Probióticos e resposta imune
Ciência Rural (2004)
- ISSN: 01038478
- DOI: 10.1590/S0103-84782004000400056
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Probióticos e resposta imune
1297Probióticos e resposta imune.
Ciência Rural, v. 34, n.4, jul-ago, 2004.
Ciência Rural, Santa Maria, v.34, n.4, p.1297-1303, jul-ag , 2004
ISSN 0103-8478
Probióticos e resposta imune
Mario de Menezes Coppola1 Carlos Gil Turnes2
Probiotics and immune response
1Médico Veterinário, Mestre em Ciências, Centro de Biotecnologia e Faculdade de Veterinária da Universidade Federal de Pelotas (UFPEL).
2Médico Veterinário, Doutor em Ciências, Centro de Biotecnologia e Faculdade de Veterinária, UFPel, CP 354, 96010-900, Pelotas, RS.,
Brasil, E-mail: gil@ufpel.tche.br. Autor para correspondência.
RESUMO
Os probióticos são bactérias que produzem efeitos
benéficos no hospedeiro, usadas para prevenir e tratar doenças,
como promotores de crescimento e como imunoestimulantes.
Nesta revisão abordam-se as principais aplicações dos
probióticos, com ênfase nas informações recentes sobre suas
propriedades de modular a resposta imune.
Palavras-chave: probióticos, Saccharomyces boulardii, Bacillus
cereus var. toyoi, imunomodulação.
ABSTRACT
Probiotics are bacteria that produce beneficial
effects on their hosts, used in the prevention and treatment of
diseases, as growth promoters and immune-modulators. The most
important applications of probiotics, with emphasis on their
properties to modulate the immune response, are reviewed here.
Key words: probiotics, Saccharomyces boulardii, Bacillus
cereus var. toyoi, immune-modulation.
INTRODUÇÃO
O termo probiótico deriva do grego e
significa “pró-vida”, sendo o antônimo de antibiótico,
que significa “contra a vida”. Ao longo do tempo, esta
denominação teve diferentes acepções. LILLY &
STILLWEL (1965) a usaram para denominar
substâncias secretadas por um protozoário que
estimularam o crescimento de outros, e PARKER
(1974), para denominar suplementos alimentares
destinados a animais, incluindo microrganismos e
substâncias que afetam o equilíbrio da microbiota
intestinal. FULLER (1989) considerou que os
probióticos são suplementos alimentares que contêm
bactérias vivas que produzem efeitos benéficos no
hospedeiro, favorecendo o equilíbrio de sua microbiota
intestinal, entanto HAVENAAR & HUIS IN’T VELD
(1992) consideraram que são culturas únicas ou mistas
de microrganismos que, administrados a animais ou
humanos, produzem efeitos benéficos no hospedeiro
por incremento das propriedades da microbiota nativa.
Esses autores restringiram o uso desse termo a produtos
que contenham microrganismos viáveis que promovem
a saúde de humanos ou animais, e que exercem seus
efeitos no aparelho digestivo, no trato respiratório
superior ou no trato urogenital (HAVENAAR et al.,
1992). SCHREZENMEIR & DE VRESE (2001)
propuseram que o termo probiótico deveria ser usado
para designar preparações ou produtos que contêm
microrganismos viáveis definidos e em quantidade
adequada, que alteram a microbiota própria das mucosas
por implantação ou colonização de um sistema do
hospedeiro, e que produzem efeitos benéficos em sua
saúde.
O termo prebiótico é utilizado, a diferença
de probiótico, para designar ingredientes alimentares
não digeríveis que beneficiam o hospedeiro por
estimular seletivamente o crescimento e/ou a atividade
de uma ou um número limitado de espécies bacterianas
no cólon (GIBSON & ROBERFROID, 1995), e o
termo simbiótico para designar produtos que contêm
probióticos e prebióticos associados. Como a palavra
sugere sinergismo, ela deveria ser restringida a
produtos em que o componente prebiótico favoreça
seletivamente o probiótico (SCHREZENMEIR & DE
VRESE, 2001).
- REVISÃO BIBLIOGRÁFICA -
Recebido para publicação 28.04.03 Aprovado em 08.10.03
Ciência Rural, v. 34, n.4, jul-ago, 2004.
Ciência Rural, Santa Maria, v.34, n.4, p.1297-1303, jul-ag , 2004
ISSN 0103-8478
Probióticos e resposta imune
Mario de Menezes Coppola1 Carlos Gil Turnes2
Probiotics and immune response
1Médico Veterinário, Mestre em Ciências, Centro de Biotecnologia e Faculdade de Veterinária da Universidade Federal de Pelotas (UFPEL).
2Médico Veterinário, Doutor em Ciências, Centro de Biotecnologia e Faculdade de Veterinária, UFPel, CP 354, 96010-900, Pelotas, RS.,
Brasil, E-mail: gil@ufpel.tche.br. Autor para correspondência.
RESUMO
Os probióticos são bactérias que produzem efeitos
benéficos no hospedeiro, usadas para prevenir e tratar doenças,
como promotores de crescimento e como imunoestimulantes.
Nesta revisão abordam-se as principais aplicações dos
probióticos, com ênfase nas informações recentes sobre suas
propriedades de modular a resposta imune.
Palavras-chave: probióticos, Saccharomyces boulardii, Bacillus
cereus var. toyoi, imunomodulação.
ABSTRACT
Probiotics are bacteria that produce beneficial
effects on their hosts, used in the prevention and treatment of
diseases, as growth promoters and immune-modulators. The most
important applications of probiotics, with emphasis on their
properties to modulate the immune response, are reviewed here.
Key words: probiotics, Saccharomyces boulardii, Bacillus
cereus var. toyoi, immune-modulation.
INTRODUÇÃO
O termo probiótico deriva do grego e
significa “pró-vida”, sendo o antônimo de antibiótico,
que significa “contra a vida”. Ao longo do tempo, esta
denominação teve diferentes acepções. LILLY &
STILLWEL (1965) a usaram para denominar
substâncias secretadas por um protozoário que
estimularam o crescimento de outros, e PARKER
(1974), para denominar suplementos alimentares
destinados a animais, incluindo microrganismos e
substâncias que afetam o equilíbrio da microbiota
intestinal. FULLER (1989) considerou que os
probióticos são suplementos alimentares que contêm
bactérias vivas que produzem efeitos benéficos no
hospedeiro, favorecendo o equilíbrio de sua microbiota
intestinal, entanto HAVENAAR & HUIS IN’T VELD
(1992) consideraram que são culturas únicas ou mistas
de microrganismos que, administrados a animais ou
humanos, produzem efeitos benéficos no hospedeiro
por incremento das propriedades da microbiota nativa.
Esses autores restringiram o uso desse termo a produtos
que contenham microrganismos viáveis que promovem
a saúde de humanos ou animais, e que exercem seus
efeitos no aparelho digestivo, no trato respiratório
superior ou no trato urogenital (HAVENAAR et al.,
1992). SCHREZENMEIR & DE VRESE (2001)
propuseram que o termo probiótico deveria ser usado
para designar preparações ou produtos que contêm
microrganismos viáveis definidos e em quantidade
adequada, que alteram a microbiota própria das mucosas
por implantação ou colonização de um sistema do
hospedeiro, e que produzem efeitos benéficos em sua
saúde.
O termo prebiótico é utilizado, a diferença
de probiótico, para designar ingredientes alimentares
não digeríveis que beneficiam o hospedeiro por
estimular seletivamente o crescimento e/ou a atividade
de uma ou um número limitado de espécies bacterianas
no cólon (GIBSON & ROBERFROID, 1995), e o
termo simbiótico para designar produtos que contêm
probióticos e prebióticos associados. Como a palavra
sugere sinergismo, ela deveria ser restringida a
produtos em que o componente prebiótico favoreça
seletivamente o probiótico (SCHREZENMEIR & DE
VRESE, 2001).
- REVISÃO BIBLIOGRÁFICA -
Recebido para publicação 28.04.03 Aprovado em 08.10.03
Page 2
1298 Coppola & Gil Turnes
Ciência Rural, v. 34, n.4, jul-ago, 2004.
Vários microrganismos são usados como
probióticos, entre eles bactérias ácido- lácticas,
bactérias não ácido lácticas e leveduras (Tabela 1).
Além das propriedades mencionadas, os probióticos
devem ser inócuos, manter-se viáveis por longo tempo
durante a estocagem e transporte, tolerar o baixo pH
do suco gástrico e resistir à ação da bile e das secreções
pancreática e intestinal, não transportar genes
transmissores de resistência a antibióticos e possuir
propriedades anti-mutagênicas e anticarcinogênicas,
assim como resistir a fagos e ao oxigênio
(HAVENAAR et al., 1992; SALMINEN et al., 1998;
OUWEHAND et al., 1999; SAARELA et al., 2000;
HOLZAPFEL & SCHILLINGER, 2002).
APLICAÇÕES DOS PROBIÓTICOS
Os probióticos são usados em medicina
humana na prevenção e tratamento de doenças, na
regulação da microbiota intestinal, em distúrbios do
metabolismo gastrintestinal, como imunomoduladores,
e na inibição da carcinogênese. Em medicina veterinária,
além dessas aplicações, podem também ser usados como
promotores de crescimento, constituindo-se em uma
alternativa aos antibióticos, cujo uso indiscriminado
pode selecionar cepas resistentes.
MECANISMOS DE AÇÃO DOS PROBIÓTICOS
O modo de ação dos probióticos não foi
ainda completamente esclarecido, embora tenham sido
sugeridos vários processos que podem atuar
independentemente ou associados. Um deles é a
exclusão competitiva, em que o probiótico competiria
com os patógenos por sítios de fixação e nutrientes,
impedindo sua ação transitoriamente (HAVENAAR
et al., 1992; OUWEHAND et al., 1999; CROSS,
2002). A exclusão competitiva explicaria a necessidade
da administração continuada e a elevadas doses dos
probióticos, para manifestar seus efeitos.
Os probióticos podem também afetar
patógenos através da síntese de bacteriocinas
(VILLANI et al., 1995; RODRIGUEZ, 1996; NAIDU
et al., 1999), de ácidos orgânicos voláteis (AUDISIO
et al., 2000; JIN et al. 2000; OGAWA et al., 2001) e
de peróxido de hidrogênio (HAVENAAR et al., 1992;
Tabela 1 - Microrganismos com propriedades de probióticos.
Lactobacillus Bifidobacterium Outras bactérias ácido lácticas Bactérias não ácido lácticas
L. acidophilus
L. amylovorus
L. casei
L. crispatus
L. delbrueckii subsp.
bulgaricus
L. gallinarum
L. gasseri
L. johnssonii
L. paracasei
L. plantarum
L. reuteri
L. rhamnosus
B. adolescentis
B.animalis
B. bifidum
B. breve
B. infantis
B. lactis
B. longum
Enterococcus
faecalis
Enterococcus
faecium
Lactococcus lactis
Leuconstoc mesenteroides
Pediococcus acidilactici
Sporolactobacillus inulinus
Streptococcus thermophilus
Bacillus cereus var. toyoi
Escherichia coli cepa nissle
Propionibacterium
freudenreichii
Saccharomyces cerevisiae
Saccharomyces boulardii
Adaptado de HOLZAPFEL et al. (2001).
Ciência Rural, v. 34, n.4, jul-ago, 2004.
Vários microrganismos são usados como
probióticos, entre eles bactérias ácido- lácticas,
bactérias não ácido lácticas e leveduras (Tabela 1).
Além das propriedades mencionadas, os probióticos
devem ser inócuos, manter-se viáveis por longo tempo
durante a estocagem e transporte, tolerar o baixo pH
do suco gástrico e resistir à ação da bile e das secreções
pancreática e intestinal, não transportar genes
transmissores de resistência a antibióticos e possuir
propriedades anti-mutagênicas e anticarcinogênicas,
assim como resistir a fagos e ao oxigênio
(HAVENAAR et al., 1992; SALMINEN et al., 1998;
OUWEHAND et al., 1999; SAARELA et al., 2000;
HOLZAPFEL & SCHILLINGER, 2002).
APLICAÇÕES DOS PROBIÓTICOS
Os probióticos são usados em medicina
humana na prevenção e tratamento de doenças, na
regulação da microbiota intestinal, em distúrbios do
metabolismo gastrintestinal, como imunomoduladores,
e na inibição da carcinogênese. Em medicina veterinária,
além dessas aplicações, podem também ser usados como
promotores de crescimento, constituindo-se em uma
alternativa aos antibióticos, cujo uso indiscriminado
pode selecionar cepas resistentes.
MECANISMOS DE AÇÃO DOS PROBIÓTICOS
O modo de ação dos probióticos não foi
ainda completamente esclarecido, embora tenham sido
sugeridos vários processos que podem atuar
independentemente ou associados. Um deles é a
exclusão competitiva, em que o probiótico competiria
com os patógenos por sítios de fixação e nutrientes,
impedindo sua ação transitoriamente (HAVENAAR
et al., 1992; OUWEHAND et al., 1999; CROSS,
2002). A exclusão competitiva explicaria a necessidade
da administração continuada e a elevadas doses dos
probióticos, para manifestar seus efeitos.
Os probióticos podem também afetar
patógenos através da síntese de bacteriocinas
(VILLANI et al., 1995; RODRIGUEZ, 1996; NAIDU
et al., 1999), de ácidos orgânicos voláteis (AUDISIO
et al., 2000; JIN et al. 2000; OGAWA et al., 2001) e
de peróxido de hidrogênio (HAVENAAR et al., 1992;
Tabela 1 - Microrganismos com propriedades de probióticos.
Lactobacillus Bifidobacterium Outras bactérias ácido lácticas Bactérias não ácido lácticas
L. acidophilus
L. amylovorus
L. casei
L. crispatus
L. delbrueckii subsp.
bulgaricus
L. gallinarum
L. gasseri
L. johnssonii
L. paracasei
L. plantarum
L. reuteri
L. rhamnosus
B. adolescentis
B.animalis
B. bifidum
B. breve
B. infantis
B. lactis
B. longum
Enterococcus
faecalis
Enterococcus
faecium
Lactococcus lactis
Leuconstoc mesenteroides
Pediococcus acidilactici
Sporolactobacillus inulinus
Streptococcus thermophilus
Bacillus cereus var. toyoi
Escherichia coli cepa nissle
Propionibacterium
freudenreichii
Saccharomyces cerevisiae
Saccharomyces boulardii
Adaptado de HOLZAPFEL et al. (2001).
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