemporâneo se situa no tempo e no espaço, dimensiona alguns de seus valores,
assenta sua racionalidade. A partir disso se permite dizer que a mídia constrói nossa
consciência de atualidade, que oferece as condições de nossa experiência de mundo para
além de nossos sentidos.
Desta forma, a atualidade é uma ideologia, uma ideologia acontecimental:
Es la actualidad como hábito y como cultura, como sensibilidad y
modo de instalarse en el tiempo y en el espacio – modo de
habérselas com ellos – la que no sólo admite, sino promociona y
privilegia el que los acontecimientos idiosincráticos sean reducidos al
común denominador del ‘human interest’ y de la espectacularidad.
(67)
O sujeito receptor, sob a torrente de informação e parâmetros de real, é quem
confere uma ordem ao mundo, mas para isso, precisa estar sintonizado numa mesma
freqüência dos meios de comunicação. Comungar a mesma ideologia acontecimental.
Para Morato (idem:82), se a ciência persegue a objetividade e se a arte a subjetividade, o
Jornalismo apela para a criação de um lugar de mundo, observado por meio de uma
tecnologia – o tipo e a natureza do veículo de comunicação - e de uma ideologia – a
atualidade.
Isso não acontece por motivos de ordem psicológica, como dizem os
manuais. Não é porque o indivíduo está psicologicamente envolvido
com o fato, mas porque toda a forma de conhecimento pressupõe
também um posicionamento do sujeito diante do objeto. Essa é a
razão mais profunda, porque o próprio Jornalismo implica uma visão
ideológica, implica um posicionamento ético e político sobre a
realidade. (31-2)
O posicionamento de Meditsch se aproxima bem das formulações de Javier Del
Rey Morato (1988), para quem se pode pensar numa filosofia da atualidade e daí
considerar que a atualidade é uma ideologia. Conforme aponta, a atualidade é a nossa
circunstância, nossa cultura, nossa sensibilidade. E o critério para tal realidade é o
universo gerado pelos meios de comunicação. É por meio deles que o cidadão
contemporâneo se situa no tempo e no espaço, dimensiona alguns de seus valores,
assenta sua racionalidade. A partir disso se permite dizer que a mídia constrói nossa
consciência de atualidade, que oferece as condições de nossa experiência de mundo para
além de nossos sentidos.
Desta forma, a atualidade é uma ideologia, uma ideologia acontecimental:
Es la actualidad como hábito y como cultura, como sensibilidad y
modo de instalarse en el tiempo y en el espacio – modo de
habérselas com ellos – la que no sólo admite, sino promociona y
privilegia el que los acontecimientos idiosincráticos sean reducidos al
común denominador del ‘human interest’ y de la espectacularidad.
(67)
O sujeito receptor, sob a torrente de informação e parâmetros de real, é quem
confere uma ordem ao mundo, mas para isso, precisa estar sintonizado numa mesma
freqüência dos meios de comunicação. Comungar a mesma ideologia acontecimental.
Para Morato (idem:82), se a ciência persegue a objetividade e se a arte a subjetividade, o
Jornalismo apela para a criação de um lugar de mundo, observado por meio de uma
tecnologia – o tipo e a natureza do veículo de comunicação - e de uma ideologia – a
atualidade.
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O olhar é uma forma de apreensão da realidade, provoca uma compreensão dos
fenômenos, reúne um conjunto de procedimentos práticos e expressa um traço da
identidade do jornalista. Mas não existe uma homogeneidade neste olhar, uma
perenidade em todas as suas manifestações. Apesar de exercerem o Jornalismo, o
correspondente internacional, o repórter investigativo, o jornalista que trabalha nas
editorias de Geral e de Comportamento tem suas especificidades no ofício de enxergar
notícias. Setoristas vêem com mais rigor que os jornalistas generalistas, porque o foco –
para usar um termo da óptica – é mais preciso, mais recortado.
Um exemplo das diferenças no olhar na imprensa nacional é Ricardo Kotscho,
que já se autodefiniu como o repórter do pipoqueiro: “Enquanto todos cobriam o palco,
eu ficava pela platéia, dando uma espiada nos bastidores” (IN: Dimenstein & Kotscho,
1990: 68). A atenção para fatos periféricos, geralmente considerados acessórios, a
preocupação com as histórias dos anônimos envolvidos, tudo isso faz do olhar deste
repórter uma janela no Jornalismo burocrático.
É Kotscho (1986) quem mesmo diz que o indivíduo que trabalha na área precisa
ter alma de repórter: “o repórter deve estar sempre livre de qualquer preconceito,
qualquer idéia pré-fixada pela pauta ou por ele mesmo. É a sua sensibilidade que vai
determinar o enfoque da matéria” (42).
Talvez alma de repórter, esta sensibilidade para o fato noticiável, seja um outro
nome para o que venho tentando desenhar aqui como olhar no Jornalismo. É preciso, no
entanto, polir melhor esta expressão. Existe um olhar clínico, especial, particular na
apreensão dos estímulos do mundo. Esta modalidade distinta de compreensão provoca
uma série de ações e reações daqueles que olham. Diante disso, é possível que não
exista um olhar de jornalista, mas sim um olhar do Jornalismo, um olhar jornalístico.
O olhar é uma forma de apreensão da realidade, provoca uma compreensão dos
fenômenos, reúne um conjunto de procedimentos práticos e expressa um traço da
identidade do jornalista. Mas não existe uma homogeneidade neste olhar, uma
perenidade em todas as suas manifestações. Apesar de exercerem o Jornalismo, o
correspondente internacional, o repórter investigativo, o jornalista que trabalha nas
editorias de Geral e de Comportamento tem suas especificidades no ofício de enxergar
notícias. Setoristas vêem com mais rigor que os jornalistas generalistas, porque o foco –
para usar um termo da óptica – é mais preciso, mais recortado.
Um exemplo das diferenças no olhar na imprensa nacional é Ricardo Kotscho,
que já se autodefiniu como o repórter do pipoqueiro: “Enquanto todos cobriam o palco,
eu ficava pela platéia, dando uma espiada nos bastidores” (IN: Dimenstein & Kotscho,
1990: 68). A atenção para fatos periféricos, geralmente considerados acessórios, a
preocupação com as histórias dos anônimos envolvidos, tudo isso faz do olhar deste
repórter uma janela no Jornalismo burocrático.
É Kotscho (1986) quem mesmo diz que o indivíduo que trabalha na área precisa
ter alma de repórter: “o repórter deve estar sempre livre de qualquer preconceito,
qualquer idéia pré-fixada pela pauta ou por ele mesmo. É a sua sensibilidade que vai
determinar o enfoque da matéria” (42).
Talvez alma de repórter, esta sensibilidade para o fato noticiável, seja um outro
nome para o que venho tentando desenhar aqui como olhar no Jornalismo. É preciso, no
entanto, polir melhor esta expressão. Existe um olhar clínico, especial, particular na
apreensão dos estímulos do mundo. Esta modalidade distinta de compreensão provoca
uma série de ações e reações daqueles que olham. Diante disso, é possível que não
exista um olhar de jornalista, mas sim um olhar do Jornalismo, um olhar jornalístico.
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No Jornalismo, isso, constantemente, é levado às últimas conseqüências. César
Tralli (2001:22) conta que, numa reportagem sobre uma menina que supostamente
chorava lágrimas de cristal, só acreditou no fato ao assistir a uma demonstração da
adolescente. Tomada de ceticismo, a equipe de televisão queria desmascarar a farsa:
“Afinal, obrigação de repórter é desconfiar sempre de tudo e de todos. Questionar-se a
todo instante sobre o que vê, ouve e apura... Porém, mesmo sendo fiel à cartilha do bom
repórter, só mais tarde eu iria descobrir que fora traído pelos meus próprios olhos”.
Neste caso, o olhar não bastou.
Fernandes (1998:37) revela que o dramaturgo Jorge Andrade comparava o
jornalista à figura mitológica judaica do demônio Asmodeu, aquele que espia dentro dos
outros e de tudo o que está oculto.
Tal qual um Asmodeu moderno, o repórter ao escrever seus textos,
reporta os acontecimentos como processo de revelação de suas
raízes. Um movimento de abrir portas, ver as pessoas por dentro e
mostrar o resultado ao mundo”. De acordo com a autora, a postura
do repórter Asmodeu “implica na possibilidade de assimilar o outro
modo de ‘ver’, espreitar a realidade, a partir do próprio olho” (179).
Como que se reforçasse o dito, o próprio Jorge Andrade, no romance-biografia
Labirinto, vai afirmar: “Ver coisas, ver pessoas na sua diversidade, ver, rever, ver,
rever. O olho armado me dava e continua a me dar força para a vida” (1978:60).
É comum que se reflita sobre o entendimento com base na visão que temos de
tudo, mas é preciso entender que o olhar pode se guiar também pelas demais
sensibilidades humanas. Pode-se dizer – embora pareça contraditório – que o olhar não
se limita à visão. Ele vai mais longe, pois articula conjuntamente os demais sentidos.
Esquadrinhar um modo de ver é importante, fundamental. Mas ele é insuficiente
para realizar um Jornalismo orgânico, apoiado pelas demais extensões do homem, seus
outros sentidos. Todos eles devem estar aguçados, sob controle e com perfeito manejo.
Todos os sentidos no seu maior grau de acuidade, dispostos a responder, ágeis na
No Jornalismo, isso, constantemente, é levado às últimas conseqüências. César
Tralli (2001:22) conta que, numa reportagem sobre uma menina que supostamente
chorava lágrimas de cristal, só acreditou no fato ao assistir a uma demonstração da
adolescente. Tomada de ceticismo, a equipe de televisão queria desmascarar a farsa:
“Afinal, obrigação de repórter é desconfiar sempre de tudo e de todos. Questionar-se a
todo instante sobre o que vê, ouve e apura... Porém, mesmo sendo fiel à cartilha do bom
repórter, só mais tarde eu iria descobrir que fora traído pelos meus próprios olhos”.
Neste caso, o olhar não bastou.
Fernandes (1998:37) revela que o dramaturgo Jorge Andrade comparava o
jornalista à figura mitológica judaica do demônio Asmodeu, aquele que espia dentro dos
outros e de tudo o que está oculto.
Tal qual um Asmodeu moderno, o repórter ao escrever seus textos,
reporta os acontecimentos como processo de revelação de suas
raízes. Um movimento de abrir portas, ver as pessoas por dentro e
mostrar o resultado ao mundo”. De acordo com a autora, a postura
do repórter Asmodeu “implica na possibilidade de assimilar o outro
modo de ‘ver’, espreitar a realidade, a partir do próprio olho” (179).
Como que se reforçasse o dito, o próprio Jorge Andrade, no romance-biografia
Labirinto, vai afirmar: “Ver coisas, ver pessoas na sua diversidade, ver, rever, ver,
rever. O olho armado me dava e continua a me dar força para a vida” (1978:60).
É comum que se reflita sobre o entendimento com base na visão que temos de
tudo, mas é preciso entender que o olhar pode se guiar também pelas demais
sensibilidades humanas. Pode-se dizer – embora pareça contraditório – que o olhar não
se limita à visão. Ele vai mais longe, pois articula conjuntamente os demais sentidos.
Esquadrinhar um modo de ver é importante, fundamental. Mas ele é insuficiente
para realizar um Jornalismo orgânico, apoiado pelas demais extensões do homem, seus
outros sentidos. Todos eles devem estar aguçados, sob controle e com perfeito manejo.
Todos os sentidos no seu maior grau de acuidade, dispostos a responder, ágeis na
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condução dos impulsos, precisos na identificação das causas de seus alertas. A visão
tem que ser abrangente e penetrante, podendo rasgar o espaço, chegar aos objetos,
retornando com a sua indelével imagem, a mais nítida possível. A audição deve ser
aguda, delicada, na possibilidade de pinçar as palavras e os sons na sua inteireza. Fino
deve ser o faro, limpo de incertezas, captando a atmosfera das cenas e das pessoas,
desviando-se das artificialidades. O toque deve ser ameno e perscrutador, tateante da
natureza das coisas, do seu volume, espessura, temperatura e rugosidade. As papilas
gustativas, por sua vez, estarão preenchidas com intensa memória e precisão, com
clareza e certeza no paladar.
O olhar jornalístico não pode se estreitar a ser apenas o olhar, a visão. É
necessário recorrer a uma epistemologia dos sentidos, uma compreensão de que estas
células de apreensão de signos funcionem combinadas, articuladas. É importante frisar
que não estou atrás de uma percepção integral, totalizante, com a qual me perderia na
armadilha determinista. Mas sim enfatizo a necessidade de conjugar os sentidos
humanos para ampliar a captação dos estímulos externos e facilitar a conexão sujeito-
objeto, tão necessária nos processos cognitivos. Com isso, o olhar jornalístico não se
estrutura apenas na visão, mas ganha também com as informações que os demais
sentidos recolhem do mundo.
Dessa forma, uma epistemologia dos sentidos prevê como se configuram os
saberes próprios do campo jornalístico, condicionados pela construção de uma visão
específica, mediados por todos os sentidos. Tal visão ímpar não pode estar associada
apenas ao sentido dos olhos, mas amparado pelos demais, na consolidação de uma
sensibilidade treinada para a apreensão do que pode ser noticiável. Todos os sentidos
estão presentes na lida cotidiana: ouvir bem e captar as palavras impronunciáveis são
fundamentais para o trabalho jornalístico; farejar os fatos, seguir os odores dos
condução dos impulsos, precisos na identificação das causas de seus alertas. A visão
tem que ser abrangente e penetrante, podendo rasgar o espaço, chegar aos objetos,
retornando com a sua indelével imagem, a mais nítida possível. A audição deve ser
aguda, delicada, na possibilidade de pinçar as palavras e os sons na sua inteireza. Fino
deve ser o faro, limpo de incertezas, captando a atmosfera das cenas e das pessoas,
desviando-se das artificialidades. O toque deve ser ameno e perscrutador, tateante da
natureza das coisas, do seu volume, espessura, temperatura e rugosidade. As papilas
gustativas, por sua vez, estarão preenchidas com intensa memória e precisão, com
clareza e certeza no paladar.
O olhar jornalístico não pode se estreitar a ser apenas o olhar, a visão. É
necessário recorrer a uma epistemologia dos sentidos, uma compreensão de que estas
células de apreensão de signos funcionem combinadas, articuladas. É importante frisar
que não estou atrás de uma percepção integral, totalizante, com a qual me perderia na
armadilha determinista. Mas sim enfatizo a necessidade de conjugar os sentidos
humanos para ampliar a captação dos estímulos externos e facilitar a conexão sujeito-
objeto, tão necessária nos processos cognitivos. Com isso, o olhar jornalístico não se
estrutura apenas na visão, mas ganha também com as informações que os demais
sentidos recolhem do mundo.
Dessa forma, uma epistemologia dos sentidos prevê como se configuram os
saberes próprios do campo jornalístico, condicionados pela construção de uma visão
específica, mediados por todos os sentidos. Tal visão ímpar não pode estar associada
apenas ao sentido dos olhos, mas amparado pelos demais, na consolidação de uma
sensibilidade treinada para a apreensão do que pode ser noticiável. Todos os sentidos
estão presentes na lida cotidiana: ouvir bem e captar as palavras impronunciáveis são
fundamentais para o trabalho jornalístico; farejar os fatos, seguir os odores dos
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O nosso cego se dirige pelo ruído e pela voz tão seguramente que
não duvido que um tal exercício tornasse os cegos muito destros e
muito perigosos. (6)
Se alguma vez um filósofo cego e surdo de nascença fizer um
homem à imitação do de Descartes, ouso assegurar-vos, senhora,
que colocará a alma na ponta dos dedos; pois é dali que lhe vêm as
principais sensações, e todos os conhecimentos. (10)
Diderot chama a atenção para uma educação dos sentidos. Assim, é preciso
educar o olhar, educar os ouvidos, sensibilizar as pontas dos dedos para tatear melhor...
Um sentido pode ajudar o outro a se aperfeiçoar, aumentando sua acuidade, sua
habilidade, mas não há dependência essencial de suas funções, embora sirvam-se
complementarmente.
Num trecho de A Caverna15, José Saramago descreve o trabalho de um velho
escultor sobre a argila. Seus dedos experientes tocam a matéria bruta com intensa
sensibilidade, como se vissem o barro de perto, como se nas suas pontas estivesse seu
cérebro. A passagem é ilustrativa disso que vejo como uma conjugação dos sentidos
para uma compreensão de algo maior.
Quando me remeto a um olhar clínico do Jornalismo, quero me referir a uma
maneira particular de receber o mundo, compreendê-lo e demandar ações de resposta.
Um olhar é um entendimento, e não apenas a captação de uma imagem pelos faróis
dos olhos. Este olhar não se resume a uma visão, mas também tem o suporte dos
demais sentidos humanos, já que esta profissão depende deles no seu dia-a-dia16. O
olhar jornalístico é um complexo sensorial que articula os cinco sentidos humanos
na busca de sentidos (significados) apreensíveis. Incompleto por natureza e
imperfeito por definição, este olhar enfrenta resistências e sombras para tocar a
superfície das cenas e das coisas, e interpretar nelas sentidos. O jornalista vive entre
15 São Paulo: Cia das Letras, 2000.
O nosso cego se dirige pelo ruído e pela voz tão seguramente que
não duvido que um tal exercício tornasse os cegos muito destros e
muito perigosos. (6)
Se alguma vez um filósofo cego e surdo de nascença fizer um
homem à imitação do de Descartes, ouso assegurar-vos, senhora,
que colocará a alma na ponta dos dedos; pois é dali que lhe vêm as
principais sensações, e todos os conhecimentos. (10)
Diderot chama a atenção para uma educação dos sentidos. Assim, é preciso
educar o olhar, educar os ouvidos, sensibilizar as pontas dos dedos para tatear melhor...
Um sentido pode ajudar o outro a se aperfeiçoar, aumentando sua acuidade, sua
habilidade, mas não há dependência essencial de suas funções, embora sirvam-se
complementarmente.
Num trecho de A Caverna15, José Saramago descreve o trabalho de um velho
escultor sobre a argila. Seus dedos experientes tocam a matéria bruta com intensa
sensibilidade, como se vissem o barro de perto, como se nas suas pontas estivesse seu
cérebro. A passagem é ilustrativa disso que vejo como uma conjugação dos sentidos
para uma compreensão de algo maior.
Quando me remeto a um olhar clínico do Jornalismo, quero me referir a uma
maneira particular de receber o mundo, compreendê-lo e demandar ações de resposta.
Um olhar é um entendimento, e não apenas a captação de uma imagem pelos faróis
dos olhos. Este olhar não se resume a uma visão, mas também tem o suporte dos
demais sentidos humanos, já que esta profissão depende deles no seu dia-a-dia16. O
olhar jornalístico é um complexo sensorial que articula os cinco sentidos humanos
na busca de sentidos (significados) apreensíveis. Incompleto por natureza e
imperfeito por definição, este olhar enfrenta resistências e sombras para tocar a
superfície das cenas e das coisas, e interpretar nelas sentidos. O jornalista vive entre
15 São Paulo: Cia das Letras, 2000.
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desta visão. A fotografia imita o olhar humano nesta mesma conversão, mas o faz com
maior ênfase: pois congela o momento, corporifica a cena, coisifica os sujeitos, tirando
a sua dimensão viva e consciente.
Michel Foucault (1980) já disse que o olhar clínico tem uma propriedade
paradoxal de ouvir uma linguagem no instante em que percebe um espetáculo. A
fotografia é um olhar com córneas mecânicas, preocupado com o alargamento do
presente, com a sua distensão.
Dois processos – um físico e outro químico – permitem o registro do instante, a
permanência histórica de um segundo. Primeiro, a luz ilumina os corpos e permite que
sejam refletidos numa superfície receptora. Depois, uma solução de nitrato de prata –
quimicamente sensível à incidência de luz – reage num suporte plástico (o filme)
gravando os corpos captados pela lente. É o desenvolvimento tecnológico que
possibilita a manutenção de um instante. E a história da fotografia, de alguma forma,
acaba perturbando a forma humana de ver18: ela “é capaz de ver tudo - a verdadeira
retina do cientista, segundo o astrônomo Jules Jansen –, ela é dotada de uma missão
documentária” (idem: 28, volume 2), ferramenta ideal para um inventário do planeta.
Assim, ao se deparar com retratos de Henri Cartier-Bresson, por exemplo, pode-
se dizer que é perceptível ali uma certa mania de ver, de “restabelecer um sentido que
escapa pela metade, de encontrar oportunamente na ocultação do olhar, numa figura
anônima e imprecisa, um retorno a sua própria inquietude” (idem: 16, volume 3). Ou
ainda que o fotojornalismo de Robert Capa é “uma maneira de viver e uma forma de
escritura, mais incisiva que um relato, uma instintiva ‘prolongação do espírito e do
coração’” (idem: 24, volume 3). A fotografia é a manutenção do ver, leitura do mundo.
18 Conforme Robert Delpne e Michel Frizot no volume 1, página 5, da coleção Histoire de Voir (1989)
desta visão. A fotografia imita o olhar humano nesta mesma conversão, mas o faz com
maior ênfase: pois congela o momento, corporifica a cena, coisifica os sujeitos, tirando
a sua dimensão viva e consciente.
Michel Foucault (1980) já disse que o olhar clínico tem uma propriedade
paradoxal de ouvir uma linguagem no instante em que percebe um espetáculo. A
fotografia é um olhar com córneas mecânicas, preocupado com o alargamento do
presente, com a sua distensão.
Dois processos – um físico e outro químico – permitem o registro do instante, a
permanência histórica de um segundo. Primeiro, a luz ilumina os corpos e permite que
sejam refletidos numa superfície receptora. Depois, uma solução de nitrato de prata –
quimicamente sensível à incidência de luz – reage num suporte plástico (o filme)
gravando os corpos captados pela lente. É o desenvolvimento tecnológico que
possibilita a manutenção de um instante. E a história da fotografia, de alguma forma,
acaba perturbando a forma humana de ver18: ela “é capaz de ver tudo - a verdadeira
retina do cientista, segundo o astrônomo Jules Jansen –, ela é dotada de uma missão
documentária” (idem: 28, volume 2), ferramenta ideal para um inventário do planeta.
Assim, ao se deparar com retratos de Henri Cartier-Bresson, por exemplo, pode-
se dizer que é perceptível ali uma certa mania de ver, de “restabelecer um sentido que
escapa pela metade, de encontrar oportunamente na ocultação do olhar, numa figura
anônima e imprecisa, um retorno a sua própria inquietude” (idem: 16, volume 3). Ou
ainda que o fotojornalismo de Robert Capa é “uma maneira de viver e uma forma de
escritura, mais incisiva que um relato, uma instintiva ‘prolongação do espírito e do
coração’” (idem: 24, volume 3). A fotografia é a manutenção do ver, leitura do mundo.
18 Conforme Robert Delpne e Michel Frizot no volume 1, página 5, da coleção Histoire de Voir (1989)
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Este ler-o-mundo carrega consigo o peso da responsabilidade, o que acarreta
comprometimentos éticos20. A presença do olhar pressupõe uma subjetividade ativa, que
dispara o olhar para o exterior. No campo jornalístico, mais cara que a subjetividade é a
objetividade, esta faculdade de tornar tudo o que o olhar toca em coisa, objeto.
20 De forma alegórica, José Saramago (1995) mostra isso no seu Ensaio sobre a cegueira, quando coloca
alguém que enxerga perfeitamente no meio de uma multidão de cegos. A mulher do oftalmologista – ironia!
– convive com os acometidos pela “treva branca”. Só ela vê, mas ninguém sabe disso. Mesmo assim, ela
guia sua vida por uma “responsabilidade de ter olhos quando os outros os perderam”.
Este ler-o-mundo carrega consigo o peso da responsabilidade, o que acarreta
comprometimentos éticos20. A presença do olhar pressupõe uma subjetividade ativa, que
dispara o olhar para o exterior. No campo jornalístico, mais cara que a subjetividade é a
objetividade, esta faculdade de tornar tudo o que o olhar toca em coisa, objeto.
20 De forma alegórica, José Saramago (1995) mostra isso no seu Ensaio sobre a cegueira, quando coloca
alguém que enxerga perfeitamente no meio de uma multidão de cegos. A mulher do oftalmologista – ironia!
– convive com os acometidos pela “treva branca”. Só ela vê, mas ninguém sabe disso. Mesmo assim, ela
guia sua vida por uma “responsabilidade de ter olhos quando os outros os perderam”.
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CAPÍTULO 2
A objetividade
2.1 Uma idéia em cinco séculos
“...isso que a você parece uma bacia de barbeiro,
para mim é o elmo de Manbrino, e a outro parecerá outra coisa...”
Miguel de Cervantes - O engenhoso fidalgo Dom Quixote de La Mancha
gudos, os olhos seguem o vulto pela relva. Dom Quixote avista um cavaleiro
portando o almejado elmo de Manbrino, reluzindo a ouro. O fidalgo ordena
que se defenda e, num átimo, investe sobre o oponente que sequer esboça
reação. Quando o cavaleiro se levanta do chão não se mostra tão vultoso quanto antes: é
apenas o que sobrou de um simples barbeiro. Dom Quixote toma-lhe o elmo e segue seu
caminho, ignorando as objeções de Sancho Pança. Mais tarde, numa taverna – que o
fidalgo julga ser um castelo – Dom Quixote discute com o escudeiro e outros
acompanhantes. Eles teimam em dizer que o elmo não passa de uma bacia de barbeiro,
mas – sagaz – o fidalgo adverte que ali naquele castelo, tudo se dá de forma
encantatória e todos se deixam confundir por ilusões.
Se um pedaço retorcido de metal pode ser ao mesmo tempo um admirável
capacete e um recipiente ordinário, um conceito como o de objetividade pode se
sustentar nesta ambigüidade? Onde mora a objetividade quando as visões se
multiplicam, e com elas os objetos vistos?
O trecho da obra de Cervantes ilustra com clareza o problema que se tem diante
dos olhos: A objetividade é possível? Como ela se dá? Em que nível? Sob quais
condições? Quem a exerce? E no que ela se apóia para vigorar?
É evidente que o problema da objetividade não é recente, mas o que se percebe é
que nos últimos cinco séculos a sua discussão não só se alargou como também ganhou
profundidade no meio daqueles que se aventuram a enfrentá-la. Muito arbitrariamente,
A
CAPÍTULO 2
A objetividade
2.1 Uma idéia em cinco séculos
“...isso que a você parece uma bacia de barbeiro,
para mim é o elmo de Manbrino, e a outro parecerá outra coisa...”
Miguel de Cervantes - O engenhoso fidalgo Dom Quixote de La Mancha
gudos, os olhos seguem o vulto pela relva. Dom Quixote avista um cavaleiro
portando o almejado elmo de Manbrino, reluzindo a ouro. O fidalgo ordena
que se defenda e, num átimo, investe sobre o oponente que sequer esboça
reação. Quando o cavaleiro se levanta do chão não se mostra tão vultoso quanto antes: é
apenas o que sobrou de um simples barbeiro. Dom Quixote toma-lhe o elmo e segue seu
caminho, ignorando as objeções de Sancho Pança. Mais tarde, numa taverna – que o
fidalgo julga ser um castelo – Dom Quixote discute com o escudeiro e outros
acompanhantes. Eles teimam em dizer que o elmo não passa de uma bacia de barbeiro,
mas – sagaz – o fidalgo adverte que ali naquele castelo, tudo se dá de forma
encantatória e todos se deixam confundir por ilusões.
Se um pedaço retorcido de metal pode ser ao mesmo tempo um admirável
capacete e um recipiente ordinário, um conceito como o de objetividade pode se
sustentar nesta ambigüidade? Onde mora a objetividade quando as visões se
multiplicam, e com elas os objetos vistos?
O trecho da obra de Cervantes ilustra com clareza o problema que se tem diante
dos olhos: A objetividade é possível? Como ela se dá? Em que nível? Sob quais
condições? Quem a exerce? E no que ela se apóia para vigorar?
É evidente que o problema da objetividade não é recente, mas o que se percebe é
que nos últimos cinco séculos a sua discussão não só se alargou como também ganhou
profundidade no meio daqueles que se aventuram a enfrentá-la. Muito arbitrariamente,
A
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Lalande (1999:747) complementa dizendo que a objetividade é a característica
do que é objetivo, especialmente “atitude, disposição de espírito daquele que ‘vê as
coisas como elas são’, que não as deforma nem por estreiteza de espírito nem por
parcialidade”. Mas o que é objetivo?
O termo “objetivo” é usado em diversas acepções: refere-se àquilo que é
independente do sujeito, que é externo em relação à consciência ou pensamento e àquilo
que é válido para todos. É a partir de Kant que estes sentidos se configuram, já que é o
filósofo alemão quem determina que o objeto do conhecimento é real ou empiricamente
dado. Assim, algo objetivo é algo empiricamente real, isto é, existe enquanto
consciência comum e vale para todos os sujeitos pensantes, não só para um deles.
Então, em síntese, objetivo se opõe a subjetivo, está fora de uma consciência particular
e tem validade universal. O que significa dizer que não depende de preferências e
avaliações pessoais, juízos e gostos particulares. Objetivo para Kant é o próprio
fundamento do acordo dos espíritos, é aquilo que é em si no nosso espírito e em
qualquer outro.
Diante dos diversos sentidos para o termo “objetivo”, Lalande (op.cit: 753)
propõe que se utilize apenas o significado que aponta a oposição entre subjetivo e
objetivo nos termos de particularidade e universalidade. Isto é, objetivos são as idéias e
conceitos válidos para todos os sujeitos e não apenas para um. “Esta oposição é precisa,
central, conforme ao uso dos historiadores e cientistas; ela permite distinguir o subjetivo
do objetivo, na maior parte dos casos, por um critério experiencial incontestado”. Para o
autor, esta acepção do termo contém ainda – mesmo que em potência, virtualmente -
“tudo o que há de sólido nas outras distinções às quais estas palavras foram aplicadas”.
Essa validação universal é que pode garantir que uma coisa, um conceito ou uma
afirmação sejam objetivos e não subjetivos. Isto é, a objetividade nasce de um consenso
Lalande (1999:747) complementa dizendo que a objetividade é a característica
do que é objetivo, especialmente “atitude, disposição de espírito daquele que ‘vê as
coisas como elas são’, que não as deforma nem por estreiteza de espírito nem por
parcialidade”. Mas o que é objetivo?
O termo “objetivo” é usado em diversas acepções: refere-se àquilo que é
independente do sujeito, que é externo em relação à consciência ou pensamento e àquilo
que é válido para todos. É a partir de Kant que estes sentidos se configuram, já que é o
filósofo alemão quem determina que o objeto do conhecimento é real ou empiricamente
dado. Assim, algo objetivo é algo empiricamente real, isto é, existe enquanto
consciência comum e vale para todos os sujeitos pensantes, não só para um deles.
Então, em síntese, objetivo se opõe a subjetivo, está fora de uma consciência particular
e tem validade universal. O que significa dizer que não depende de preferências e
avaliações pessoais, juízos e gostos particulares. Objetivo para Kant é o próprio
fundamento do acordo dos espíritos, é aquilo que é em si no nosso espírito e em
qualquer outro.
Diante dos diversos sentidos para o termo “objetivo”, Lalande (op.cit: 753)
propõe que se utilize apenas o significado que aponta a oposição entre subjetivo e
objetivo nos termos de particularidade e universalidade. Isto é, objetivos são as idéias e
conceitos válidos para todos os sujeitos e não apenas para um. “Esta oposição é precisa,
central, conforme ao uso dos historiadores e cientistas; ela permite distinguir o subjetivo
do objetivo, na maior parte dos casos, por um critério experiencial incontestado”. Para o
autor, esta acepção do termo contém ainda – mesmo que em potência, virtualmente -
“tudo o que há de sólido nas outras distinções às quais estas palavras foram aplicadas”.
Essa validação universal é que pode garantir que uma coisa, um conceito ou uma
afirmação sejam objetivos e não subjetivos. Isto é, a objetividade nasce de um consenso
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objetivista é que “o modo tradicional ocidental metafísico-epistemológico de cristalizar
nossos hábitos simplesmente não está mais se efetivando, não está cumprindo sua
tarefa”.
Voltando-se para a construção do conhecimento humano, o filósofo norte-
americano denuncia o que considera alguns mal entendidos. O primeiro deles é a
identificação comum de que buscar uma verdade objetiva é usar a razão, e por isso, as
ciências naturais sejam consideradas modelos de racionalidade. Segundo: ter este
parâmetro de racionalidade requer que se pense em metodismo, em apego aos rigores
metodológicos. Com isso, tomam-se como sinônimos os termos “racional”, “objetivo”e
“científico”. Rorty reage a isso, explicando que os pragmáticos substituem questões
como “a objetividade dos valores” por questões práticas sobre a conveniência (ou não)
da conservação desses valores, por exemplo.
Ainda para os pragmáticos, a investigação – científica, inclusive - consiste na
“obtenção de uma mistura apropriada de concordância não-forçada com discordância
tolerante (onde o que conta como apropriado está determinado no interior dessa esfera
por tentativa e erro)” (63). Ligeiramente otimista, Richard Rorty acredita que, se
houvesse uma adesão aos pressupostos pragmatistas, muito possivelmente dissolveriam-
se as fronteiras entre as ciências, fazendo com que o cientista modificasse também o seu
papel e com que o meio científico fosse mais leal às comunidades. Neste sentido, a
objetividade seria deixada de lado e seria fundada uma ciência solidária.
Uma visão como essa estimula uma breve discussão do lugar da objetividade na
ciência...
primeiro tomo dos escritos filosóficos do autor publicado no Brasil: Objetivismo, relativismo e verdade (Rio de
Janeiro: Relume-Dumará, 1997). Kuhn, Foucault, Feyerabend podem também ser considerados “relativistas”.
objetivista é que “o modo tradicional ocidental metafísico-epistemológico de cristalizar
nossos hábitos simplesmente não está mais se efetivando, não está cumprindo sua
tarefa”.
Voltando-se para a construção do conhecimento humano, o filósofo norte-
americano denuncia o que considera alguns mal entendidos. O primeiro deles é a
identificação comum de que buscar uma verdade objetiva é usar a razão, e por isso, as
ciências naturais sejam consideradas modelos de racionalidade. Segundo: ter este
parâmetro de racionalidade requer que se pense em metodismo, em apego aos rigores
metodológicos. Com isso, tomam-se como sinônimos os termos “racional”, “objetivo”e
“científico”. Rorty reage a isso, explicando que os pragmáticos substituem questões
como “a objetividade dos valores” por questões práticas sobre a conveniência (ou não)
da conservação desses valores, por exemplo.
Ainda para os pragmáticos, a investigação – científica, inclusive - consiste na
“obtenção de uma mistura apropriada de concordância não-forçada com discordância
tolerante (onde o que conta como apropriado está determinado no interior dessa esfera
por tentativa e erro)” (63). Ligeiramente otimista, Richard Rorty acredita que, se
houvesse uma adesão aos pressupostos pragmatistas, muito possivelmente dissolveriam-
se as fronteiras entre as ciências, fazendo com que o cientista modificasse também o seu
papel e com que o meio científico fosse mais leal às comunidades. Neste sentido, a
objetividade seria deixada de lado e seria fundada uma ciência solidária.
Uma visão como essa estimula uma breve discussão do lugar da objetividade na
ciência...
primeiro tomo dos escritos filosóficos do autor publicado no Brasil: Objetivismo, relativismo e verdade (Rio de
Janeiro: Relume-Dumará, 1997). Kuhn, Foucault, Feyerabend podem também ser considerados “relativistas”.
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necessariamente numa divisão equânime das conquistas científicas entre as diferentes
populações no planeta.
Durante séculos, certezas foram construídas sobre os alicerces do conhecimento
acumulado. Estruturas poderosas se edificaram sobre os saberes engendrados por
homens e mulheres nas mais diferentes latitudes. Mas de uns tempos para cá, vêm sendo
percebidos alguns sintomas de que algo não corria totalmente bem: embora a ciência se
desenvolvesse, muitos dos seus frutos não eram revertidos para toda a humanidade,
destino daqueles esforços. Mais ainda: alguns dos resultados colhidos não traziam
apenas benefícios à vida humana. O projeto iluminista parecia falido...
Aranha & Martins afirmam que as ciências naturais “aspiram à objetividade, que
consiste na descentração do eu no processo de conhecer: na capacidade de lançar
hipóteses verificáveis por todos, fornecendo instrumentos de controle; e na descentração
das emoções e da própria subjetividade do cientista” (1986: 187). Mas as próprias
autoras se flagram, questionando: O que acontece quando o sujeito do conhecimento é
da mesma natureza do objeto conhecido? (Como estudar a felicidade, o medo, as
emoções humanas se são humanos os pesquisadores? De que forma pode-se colocar os
cientistas mergulhados nos ambientes que configuram seus objetos de estudo?) Neste
caso, o propalado descentramento do eu pode não vir a acontecer, o que compromete
algum pilar importante da equação racionalista.
Entretanto, as fraturas na concepção da ciência e do conhecimento se dão de
outras formas também. Como, por exemplo, quando os modelos científicos dados como
totalizantes e universais não dão conta de certos fenômenos26 ou quando as regras
constituintes do modelo vigente são contraditas27. Num primeiro momento, estes
26 A insuficiência da mecânica de Newton abriu brecha para o surgimento da teoria da relatividade e da
física quântica...
27 É o caso do princípio da incerteza de Heisenberg que se contrapõe à exatidão e mesmo do princípio da
complementaridade de Bohr, que torna mais ambígua ainda a teoria quântica.
necessariamente numa divisão equânime das conquistas científicas entre as diferentes
populações no planeta.
Durante séculos, certezas foram construídas sobre os alicerces do conhecimento
acumulado. Estruturas poderosas se edificaram sobre os saberes engendrados por
homens e mulheres nas mais diferentes latitudes. Mas de uns tempos para cá, vêm sendo
percebidos alguns sintomas de que algo não corria totalmente bem: embora a ciência se
desenvolvesse, muitos dos seus frutos não eram revertidos para toda a humanidade,
destino daqueles esforços. Mais ainda: alguns dos resultados colhidos não traziam
apenas benefícios à vida humana. O projeto iluminista parecia falido...
Aranha & Martins afirmam que as ciências naturais “aspiram à objetividade, que
consiste na descentração do eu no processo de conhecer: na capacidade de lançar
hipóteses verificáveis por todos, fornecendo instrumentos de controle; e na descentração
das emoções e da própria subjetividade do cientista” (1986: 187). Mas as próprias
autoras se flagram, questionando: O que acontece quando o sujeito do conhecimento é
da mesma natureza do objeto conhecido? (Como estudar a felicidade, o medo, as
emoções humanas se são humanos os pesquisadores? De que forma pode-se colocar os
cientistas mergulhados nos ambientes que configuram seus objetos de estudo?) Neste
caso, o propalado descentramento do eu pode não vir a acontecer, o que compromete
algum pilar importante da equação racionalista.
Entretanto, as fraturas na concepção da ciência e do conhecimento se dão de
outras formas também. Como, por exemplo, quando os modelos científicos dados como
totalizantes e universais não dão conta de certos fenômenos26 ou quando as regras
constituintes do modelo vigente são contraditas27. Num primeiro momento, estes
26 A insuficiência da mecânica de Newton abriu brecha para o surgimento da teoria da relatividade e da
física quântica...
27 É o caso do princípio da incerteza de Heisenberg que se contrapõe à exatidão e mesmo do princípio da
complementaridade de Bohr, que torna mais ambígua ainda a teoria quântica.
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localizadas em suas épocas, por isso, encara com naturalidade o determinismo científico
de certas eras. Atualmente, isso já não é mais aceitável, porém a ciência mantém uma
posição estratégica na construção de uma nova coerência humana.
Segundo Prigogine, a ciência é um empreendimento coletivo, e a solução de um
problema científico deve satisfazer exigências e critérios rigorosos para ser aceito pela
comunidade pesquisadora e mesmo pelas sociedades. O rigor e a seriedade não
eliminam a criatividade, frisa o químico russo, apenas desafiam o seu exercício na busca
humana pelo conhecimento. A ciência se preocupa com regras explicativas do
funcionamento do universo, apesar delas não governarem o mundo, afirma. Tampouco
ele é regido pelo acaso.
O acaso puro é tanto uma negação da realidade e de nossa
exigência de compreender o mundo quanto o determinismo o é. O
que procuramos construir é um caminho estreito entre essas duas
concepções que levam igualmente à alienação, a de um mundo
regido por leis que não deixam nenhum lugar para a novidade, e a
de um mundo absurdo, acausal, onde nada pode ser previsto nem
descrito em termos gerais. (197-8)
A posição do químico não resolve a questão, mas pontua uma natureza e um
destino bem distintos para a ciência.
localizadas em suas épocas, por isso, encara com naturalidade o determinismo científico
de certas eras. Atualmente, isso já não é mais aceitável, porém a ciência mantém uma
posição estratégica na construção de uma nova coerência humana.
Segundo Prigogine, a ciência é um empreendimento coletivo, e a solução de um
problema científico deve satisfazer exigências e critérios rigorosos para ser aceito pela
comunidade pesquisadora e mesmo pelas sociedades. O rigor e a seriedade não
eliminam a criatividade, frisa o químico russo, apenas desafiam o seu exercício na busca
humana pelo conhecimento. A ciência se preocupa com regras explicativas do
funcionamento do universo, apesar delas não governarem o mundo, afirma. Tampouco
ele é regido pelo acaso.
O acaso puro é tanto uma negação da realidade e de nossa
exigência de compreender o mundo quanto o determinismo o é. O
que procuramos construir é um caminho estreito entre essas duas
concepções que levam igualmente à alienação, a de um mundo
regido por leis que não deixam nenhum lugar para a novidade, e a
de um mundo absurdo, acausal, onde nada pode ser previsto nem
descrito em termos gerais. (197-8)
A posição do químico não resolve a questão, mas pontua uma natureza e um
destino bem distintos para a ciência.
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2.1.3 Como o Jornalismo emprega a idéia
“Até onde o repórter tem de ser objetivo
perante a fonte de informação? Repeti,
não sei quantas centenas de vezes,
que a objetividade jornalística é uma balela
mas aproximar-se dela é dever do profissional”
Caio Túlio Costa - O Relógio de Pascal
Atividade profissional que se infiltra nas demais esferas humanas, o Jornalismo
tem como um dos seus pilares de sustentação o dogma da objetividade. Estabelecido
como um padrão técnico de conduta ou como imperativo ético, a objetividade se revela
como um dos nós constituintes da profissão, sendo, inclusive, questionada. (A exemplo
do que acontece com outros aspectos).
De maneira geral, no Jornalismo, o conceito de objetividade não destoa dos
sentidos usados em outras áreas. São apenas as condições de articulação entre
jornalistas e fatos, cenas e personagens que vão determinar uma constituição exclusiva
de objetividade, a jornalística. Para os profissionais da informação, ser objetivo é
informar sem emoções, é mostrar-se desapaixonado no relato dos fatos, é empregar
citações diretas; jornalisticamente, ser objetivo é citar fontes contraditórias, buscar a
pluralidade e tentar selecionar palavras neutras para descrever o contexto. Portanto,
requer distanciamento das pessoas, das circunstâncias que compõem o fato, das versões
a ele ligadas. Requer não envolvimento com as partes, proximidade e engajamento.
Pressupõe equilíbrio, dispensa a parcialidade no relato, espera o mínimo contato
possível com os objetos do relato. Desta forma, devem ficar muito bem nítidas e
estabelecidas as fronteiras que separam comentários e opiniões dos relatos informativos,
pretendidos com isenção de qualquer traço de subjetividade.
O discurso que dá base e legitimidade a este padrão de conduta muito se
aproxima do campo científico na área da saúde: o jornalista não pode se contaminar
com as versões que dão conta do fato. Deve descrevê-lo, assepticamente, de forma a não
2.1.3 Como o Jornalismo emprega a idéia
“Até onde o repórter tem de ser objetivo
perante a fonte de informação? Repeti,
não sei quantas centenas de vezes,
que a objetividade jornalística é uma balela
mas aproximar-se dela é dever do profissional”
Caio Túlio Costa - O Relógio de Pascal
Atividade profissional que se infiltra nas demais esferas humanas, o Jornalismo
tem como um dos seus pilares de sustentação o dogma da objetividade. Estabelecido
como um padrão técnico de conduta ou como imperativo ético, a objetividade se revela
como um dos nós constituintes da profissão, sendo, inclusive, questionada. (A exemplo
do que acontece com outros aspectos).
De maneira geral, no Jornalismo, o conceito de objetividade não destoa dos
sentidos usados em outras áreas. São apenas as condições de articulação entre
jornalistas e fatos, cenas e personagens que vão determinar uma constituição exclusiva
de objetividade, a jornalística. Para os profissionais da informação, ser objetivo é
informar sem emoções, é mostrar-se desapaixonado no relato dos fatos, é empregar
citações diretas; jornalisticamente, ser objetivo é citar fontes contraditórias, buscar a
pluralidade e tentar selecionar palavras neutras para descrever o contexto. Portanto,
requer distanciamento das pessoas, das circunstâncias que compõem o fato, das versões
a ele ligadas. Requer não envolvimento com as partes, proximidade e engajamento.
Pressupõe equilíbrio, dispensa a parcialidade no relato, espera o mínimo contato
possível com os objetos do relato. Desta forma, devem ficar muito bem nítidas e
estabelecidas as fronteiras que separam comentários e opiniões dos relatos informativos,
pretendidos com isenção de qualquer traço de subjetividade.
O discurso que dá base e legitimidade a este padrão de conduta muito se
aproxima do campo científico na área da saúde: o jornalista não pode se contaminar
com as versões que dão conta do fato. Deve descrevê-lo, assepticamente, de forma a não
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Nas redações brasileiras, o conceito não só é discutido, como também
normatizado. Nos quatro principais manuais de estilo, as gramáticas jornalísticas, a
objetividade é mencionada, definida e tem seus tentáculos medidos. Patrícia Patrício
(2002) fez um levantamento das ocorrências do conceito nestes manuais e observou as
contradições irreconciliáveis neles contidas. Sem contar a divergência entre os
entendimentos dos diversos grupos de comunicação para o conceito. Em O Globo, por
exemplo, o relato deve ser “absolutamente isento” mesmo o jornal reconhecendo que a
isenção não pode ser absoluta; no manual de O Estado de S.Paulo, entende-se que a
interpretação passa pela subjetividade, mas apesar disso, o jornalista deve ter um
“respeito religioso à verdade”; nos veículos da Editora Abril, é pedido o relato de uma
verdade estetizada e o estilo deve ter como marca o “bom senso”, o “bom gosto” (mais
objetivo impossível!); a Folha de S.Paulo prega o apartidarismo, a neutralidade, a
objetividade e o pluralismo, naquilo que convencionou chamar de “ouvir o outro lado”.
Observadas as distâncias de lado a lado, fica a impressão de intensa nebulosidade
quanto ao conceito, a sua aplicabilidade e a sua eficácia. Lidos em conjunto, os manuais
mais confundem que esclarecem.
No Jornalismo, a objetividade se apresenta não só como padrão técnico de
conduta e como imperativo ético, mas também enquanto mistificação. Neste caso, pelas
mãos e línguas dos que desacreditam na viabilidade de uma objetividade plena no
exercício da profissão. Elcias Lustosa (1996) é um dos exemplos dessa vertente. Sua
crítica é voltada à imparcialidade, que julga impossível de ser obtida na medida em que
o Jornalismo é uma atividade humana, que seleciona fatos, relata acontecimentos de
uma dada perspectiva. Assim, embora se pregue a isenção, ela não se verifica na prática,
o que provoca um descolamento entre discurso profissional e ação cotidiana.
onde apenas um terço dos trainees e redatores de jornais consideravam que conseguiam ter em “seu
trabalho diário informações objetivas e isentas de valores” (228)
Nas redações brasileiras, o conceito não só é discutido, como também
normatizado. Nos quatro principais manuais de estilo, as gramáticas jornalísticas, a
objetividade é mencionada, definida e tem seus tentáculos medidos. Patrícia Patrício
(2002) fez um levantamento das ocorrências do conceito nestes manuais e observou as
contradições irreconciliáveis neles contidas. Sem contar a divergência entre os
entendimentos dos diversos grupos de comunicação para o conceito. Em O Globo, por
exemplo, o relato deve ser “absolutamente isento” mesmo o jornal reconhecendo que a
isenção não pode ser absoluta; no manual de O Estado de S.Paulo, entende-se que a
interpretação passa pela subjetividade, mas apesar disso, o jornalista deve ter um
“respeito religioso à verdade”; nos veículos da Editora Abril, é pedido o relato de uma
verdade estetizada e o estilo deve ter como marca o “bom senso”, o “bom gosto” (mais
objetivo impossível!); a Folha de S.Paulo prega o apartidarismo, a neutralidade, a
objetividade e o pluralismo, naquilo que convencionou chamar de “ouvir o outro lado”.
Observadas as distâncias de lado a lado, fica a impressão de intensa nebulosidade
quanto ao conceito, a sua aplicabilidade e a sua eficácia. Lidos em conjunto, os manuais
mais confundem que esclarecem.
No Jornalismo, a objetividade se apresenta não só como padrão técnico de
conduta e como imperativo ético, mas também enquanto mistificação. Neste caso, pelas
mãos e línguas dos que desacreditam na viabilidade de uma objetividade plena no
exercício da profissão. Elcias Lustosa (1996) é um dos exemplos dessa vertente. Sua
crítica é voltada à imparcialidade, que julga impossível de ser obtida na medida em que
o Jornalismo é uma atividade humana, que seleciona fatos, relata acontecimentos de
uma dada perspectiva. Assim, embora se pregue a isenção, ela não se verifica na prática,
o que provoca um descolamento entre discurso profissional e ação cotidiana.
onde apenas um terço dos trainees e redatores de jornais consideravam que conseguiam ter em “seu
trabalho diário informações objetivas e isentas de valores” (228)
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Apesar do propósito e do compromisso de alguns jornalistas, a
imparcialidade e a impessoalidade jamais ocorreram efetivamente
no Jornalismo. (...) A notícia é pois uma versão de um fenômeno
social, não a tradução objetiva, imparcial e descomprometida de
um fato. (21)
Com isso, a imparcialidade – viga de sustentação da objetividade – não passaria
de retórica, castelo de areia erodido diariamente nas redações de todo o mundo. Tal
discurso serviria para preservar os interesses e a sobrevivência dos próprios veículos de
comunicação, segundo Lustosa.
O debate sobre a viabilidade ou não da objetividade jornalística é fundamental
para o percurso deste trabalho. No entanto, antes disso, é preciso entender sob quais
circunstâncias histórico-sociais a objetividade foi introjetada como elemento de base na
constituição do Jornalismo e do discurso que lhe dá sustentação.
Apesar do propósito e do compromisso de alguns jornalistas, a
imparcialidade e a impessoalidade jamais ocorreram efetivamente
no Jornalismo. (...) A notícia é pois uma versão de um fenômeno
social, não a tradução objetiva, imparcial e descomprometida de
um fato. (21)
Com isso, a imparcialidade – viga de sustentação da objetividade – não passaria
de retórica, castelo de areia erodido diariamente nas redações de todo o mundo. Tal
discurso serviria para preservar os interesses e a sobrevivência dos próprios veículos de
comunicação, segundo Lustosa.
O debate sobre a viabilidade ou não da objetividade jornalística é fundamental
para o percurso deste trabalho. No entanto, antes disso, é preciso entender sob quais
circunstâncias histórico-sociais a objetividade foi introjetada como elemento de base na
constituição do Jornalismo e do discurso que lhe dá sustentação.
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suscetibilidades. Esta preocupação é tão enfatizada na Associated Press que há quem
atribua à agência a criação do conceito de objetividade na área. Depois da ascensão dos
nazistas na Alemanha, os Estados Unidos chegam a receber muitos artistas, esportistas,
cientistas e intelectuais. Entre outros lugares, as universidades fervilham de discussão,
ao passo que muitas áreas se desenvolvem impulsionadas pelos estudos e pesquisas. É o
caso das ciências da comunicação, onde o termo objetividade passa a ser usado.
No final da década de 40, a importação da fórmula textual do lead e da função
do copy-desk faz com que a atividade jornalística se altere completamente nas redações.
Além disso, as reformulações ajudam a implantar o conceito no país.
Acontece, porém, que essa grande mudança no Jornalismo
brasileiro não foi muito além da valorização da notícia e de sua
construção. Ficou sobretudo na forma. O conteúdo continuou o
mesmo, sem a mostra de um esforço maior de isenção,
imparcialidade, eqüidade, como se fazia notar, bem ou mal, a
imprensa americana. (Amaral: 1996, 75)
A questão da objetividade só viria a ser realmente discutida, muito mais tarde,
inclusive por um dos responsáveis pelas grandes modificações na imprensa em meados
do século passado, o jornalista carioca Alberto Dines, na seção “Jornal dos Jornais”, que
fazia crítica de mídia na Folha de S.Paulo.
Se surgiu como um importante contraponto ao sensacionalismo e a um
desconfortável subjetivismo dos empresários da mídia de então, a objetividade tem sua
origem estreitamente ligada à própria definição da atividade de informar29. Os primeiros
esforços dos jornalistas em definir suas ocupações, buscando assim uma identidade
comum, datam das últimas duas décadas do século XIX. Foi por esta época que se
começou a dizer que jornalistas tinham uma vocação independente, o que ajudaria a
plantar a semente da futura objetividade.
suscetibilidades. Esta preocupação é tão enfatizada na Associated Press que há quem
atribua à agência a criação do conceito de objetividade na área. Depois da ascensão dos
nazistas na Alemanha, os Estados Unidos chegam a receber muitos artistas, esportistas,
cientistas e intelectuais. Entre outros lugares, as universidades fervilham de discussão,
ao passo que muitas áreas se desenvolvem impulsionadas pelos estudos e pesquisas. É o
caso das ciências da comunicação, onde o termo objetividade passa a ser usado.
No final da década de 40, a importação da fórmula textual do lead e da função
do copy-desk faz com que a atividade jornalística se altere completamente nas redações.
Além disso, as reformulações ajudam a implantar o conceito no país.
Acontece, porém, que essa grande mudança no Jornalismo
brasileiro não foi muito além da valorização da notícia e de sua
construção. Ficou sobretudo na forma. O conteúdo continuou o
mesmo, sem a mostra de um esforço maior de isenção,
imparcialidade, eqüidade, como se fazia notar, bem ou mal, a
imprensa americana. (Amaral: 1996, 75)
A questão da objetividade só viria a ser realmente discutida, muito mais tarde,
inclusive por um dos responsáveis pelas grandes modificações na imprensa em meados
do século passado, o jornalista carioca Alberto Dines, na seção “Jornal dos Jornais”, que
fazia crítica de mídia na Folha de S.Paulo.
Se surgiu como um importante contraponto ao sensacionalismo e a um
desconfortável subjetivismo dos empresários da mídia de então, a objetividade tem sua
origem estreitamente ligada à própria definição da atividade de informar29. Os primeiros
esforços dos jornalistas em definir suas ocupações, buscando assim uma identidade
comum, datam das últimas duas décadas do século XIX. Foi por esta época que se
começou a dizer que jornalistas tinham uma vocação independente, o que ajudaria a
plantar a semente da futura objetividade.
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Schudson (1978) encaixa entre 1920 e 1930 o surgimento da noção até hoje
vigente de objetividade jornalística. Naquela época, segundo o autor, repórteres e
editores perceberam como havia elementos subjetivos no trabalho de outros
profissionais da comunicação, mais especificamente de relações públicas e de
propaganda. Era necessário demarcar território. Esta determinação histórica é
questionável, mas sabe-se que o processo de cristalização da objetividade como padrão
técnico e como imperativo ético da profissão durou três ou quatro décadas. O mundo
passou por um segundo conflito bélico de proporções mundiais, assistiu a um
realinhamento de forças militares e tecnológicas e suspirou intranqüilo em meio a uma
polaridade ideológica, econômica e militar. A Guerra Fria fez cerrar os dentes de lado a
lado do planeta, e a objetividade foi se infiltrando nas redações, estabelecendo-se cada
vez mais no comportamento e na formação dos jornalistas.
Ainda de acordo com Schudson (op.cit.), o governo norte-americano foi
aumentando cada vez mais a sua intervenção no processo de produção das notícias,
passando a se preocupar efetivamente com o gerenciamento das informações ao longo
do século. Isso fez com que começasse a surgir uma reação silenciosa nas redações:
redatores, editores e repórteres ficaram incomodados e ressentidos com a política de
contra-informação e sigilo do governo. A objetividade passou a ser desafiada, explica
Chad Raphael30, já que era identificada com a aquiescência aos ditames dos relações
públicas militares, com excessiva submissão aos segredos do governo e com os abusos
do governo no final dos anos 60 e começo dos 7031.
29 Bethânia Mariani (1998) detém-se neste aspecto para, inclusive, questionar conceitos como os de
“verdade” e “informação”, tão sedimentados no Jornalismo.
30 Professor de comunicação da Santa Clara University, na Califórnia. A citação se refere ao material usado
nos cursos de Raphael, acessados em 3 de março de 2003, e disponíveis no endereço
http://codesign.scu.edu/chad/147/objectivity1.html
31 Os protestos contra a Guerra do Vietnã, o questionamento popular da política internacional norte-
americana e a derrapada de Richard Nixon atuam como catalisadores nesta reação.
Schudson (1978) encaixa entre 1920 e 1930 o surgimento da noção até hoje
vigente de objetividade jornalística. Naquela época, segundo o autor, repórteres e
editores perceberam como havia elementos subjetivos no trabalho de outros
profissionais da comunicação, mais especificamente de relações públicas e de
propaganda. Era necessário demarcar território. Esta determinação histórica é
questionável, mas sabe-se que o processo de cristalização da objetividade como padrão
técnico e como imperativo ético da profissão durou três ou quatro décadas. O mundo
passou por um segundo conflito bélico de proporções mundiais, assistiu a um
realinhamento de forças militares e tecnológicas e suspirou intranqüilo em meio a uma
polaridade ideológica, econômica e militar. A Guerra Fria fez cerrar os dentes de lado a
lado do planeta, e a objetividade foi se infiltrando nas redações, estabelecendo-se cada
vez mais no comportamento e na formação dos jornalistas.
Ainda de acordo com Schudson (op.cit.), o governo norte-americano foi
aumentando cada vez mais a sua intervenção no processo de produção das notícias,
passando a se preocupar efetivamente com o gerenciamento das informações ao longo
do século. Isso fez com que começasse a surgir uma reação silenciosa nas redações:
redatores, editores e repórteres ficaram incomodados e ressentidos com a política de
contra-informação e sigilo do governo. A objetividade passou a ser desafiada, explica
Chad Raphael30, já que era identificada com a aquiescência aos ditames dos relações
públicas militares, com excessiva submissão aos segredos do governo e com os abusos
do governo no final dos anos 60 e começo dos 7031.
29 Bethânia Mariani (1998) detém-se neste aspecto para, inclusive, questionar conceitos como os de
“verdade” e “informação”, tão sedimentados no Jornalismo.
30 Professor de comunicação da Santa Clara University, na Califórnia. A citação se refere ao material usado
nos cursos de Raphael, acessados em 3 de março de 2003, e disponíveis no endereço
http://codesign.scu.edu/chad/147/objectivity1.html
31 Os protestos contra a Guerra do Vietnã, o questionamento popular da política internacional norte-
americana e a derrapada de Richard Nixon atuam como catalisadores nesta reação.
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2.3 Resguardando a objetividade
"Ser objetivo é expulsar as coisas da própria cabeça
e devolvê-las ao mundo de onde vieram. Foi esse
o exemplo de Copérnico e tantos outros (...) Não existe
objetividade dada. O erro está em procurá-la na
sinceridade ou no esforço quando ela só pode estar
em um método. (...) As coisas ou já são objetivas ou ainda vão ser”
Otávio Frias Filho - Antimanual de Jornalismo
Folha de S.Paulo, 18 de novembro de 1984
O astuto Polonius coçou o queixo, intrigado. Em seguida, diante da majestade na
sala do trono, solenizou: “É loucura, mas revela método!” Furtiva, a cena de Hamlet
aponta para o lugar da racionalização já naquela época: até mesmo a insanidade tem lá
suas regras de funcionamento, seus processos internos. O Jornalismo – que em muitos
de seus momentos mais se aparenta à desrazão (basta acompanhar o fechamento de um
jornal) – também se apóia em métodos, dispõe de suas cartilhas. A objetividade é um
capítulo importante, convocado de forma recorrente na afirmação da atividade
jornalística. Sua escritura seguiu diversas caligrafias. A seguir, algumas delas.
2.3.1 Imperativo ético da atividade
“Uma realidade completamente independente do espírito
que a concebe, a vê ou a sente é uma impossibilidade.
Um mundo tão exterior, se chegasse a existir,
seria para nós sempre inacessível. Mas aquilo a que
chamamos a realidade objetiva é, em última análise,
o que é comum a vários seres pensantes, e poderia ser comum a todos”
Henri Poincaré - O valor da ciência
Para além de um padrão na conduta profissional, a objetividade se mostra no
Jornalismo como um imperativo ético, um chamamento deontológico. Visto dessa
maneira, o conceito funciona como princípio, valor que orienta a postura dos jornalistas
diante dos desafios cotidianos de seu ofício. Para atuar corretamente na área, é preciso
então se fazer conduzir com correção e objetividade, buscando relatar os fatos de
maneira desapaixonada, medindo a proximidade com as fontes e com o contexto
retratado; é necessário calibrar o tom dos discursos, equilibrar a presença e ênfase das
2.3 Resguardando a objetividade
"Ser objetivo é expulsar as coisas da própria cabeça
e devolvê-las ao mundo de onde vieram. Foi esse
o exemplo de Copérnico e tantos outros (...) Não existe
objetividade dada. O erro está em procurá-la na
sinceridade ou no esforço quando ela só pode estar
em um método. (...) As coisas ou já são objetivas ou ainda vão ser”
Otávio Frias Filho - Antimanual de Jornalismo
Folha de S.Paulo, 18 de novembro de 1984
O astuto Polonius coçou o queixo, intrigado. Em seguida, diante da majestade na
sala do trono, solenizou: “É loucura, mas revela método!” Furtiva, a cena de Hamlet
aponta para o lugar da racionalização já naquela época: até mesmo a insanidade tem lá
suas regras de funcionamento, seus processos internos. O Jornalismo – que em muitos
de seus momentos mais se aparenta à desrazão (basta acompanhar o fechamento de um
jornal) – também se apóia em métodos, dispõe de suas cartilhas. A objetividade é um
capítulo importante, convocado de forma recorrente na afirmação da atividade
jornalística. Sua escritura seguiu diversas caligrafias. A seguir, algumas delas.
2.3.1 Imperativo ético da atividade
“Uma realidade completamente independente do espírito
que a concebe, a vê ou a sente é uma impossibilidade.
Um mundo tão exterior, se chegasse a existir,
seria para nós sempre inacessível. Mas aquilo a que
chamamos a realidade objetiva é, em última análise,
o que é comum a vários seres pensantes, e poderia ser comum a todos”
Henri Poincaré - O valor da ciência
Para além de um padrão na conduta profissional, a objetividade se mostra no
Jornalismo como um imperativo ético, um chamamento deontológico. Visto dessa
maneira, o conceito funciona como princípio, valor que orienta a postura dos jornalistas
diante dos desafios cotidianos de seu ofício. Para atuar corretamente na área, é preciso
então se fazer conduzir com correção e objetividade, buscando relatar os fatos de
maneira desapaixonada, medindo a proximidade com as fontes e com o contexto
retratado; é necessário calibrar o tom dos discursos, equilibrar a presença e ênfase das
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realista até pode ser negada, mas isso não implica que aconteça o mesmo com o
conceito de objetividade, defende o autor. Rechaçar esta condição é dinamitar uma das
bases que sustentam o Jornalismo com o conhecemos, e isso não é admitido por Guerra.
É preciso que se entenda o ponto de vista do autor. Não é a objetividade que
legitima o discurso da imprensa, da mídia, mas o vínculo que se cria entre o Jornalismo
e o público a partir do imperativo ético fundante. Desta forma, a objetividade é apenas
uma tentativa de justificar o vínculo entre quem faz Jornalismo e quem consome.
(...) quando se toma a objetividade como um pressuposto possível, a
objetividade intencionada pelo jornalista se converte na sua
contrapartida para a realização do imperativo ético fundante de sua
prática profissional: tese aqui defendida. (173)
É relevante, no entanto, perceber que a objetividade é uma condição alcançável
graças a um ato subjetivo, pois, conforme aponta, a objetividade se dá mediante o
cumprimento de três prescrições metodológicas: a intenção do repórter, o rigor na
realização dos procedimentos usados na apreensão dos fatos e a redação da notícia.
Note-se, então, que a objetividade depende de uma decisão de sujeito, de um ato
subjetivo, nasce na subjetividade. “Primeiramente, para se conseguir a objetividade há,
antes de tudo, a intenção de se querer atingi-la” (op.cit.:33).
A objetividade se configura como “imperativo ético fundante” do Jornalismo, e
é nesta esfera que se marca a distinção entre o Jornalismo e outros gêneros discursivos,
como a ficção (cf. p.168). Para o autor, ser objetivo é o que reveste de jornalístico textos
e falas, produtos e representações. O Jornalismo se define por uma ética e não por uma
técnica.
Neste sentido, neutralidade e imparcialidade não são sinônimos de objetividade,
embora sejam conceitos estreitamente ligados. Ao contrário da última, as duas primeiras
não são características da notícia propriamente dita. A neutralidade seria uma condição
realista até pode ser negada, mas isso não implica que aconteça o mesmo com o
conceito de objetividade, defende o autor. Rechaçar esta condição é dinamitar uma das
bases que sustentam o Jornalismo com o conhecemos, e isso não é admitido por Guerra.
É preciso que se entenda o ponto de vista do autor. Não é a objetividade que
legitima o discurso da imprensa, da mídia, mas o vínculo que se cria entre o Jornalismo
e o público a partir do imperativo ético fundante. Desta forma, a objetividade é apenas
uma tentativa de justificar o vínculo entre quem faz Jornalismo e quem consome.
(...) quando se toma a objetividade como um pressuposto possível, a
objetividade intencionada pelo jornalista se converte na sua
contrapartida para a realização do imperativo ético fundante de sua
prática profissional: tese aqui defendida. (173)
É relevante, no entanto, perceber que a objetividade é uma condição alcançável
graças a um ato subjetivo, pois, conforme aponta, a objetividade se dá mediante o
cumprimento de três prescrições metodológicas: a intenção do repórter, o rigor na
realização dos procedimentos usados na apreensão dos fatos e a redação da notícia.
Note-se, então, que a objetividade depende de uma decisão de sujeito, de um ato
subjetivo, nasce na subjetividade. “Primeiramente, para se conseguir a objetividade há,
antes de tudo, a intenção de se querer atingi-la” (op.cit.:33).
A objetividade se configura como “imperativo ético fundante” do Jornalismo, e
é nesta esfera que se marca a distinção entre o Jornalismo e outros gêneros discursivos,
como a ficção (cf. p.168). Para o autor, ser objetivo é o que reveste de jornalístico textos
e falas, produtos e representações. O Jornalismo se define por uma ética e não por uma
técnica.
Neste sentido, neutralidade e imparcialidade não são sinônimos de objetividade,
embora sejam conceitos estreitamente ligados. Ao contrário da última, as duas primeiras
não são características da notícia propriamente dita. A neutralidade seria uma condição
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experimentável pelo profissional ou pela empresa jornalística. E depois de saciada esta
condição, aí sim, ambos podem mostrar-se imparciais no relato do fato, segundo Guerra.
Negar simplesmente esses conceitos, como fazem subjetivistas e
construcionistas, significa abrir mão de um referencial ético a partir
do que a imprensa deve se pautar, para que contemple o pluralismo
das sociedades democráticas, por exemplo. Na medida que esses
conceitos passam a ser considerados, num âmbito específico de
relações e situações nas quais eles efetivamente fazem sentido,
tornam-se importantes critérios de avaliação do trabalho jornalístico
e de orientação para os próprios profissionais.” (op.cit.:169)
A distinção é importante para esta pesquisa e para o percurso que se está
fazendo, mesmo que seja questionado o apego a um conceito que não encontra
sustentação total na vida prática. Como um repórter pode ser totalmente objetivo no
relato de uma guerra, por exemplo, quando é acometido por medos? Como sustentar
esta postura quando a proximidade do fato não nos impede de nos contaminarmos por
ele?
Na academia ou nas redações, a objetividade enquanto imperativo ético do
Jornalismo, volta e meia, é reafirmado.
Em 2001, mal fazia um mês dos atentados ao World Trade Center nos Estados
Unidos, uma influente voz do Jornalismo norte-americano se levantava para pedir o
retorno da objetividade nos jornais e emissoras de televisão do país. Walther Cronkite,
um dos mais famosos e duradouros âncoras da TV norte-americana, afirmou em
entrevista à Folha de S.Paulo que era preciso que a mídia recuperasse a objetividade32:
"Os que se dizem patriotas devem entender que esse sentimento não implica
necessariamente elogiar todas as decisões oficiais. Também pode ser expresso com
32 A entrevista foi concedida a Marcio Aith e publicada na edição dominical de 7 de outubro de 2001.
experimentável pelo profissional ou pela empresa jornalística. E depois de saciada esta
condição, aí sim, ambos podem mostrar-se imparciais no relato do fato, segundo Guerra.
Negar simplesmente esses conceitos, como fazem subjetivistas e
construcionistas, significa abrir mão de um referencial ético a partir
do que a imprensa deve se pautar, para que contemple o pluralismo
das sociedades democráticas, por exemplo. Na medida que esses
conceitos passam a ser considerados, num âmbito específico de
relações e situações nas quais eles efetivamente fazem sentido,
tornam-se importantes critérios de avaliação do trabalho jornalístico
e de orientação para os próprios profissionais.” (op.cit.:169)
A distinção é importante para esta pesquisa e para o percurso que se está
fazendo, mesmo que seja questionado o apego a um conceito que não encontra
sustentação total na vida prática. Como um repórter pode ser totalmente objetivo no
relato de uma guerra, por exemplo, quando é acometido por medos? Como sustentar
esta postura quando a proximidade do fato não nos impede de nos contaminarmos por
ele?
Na academia ou nas redações, a objetividade enquanto imperativo ético do
Jornalismo, volta e meia, é reafirmado.
Em 2001, mal fazia um mês dos atentados ao World Trade Center nos Estados
Unidos, uma influente voz do Jornalismo norte-americano se levantava para pedir o
retorno da objetividade nos jornais e emissoras de televisão do país. Walther Cronkite,
um dos mais famosos e duradouros âncoras da TV norte-americana, afirmou em
entrevista à Folha de S.Paulo que era preciso que a mídia recuperasse a objetividade32:
"Os que se dizem patriotas devem entender que esse sentimento não implica
necessariamente elogiar todas as decisões oficiais. Também pode ser expresso com
32 A entrevista foi concedida a Marcio Aith e publicada na edição dominical de 7 de outubro de 2001.
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divergência", queixava-se o veterano jornalista de 86 anos33. De acordo com Cronkite,
logo após o ocorrido, a mídia local patrocinou um “show aberto de patriotismo,
compreensível no início”: “Eu mesmo não contive minha emoção ao relatar a morte do
presidente Kennedy, em 1963”, lembrou. Entretanto, após a comoção geral, era
fundamental que a “frieza e a independência” voltassem a freqüentar as redações, frisou.
A postura de Cronkite revela o que o conceito de objetividade traz no seu bojo:
distanciamento, frieza, independência, ausência de emoções ou equilíbrio na expressão
dessas paixões. É possível dominar o emocional totalmente? Um jornalista consegue se
manter frio e distante frente às cenas mais brutais, aos personagens mais apaixonantes?
Talvez esta postura se coloque mais como uma meta, um desejo, um ideal de postura. E
a objetividade, neste cenário, converta-se mais em mito do que em realidade.
33 Curioso é que Cronkite soube do ataque às torres gêmeas quando voltava ao hotel, vindo de uma
palestra sobre objetividade jornalística que fizera em Florença, na Itália.
divergência", queixava-se o veterano jornalista de 86 anos33. De acordo com Cronkite,
logo após o ocorrido, a mídia local patrocinou um “show aberto de patriotismo,
compreensível no início”: “Eu mesmo não contive minha emoção ao relatar a morte do
presidente Kennedy, em 1963”, lembrou. Entretanto, após a comoção geral, era
fundamental que a “frieza e a independência” voltassem a freqüentar as redações, frisou.
A postura de Cronkite revela o que o conceito de objetividade traz no seu bojo:
distanciamento, frieza, independência, ausência de emoções ou equilíbrio na expressão
dessas paixões. É possível dominar o emocional totalmente? Um jornalista consegue se
manter frio e distante frente às cenas mais brutais, aos personagens mais apaixonantes?
Talvez esta postura se coloque mais como uma meta, um desejo, um ideal de postura. E
a objetividade, neste cenário, converta-se mais em mito do que em realidade.
33 Curioso é que Cronkite soube do ataque às torres gêmeas quando voltava ao hotel, vindo de uma
palestra sobre objetividade jornalística que fizera em Florença, na Itália.
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2.3.2 Uma meta para o mito
“Objectivity is a method of understanding”
Thomas Nagel – A view from nowhere
Se aparenta um mito ou pilastra de sustentação do Jornalismo, a objetividade
parece estar ligada intimamente à própria definição da atividade jornalística. A reflexão
sobre a possibilidade de produzir relatos fiéis aos acontecimentos diz diretamente ao
cerne do que se espera do Jornalismo no contexto social. A separação formal entre o ato
de reportar e o de opinar trata efetivamente de quão este compromisso de fidelidade
pode ser cumprido, diariamente, independente de geografia e de condições externas.
Logo após a Revolução Francesa, sedimenta-se na sociedade francesa um
conjunto de práticas jornalísticas que vão disseminar muito mais opiniões e comentários
do que propriamente crônicas dos acontecimentos. É uma imprensa mais política,
entusiasta, engajada, diferente da que se propaga na Inglaterra, mais apegada aos
relatos. Lá, os profissionais da área começam a focar seus interesses na difusão de
notícias, precárias, é verdade, e muito diferentes das que concebemos hoje. Mas estes
esforços vão redundar, décadas mais tarde, na consolidação de um conceito de
objetividade. Noção que sofre hoje constantes questionamentos na sua base de
fundamentação e mesmo na sua efetividade prática.
Marques de Melo (1985) chega a dizer que nos dias atuais a objetividade se
coloca muito mais numa dimensão mítica, muito embora seja uma questão que
acompanhe o Jornalismo desde a sua gênese. A raiz deste debate contemporâneo estaria
numa “doutrina de responsabilidade” pregada pelo Jornalismo norte-americano.
Impôs-se o sensacionalismo como diretriz norteadora do
funcionamento dos grandes jornais, que competiam entre si na
conquista dos leitores. Os princípios éticos mais elementares,
prescrevendo a conduta dos cidadãos numa sociedade puritana
como a norte-americana, foram deixados de lado. Ocorreu então
que, do ponto de vista jornalístico, a fidedignidade dos fatos deixou
de ser o referencial para a difusão das notícias.(11)
2.3.2 Uma meta para o mito
“Objectivity is a method of understanding”
Thomas Nagel – A view from nowhere
Se aparenta um mito ou pilastra de sustentação do Jornalismo, a objetividade
parece estar ligada intimamente à própria definição da atividade jornalística. A reflexão
sobre a possibilidade de produzir relatos fiéis aos acontecimentos diz diretamente ao
cerne do que se espera do Jornalismo no contexto social. A separação formal entre o ato
de reportar e o de opinar trata efetivamente de quão este compromisso de fidelidade
pode ser cumprido, diariamente, independente de geografia e de condições externas.
Logo após a Revolução Francesa, sedimenta-se na sociedade francesa um
conjunto de práticas jornalísticas que vão disseminar muito mais opiniões e comentários
do que propriamente crônicas dos acontecimentos. É uma imprensa mais política,
entusiasta, engajada, diferente da que se propaga na Inglaterra, mais apegada aos
relatos. Lá, os profissionais da área começam a focar seus interesses na difusão de
notícias, precárias, é verdade, e muito diferentes das que concebemos hoje. Mas estes
esforços vão redundar, décadas mais tarde, na consolidação de um conceito de
objetividade. Noção que sofre hoje constantes questionamentos na sua base de
fundamentação e mesmo na sua efetividade prática.
Marques de Melo (1985) chega a dizer que nos dias atuais a objetividade se
coloca muito mais numa dimensão mítica, muito embora seja uma questão que
acompanhe o Jornalismo desde a sua gênese. A raiz deste debate contemporâneo estaria
numa “doutrina de responsabilidade” pregada pelo Jornalismo norte-americano.
Impôs-se o sensacionalismo como diretriz norteadora do
funcionamento dos grandes jornais, que competiam entre si na
conquista dos leitores. Os princípios éticos mais elementares,
prescrevendo a conduta dos cidadãos numa sociedade puritana
como a norte-americana, foram deixados de lado. Ocorreu então
que, do ponto de vista jornalístico, a fidedignidade dos fatos deixou
de ser o referencial para a difusão das notícias.(11)
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A doutrina surge como reação das empresas na defesa de uma especificidade de
serviço prestado e mesmo de um mercado a ser explorado. Mais do que isso, o culto da
objetividade, conforme o autor, vai favorecer o processo de racionalização da atividade
jornalística que está mergulhada numa fase industrial. É preciso instituir uma rotina
diária que coadune as diversas etapas do Jornalismo: apuração dos fatos, checagem,
redação dos textos, edição do material, impressão e reprodução massiva e distribuição.
As jornadas de trabalho precisam ser mais bem divididas e gerenciadas, o fechamento
das edições dá uma nova dimensão no cotidiano das incipientes e ainda desorganizadas
redações. Ferramentas, equipamentos e máquinas evoluem e ditam novo ritmo a
redatores e repórteres. Tanto que é preciso que se normatize os diversos estilos de
redação buscando mais clareza, um texto menos prolixo, de maior alcance de leitura.
Com o tempo, o que era compromisso ético reconfigura-se enquanto doutrina,
fórmula de trabalho, receituário operacional, norma. A objetividade encontra outro
sinônimo: síntese. Ser objetivo no Jornalismo torna-se captar o máximo de informações
possível, dar-lhes um tratamento em que possam ser repassadas da forma mais direta.
A “doutrina da objetividade” é transcrita nos manuais de redação e de estilo, nas
instruções normativas e executivas das nascentes corporações de mídia. Entretanto,
Marques de Melo (op.cit:14) pontua que “além de tolher a criatividade do jornalista, o
culto da objetividade (...) significou a diminuição da sua capacidade de aferir a
realidade”. Isso porque o responsável por este referencial – o pauteiro – inevitavelmente
refletiria a orientação da empresa, fazendo com que a objetividade se dissolvesse na
afirmação de uma subjetividade patronal. Para o autor, esta condição facilitaria para que
a recusa ao conceito de objetividade se espalhasse dentro da própria categoria
jornalística. Repórteres e redatores reagiriam à homogeneização, à estandardização dos
processos e práticas correntes. A objetividade é relegada à categoria de mito, segundo
A doutrina surge como reação das empresas na defesa de uma especificidade de
serviço prestado e mesmo de um mercado a ser explorado. Mais do que isso, o culto da
objetividade, conforme o autor, vai favorecer o processo de racionalização da atividade
jornalística que está mergulhada numa fase industrial. É preciso instituir uma rotina
diária que coadune as diversas etapas do Jornalismo: apuração dos fatos, checagem,
redação dos textos, edição do material, impressão e reprodução massiva e distribuição.
As jornadas de trabalho precisam ser mais bem divididas e gerenciadas, o fechamento
das edições dá uma nova dimensão no cotidiano das incipientes e ainda desorganizadas
redações. Ferramentas, equipamentos e máquinas evoluem e ditam novo ritmo a
redatores e repórteres. Tanto que é preciso que se normatize os diversos estilos de
redação buscando mais clareza, um texto menos prolixo, de maior alcance de leitura.
Com o tempo, o que era compromisso ético reconfigura-se enquanto doutrina,
fórmula de trabalho, receituário operacional, norma. A objetividade encontra outro
sinônimo: síntese. Ser objetivo no Jornalismo torna-se captar o máximo de informações
possível, dar-lhes um tratamento em que possam ser repassadas da forma mais direta.
A “doutrina da objetividade” é transcrita nos manuais de redação e de estilo, nas
instruções normativas e executivas das nascentes corporações de mídia. Entretanto,
Marques de Melo (op.cit:14) pontua que “além de tolher a criatividade do jornalista, o
culto da objetividade (...) significou a diminuição da sua capacidade de aferir a
realidade”. Isso porque o responsável por este referencial – o pauteiro – inevitavelmente
refletiria a orientação da empresa, fazendo com que a objetividade se dissolvesse na
afirmação de uma subjetividade patronal. Para o autor, esta condição facilitaria para que
a recusa ao conceito de objetividade se espalhasse dentro da própria categoria
jornalística. Repórteres e redatores reagiriam à homogeneização, à estandardização dos
processos e práticas correntes. A objetividade é relegada à categoria de mito, segundo
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Marques de Melo. E é preciso dar uma meta ao mito: retomar a questão significa
resgatar o sentido ético da profissão, já que deixar as coisas como estão apenas ajuda a
perenizar as distorções atuais.
A discussão da questão da objetividade, hoje, passa
necessariamente pela compreensão do direito à informação. Mais
ainda: pela sua defesa como prerrogativa democrática. E a
informação entrelaça as duas vertentes do relato jornalístico: a
descrição dos fatos (informação objetiva: veraz, comprovável,
confiável) e a sua interpretação (informação opinativa: analítica,
valorativa, orientadora). A objetividade jornalística converte-se
novamente à sua dimensão ética. Na medida em que o jornalista
assume o papel de agente social, responsável pela observação da
realidade, ele se torna mediador entre os fatos de interesse público e
a cidadania. (17)
Para o autor, o debate não está ultrapassado, extemporâneo. A objetividade
pressupõe pluralidade de observação e de relato. Isto é, espera-se mais fontes de
informações, mais versões, mais canais de difusão, mais pontos de recepção das
informações. Para se exercer esta objetividade jornalística nas sociedades democráticas
é preciso ouvir estas vozes divergentes, cobrir os pontos cegos, dar vazão ao plural e ao
diverso. O jornalista terá que sustentar seu trabalho na veracidade, na clareza e na
credibilidade. Ao público, cabe a arbitragem deste processo, escolhendo entre um jornal
e outro, acolhendo uma versão em detrimento de outra que julga menos correta e útil.
Colocada desta forma, a objetividade jornalística “deixa de ser dogma e se torna utopia.
E como tal pode servir como dínamo das sociedades democráticas, tornando-se
transparentes, visíveis nas suas contradições, abertas à intervenção da cidadania”
(op.cit.:19).
Entretanto, o que Marques de Melo chama de mito não coincide com o conceito
na formulação de autoridades no assunto, como o teórico romeno Mircea Eliade.
Conforme ele, mito é uma narrativa explicativa, relato de surgimento de algo, atestado
de ancestralidade.
Marques de Melo. E é preciso dar uma meta ao mito: retomar a questão significa
resgatar o sentido ético da profissão, já que deixar as coisas como estão apenas ajuda a
perenizar as distorções atuais.
A discussão da questão da objetividade, hoje, passa
necessariamente pela compreensão do direito à informação. Mais
ainda: pela sua defesa como prerrogativa democrática. E a
informação entrelaça as duas vertentes do relato jornalístico: a
descrição dos fatos (informação objetiva: veraz, comprovável,
confiável) e a sua interpretação (informação opinativa: analítica,
valorativa, orientadora). A objetividade jornalística converte-se
novamente à sua dimensão ética. Na medida em que o jornalista
assume o papel de agente social, responsável pela observação da
realidade, ele se torna mediador entre os fatos de interesse público e
a cidadania. (17)
Para o autor, o debate não está ultrapassado, extemporâneo. A objetividade
pressupõe pluralidade de observação e de relato. Isto é, espera-se mais fontes de
informações, mais versões, mais canais de difusão, mais pontos de recepção das
informações. Para se exercer esta objetividade jornalística nas sociedades democráticas
é preciso ouvir estas vozes divergentes, cobrir os pontos cegos, dar vazão ao plural e ao
diverso. O jornalista terá que sustentar seu trabalho na veracidade, na clareza e na
credibilidade. Ao público, cabe a arbitragem deste processo, escolhendo entre um jornal
e outro, acolhendo uma versão em detrimento de outra que julga menos correta e útil.
Colocada desta forma, a objetividade jornalística “deixa de ser dogma e se torna utopia.
E como tal pode servir como dínamo das sociedades democráticas, tornando-se
transparentes, visíveis nas suas contradições, abertas à intervenção da cidadania”
(op.cit.:19).
Entretanto, o que Marques de Melo chama de mito não coincide com o conceito
na formulação de autoridades no assunto, como o teórico romeno Mircea Eliade.
Conforme ele, mito é uma narrativa explicativa, relato de surgimento de algo, atestado
de ancestralidade.
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Ao abandonar a noção de comunicação imparcial, podemos evitar
ser afastados dos nossos propósitos pela busca de padrões de
equilíbrio e imparcialidade. (...) É evidente que a mudança da
‘parcialidade’ para a ‘ideologia’ nos estudos dos media não é
qualquer garantia contra a ingenuidade ou a trivialidade. Contudo,
parece ser importante se quisermos compreender suficientemente os
papéis políticos do Jornalismo. (128-9)
Note-se que o problema da objetividade não é resolvido, mas serve de trampolim
para discussões muito relevantes no trabalho cotidiano jornalístico. Debates como o que
vincula o exercício da objetividade como um pré-requisito da competência profissional.
Sylvia Moretzsohn (2001, 2002) enfoca esta dicotomia assinalando pontos interessantes.
Por exemplo, para a autora, o paradigma da objetividade sobrevive porque os meios de
comunicação “mascaram o processo de construção social que permitiria perceber a
intermediação discursiva entre sujeito e realidade através da linguagem”. A defesa da
objetividade se sustentaria por esta funcionar como mecanismo de controle contra a
manipulação, arrisca.
Insistindo em buscar a verdade (mesmo que seu relato, inevitavelmente, não
reflita exatamente o fato) ou alimentando parentescos que garantam a sua sobrevivência,
de uma forma ou de outra, a objetividade assume dimensão de mito, de padrão mais
simbólico que concreto. Como isso se configura?
Ao abandonar a noção de comunicação imparcial, podemos evitar
ser afastados dos nossos propósitos pela busca de padrões de
equilíbrio e imparcialidade. (...) É evidente que a mudança da
‘parcialidade’ para a ‘ideologia’ nos estudos dos media não é
qualquer garantia contra a ingenuidade ou a trivialidade. Contudo,
parece ser importante se quisermos compreender suficientemente os
papéis políticos do Jornalismo. (128-9)
Note-se que o problema da objetividade não é resolvido, mas serve de trampolim
para discussões muito relevantes no trabalho cotidiano jornalístico. Debates como o que
vincula o exercício da objetividade como um pré-requisito da competência profissional.
Sylvia Moretzsohn (2001, 2002) enfoca esta dicotomia assinalando pontos interessantes.
Por exemplo, para a autora, o paradigma da objetividade sobrevive porque os meios de
comunicação “mascaram o processo de construção social que permitiria perceber a
intermediação discursiva entre sujeito e realidade através da linguagem”. A defesa da
objetividade se sustentaria por esta funcionar como mecanismo de controle contra a
manipulação, arrisca.
Insistindo em buscar a verdade (mesmo que seu relato, inevitavelmente, não
reflita exatamente o fato) ou alimentando parentescos que garantam a sua sobrevivência,
de uma forma ou de outra, a objetividade assume dimensão de mito, de padrão mais
simbólico que concreto. Como isso se configura?
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2.4.2 O ritual profissional e os interesses incidentes
“Os jornais da manhã e da tarde mentiram com lealdade”
Jorge Luis Borges – A velha dama
Em muitos autores, o modelo que se sustenta no paradigma da objetividade mais
lembra um Jornalismo sem jornalistas; um Jornalismo onde os fatos falam por si
mesmos, onde as circunstâncias contam, sozinhas, os acontecimentos, apresentando
seus personagens e os cenários onde contracenam. A objetividade – como se vem
discutindo desde então na profissão – pressupõe ausência de emoções, nulidade de
julgamentos, equilíbrio na costura das versões. A objetividade como instituição
jornalística emerge da submersão dos indivíduos que praticam o Jornalismo. A
objetividade se dá quando um manto espesso de homogeneidade se espalha pelo
coletivo. A objetividade acontece quando o sujeito não se manifesta, quando
desaparece, poderíamos continuar.
Repete-se a questão de Javier Restrepo: para preservar a objetividade deve
desaparecer o jornalista? Talvez sim. Mas invertendo a lógica, é possível ainda admitir
que a objetividade funcione como um conjunto de práticas que trabalham tecnicamente
para a ocultação dos interesses incidentes no processo comunicacional. É o que defende
Alice Mitika Koshyiama (1985):
Fazer os leitores acreditarem que se procura ser imparcial e objetivo,
deixando a eles a escolha da afirmação mais verossímil, é um modo
da empresa jornalística manter como seu público consumidor
aqueles leitores que divergem da orientação editorial da
publicação. Alinhar como realidades possíveis a objetividade e a
imparcialidade é uma defesa prévia contra os que venham a acusar
uma publicação de ser partidária e tendenciosa. Aí, vemos a
colocação da objetividade enquanto problema técnico; é a fuga
da discussão da atividade jornalística como questão política. (45)
Querer evitar ou se desviar de uma visão mais política é uma forma de ocultar os
interesses que incidem na produção e na circulação das notícias. Isso porque o processo
jornalístico não é apenas técnico, mas também político. Optar por um enfoque numa
2.4.2 O ritual profissional e os interesses incidentes
“Os jornais da manhã e da tarde mentiram com lealdade”
Jorge Luis Borges – A velha dama
Em muitos autores, o modelo que se sustenta no paradigma da objetividade mais
lembra um Jornalismo sem jornalistas; um Jornalismo onde os fatos falam por si
mesmos, onde as circunstâncias contam, sozinhas, os acontecimentos, apresentando
seus personagens e os cenários onde contracenam. A objetividade – como se vem
discutindo desde então na profissão – pressupõe ausência de emoções, nulidade de
julgamentos, equilíbrio na costura das versões. A objetividade como instituição
jornalística emerge da submersão dos indivíduos que praticam o Jornalismo. A
objetividade se dá quando um manto espesso de homogeneidade se espalha pelo
coletivo. A objetividade acontece quando o sujeito não se manifesta, quando
desaparece, poderíamos continuar.
Repete-se a questão de Javier Restrepo: para preservar a objetividade deve
desaparecer o jornalista? Talvez sim. Mas invertendo a lógica, é possível ainda admitir
que a objetividade funcione como um conjunto de práticas que trabalham tecnicamente
para a ocultação dos interesses incidentes no processo comunicacional. É o que defende
Alice Mitika Koshyiama (1985):
Fazer os leitores acreditarem que se procura ser imparcial e objetivo,
deixando a eles a escolha da afirmação mais verossímil, é um modo
da empresa jornalística manter como seu público consumidor
aqueles leitores que divergem da orientação editorial da
publicação. Alinhar como realidades possíveis a objetividade e a
imparcialidade é uma defesa prévia contra os que venham a acusar
uma publicação de ser partidária e tendenciosa. Aí, vemos a
colocação da objetividade enquanto problema técnico; é a fuga
da discussão da atividade jornalística como questão política. (45)
Querer evitar ou se desviar de uma visão mais política é uma forma de ocultar os
interesses que incidem na produção e na circulação das notícias. Isso porque o processo
jornalístico não é apenas técnico, mas também político. Optar por um enfoque numa
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2.4.3 Objetividade como efeito de discurso
"As pessoas não param de confundir com notícias o que lêem nos jornais"
A. J. Liebing, jornalista norte-americano (1904-1963)
“Nada é mentira, nem tudo é verdade: de omissões
em edições se constrói uma realidade de ficções”
Patrícia Patrício – Tirando o manual do automático
Já se disse aqui que, em termos de objetividade jornalística, a fala sobrepõe-se à
ação. Isto é, o discurso estabelece condições para que práticas se consolidem, e se
disseminem no mundo social do trabalho. Isso porque o discurso não apenas reflete o
mundo e seus elementos, mas também porque o discurso refrate a realidade, criando
cenários e conceitos, cristalizando entendimentos e visões. Desta forma, pode-se pensar
em universos paralelos que se tocam, que se entrecruzam criando zonas em que a
realidade do discurso vale tanto a realidade das coisas do mundo (que até poderíamos
chamar de real-real). O Jornalismo é uma atividade social envolvendo um complexo
tecnológico que torna mais evidente a porosidade dos limites entre essas realidades: o
que se lê nos jornais ou se vê na TV é tomado como o acontecimento em si; os discursos
veiculados nos meios de comunicação alcançam estatuto de verdades do mundo.
A objetividade é uma condição que dá sustentação ao Jornalismo como prática.
Reescrevo o enunciado: A objetividade falada – o que se diz dela – ajuda a suportar o
Jornalismo no mundo social. Desde os tempos de consolidação da atividade jornalística,
a objetividade recheia o discurso de constituição, definição e inserção social do
Jornalismo. Isso não pode ser ignorado.
A exemplo dos demais, o discurso jornalístico tem suas regras de
funcionamento. Essas normas não só ajudam a fundar o Jornalismo como prática
discursiva como também contribuem para a conseqüente cristalização de suas práticas
sociais. Bethânia Mariani (1998) diagnostica que esse discurso jornalístico é um tipo de
2.4.3 Objetividade como efeito de discurso
"As pessoas não param de confundir com notícias o que lêem nos jornais"
A. J. Liebing, jornalista norte-americano (1904-1963)
“Nada é mentira, nem tudo é verdade: de omissões
em edições se constrói uma realidade de ficções”
Patrícia Patrício – Tirando o manual do automático
Já se disse aqui que, em termos de objetividade jornalística, a fala sobrepõe-se à
ação. Isto é, o discurso estabelece condições para que práticas se consolidem, e se
disseminem no mundo social do trabalho. Isso porque o discurso não apenas reflete o
mundo e seus elementos, mas também porque o discurso refrate a realidade, criando
cenários e conceitos, cristalizando entendimentos e visões. Desta forma, pode-se pensar
em universos paralelos que se tocam, que se entrecruzam criando zonas em que a
realidade do discurso vale tanto a realidade das coisas do mundo (que até poderíamos
chamar de real-real). O Jornalismo é uma atividade social envolvendo um complexo
tecnológico que torna mais evidente a porosidade dos limites entre essas realidades: o
que se lê nos jornais ou se vê na TV é tomado como o acontecimento em si; os discursos
veiculados nos meios de comunicação alcançam estatuto de verdades do mundo.
A objetividade é uma condição que dá sustentação ao Jornalismo como prática.
Reescrevo o enunciado: A objetividade falada – o que se diz dela – ajuda a suportar o
Jornalismo no mundo social. Desde os tempos de consolidação da atividade jornalística,
a objetividade recheia o discurso de constituição, definição e inserção social do
Jornalismo. Isso não pode ser ignorado.
A exemplo dos demais, o discurso jornalístico tem suas regras de
funcionamento. Essas normas não só ajudam a fundar o Jornalismo como prática
discursiva como também contribuem para a conseqüente cristalização de suas práticas
sociais. Bethânia Mariani (1998) diagnostica que esse discurso jornalístico é um tipo de
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discurso, no raio de sua influência e vigor. Repito: pode ser possível. Como é um efeito,
a objetividade pode funcionar ou não, marcar-se ou não.
Pensando nas etapas do fazer jornalístico, a objetividade só pode se dar no
estágio de tessitura do texto, e não na apuração das informações, por exemplo. Na coleta
dos dados, o jornalista não pode se apagar, ele está ali, junto à fonte de informação,
tomando seu depoimento, estimulando sua fala, reunindo versões. Aqui, um ponto que
não pode ser alijado da discussão: o Jornalismo trabalha com versões e não verdades.
Cotidianamente, nas redações, nos estúdios e nas ruas, repórteres manipulam40 versões,
misturam falas e pontos-de-vistas. Lidam com versões que se pretendem verdades. O
Jornalismo se ocupa de referendar verdades, fixar conceitos, estabelecer ditos e fatos.
Mas não se pode tratar do conceito de verdade sem vinculá-lo ao de poder, afirma
Michel Foucault (1984, p.12).
O importante, creio, é que a verdade não existe fora do poder ou
sem poder (...) A verdade é deste mundo; ela é produzida nele
graças a múltiplas coerções e nele produz efeitos regulamentados
de poder. Cada sociedade tem seu regime de verdade, sua ‘política
geral’ de verdade: isto é, os tipos de discurso que ela acolhe e faz
funcionar como verdadeiros; os mecanismos e as instâncias que
permitem distinguir os enunciados verdadeiros dos falsos, a maneira
como se sanciona uns e outros; as técnicas e os procedimentos que
são valorizados para a obtenção da verdade; o estatuto daqueles
que têm o encargo de dizer o que funciona como verdadeiro.
Não se encontra a verdade, como se ela estivesse oculta, escondida. A verdade é
construída, costurada; é consensual entre aqueles que detêm a prerrogativa de a
definirem; é conveniente e é plural. Ela é uma direção de sentido, uma sinalização de
entendimento e compreensão. Trata-se da sua imposição como algo literal,
incontestável, inadiável, incontornável. A operação que ocorre é a imposição de uma
versão em detrimento de outras – atendendo a certos critérios que chamamos de
40 Uso o verbo “manipular” na sua acepção primeira, a de trabalhar com as mãos, de manejar, tratar
manualmente. O termo tem origem entre os romanos e se referia às atividades de alguns soldados que se
ocupavam de ostentar os manípulos, hastes e pavilhões com símbolos do Império.
discurso, no raio de sua influência e vigor. Repito: pode ser possível. Como é um efeito,
a objetividade pode funcionar ou não, marcar-se ou não.
Pensando nas etapas do fazer jornalístico, a objetividade só pode se dar no
estágio de tessitura do texto, e não na apuração das informações, por exemplo. Na coleta
dos dados, o jornalista não pode se apagar, ele está ali, junto à fonte de informação,
tomando seu depoimento, estimulando sua fala, reunindo versões. Aqui, um ponto que
não pode ser alijado da discussão: o Jornalismo trabalha com versões e não verdades.
Cotidianamente, nas redações, nos estúdios e nas ruas, repórteres manipulam40 versões,
misturam falas e pontos-de-vistas. Lidam com versões que se pretendem verdades. O
Jornalismo se ocupa de referendar verdades, fixar conceitos, estabelecer ditos e fatos.
Mas não se pode tratar do conceito de verdade sem vinculá-lo ao de poder, afirma
Michel Foucault (1984, p.12).
O importante, creio, é que a verdade não existe fora do poder ou
sem poder (...) A verdade é deste mundo; ela é produzida nele
graças a múltiplas coerções e nele produz efeitos regulamentados
de poder. Cada sociedade tem seu regime de verdade, sua ‘política
geral’ de verdade: isto é, os tipos de discurso que ela acolhe e faz
funcionar como verdadeiros; os mecanismos e as instâncias que
permitem distinguir os enunciados verdadeiros dos falsos, a maneira
como se sanciona uns e outros; as técnicas e os procedimentos que
são valorizados para a obtenção da verdade; o estatuto daqueles
que têm o encargo de dizer o que funciona como verdadeiro.
Não se encontra a verdade, como se ela estivesse oculta, escondida. A verdade é
construída, costurada; é consensual entre aqueles que detêm a prerrogativa de a
definirem; é conveniente e é plural. Ela é uma direção de sentido, uma sinalização de
entendimento e compreensão. Trata-se da sua imposição como algo literal,
incontestável, inadiável, incontornável. A operação que ocorre é a imposição de uma
versão em detrimento de outras – atendendo a certos critérios que chamamos de
40 Uso o verbo “manipular” na sua acepção primeira, a de trabalhar com as mãos, de manejar, tratar
manualmente. O termo tem origem entre os romanos e se referia às atividades de alguns soldados que se
ocupavam de ostentar os manípulos, hastes e pavilhões com símbolos do Império.
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CAPÍTULO 3
Entre a dúvida e a incerteza
“Se não vir nas suas mãos as feridas dos pregos,
e se não puser nelas meu dedo e não colocar minha mão
no seu lado, não acreditarei”
Evangelho de João, Cap. 20, Vers. 25
m dos episódios mais conhecidos quando o tema é dúvida, a incredulidade do
Tomé bíblico ganhou dimensão de substantivo. Assim, quando lhe dizem que
seu mestre ressuscitara, o apóstolo rechaça a hipótese, admitindo-a apenas se
constatada pela visão e pelo tato, sentidos auxiliares da sua razão. Só tocando e vendo o
corpo à sua frente, o homem simples que vivia como pescador confiaria no retorno de
Jesus à vida. O traço humano mais evidente da passagem de Tomé pelos quatro
evangelhos – a dúvida – cristaliza-se em um estigma, e o discípulo passa a ser
conhecido como o “incrédulo”, o santo do “ver para crer”.
Similar ao episódio é a suspeita dos guardas frente à aparição de um vulto nas
cercanias do castelo de Elsinor, em Hamlet, de William Shakespeare. Estupefatos, os
soldados não crêem no que se mostra a eles mais de uma vez. O príncipe da Dinamarca
também duvida, até que o fantasma de seu pai aparece e lhe conta a verdade sobre sua
morte.
Nas duas histórias, aquilo que é difícil de aceitar como verdadeiro, como crível,
ganha corpo sob uma forma sobrenatural: é um anjo ou uma visão, é um espírito ou um
fantasma. Entidades que burlam as regras da natureza e que se colocam no mundo dos
vivos e das aparências para trazer revelações, denúncias. Nos dois casos - e em muitos
outros -, a dúvida é a chancela da verdade; a condição de legitimação de uma suspeita; o
elemento que vai sustentar a assertiva, já que a coloca em prova: num primeiro
momento, a dúvida reforça a desconfiança, mas depois, serve de etapa probatória da
verdade. Se a afirmação sobrevive ao teste da dúvida, do questionamento, ela ganha
U
CAPÍTULO 3
Entre a dúvida e a incerteza
“Se não vir nas suas mãos as feridas dos pregos,
e se não puser nelas meu dedo e não colocar minha mão
no seu lado, não acreditarei”
Evangelho de João, Cap. 20, Vers. 25
m dos episódios mais conhecidos quando o tema é dúvida, a incredulidade do
Tomé bíblico ganhou dimensão de substantivo. Assim, quando lhe dizem que
seu mestre ressuscitara, o apóstolo rechaça a hipótese, admitindo-a apenas se
constatada pela visão e pelo tato, sentidos auxiliares da sua razão. Só tocando e vendo o
corpo à sua frente, o homem simples que vivia como pescador confiaria no retorno de
Jesus à vida. O traço humano mais evidente da passagem de Tomé pelos quatro
evangelhos – a dúvida – cristaliza-se em um estigma, e o discípulo passa a ser
conhecido como o “incrédulo”, o santo do “ver para crer”.
Similar ao episódio é a suspeita dos guardas frente à aparição de um vulto nas
cercanias do castelo de Elsinor, em Hamlet, de William Shakespeare. Estupefatos, os
soldados não crêem no que se mostra a eles mais de uma vez. O príncipe da Dinamarca
também duvida, até que o fantasma de seu pai aparece e lhe conta a verdade sobre sua
morte.
Nas duas histórias, aquilo que é difícil de aceitar como verdadeiro, como crível,
ganha corpo sob uma forma sobrenatural: é um anjo ou uma visão, é um espírito ou um
fantasma. Entidades que burlam as regras da natureza e que se colocam no mundo dos
vivos e das aparências para trazer revelações, denúncias. Nos dois casos - e em muitos
outros -, a dúvida é a chancela da verdade; a condição de legitimação de uma suspeita; o
elemento que vai sustentar a assertiva, já que a coloca em prova: num primeiro
momento, a dúvida reforça a desconfiança, mas depois, serve de etapa probatória da
verdade. Se a afirmação sobrevive ao teste da dúvida, do questionamento, ela ganha
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contornos de verossimilhança, passaporte para um perfil de veracidade42. A dúvida é
capital para quem busca certezas. A instabilidade do questionamento e a angústia da
incerteza parecem funcionar como estágios de um ritual, de um processo de encontro
das verdades. É preciso passar por eles até se alcançar o conforto, a calmaria da certeza.
Para cientistas, filósofos ou mesmo jornalistas, certas certezas são fundamentais.
Neste sentido, a dúvida tem papel importante em suas buscas cotidianas. Para observar
como isso se dá, é preciso, no entanto, percorrer alguns caminhos ancestrais, a começar
pelo trilhado por Descartes nos séculos XVI e XVII.
3.1 Descartes, a dúvida e o método
“Os achados mais valiosos são os métodos”
Friedrich W. Nietzsche, filósofo alemão
Os historiadores da filosofia demarcam que a escola do racionalismo nasce com
Descartes. Isto é, o estabelecimento de uma conduta humana e de sua estruturação em
pensamento apoiadas na razão surge a partir das idéias deste francês nascido no final do
Século dos Descobrimentos. Mas, para além do que possamos imaginar hoje, este é um
tempo não só de euforia econômica e de descobertas marítimas, mas de forte opressão
da Inquisição. E embora “a razão constitua cada homem”, a Igreja é quem sempre tem
razão...
Sociável e inteligente, Descartes freqüenta as cortes e as rodas intelectuais onde
se discutem as idéias de Galileu e Pascal, que estremecerão as cúpulas de igrejas e
governos. Com nítido talento matemático, Descartes se dedica a estudos da área, mas
aventura-se (com êxito) na Óptica e Biologia, contribuindo com seus insights e modelos
explicativos. Alguns que se mantêm até hoje, conforme se pode ver nas neurociências.
42 Funciona assim também nas discussões da filosofia da ciência. Principalmente no caso da crítica de Karl
Popper aos critérios de verificação científica dos empiristas lógicos do Círculo de Viena, no começo do
século XX. A eles, Popper opõe princípios que apontam para a refutabilidade de uma teoria científica.
contornos de verossimilhança, passaporte para um perfil de veracidade42. A dúvida é
capital para quem busca certezas. A instabilidade do questionamento e a angústia da
incerteza parecem funcionar como estágios de um ritual, de um processo de encontro
das verdades. É preciso passar por eles até se alcançar o conforto, a calmaria da certeza.
Para cientistas, filósofos ou mesmo jornalistas, certas certezas são fundamentais.
Neste sentido, a dúvida tem papel importante em suas buscas cotidianas. Para observar
como isso se dá, é preciso, no entanto, percorrer alguns caminhos ancestrais, a começar
pelo trilhado por Descartes nos séculos XVI e XVII.
3.1 Descartes, a dúvida e o método
“Os achados mais valiosos são os métodos”
Friedrich W. Nietzsche, filósofo alemão
Os historiadores da filosofia demarcam que a escola do racionalismo nasce com
Descartes. Isto é, o estabelecimento de uma conduta humana e de sua estruturação em
pensamento apoiadas na razão surge a partir das idéias deste francês nascido no final do
Século dos Descobrimentos. Mas, para além do que possamos imaginar hoje, este é um
tempo não só de euforia econômica e de descobertas marítimas, mas de forte opressão
da Inquisição. E embora “a razão constitua cada homem”, a Igreja é quem sempre tem
razão...
Sociável e inteligente, Descartes freqüenta as cortes e as rodas intelectuais onde
se discutem as idéias de Galileu e Pascal, que estremecerão as cúpulas de igrejas e
governos. Com nítido talento matemático, Descartes se dedica a estudos da área, mas
aventura-se (com êxito) na Óptica e Biologia, contribuindo com seus insights e modelos
explicativos. Alguns que se mantêm até hoje, conforme se pode ver nas neurociências.
42 Funciona assim também nas discussões da filosofia da ciência. Principalmente no caso da crítica de Karl
Popper aos critérios de verificação científica dos empiristas lógicos do Círculo de Viena, no começo do
século XX. A eles, Popper opõe princípios que apontam para a refutabilidade de uma teoria científica.
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