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Poesia em meio digital: algumas considerações

by Rui Torres
Sociedade da Informação balanço e implicações (2004)

Abstract

Pretendo com esta apresentação tecer algumas considerações acerca de poesia em meio digital. Através de uma breve descrição de formas de poesia interactiva e animada em computador, proponho que a natureza rizomática do hipertexto e do meio digital oferece aos estudos literários uma oportunidade para re-equacionar questões relacionadas com a função da literatura. Verifico ainda uma linha de continuidade entre o meio analógico e o digital, abordando a esse respeito a digitalização da tradição que o aparecimento da Internet proporcionou. Neste sentido, questiono o papel dos estudos literários e culturais no que diz respeito à utilização e teorização do meio digital.

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Poesia em meio digital: algumas considerações

Referência para citação: TORRES, R. (2004). “Poesia em meio digital: algumas observações”, in:
Sociedade da Informação: balanço e implicações. Organizado por Luís Borges Gouveia e Sofia Gaio.
Porto, Edições UFP. pp.321-28. Contacto para citação, publicação ou conferência: rtorres@ufp.pt
Poesia em meio digital: algumas considerações
Rui Torres
Professor Auxiliar
Universidade Fernando Pessoa
rtorres@ufp.pt
ABSTRACT: Pretendo com esta apresentação tecer algumas considerações acerca de
poesia em meio digital. Através de uma breve descrição de formas de poesia
interactiva e animada em computador, proponho que a natureza rizomática do
hipertexto e do meio digital oferece aos estudos literários uma oportunidade para
re-equacionar questões relacionadas com a função da literatura. Verifico ainda uma
linha de continuidade entre o meio analógico e o digital, abordando a esse respeito
a digitalização da tradição que o aparecimento da Internet proporcionou. Neste
sentido, questiono o papel dos estudos literários e culturais no que diz respeito à
utilização e teorização do meio digital.
*
Parece hoje em dia aceitável dizer que certos tipos de texto que
surgiram no contexto da revolução digital da Sociedade da
Informação problematizam assuntos que interessam, ainda que de
uma forma transversal, aos estudos culturais e literários. Na verdade,
o texto em meio digital, a que podemos – por razões práticas e não
conceptuais – chamar de cibertexto,1 começa a levantar questões
pertinentes no momento em que passamos de um uso do computador
enquanto máquina de armazenamento para um uso criativo do
mesmo, ou, como prefere Pedro Barbosa, no seu uso enquanto
“máquina semiótica” de amplificação de complexidades (1996: 63).
Claro que o potencial arquivístico dos computadores é extremamente
relevante, nomeadamente devido às implicações culturais únicas, que
1A expressão é de Espen Aarserth, em Cybertext, Perspectives on Ergodic
Literature.
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interessa sem dúvida discutir. No entanto, não me interessa aqui
discutir esse aspecto, mas tão só o possível uso do meio digital para
fins literários e/ou artísticos.
O sonho de uma máquina pensante não é novo e não podemos a este
respeito esquecer que grande parte das ideias que estão na origem
dos novos media aparecem inicialmente em contextos distintos dos
meios tecnológicos. O que é verdade é que o sonho e a utopia se
disseminam sempre a partir daquilo que aparece como novo, e os
novos meios digitais não são excepção. Já em “As We May Think”,2 de
Vannevar Bush, podemos identificar um primeiro impulso para pensar
um processador de texto (a que Bush deu o nome de MEMEX) fora do
imaginário informático em que vivemos hoje em dia. Bush foi o
principal organizador do Projecto Manhattan, que conceptualizou e
ajudou a produzir as primeiras bombas atómicas que destruiram
parcialmente Hiroshima e Nagasaki. Neste sentido, fica também já
aqui implícita uma ligação, a que voltaremos mais tarde, entre as
tecnologias da informação e o complexo militar-industrial. Ora, de
facto, nesta altura os computadores serviam apenas para calcular, de
uma forma rápida e eficiente, alvos de bombas. No entanto, e esse é
o objectivo da referência, com Bush começa-se a pensar a
possibilidade de o computador ser também uma máquina de
manipulação de símbolos.
A utopia acompanha e incentiva, por isso, o aparecimento da
Sociedade da Informação. Também Alan Turing, no seu ensaio
“Computing Machinery and Intelligence”, propõe, pela primeira vez –
e, curiosamente, num jornal de filosofia (Mind, em Outubro de 1950)
–, o seu famoso teste de Turing. Em vez de perguntar, simplesmente,
2Publicado em The Atlantic Monthly , em Julho de 1945 (Volume 176, No. 1, pp.
101-108) .

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