Na teia invisível do som: por uma geofonia da comunicação
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Na teia invisível do som: por uma geofonia da comunicação
119Revista FAMECOS • Porto Alegre • nº 9 • dezembro 1998 • semestral
mento, ou do modo precário como a enten-
demos, não conseguimos raciocinar perfei-
tamente algo como informação, passando
a fazer parte da física. Ou seja, é necessário
entender que a forma não é apenas geomé-
trica, volumétrica, energética, mas também
informática.
O som, como parte da física, como a
informação, é invisível, se manifesta por
efeitos. A Física atual demonstra que tudo
no universo existe em dois estados simultâ-
neos e distintos: como partículas e como on-
das. A partícula é um objeto físico concreto,
tem massa e ocupa um espaço definido. Já a
onda é invisível, não tem massa e não pode
ser localizada, pode ser apenas registrada.
Assim, conclui-se que o universo é sólido e
invisível ao mesmo tempo. As experiências
da Física Quântica têm demonstrado a coe-
xistência partícula-onda. Esse conhecimento
conjugado ao uso da realidade das ondas,
possibilitou a realização das rupturas da
ciência e da tecnologia, que presenciamos.
Estamos percebendo o paradoxo, de poder-
mos manipular nossa realidade física com a
tecnologia, sem compreender o sentido do
que fazemos.
O ponto de sintonia dessa reflexão
chama a atenção, porque as redes humanas
são como teias invisíveis que trançam pelo
espaço, suprimindo-o, mas estão tão pre-
sentes quanto o som. Dificilmente avalia-
mos quão complexa é a nossa dependência
do som, a teia das relações invisíveis que
tecemos com ele, quer pela audição propria-
mente dita, quer pela conduta que nos mo-
tiva. Uma relação sólida e delicada ao mes-
mo tempo. Castellengo (1996) observou, ob-
jetivamente, que a capacidade de identificar
rapidamente e sem erro os sons do nosso
ambiente cotidiano parece natural e banal:
“não percebemos tratar-se de uma conduta
fundamental e complexa da qual depende
nossa sobrevivência”, que vai muito além
do que possamos supor. A identificação dos
ruídos “não foi devidamente estudada no
reino do ser vivo”, o que poderia contribuir,
entre outras coisas, para o desenvolvimen-
to da idéia de forma na percepção sonora.
Por isso, a proposta, neste texto, é um
exercício inicial sobre as teias invisíveis
do som do mundo. A intenção é chamar
atenção não só para a amplitude do tema,
mas para a geofonia. Uma disciplina que
auxiliaria abarcar a ampla gama de fenô-
menos sonoros que hoje são estudados pela
música, bioacústica, engenharia acústica,
entre outras. A ampliação da utilização do
som, aponta a necessidade de uma discipli-
na, que considere melhor não só a forma
como percebemos auditivamente o mundo
à nossa volta, mas, também, para que não
ignoremos o que silenciosamente dele nos
tem passado despercebido.
Geofonia
A audição, o mais primitivo dos senti-
dos, sede do equilíbrio e da orientação, tem
sido relegada a um plano inferior. Desde a
escrita mais rudimentar, à mais engenhosa
máquina de visão. Portanto, audição (tem-
po), equilíbrio e orientação(espaço) são
sentidos enfraquecidos e atrofiados no pre-
sente.
Hercules Florence, durante a expedi-
ção Langsdorff (1829) fez uma experiência
de registro de “vozes” de animais, à qual
denominou zoophonia. Um relato sobre essas
experiências ofereceu pistas de um novo ca-
minho para a percepção dos sons naturais.
Por esse relato, o autor é considerado pai
da bioacústica. No entanto, o que propunha
não era tão somente uma disciplina da bio-
logia para investigar a vocali-zação dos ani-
mais como “exibições com-portamentais”,
detendo-se estritamente à “função biológica
dessas exibições”. No estudo mais apurado
do texto sobre zoo-fonia, até hoje pouco
conhecido e divulgado, verifica-se que a
intenção do autor foi interpretada com limi-
tações.
Se observarmos tanto as partituras
cheias de sinais, como suas indagações, fica
claro que objetivava a percepção das “for-
mas de emissão” e de como nosso ouvido
imediatamente seleciona e compara os sons
mento, ou do modo precário como a enten-
demos, não conseguimos raciocinar perfei-
tamente algo como informação, passando
a fazer parte da física. Ou seja, é necessário
entender que a forma não é apenas geomé-
trica, volumétrica, energética, mas também
informática.
O som, como parte da física, como a
informação, é invisível, se manifesta por
efeitos. A Física atual demonstra que tudo
no universo existe em dois estados simultâ-
neos e distintos: como partículas e como on-
das. A partícula é um objeto físico concreto,
tem massa e ocupa um espaço definido. Já a
onda é invisível, não tem massa e não pode
ser localizada, pode ser apenas registrada.
Assim, conclui-se que o universo é sólido e
invisível ao mesmo tempo. As experiências
da Física Quântica têm demonstrado a coe-
xistência partícula-onda. Esse conhecimento
conjugado ao uso da realidade das ondas,
possibilitou a realização das rupturas da
ciência e da tecnologia, que presenciamos.
Estamos percebendo o paradoxo, de poder-
mos manipular nossa realidade física com a
tecnologia, sem compreender o sentido do
que fazemos.
O ponto de sintonia dessa reflexão
chama a atenção, porque as redes humanas
são como teias invisíveis que trançam pelo
espaço, suprimindo-o, mas estão tão pre-
sentes quanto o som. Dificilmente avalia-
mos quão complexa é a nossa dependência
do som, a teia das relações invisíveis que
tecemos com ele, quer pela audição propria-
mente dita, quer pela conduta que nos mo-
tiva. Uma relação sólida e delicada ao mes-
mo tempo. Castellengo (1996) observou, ob-
jetivamente, que a capacidade de identificar
rapidamente e sem erro os sons do nosso
ambiente cotidiano parece natural e banal:
“não percebemos tratar-se de uma conduta
fundamental e complexa da qual depende
nossa sobrevivência”, que vai muito além
do que possamos supor. A identificação dos
ruídos “não foi devidamente estudada no
reino do ser vivo”, o que poderia contribuir,
entre outras coisas, para o desenvolvimen-
to da idéia de forma na percepção sonora.
Por isso, a proposta, neste texto, é um
exercício inicial sobre as teias invisíveis
do som do mundo. A intenção é chamar
atenção não só para a amplitude do tema,
mas para a geofonia. Uma disciplina que
auxiliaria abarcar a ampla gama de fenô-
menos sonoros que hoje são estudados pela
música, bioacústica, engenharia acústica,
entre outras. A ampliação da utilização do
som, aponta a necessidade de uma discipli-
na, que considere melhor não só a forma
como percebemos auditivamente o mundo
à nossa volta, mas, também, para que não
ignoremos o que silenciosamente dele nos
tem passado despercebido.
Geofonia
A audição, o mais primitivo dos senti-
dos, sede do equilíbrio e da orientação, tem
sido relegada a um plano inferior. Desde a
escrita mais rudimentar, à mais engenhosa
máquina de visão. Portanto, audição (tem-
po), equilíbrio e orientação(espaço) são
sentidos enfraquecidos e atrofiados no pre-
sente.
Hercules Florence, durante a expedi-
ção Langsdorff (1829) fez uma experiência
de registro de “vozes” de animais, à qual
denominou zoophonia. Um relato sobre essas
experiências ofereceu pistas de um novo ca-
minho para a percepção dos sons naturais.
Por esse relato, o autor é considerado pai
da bioacústica. No entanto, o que propunha
não era tão somente uma disciplina da bio-
logia para investigar a vocali-zação dos ani-
mais como “exibições com-portamentais”,
detendo-se estritamente à “função biológica
dessas exibições”. No estudo mais apurado
do texto sobre zoo-fonia, até hoje pouco
conhecido e divulgado, verifica-se que a
intenção do autor foi interpretada com limi-
tações.
Se observarmos tanto as partituras
cheias de sinais, como suas indagações, fica
claro que objetivava a percepção das “for-
mas de emissão” e de como nosso ouvido
imediatamente seleciona e compara os sons
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