Novas práticas de leitura e escrita: letramento na cibercultura
Educação Sociedade (2002)
- ISSN: 01017330
- DOI: 10.1590/S0101-73302002008100008
Available from www.scielo.br
or
Abstract
No contexto de uma diferenciação entre a cultura do papel e a cultura da tela, ou cibercultura, o artigo busca uma me- lhor compreensão do conceito de letramento, confrontando tecnologias tipográficas e tecnologias digitais de leitura e de escrita, a partir de diferenças relativas ao espaço da escrita e aos mecanis- mos de produção, reprodução e difusão da escrita; argumenta que cada uma dessas tecnologias tem determinados efeitos sociais, cognitivos e discursivos, resultando em modalidades diferentes de letramento, o que sugere que a palavra seja pluralizada: há letramentos, não letramento.
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Novas práticas de leitura e escrita: letramento na cibercultura
143Educ. Soc., Campinas, vol. 23, n. 81, p. 143-160, dez. 2002
Disponível em <http://www.cedes.unicamp.br>
NOVAS PRÁTICAS DE LEITURA E ESCRITA:
LETRAMENTO NA CIBERCULTURA
MAGDA SOARES*
RESUMO: No contexto de uma diferenciação entre a cultura do
papel e a cultura da tela, ou cibercultura, o artigo busca uma me-
lhor compreensão do conceito de letramento, confrontando
tecnologias tipográficas e tecnologias digitais de leitura e de escrita,
a partir de diferenças relativas ao espaço da escrita e aos mecanis-
mos de produção, reprodução e difusão da escrita; argumenta que
cada uma dessas tecnologias tem determinados efeitos sociais,
cognitivos e discursivos, resultando em modalidades diferentes de
letramento, o que sugere que a palavra seja pluralizada: há
letramentos, não letramento.
Palavras-chave: Letramento. Cultura do papel. Cibercultura. Práti-
cas de leitura. Práticas de escrita.
NEW READING AND WRITING PRACTICES:
LITERACY IN THE CYBERCULTURE
ABSTRACT: In the context of two different cultures – print cul-
ture and electronic culture, or cyberculture –, this article seeks a
clearer comprehension of literacy opposing typographic and digi-
tal technologies of reading and writing. Through the differences
regarding the writing space and the mechanisms of producing, re-
producing and diffusing ideas, it argues that different kinds of lit-
eracy – that is, different social, cognitive and discursive effects –
have resulted from such different modalities of written communi-
cation. Since literacy is not a single, homogeneous phenomenon, it
finally suggests this word should be used in its plural rather than
singular form: literacies.
Key words: Literacy. Print culture. Cyberculture. Reading practices.
Writing practices.
* Professora Titular Emérita da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Minas
Gerais (UFMG). E-mail: mbecker.soares@terra.com.br
Disponível em <http://www.cedes.unicamp.br>
NOVAS PRÁTICAS DE LEITURA E ESCRITA:
LETRAMENTO NA CIBERCULTURA
MAGDA SOARES*
RESUMO: No contexto de uma diferenciação entre a cultura do
papel e a cultura da tela, ou cibercultura, o artigo busca uma me-
lhor compreensão do conceito de letramento, confrontando
tecnologias tipográficas e tecnologias digitais de leitura e de escrita,
a partir de diferenças relativas ao espaço da escrita e aos mecanis-
mos de produção, reprodução e difusão da escrita; argumenta que
cada uma dessas tecnologias tem determinados efeitos sociais,
cognitivos e discursivos, resultando em modalidades diferentes de
letramento, o que sugere que a palavra seja pluralizada: há
letramentos, não letramento.
Palavras-chave: Letramento. Cultura do papel. Cibercultura. Práti-
cas de leitura. Práticas de escrita.
NEW READING AND WRITING PRACTICES:
LITERACY IN THE CYBERCULTURE
ABSTRACT: In the context of two different cultures – print cul-
ture and electronic culture, or cyberculture –, this article seeks a
clearer comprehension of literacy opposing typographic and digi-
tal technologies of reading and writing. Through the differences
regarding the writing space and the mechanisms of producing, re-
producing and diffusing ideas, it argues that different kinds of lit-
eracy – that is, different social, cognitive and discursive effects –
have resulted from such different modalities of written communi-
cation. Since literacy is not a single, homogeneous phenomenon, it
finally suggests this word should be used in its plural rather than
singular form: literacies.
Key words: Literacy. Print culture. Cyberculture. Reading practices.
Writing practices.
* Professora Titular Emérita da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Minas
Gerais (UFMG). E-mail: mbecker.soares@terra.com.br
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144 Educ. Soc., Campinas, vol. 23, n. 81, p. 143-160, dez. 2002
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m um movimento de certa forma contrário ao mais freqüente,
que é o de ampliar a compreensão do presente interrogando o
passado que o gerou, tenta-se, neste texto, essa mesma
compreensão do presente interrogando o futuro que nele está sendo
gerado. Em outras palavras: o que aqui se pretende é perseguir uma
mais ampla compreensão de letramento, buscando um novo sentido
que essa palavra e fenômeno, recém-introduzidos no contexto de uma
cultura do papel, e nela ainda não plenamente compreendidos, já vêm
adquirindo, como conseqüência do surgimento, ao lado da cultura do
papel, de uma cibercultura.1
Conceitos de letramento
O plural, nesse subtítulo – conceitos –, explica-se pela imprecisão
que, na literatura educacional brasileira, ainda marca a definição de
letramento, imprecisão compreensível se se considera que o termo foi
recentemente introduzido nas áreas das letras e da educação.2 Entretanto,
não há, propriamente, uma diversidade de conceitos, mas diversidade
de ênfases na caracterização do fenômeno.
Há autores que consideram que letramento são as práticas de
leitura e escrita: segundo Kleiman (1995, p. 19): “Podemos definir hoje
o letramento como um conjunto de práticas sociais que usam a escrita,
enquanto sistema simbólico e enquanto tecnologia, em contextos
específicos, para objetivos específicos”. Em texto posterior, a autora
declara entender letramento “como as práticas e eventos relacionados
com uso, função e impacto social da escrita” (idem, 1998, p. 181). Nessa
concepção, letramento são as práticas sociais de leitura e escrita e os
eventos em que essas práticas são postas em ação, bem como as
conseqüências delas sobre a sociedade.
Já Tfouni (1988, p. 16), em obra que foi uma das primeiras a não
só utilizar, mas também a definir o termo letramento, conceitua-o em
confronto com alfabetização, conceito que reafirma em obra posterior:
“Enquanto a alfabetização ocupa-se da aquisição da escrita por um
indivíduo, ou grupo de indivíduos, o letramento focaliza os aspectos
sócio-históricos da aquisição de um sistema escrito por uma sociedade”
(idem, 1995, p. 20). A autora reafirma essa diferença entre alfabetização
e letramento insistindo no caráter individual daquela e social deste:
A alfabetização refere-se à aquisição da escrita enquanto aprendizagem de
habilidades para leitura, escrita e as chamadas práticas de linguagem. Isso é
Disponível em <http://www.cedes.unicamp.br>
m um movimento de certa forma contrário ao mais freqüente,
que é o de ampliar a compreensão do presente interrogando o
passado que o gerou, tenta-se, neste texto, essa mesma
compreensão do presente interrogando o futuro que nele está sendo
gerado. Em outras palavras: o que aqui se pretende é perseguir uma
mais ampla compreensão de letramento, buscando um novo sentido
que essa palavra e fenômeno, recém-introduzidos no contexto de uma
cultura do papel, e nela ainda não plenamente compreendidos, já vêm
adquirindo, como conseqüência do surgimento, ao lado da cultura do
papel, de uma cibercultura.1
Conceitos de letramento
O plural, nesse subtítulo – conceitos –, explica-se pela imprecisão
que, na literatura educacional brasileira, ainda marca a definição de
letramento, imprecisão compreensível se se considera que o termo foi
recentemente introduzido nas áreas das letras e da educação.2 Entretanto,
não há, propriamente, uma diversidade de conceitos, mas diversidade
de ênfases na caracterização do fenômeno.
Há autores que consideram que letramento são as práticas de
leitura e escrita: segundo Kleiman (1995, p. 19): “Podemos definir hoje
o letramento como um conjunto de práticas sociais que usam a escrita,
enquanto sistema simbólico e enquanto tecnologia, em contextos
específicos, para objetivos específicos”. Em texto posterior, a autora
declara entender letramento “como as práticas e eventos relacionados
com uso, função e impacto social da escrita” (idem, 1998, p. 181). Nessa
concepção, letramento são as práticas sociais de leitura e escrita e os
eventos em que essas práticas são postas em ação, bem como as
conseqüências delas sobre a sociedade.
Já Tfouni (1988, p. 16), em obra que foi uma das primeiras a não
só utilizar, mas também a definir o termo letramento, conceitua-o em
confronto com alfabetização, conceito que reafirma em obra posterior:
“Enquanto a alfabetização ocupa-se da aquisição da escrita por um
indivíduo, ou grupo de indivíduos, o letramento focaliza os aspectos
sócio-históricos da aquisição de um sistema escrito por uma sociedade”
(idem, 1995, p. 20). A autora reafirma essa diferença entre alfabetização
e letramento insistindo no caráter individual daquela e social deste:
A alfabetização refere-se à aquisição da escrita enquanto aprendizagem de
habilidades para leitura, escrita e as chamadas práticas de linguagem. Isso é
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