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Potencial alelopático do extrato foliar de Annona glabra L . ( Annonaceae ) Após o fracionamento líquido : líquido foram obtidas três

by Reginaldo Sadao Matsumoto, José Pedro, Nepomuceno Ribeiro, Leandro Kenji, Maria Inês, Salgueiro Lima
Acta Botanica Brasilica (2010)

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Potencial alelopático do extrato foliar de Annona glabra L . ( Annonaceae ) Após o fracionamento líquido : líquido foram obtidas três

Acta bot. bras. 24(3): 631-635. 2010.
Introdução
Os herbicidas sintéticos têm-se mostrado cada vez menos
efetivos na sua ação contra espécies infestantes de culturas,
uma vez que o seu uso continuado tem levado à seleção
de indivíduos cada vez mais resistentes a esses produtos
(Gelmini et al. 2001). Este fenômeno tem levado à busca
de novas alternativas, menos agressivas ao meio, como é o
caso dos aleloquímicos naturais. Estes têm como vantagens
a solubilidade em água, meia vida mais curta e geralmente
não são considerados potencialmente tóxicos (Duke 2000).
Os estudos químicos sobre as Annonaceae foram inten-
sifi cados nos anos 80 e 90, principalmente pela procura de
acetogeninas, uma classe de compostos com ampla ativi-
dade biológica. E antes disso, as pesquisas centraram suas
investigações sobre os alcalóides isoquinolínicos. Foram
catalogados cerca de 320 produtos secundários naturais
provindos de 150 espécies desta família (Alali et al.1999).
Estudos químicos sobre a Annona glabra L. confi rmaram
a presença de grupos de substâncias com possível potencial
alelopático, como monoterpenóides (Grayson 2000) e diter-
penóides, isolados de diferentes partes da planta (Chang et
al. 1998; Chen et al. 2000; Yang et al. 2003; Zhang et al.
2004). Chang et al. (2000) e Hsieh et al. (2004) isolaram
alcalóides, esteróides e outros diterpenóides. Porém abor-
dagens sobre o seu potencial alelopático ou fi totóxico ainda
não haviam sido realizados.
Estudos preliminares não publicados mostraram que extra-
tos aquosos 10% (p/v) de folhas de A. glabra exerceram efeitos
inibitórios sobre germinação e crescimento inicial de Lactuca
sativa L. e no crescimento inicial de três espécies infestantes
de culturas: Echinochloa crus-galli (L.) P. Beauv.; Euphorbia
heterophylla L. Ipomoea grandifolia (Dammer) O’Donell.
A. glabra é arbustivo-arbórea e cresce nas margens de
rios, formando aglomerados. Este comportamento pode
indicar que está ocorrendo uma forte competição com ou-
tras espécies ou ainda que existam processos alelopáticos
envolvidos nesta distribuição. A partir dessas observações
e dos testes preliminares realizados anteriormente, foram
estabelecidos os seguintes objetivos: A) Avaliar o potencial
alelopático de extratos foliares de A. glabra sobre a germi-
nação e crescimento de plântulas de outras espécies, e sobre
o crescimento de coleóptilos de trigo. B) Verifi car a presença
de classes de compostos do metabolismo secundário nos
extratos e frações estudados.
1 Universidade Federal de São Carlos, Programa de Pós-graduação em Ecologia e Recursos Naturais, Laboratório de Sistemática e Ecologia Química,
São Carlos, SP, Brasil
2 Universidade Federal de São Carlos, Departamento de Botânica, Laboratório de Sistemática e Ecologia Química, São Carlos, SP, Brasil
3 Autor para correspondência: sadaomts@gmail.com
Potencial alelopático do extrato foliar
de Annona glabra L. (Annonaceae)
Reginaldo Sadao Matsumoto1,3, José Pedro Nepomuceno Ribeiro1, Leandro Kenji Takao1 e Maria Inês Salgueiro Lima2
Recebido em 16/02/2009. Aceito em 20/10/2009
RESUMO – (Potencial alelopático do extrato foliar de Annona glabra L. (Annonaceae)). A. glabra cresce em áreas alagadas, formando aglomerados. Este
comportamento pode indicar ocorrência de competição com outras espécies ou que existam processos alelopáticos. Neste estudo, os objetivos foram: a)
avaliação do potencial alelopático de extratos foliares de A. glabra sobre a germinação e crescimento de outras espécies, e sobre o crescimento de coleóptilos
de trigo e b) verifi cação da presença de grupos de substâncias nos extratos. Os testes qualitativos detectaram triterpenos, taninos e fl avonóides. Foi realizada
cromatografi a de partição líquido:líquido com hexano e acetato de etila. A atividade das frações obtidas foi testada sobre de Lactuca sativa, Echinochloa
crus-galli, Euphorbia heterophylla e Ipomoea grandifolia. A fração acetato de etila reduziu a porcentagem de germinação de L. sativa e atrasou o tempo
médio de germinação de E. crus-galli além de afetar o crescimento de todas as espécies. Esta fração foi purifi cada em coluna de sílica, obtendo-se cinco
frações (A, B, C, D e E). Para cada uma delas foram preparadas quatro concentrações (1000; 158; 79; 39,5 ppm). Os efeitos causados pelas frações foram
avaliados com o teste de coleóptilo de trigo. A fração A estimulou o alongamento destes nas três menores concentrações, na maior foi inibitória, B inibiu
nas três maiores, C inibiu apenas na maior e E não provocou efeito signifi cativo.
Palavras-chave: alelopatia, coleóptilos, plantas infestantes de culturas
ABSTRACT – (Allelopathic potential of leaf extract of Annona glabra L. (Annonaceae)). A. glabra is a wetland species, occurring in dense populations.
This behavior may indicate strong competition with other species or the existence of an allelopathic process involved in this distribution. In this study, we
aim to: a) evaluate the allelopathic potential of extracts produced by A. glabra leaves on germination and seedling growth of other species and on wheat
coleoptile growth and b) verify the presence of substance groups on the extracts and fractions studied. The qualitative test detected triterpenes, tannins
and fl avonoids. A Liquid:liquid partition chromatography of aqueous extract was done, using hexane and ethyl acetate. The activities of the fractions
obtained were tested on germination and initial growth of Lactuca sativa, Echinochloa crus-galli, Euphorbia heterophylla and Ipomoea grandifolia. The
ethyl acetate fraction reduced L. sativa germination percentage and E. crus-galli mean germination time and affected the initial growth of all species.
This fraction was purifi ed by chromatographic column which resulted in fi ve fractions (A, B, C, D and E). Four concentrations (1000; 158; 79; 39.5 ppm)
were prepared for each one. Effects caused by fractions were evaluated by wheat coleoptile tests. Fraction A stimulated elongation at all concentrations
except 1000 ppm. Fraction B was inhibitory at all concentrations except for the smaller one. C was inhibitory only at the higher concentration and E did
not cause a signifi cant effect.
Key words: allelopathy, coleoptiles, weed species
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632 Matsumoto et al.: Potencial alelopático do extrato foliar de Annona glabra L. (Annonaceae)
Material e métodos
Material vegetal – Folhas de Annona glabra foram coletadas no estuário
cego do rio Massaguaçu (23º37”02’ S; 45º21”23’ O), Caraguatatuba, São
Paulo, Brasil. O material foi seco em estufa a 45°C por 48 h. O espécime
voucher, número de referência 7503, está depositado no Herbário do De-
partamento de Botânica da UFSCar (Universidade Federal de São Carlos).
Cromatografi a de partição líquido:líquido – Um extrato aquoso 10% (p/v)
foi preparado com 140 g de folhas secas moídas de A. glabra e água desti-
lada. Após acondicionamento em geladeira por 24 h, o extrato foi fi ltrado à
vácuo através de camada dupla de papel fi ltro (3 μm). Em funil de separação,
o fi ltrado foi submetido à cromatografi a de partição líquido:líquido (CPLL),
na proporção de 1:1, utilizando hexano e posteriormente, acetato de etila.
Teste de germinação – Os efeitos dos extratos resultantes da CPLL foram
avaliados através da porcentagem e tempo médio de germinação, obtidos
mediante as fórmulas propostas por Labouriau & Valadares (1976). Como
espécies alvo foram usadas uma bioindicadora, alface (Lactuca sativa,
variedade Grand rapids), e três espécies consideradas plantas infestantes de
cultura: capim-arroz (Echinochloa crus-galli); amendoim bravo (Euphorbia
heterophylla); corda de viola (Ipomoea grandifolia).
Placas de Petri (9 cm) foram lavadas e esterilizadas. Cada placa recebeu
duas folhas de papel fi ltro e 5 mL do extrato. As placas foram acondicio-
nadas em capela até evaporação total dos solventes. Em seguida, os papéis
de fi ltros receberam igual volume de água destilada e 30 sementes foram
dispostas em seu interior. Foram vedadas com fi lme plástico, tampadas e
acondicionadas em estufa DBO a 28°C, recebendo luz apenas durante a
contagem das sementes germinadas.
As sementes germinadas foram contadas e retiradas a cada 12 h, até
o fi nal do 10° dia. Foram consideradas germinadas as sementes cujas ra-
dículas apresentavam pelo menos 50% do tamanho da semente (Ferreira
& Borghetti 2004).
Teste de crescimento inicial – Foram usadas as mesmas espécies alvo e
os mesmos procedimentos de lavagem e esterilização dos recipientes do
teste de germinação. Caixas plásticas (12x7x10cm), contendo duas folhas
de papel fi ltro, foram usadas com uma quantidade de 12 mL do tratamento.
As caixas foram colocadas em capela até a evaporação total dos solventes
e reidratadas com o mesmo volume de água destilada. Quinze plântulas
(pré-germinadas no escuro, à 28°C) foram acondicionadas em cada caixa. As
caixas foram tampadas e colocadas em estufa a 28° C com fotoperíodo de
12 h. Após cinco dias, a parte aérea e radícula das plântulas foram medidas.
Em ambos os testes, cada espécie alvo recebeu três tratamentos (contro-
le, contendo água destilada; extrato hexânico; extrato com acetato de etila)
no delineamento experimental inteiramente casualizado, com cinco réplicas.
Os dados de porcentagem e tempo médio de germinação e comprimento
das plântulas foram analisados com ANOVA com pós-teste de Tukey ou
Kruskall-Wallis com pós-teste de Dunn. Com intuito de avaliar os efeitos
de possíveis resíduos dos solventes após sua secagem, um segundo controle
foi executado utilizando somente os solventes como tratamento. Foram
utilizados ensaios de germinação e crescimento inicial com as mesmas
espécies alvo e a mesma metodologia.
Fracionamento em coluna de sílica gel – Com base nos resultados dos testes
de germinação e crescimento inicial da extração líquido:líquido, o extrato
com resultados inibitórios (acetato de etila) foi submetido ao fracionamento
em coluna de sílica gel (60-200 Mesh). Na composição da fase estacionária
da coluna, foi adicionada sílica ao extrato e seco em capela. Como fase
móvel foi usado um gradiente de solventes de polaridades crescentes: he-
xano; hexano/diclorometano (3:1); hexano/diclorometano (1:1); hexano/
diclorometano (1:3); diclorometano; diclorometano/acetato de etila (3:1);
diclorometano/acetato de etila (1:1); diclorometano/acetato de etila (1:3);
acetato de etila; acetato de etila/ acetona (1:1); acetona; acetona/metanol
(1:1); metanol. As frações resultantes foram separadas em frascos de 50 mL.
O conteúdo das frações foi analisado por cromatografi a em camada
delgada (Cézar et al. 2007), utilizando-se acetato de etila/acetona (1:1)
como eluente e vanilina como revelador. As frações iniciais foram reunidas
em frações contendo substâncias semelhantes.
Teste em coleóptilo de trigo (Bobylev et al. 2000) – As cinco frações resultantes
foram secas, pesadas e resuspendidas com DMSO (dimetilsulfóxido) 1% e
solução tampão ácido cítrico/hidrogenofostato pH 5,6 contendo 2% de sacarose.
Foram preparadas quatro concentrações: 1 (39,5 ppm); 2 (79 ppm); 3 (158 ppm);
4 (1000 ppm) para cada grupo e sua atividade testada em coleóptilos de trigo.
Sementes de trigo foram germinadas em água destilada a 24° C, no
escuro, por 72 h. Em câmara escura sob luz verde, os coleóptilos das
plântulas estioladas de trigo foram cortados, medindo 4 mm. Nos tubos de
ensaio foram colocados 2 mL do devido tratamento e quatro coleóptilos.
Os tubos foram lacrados com fi lme plástico e colocados em centrífuga de
rotação (6 rpm), os tubos fi caram posicionados horizontalmente. O conjunto
foi coberto a fi m de evitar contato com a luz e mantido em estufa escura a
22°C. Após 24h, os coleóptilos foram fotografados e medidos.
Um controle positivo para inibição do crescimento foi feito com cuma-
rina. Este foi preparado usando as seguintes concentrações: 39,5; 79; 158;
500 ppm. Não foi usada a concentração de 1000 ppm pela difi culdade de
diluição e também porque a concentração 500 ppm já mostrou inibição de
100% nos testes preliminares. Dois controles negativos foram preparados,
um apenas com a solução tampão e um com solução tampão e DMSO.
O delineamento experimental do teste em coleóptilo de trigo e seus
controles foi inteiramente casualizado com seis réplicas. Os dados foram
comparados com ANOVA com pós-teste de Tukey. Testes qualitativos para
compostos secundários:
Detecção de cumarina – Foi feito um extrato metanólico 10% (p/v), uti-
lizando pó de folhas de A. glabra e metanol. Utilizou-se como reagente,
uma mistura 10% (p/v) de hidróxido de sódio e água destilada. Dois mL do
extrato foram colocados em um tubo de ensaio, que foi tampado com papel
fi ltro embebido na solução hidróxido de sódio e levado ao banho-maria por
cinco minutos. O papel foi revelado sob luz U.V. (360 nm) e caso houvesse
fl uorescência, confi rmaria a presença de cumarina (Costa 1982).
Teste para detecção de alcalóides – Foi realizado para verifi car-se a presença
no extrato metanólico 10% e nas maiores concentrações das frações de
substâncias usadas no teste em coleóptilo. Três reagentes (Dragendorff,
Wagner e Mayer) foram utilizados na detecção de alcalóides, cuja presença
causa leve turbidez ou precipitados (Dragendorff e Wagner), e a presença
de cor marrom (Wagner) e creme (Mayer) (Henriques et al. 2003). Cafeína
foi usada como controle positivo (Falkenberg 2003).
Teste para detecção de triterpenos e esteróides – Utilizou-se extrato metanó-
lico 10% e o reagente de Liebermann-Burchard (2 mL de anidrido acético
+ duas gotas de ácido sulfúrico concentrado). Dois mL do extrato meta-
nólico foram levados a secura e resuspendidos com 5 mL de clorofórmio,
misturados com carvão ativado e fi ltrados. O reagente foi adicionado e a
coloração verde persistente indicaria a presença de triterpenos e esteróides
(Costa 1982).
Detecção de taninos – A presença de taninos foi testada pela reação com
solução de cloreto férrico (10%). A reação procedeu-se no extrato metanó-
lico seco (10%) e resuspendido em água destilada com o dobro do volume.
A cor azul sugere a presença de taninos hidrolisáveis e a verde, de taninos
condensados (Costa 1982).
Detecção de fl avonóides – A presença destes foi avaliada no extrato meta-
nólico (10%) através do reativo de Cianidina, ou Shinoda (HCl concentrado
e magnésio em pó). Através desta reação, pode-se caracterizar compostos
contendo um núcleo alfa-benzopirona, pelo desenvolvimento de cor laranja
a vermelha (Falkenberg et al. 2003).
Resultados e discussão
Após o fracionamento líquido:líquido foram obtidas três
frações (aquosa, hexânica e em acetato de etila), tendo sido
utilizadas apenas as duas últimas. No teste de germinação
com a espécie bioindicadora (L. sativa), comparado ao
controle, somente o extrato com acetato de etila reduziu a
germinação a 2%. O cálculo do tempo médio de germinação
dessa espécie fi cou comprometido por apresentar réplicas
sem nenhuma germinação, e este valor (52,8 horas) foi
retirado das análises estatísticas (Tab.1).
Os extratos testados não afetaram a porcentagem de
germinação das espécies infestantes de cultura (E. crus-galli,
E. heterophylla, I. grandifolia). Somente as sementes de E.
crus-galli tiveram um atraso no tempo médio de germinação,
quando tratadas com extrato de acetato de etila (Tab.1).
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Acta bot. bras. 24(3): 631-635. 2010. 633
O extrato hexânico não afetou signifi cativamente o cres-
cimento das plântulas de alface, porém o extrato acetato de
etila inibiu o crescimento da parte aérea quando comparado
ao controle, mas não houve diferença signifi cativa para a
radícula. O comprimento total, embora menor para o extra-
to com acetato de etila, não foi signifi cativo em relação ao
controle (Tab. 2).
O extrato acetato de etila inibiu signifi cativamente o
crescimento da radícula de E. crus-galli, refl etindo na dife-
rença do tamanho total das plântulas entre este tratamento
e o controle (Tab.2). As raízes, normalmente, são mais
sensíveis aos efeitos alelopáticos do que a germinação e
o elongamento do hipocótilo (Chon et al. 2002; Oliveira
et al. 2004). O extrato hexânico não afetou as plântulas
desta espécie.
O extrato hexânico teve efeito inibitório signifi cativo
sobre o crescimento das radículas de E. heterophylla. Este
efeito foi ainda mais efetivo com o extrato em acetato de
etila, que afetou tanto a radícula quanto a parte aérea, tendo
reduzido em 50% o crescimento total das plântulas em re-
lação ao controle (Tab.2).
O extrato hexânico não afetou signifi cativamente o
crescimento da parte aérea e radícula de I. grandifolia, mas
afetou signifi cativamente o tamanho total das plântulas.
O extrato em acetato de etila reduziu signifi cativamente o
crescimento da parte aérea e radícula, e por conseqüência,
o comprimento total da plântula foi reduzido em 44% em
relação ao controle (Tab.2).
Os solventes não causaram nenhum efeito sobre a ger-
minação e crescimento inicial. Esses resultados indicam que
o extrato em acetato de etila tem maior potencial fi totóxico,
sendo assim, o mesmo foi submetido a coluna cromatográfi ca
e cromatografi a em camada delgada gerando cinco frações
de fracionamento (A, B, C, D e E).
As frações geradas (A, B, C, D e E) foram secas e
pesadas, e os respectivos valores foram 42,5; 28,9; 36;
64,1; 7,9 mg. Com este material foram realizados os
testes com coleóptilos de trigo. A fração E devido ao
baixo rendimento, não foi preparada na concentração
de 1000 ppm (Fig.1). O controle contendo DMSO e so-
lução tampão não diferiu do controle contendo somente
solução tampão.
Todas as concentrações da fração A deram resultados
diferentes do controle, sendo que a concentração 1000 ppm
inibiu e as demais estimularam o alongamento dos coleópti-
los. Aparentemente, a maior parte, se não todos os compostos
orgânicos que são inibitórios em alguma concentração, são
estimulantes em menores concentrações (Rice, 1984).
Com exceção da menor concentração (39,5 ppm), todas
as concentrações da fração B inibiram a o alongamento dos
coleóptilos. Somente a concentração 1000 ppm da fração
C inibiu o elongamento dos coleóptilos comparado ao con-
trole. A maior concentração da fração D (1000 ppm) inibiu
o crescimento e as concentrações 79 e 39,5 ppm geraram
estímulo no crescimento dos coleóptilos de trigo.
Nenhuma das três concentrações testadas da fração E
gerou efeito signifi cativo sobre o alongamento dos coleóp-
tilos. Desta forma as frações A, B, C e D parecem conter
substâncias com potencial fi totóxico, sendo mais evidentes
nas frações B e C, porém a atividade alelopática só poderá
ser melhor avaliada em condições de campo.
As frações B, C e cumarinas comparadas entre si dentro
das mesmas concentrações mostraram que na concentração
39,5 ppm, os frações B e C não diferiram entre si, mas fo-
ram menos inibitórias que a cumarina no crescimento dos
coleóptilos. Na concentração de 79 ppm a fração B obteve
resultados intermediários a C e cumarina, que diferiram entre
si. Resultado semelhante a este ocorreu na concentração
158 ppm, e na maior concentração, todas as frações foram
semelhantes (Fig.2).
Na comparação entre as concentrações do mesmo grupo,
o grupo C apresentou diferença signifi cativa apenas na maior
concentração (1000 ppm). No grupo B, as concentrações 79
e 158 ppm diferiram do controle e de 39,5 ppm, que foram
iguais entre si. A maior concentração diferiu de todas.
A cumarina diferiu do controle em todas as con-
centrações, sendo 39,5, 79 e 158 ppm iguais entre si. A
concentração 500 ppm (maior concentração) diferiu de
todas, não havendo praticamente crescimento algum do
coleóptilo (Fig.2).
Tabela 1. Valores de porcentagem (%) e tempo médio de germinação (TM, em horas) das espécies receptoras sob três tratamentos (controle, extrato hexânico e de
acetato de etila). As letras diferentes indicam diferenças estatistísticas. L. sativa L e E. heterophylla L foram analisados com ANOVA. E. crus-galli (L.) P. Beauv.e
I. grandifolia (Dammer) O’Donell foram analisados com Kruskall-Wallis.
Espécie receptora Germinação Controle Extrato hexânico Extrato de acetato
Lactuca sativa L. % 80,66 A 70 A 2 -
TM 33,54 A 35,27 A 52,8 -
Echinochloa crus-galli (L.) P. Beauv. % 75,33 A 74,67 A 70,83 A
TM 44,03 A 46,72 A 58,6 B
Euphorbia heterophylla L. % 73,33 A 70,66 A 71,33 A
TM 28,62 A 31,1 A 37,01 A
Ipomoea grandifolia (Dammer) O’Donell % 52,66 A 52,66 A 62,67 A
TM 30,49 A 30,49 A 30,73 A
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634 Matsumoto et al.: Potencial alelopático do extrato foliar de Annona glabra L. (Annonaceae)
Figura 1. Valores percentuais médios do comprimento dos coleóptilos de trigo
em relação ao controle (* - diferença signifi cativa em relação ao controle).
Figura 2. Porcentagem de inibição do comprimento do coleóptilo de trigo nas
diferentes concentrações da fração B e C comparadas as de cumarina. As letras
maiúsculas são referentes às comparações entre tratamentos na mesma concen-
tração. As letras minúsculas são referentes às comparações entre concentrações
da mesma fração. A maior concentração utilizada foi de 1000 ppm para as frações
B e C e 500 ppm para a cumarina.
Testes qualitativos para compostos secundários foram
negativos para cumarina no extrato metanólico. Resultados
positivos foram encontrados para alcalóides, taninos, fl avo-
nóides e triterpenos. Os alcalóides também foram detectados
na fração D.
Padmaja et al. (1995) e Hsieh et al. (2004) também apon-
tam a existência de alcalóides para A. glabra e Henriques et
al. (2003) descrevem várias atividades biológicas para essa
classe de substâncias.
Os terpenóides têm sido descritos por suas diversas
propriedades, entre elas, a alelopática (Haig 2008). Mono-
terpenóides e diterpenóides provindos de A. glabra e suas
atividades já haviam sido descritos por Chang et al. (1998),
Chen et al. (2000), Grayson (2000), Yang et al. (2003) e
Zhang et al., 2004. Tripernóides e esteróides também foram
detectados no extrato metanólico.
A alelopatia está dentre as atividades biológicas dos
taninos (Rawat et al. 1998), e a presença dessa substância
foi confi rmada no extrato metanólico de A. glabra. Padmaja
et al. (1995) citou a presença de quercetina nesta espécie,
um fl avonóide com atividades variadas como antimicro-
biana, antiviral, antitumoral, antioxidante, entre outras. Os
fl avonóides também podem ter ação alelopática (Zuanazzi
& Montanha 1999). A presença de fl avonóides também foi
confi rmada no extrato metanólico, podendo estar relacionada
à quercetina.
Liu et al. (1999) descreveram um fenilpropanóide
pertencente a A. glabra, que é precursor de substâncias
possivelmente alelopáticas, como os compostos fenólicos
(Santos 2003).
A confi rmação destes compostos no extrato metanólico
e a comprovação do potencial alelopático no extrato aceta-
to de etila, principalmente sobre o crescimento inicial das
espécies infestantes de culturas, somado aos resultados do
fracionamento, no qual, frações com potencial inibitório,
inclusive tão ativo quanto a cumarina (grupo B), proporcio-
nam evidências para o possível uso de extratos de A. glabra
Tabela 2. Comprimento (mm) da parte aérea (PA), da radícula (Rad) e total das espécies receptoras sob três tratamentos (controle, extrato hexânico e de acetato de
etila). As letras diferentes indicam diferenças estatistísticas. E. heterophylla L. e I. grandifolia (Dammer) O’Donell foram analisados com ANOVA. L. sativa L. e E.
crus-galli (L.) P. Beauv. foram analisados com Kruskall-Wallis.
Espécie receptora Parte da planta Controle Extrato hexânico Extrato de acetato
Lactuca sativa L. Rad 19,03 AB 27,19 A 9,49 B
PA 21,73 A 20,79 A 14,68 B
Total 40,76 AB 47,98 A 24,17 B
Echinochloa crus-galli (L.) P. Beauv. Rad 60,91 A 54,39 AB 30,05 B
PA 28,12 A 27,39 A 27,66 A
Total 89,03 A 81,78 AB 57,71 B
Euphorbia heterophylla L. Rad 61,28 A 45,08 B 19,97 C
PA 60,19 A 58,94 A 43,58 B
Total 121,48 A 104,02 A 63,55 B
Ipomoea grandifolia (Dammer) O’Donell Rad 37,1 A 29,35 A 12,96 B
PA 48,8 A 43,39 A 35,15 B
Total 85,9 A 72,74 B 48,11 C
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Acta bot. bras. 24(3): 631-635. 2010. 635
como herbicida natural. O isolamento das substâncias nas
frações elucidará quais são responsáveis pelo estímulo e pela
inibição, e se, uma substância ou a sinergia destas explicam
os efeitos encontrados nos resultados, tanto nos extratos
acetato, como nos aquosos.
Os testes qualitativos em extrato metanólico mostraram
a presença de alcalóides, taninos, fl avonóides e triterpenos
e a ausência de cumarinas. Os extratos semipurifi cados de
acetato de etila de folhas de Annona glabra comprovaram a
existência de substâncias com potencial alelopático, solúveis
nesse solvente.
Agradecimentos
Ao CNPq e a CAPES pela concessão das bolsas. Ao tecnólogo Carlos
Aparecido Casali pelo auxílio nos experimentos de laboratório.
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Versão eletrônica do artigo em www.scielo.br/abb e http://www.botanica.org.br/acta/ojs

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