Transposição e Variação na Poesia Gráfica e Espacial de Salette Tavares
Aletria – Revista de Estudos de Literatura (2006)
- ISSN: 16793749
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or
Abstract
Este artigo tem como objectivo apresentar uma leitura da poesia gráfica e espacial de Salette Tavares à luz dos processos de intersemiose que esta articula, na frequente transposição entre texto, sons, imagens e objectos. A produção da autora é enquadrada com o experimentalismo literário português da segunda metade do século XX, movimento profícuo na construção de formas poemáticas de carácter híbrido, em que se verificam processos de transposição e variação semelhantes aos observados na autora em análise.
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Transposição e Variação na Poesia Gráfica e Espacial de Salette Tavares
Textos Intermídias e Mixmídias
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TRANSPOSIÇÃO E VARIAÇÃO NA POESIA GRÁFICA E
ESPACIAL DE SALETTE TAVARES
Rui Torres
Universidade Fernando Pessoa/ MCTES, Portugal
R E S U M O
Este artigo tem como objectivo apresentar uma leitura da poesia
gráfica e espacial de Salette Tavares à luz dos processos de
intersemiose que esta articula, na frequente transposição entre
texto, sons, imagens e objectos. A produção da autora é
enquadrada com o experimentalismo literário português da
segunda metade do século XX, movimento profícuo na
construção de formas poemáticas de carácter híbrido, em que
se verificam processos de transposição e variação semelhantes
aos observados na autora em análise.
P A L A V R A S - C H A V E
Poesia experimental portuguesa, poesia visual e objectual,
concretismo, transposição e transformação, intersemiose
INTRODUÇÃO
Uma leitura da variada obra literária de Salette Tavares (1922-1994) muito ganha se
for enquadrada com um (re)conhecimento da sua intervenção artística e da sua reflexão
enquanto teórica e crítica de Arte. A primeira ajuda a explicar o alargamento do verbal para
o visual e, posteriormente, para o objectual, que se verifica em trabalhos poéticos híbridos
como aqueles que apresentaremos neste artigo; a segunda justifica e confere alguma
legitimidade ao carácter auto-reflexivo da sua poesia. A provar a importância desta relação
está o facto de a autora nos ter deixado, a par dos livros nos quais reinventa a linguagem
verbal (os de poesia substantiva e semântica, como Espelho Cego e Quadrada; ou os de poesia
sobre objectos, como Lex Icon),1 uma considerável obra poética de características gráficas,
de que fazem parte dezenas de poemas em caligrafia, tipografia e serigrafia, além de um
avultado número de trabalhos de poesia espacial “fabricados” por oleiros, tecelões, e/ou
relojoeiros. Envolvida pela poesia visual e membro activo do grupo da Poesia Experimental
portuguesa (PO.EX), Salette Tavares foi também divulgadora esforçada da Estética Nova de
Worringer, da Teoria da Informação aplicada à percepção estética por Abraham Moles e da
análise estruturalista da arquitectura. De tudo isso nos deixou uma obra, por publicar
1 TAVARES. Espelho cego, 1957; Quadrada, 1967; Lex Icon, 1971. Todos estes livros foram republicados
em TAVARES. Obra poética (1957-1971).
TRANSPOSIÇÃO E VARIAÇÃO NA POESIA GRÁFICA E
ESPACIAL DE SALETTE TAVARES
Rui Torres
Universidade Fernando Pessoa/ MCTES, Portugal
R E S U M O
Este artigo tem como objectivo apresentar uma leitura da poesia
gráfica e espacial de Salette Tavares à luz dos processos de
intersemiose que esta articula, na frequente transposição entre
texto, sons, imagens e objectos. A produção da autora é
enquadrada com o experimentalismo literário português da
segunda metade do século XX, movimento profícuo na
construção de formas poemáticas de carácter híbrido, em que
se verificam processos de transposição e variação semelhantes
aos observados na autora em análise.
P A L A V R A S - C H A V E
Poesia experimental portuguesa, poesia visual e objectual,
concretismo, transposição e transformação, intersemiose
INTRODUÇÃO
Uma leitura da variada obra literária de Salette Tavares (1922-1994) muito ganha se
for enquadrada com um (re)conhecimento da sua intervenção artística e da sua reflexão
enquanto teórica e crítica de Arte. A primeira ajuda a explicar o alargamento do verbal para
o visual e, posteriormente, para o objectual, que se verifica em trabalhos poéticos híbridos
como aqueles que apresentaremos neste artigo; a segunda justifica e confere alguma
legitimidade ao carácter auto-reflexivo da sua poesia. A provar a importância desta relação
está o facto de a autora nos ter deixado, a par dos livros nos quais reinventa a linguagem
verbal (os de poesia substantiva e semântica, como Espelho Cego e Quadrada; ou os de poesia
sobre objectos, como Lex Icon),1 uma considerável obra poética de características gráficas,
de que fazem parte dezenas de poemas em caligrafia, tipografia e serigrafia, além de um
avultado número de trabalhos de poesia espacial “fabricados” por oleiros, tecelões, e/ou
relojoeiros. Envolvida pela poesia visual e membro activo do grupo da Poesia Experimental
portuguesa (PO.EX), Salette Tavares foi também divulgadora esforçada da Estética Nova de
Worringer, da Teoria da Informação aplicada à percepção estética por Abraham Moles e da
análise estruturalista da arquitectura. De tudo isso nos deixou uma obra, por publicar
1 TAVARES. Espelho cego, 1957; Quadrada, 1967; Lex Icon, 1971. Todos estes livros foram republicados
em TAVARES. Obra poética (1957-1971).
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no seu conjunto, que pretendia intitular de A dialética das formas e que foi apenas
parcialmente divulgada em alguns artigos na revista Brotéria.2 Além disso, são ainda de
referir as suas leituras da obra de pintores portugueses (José Guimarães, Vieira da Silva,
Paula Rego, Menez) e um estudo, também inédito, sobre os jardins românticos de Sintra.
Introduzir Salette Tavares assim, como pessoa culta, informada e, ao mesmo tempo,
(in)formadora, tem como objectivo explicar essa variedade de aproximações, leituras e
experiências da atenta observadora que escreve e faz os poemas aqui em estudo. Poeta da
invenção e do novo, a autora propõe com a sua obra um exercício constante de vigilância e
de atenção, sempre acompanhado de um sentido agudo, mas responsável, do brincar e do
jogo. E se nos seus artigos teóricos reflecte frequentemente sobre os mecanismos de
transposição das formas artísticas, também na sua produção poética se verifica uma
correspondente dialética das formas, pela integração de vários versos de poemas em objectos
espaciais, recontextualizando-os e, dessa forma, testando a sua resistência ao tempo.
É à luz desta poética da autora, articulada em uma poeprática, que propomos apresentar
o seu trabalho gráfico e espacial, contribuindo desse modo para os estudos sobre remediação
e intermediação, na literatura em geral, e na poesia em particular. Para isso, apresentaremos
algumas das modalidades de transposição e variação que já se insinuavam nos artigos d’A
dialética das formas, servindo-nos esses textos como breve enquadramento teórico.
Posteriormente, mencionaremos algumas das obras da autora que sustentam os modos de
transposição desses textos intermédia, terminando com a apresentação de algumas propostas
para a publicação e recriação da poesia visual e gráfica de Salette Tavares em contexto digital.
TRANSFORMAÇÃO E METAMORFOSE NA POÉTICA D’A DIALÉTICA DAS FORMAS
A poesia visual e concreta da segunda metade do século XX, sem esquecer as
coordenadas visuais e combinatórias de textos hoje considerados históricos, fez propostas
inovadoras que abalaram significativamente as noções de texto como algo fixo e rígido.
Através da introdução de processos de transposição, re-textualização e re-escrita, a poesia
experimental (concreta, visual e sonora) sujeitou a teoria e a crítica literárias a adaptarem-
se a estas mudanças no processo da poiesis. Assim, a adaptação de textos de um meio para
outro motivou, ou pelo menos acompanhou, toda uma re-conceituação do aparato teórico-
crítico, de forma a facilitar o acesso a uma poesia fortemente centrada na re-mediação e na
re-presentação.
A transposição de textos originariamente veiculados pelo suporte verbal para contextos
e modos distintos de mediação, como a que se verifica na poesia de Salette Tavares, começa
por nos aproximar de conceitos como os de tradução e transmutação. Nesse sentido, a
conceptualização proposta por autores como Roman Jakobson3 e Claus Clüver4 para avaliação
dos géneros e das textualidades que se situam em fronteiras, poderá constituir um ponto
2 TAVARES. Forma poética e tempo, 1965; Forma e criação, 1965; Teoria da Informação e Abraham
Moles, 1967; Arquitectura, semiologia e mass média, 1969.
3 JAKOBSON. On Linguistic Aspects of Translation.
4 CLÜVER. Da transposição intersemiótica.
no seu conjunto, que pretendia intitular de A dialética das formas e que foi apenas
parcialmente divulgada em alguns artigos na revista Brotéria.2 Além disso, são ainda de
referir as suas leituras da obra de pintores portugueses (José Guimarães, Vieira da Silva,
Paula Rego, Menez) e um estudo, também inédito, sobre os jardins românticos de Sintra.
Introduzir Salette Tavares assim, como pessoa culta, informada e, ao mesmo tempo,
(in)formadora, tem como objectivo explicar essa variedade de aproximações, leituras e
experiências da atenta observadora que escreve e faz os poemas aqui em estudo. Poeta da
invenção e do novo, a autora propõe com a sua obra um exercício constante de vigilância e
de atenção, sempre acompanhado de um sentido agudo, mas responsável, do brincar e do
jogo. E se nos seus artigos teóricos reflecte frequentemente sobre os mecanismos de
transposição das formas artísticas, também na sua produção poética se verifica uma
correspondente dialética das formas, pela integração de vários versos de poemas em objectos
espaciais, recontextualizando-os e, dessa forma, testando a sua resistência ao tempo.
É à luz desta poética da autora, articulada em uma poeprática, que propomos apresentar
o seu trabalho gráfico e espacial, contribuindo desse modo para os estudos sobre remediação
e intermediação, na literatura em geral, e na poesia em particular. Para isso, apresentaremos
algumas das modalidades de transposição e variação que já se insinuavam nos artigos d’A
dialética das formas, servindo-nos esses textos como breve enquadramento teórico.
Posteriormente, mencionaremos algumas das obras da autora que sustentam os modos de
transposição desses textos intermédia, terminando com a apresentação de algumas propostas
para a publicação e recriação da poesia visual e gráfica de Salette Tavares em contexto digital.
TRANSFORMAÇÃO E METAMORFOSE NA POÉTICA D’A DIALÉTICA DAS FORMAS
A poesia visual e concreta da segunda metade do século XX, sem esquecer as
coordenadas visuais e combinatórias de textos hoje considerados históricos, fez propostas
inovadoras que abalaram significativamente as noções de texto como algo fixo e rígido.
Através da introdução de processos de transposição, re-textualização e re-escrita, a poesia
experimental (concreta, visual e sonora) sujeitou a teoria e a crítica literárias a adaptarem-
se a estas mudanças no processo da poiesis. Assim, a adaptação de textos de um meio para
outro motivou, ou pelo menos acompanhou, toda uma re-conceituação do aparato teórico-
crítico, de forma a facilitar o acesso a uma poesia fortemente centrada na re-mediação e na
re-presentação.
A transposição de textos originariamente veiculados pelo suporte verbal para contextos
e modos distintos de mediação, como a que se verifica na poesia de Salette Tavares, começa
por nos aproximar de conceitos como os de tradução e transmutação. Nesse sentido, a
conceptualização proposta por autores como Roman Jakobson3 e Claus Clüver4 para avaliação
dos géneros e das textualidades que se situam em fronteiras, poderá constituir um ponto
2 TAVARES. Forma poética e tempo, 1965; Forma e criação, 1965; Teoria da Informação e Abraham
Moles, 1967; Arquitectura, semiologia e mass média, 1969.
3 JAKOBSON. On Linguistic Aspects of Translation.
4 CLÜVER. Da transposição intersemiótica.
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de partida útil. Esses conceitos, embora não tenham sido originalmente pensados numa
perspectiva de análise das poesias experimentais, acabam por sustentar uma visão da poesia
concreta enquanto arte intermediática5 que aqui perfilhamos.
A proposta de Jakobson, por exemplo, tendo origem numa reflexão acerca de regimes
de tradução em que haveria espaço para transmutações de carácter intersemiótico,6 explica
processos de transferência sígnica que estão na base destas poesias. Por outro lado, Claus
Clüver mostra que a transposição envolve uma reflexividade e um conhecimento do código.
Embora este estudo não tenha (ainda) a poesia concreta ou visual como objecto específico
de análise, acreditamos que ele explica os cruzamentos e as negociações que se estabelecem
entre teoria e prática na obra poética de Salette Tavares. Para o autor, a intersemiose implica
um processo de conhecimento do código:
Transposições intersemióticas lidas como tal são sempre lidas também como textos
sobre o fazer textual, que nos mostram as possibilidades e limitações inerentes aos
dois sistemas de signos. Elas nos alertam para o poder significante dos recursos
sintáticos e outros recursos estruturais disponíveis em cada um, e nos conscientizam
das diferenças nos códigos estéticos e códigos sociais, especialmente com relação
às convenções que governam a descrição e a representação pictórica.7
Este estado de alerta verifica-se nos trabalhos de carácter experimental de Salette
Tavares e está presente nas reflexões da sua obra teórica, ao posicionar-se diante da
transformação das formas artísticas na condição de mecanismos de desautomatização e
estranhamento. Como tal, Tavares identifica na relação da forma com o tempo aquilo que
determina a dimensão estética dos objectos artísticos. Ao resistir ao tempo, a forma vai-se
deixando reavaliar, traduzir e recontextualizar. Ora, esta capacidade de transcender o tempo,
que representa para a autora uma das evidências da abertura da forma, serve para exprimir
uma capacidade de essa mesma forma proporcionar um alertar e um conscientizar. Diz também
Herberto Helder na introdução ao primeiro número dos Cadernos da Poesia Experimental, em
que Salette Tavares participou activamente, como veremos adiante: “Em princípio, não existe
nenhum trabalho criativo que não seja experimental, nesse sentido de que ele supõe vigilância
sobre o desgaste dos meios que utiliza e que procura constantemente recarregar de capacidade
de exercício”.8
Mesmo assim, conforme explicámos, os conceitos de transmutação e transposição
podem apenas servir-nos para um enquadramento provisional das variações textuais
observadas na poesia experimental de Salette Tavares. Torna-se entretanto necessário adoptar
outra classificação que nos permita praticar a leitura e descodificação destes sistemas
semióticos híbridos. Adoptamos aqui a terminologia de Clüver,9 que estudou as diferenças
entre textos que são compostos por meios diferentes ou por signos complexos, tendo com
isso contribuído para a recente dinamização dos estudos interartes. A poesia gráfica e
5 Cf. REIS. Poesia concreta; HIGGINS. Some Poetry Intermedia.
6 JAKOBSON. On Linguistic Aspects of Translation, p. 261.
7 CLÜVER. Da transposição intersemiótica, p. 130-131 (itálico nosso).
8 HELDER. Prefácio. Poesia Experimental-1.
9 CLÜVER. Estudos Interartes: Introdução Crítica.
de partida útil. Esses conceitos, embora não tenham sido originalmente pensados numa
perspectiva de análise das poesias experimentais, acabam por sustentar uma visão da poesia
concreta enquanto arte intermediática5 que aqui perfilhamos.
A proposta de Jakobson, por exemplo, tendo origem numa reflexão acerca de regimes
de tradução em que haveria espaço para transmutações de carácter intersemiótico,6 explica
processos de transferência sígnica que estão na base destas poesias. Por outro lado, Claus
Clüver mostra que a transposição envolve uma reflexividade e um conhecimento do código.
Embora este estudo não tenha (ainda) a poesia concreta ou visual como objecto específico
de análise, acreditamos que ele explica os cruzamentos e as negociações que se estabelecem
entre teoria e prática na obra poética de Salette Tavares. Para o autor, a intersemiose implica
um processo de conhecimento do código:
Transposições intersemióticas lidas como tal são sempre lidas também como textos
sobre o fazer textual, que nos mostram as possibilidades e limitações inerentes aos
dois sistemas de signos. Elas nos alertam para o poder significante dos recursos
sintáticos e outros recursos estruturais disponíveis em cada um, e nos conscientizam
das diferenças nos códigos estéticos e códigos sociais, especialmente com relação
às convenções que governam a descrição e a representação pictórica.7
Este estado de alerta verifica-se nos trabalhos de carácter experimental de Salette
Tavares e está presente nas reflexões da sua obra teórica, ao posicionar-se diante da
transformação das formas artísticas na condição de mecanismos de desautomatização e
estranhamento. Como tal, Tavares identifica na relação da forma com o tempo aquilo que
determina a dimensão estética dos objectos artísticos. Ao resistir ao tempo, a forma vai-se
deixando reavaliar, traduzir e recontextualizar. Ora, esta capacidade de transcender o tempo,
que representa para a autora uma das evidências da abertura da forma, serve para exprimir
uma capacidade de essa mesma forma proporcionar um alertar e um conscientizar. Diz também
Herberto Helder na introdução ao primeiro número dos Cadernos da Poesia Experimental, em
que Salette Tavares participou activamente, como veremos adiante: “Em princípio, não existe
nenhum trabalho criativo que não seja experimental, nesse sentido de que ele supõe vigilância
sobre o desgaste dos meios que utiliza e que procura constantemente recarregar de capacidade
de exercício”.8
Mesmo assim, conforme explicámos, os conceitos de transmutação e transposição
podem apenas servir-nos para um enquadramento provisional das variações textuais
observadas na poesia experimental de Salette Tavares. Torna-se entretanto necessário adoptar
outra classificação que nos permita praticar a leitura e descodificação destes sistemas
semióticos híbridos. Adoptamos aqui a terminologia de Clüver,9 que estudou as diferenças
entre textos que são compostos por meios diferentes ou por signos complexos, tendo com
isso contribuído para a recente dinamização dos estudos interartes. A poesia gráfica e
5 Cf. REIS. Poesia concreta; HIGGINS. Some Poetry Intermedia.
6 JAKOBSON. On Linguistic Aspects of Translation, p. 261.
7 CLÜVER. Da transposição intersemiótica, p. 130-131 (itálico nosso).
8 HELDER. Prefácio. Poesia Experimental-1.
9 CLÜVER. Estudos Interartes: Introdução Crítica.
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espacial de Salette Tavares recorre, seguramente, a vários sistemas de signos, misturando-
os e desse modo fundindo as características particulares de cada um; e invoca também
processos de transformação e variação mais amplos, com vista ao estabelecimento de
ligações dialécticas com a história das formas. Neste sentido, seguindo a terminologia
de Clüver, esta poesia gráfica e espacial, por invocar “dois ou mais sistemas de signos e/
ou media de uma forma tal que os aspectos visuais e/ou musicais, verbais, cinéticos e
performativos dos seus signos se tornam inseparáveis”,10 envolveria textos que poderíamos
apelidar de intersemióticos ou intermidiáticos.
Esta classificação dos “textos híbridos” ajuda ainda a circunscrever muita da poesia
que é, simultaneamente, texto visual e partitura de poesia sonora, por exemplo. No entanto,
convém reforçá-lo, para a intermedialidade destes textos de Salette Tavares concorrem outros
procedimentos relacionados com a transformação, tais como a variação intertextual e a
abertura da obra, da qual deriva a participação do leitor na construção de sentido(s). Ao
contrário de outros poetas que fizeram recriações baseadas na devoração textual de uma
tradição literária, como nos casos de diálogos com Camões,11 Salette Tavares entendia a
transformação enquanto essência própria da forma e de sua apreensão. Embora em ambos os
casos se verifique uma actualização das formas no âmbito da autoreflexividade, são as
transposições adoptadas por Salette Tavares, bem como as estratégias de intermediação daí
resultantes, que mais nos parecem alimentar a dialéctica viva da obra de arte. Só assim o
receptor assiste (no duplo sentido da palavra, de ver e ajudar) , a expressão do mundo, não
tanto porque esta expressão exista em si mesma como linguagem, mas porque se trata de
“uma linguagem que eu entendo e fabrico na pura abertura poética capaz de escutar a
natureza”.12 Para Salette Tavares, ler é, deste modo e sempre, um inevitável recriar,
funcionando a própria percepção como forma e fecundação. Por seu lado, o indivíduo que
interpreta essa forma precisa de a reconfigurar em diferentes modos de expressão do conteúdo,
tornando-se, por isso, um co-autor. Ele pode “dizê-la [a forma] como criação”.13
A experiência estética, ao mediar deste modo a relação do leitor com o mundo,
representa uma oportunidade para o sujeito receptor se recriar, redescobrir e transformar. E
de metamorfose se trata: recriação do próprio na leitura activa do mundo, participação da
obra como veículo de transformação, num movimento dialéctico de permanente renovação.
Mesmo quando o universo interpretativo das formas aparenta ser estável (como no caso
dos “clássicos”), tratar-se-ia, segundo Salette Tavares, de um fenómeno social de cegueira,
10 CLÜVER. Estudos Interartes: Introdução Crítica, p. 341; cf. CLÜVER. Inter textus, inter artes, inter
media, neste volume.
11 São disso exemplo, entre outros: Herberto Helder, no seu poema “‘Transforma-se o amador na coisa
amada’, com o seu”; as variações temáticas sobre um vilancete de Camões, na “Leonorana” de Ana
Hatherly; as modalidades de reescrita de textos clássicos que Pedro Barbosa realizou com os programas
‘Texal e Permuta’, em 1975, com uma intenção de reelaboração crítica de textos clássicos, introduzindo-
lhes variações de sentido; o livro Re-Camões, de E. M. de Melo e Castro (1980), totalmente dedicado à
tarefa de des(cons)truir o grande poeta; e vários textos de Alberto Pimenta, que absorvem e transpiram
o autor dos Lusíadas. Ver, para este efeito, o meu artigo “Camões transformado e re-montado: o caso de
Herberto Helder”.
12 TAVARES. Forma e criação, p. 591.
13 TAVARES. Forma e criação, p. 599.
espacial de Salette Tavares recorre, seguramente, a vários sistemas de signos, misturando-
os e desse modo fundindo as características particulares de cada um; e invoca também
processos de transformação e variação mais amplos, com vista ao estabelecimento de
ligações dialécticas com a história das formas. Neste sentido, seguindo a terminologia
de Clüver, esta poesia gráfica e espacial, por invocar “dois ou mais sistemas de signos e/
ou media de uma forma tal que os aspectos visuais e/ou musicais, verbais, cinéticos e
performativos dos seus signos se tornam inseparáveis”,10 envolveria textos que poderíamos
apelidar de intersemióticos ou intermidiáticos.
Esta classificação dos “textos híbridos” ajuda ainda a circunscrever muita da poesia
que é, simultaneamente, texto visual e partitura de poesia sonora, por exemplo. No entanto,
convém reforçá-lo, para a intermedialidade destes textos de Salette Tavares concorrem outros
procedimentos relacionados com a transformação, tais como a variação intertextual e a
abertura da obra, da qual deriva a participação do leitor na construção de sentido(s). Ao
contrário de outros poetas que fizeram recriações baseadas na devoração textual de uma
tradição literária, como nos casos de diálogos com Camões,11 Salette Tavares entendia a
transformação enquanto essência própria da forma e de sua apreensão. Embora em ambos os
casos se verifique uma actualização das formas no âmbito da autoreflexividade, são as
transposições adoptadas por Salette Tavares, bem como as estratégias de intermediação daí
resultantes, que mais nos parecem alimentar a dialéctica viva da obra de arte. Só assim o
receptor assiste (no duplo sentido da palavra, de ver e ajudar) , a expressão do mundo, não
tanto porque esta expressão exista em si mesma como linguagem, mas porque se trata de
“uma linguagem que eu entendo e fabrico na pura abertura poética capaz de escutar a
natureza”.12 Para Salette Tavares, ler é, deste modo e sempre, um inevitável recriar,
funcionando a própria percepção como forma e fecundação. Por seu lado, o indivíduo que
interpreta essa forma precisa de a reconfigurar em diferentes modos de expressão do conteúdo,
tornando-se, por isso, um co-autor. Ele pode “dizê-la [a forma] como criação”.13
A experiência estética, ao mediar deste modo a relação do leitor com o mundo,
representa uma oportunidade para o sujeito receptor se recriar, redescobrir e transformar. E
de metamorfose se trata: recriação do próprio na leitura activa do mundo, participação da
obra como veículo de transformação, num movimento dialéctico de permanente renovação.
Mesmo quando o universo interpretativo das formas aparenta ser estável (como no caso
dos “clássicos”), tratar-se-ia, segundo Salette Tavares, de um fenómeno social de cegueira,
10 CLÜVER. Estudos Interartes: Introdução Crítica, p. 341; cf. CLÜVER. Inter textus, inter artes, inter
media, neste volume.
11 São disso exemplo, entre outros: Herberto Helder, no seu poema “‘Transforma-se o amador na coisa
amada’, com o seu”; as variações temáticas sobre um vilancete de Camões, na “Leonorana” de Ana
Hatherly; as modalidades de reescrita de textos clássicos que Pedro Barbosa realizou com os programas
‘Texal e Permuta’, em 1975, com uma intenção de reelaboração crítica de textos clássicos, introduzindo-
lhes variações de sentido; o livro Re-Camões, de E. M. de Melo e Castro (1980), totalmente dedicado à
tarefa de des(cons)truir o grande poeta; e vários textos de Alberto Pimenta, que absorvem e transpiram
o autor dos Lusíadas. Ver, para este efeito, o meu artigo “Camões transformado e re-montado: o caso de
Herberto Helder”.
12 TAVARES. Forma e criação, p. 591.
13 TAVARES. Forma e criação, p. 599.
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uma vez que se trata do “domínio marginal da forma usada não como ser, crescente e
vivo, mas como ter…”14
A originalidade é, então, pela transformação e pela metamorfose, o trabalho próprio
do poeta: “[o] poeta tem o dever de inovar, de alterar, é essa a verdadeira missão do artista”.15
E, por isso, a poesia experimental não se faz com “sentidos, significados, imagens literárias,
etc., todo o intrincado semântico da poesia tradicionalista”.16 Na verdade, esta informação
semântica pouco interessa à poesia experimental. Como refere,
[a]s mais sérias e únicas grandes inovações na poesia moderna consistiram na
transcendência da palavra semântica pela adopção de uma palavra ou de uma rede
expressiva que transcende os valores semânticos colocando a tónica da autêntica
comunicação não ao nível semântico mas ao nível da pura comunicação estética
desenvolvendo-se ou em valores plásticos ou em valores sonoros, valores responsáveis
em todo o tempo da verdadeira comunicação literária no plano estético.17
Claro que esta “receita” não invalida outras formas de distribuição dos significados no
nível semântico. Ao contrário de outros concretistas, Salette Tavares não repudiava o
Surrealismo, no qual preferia ver, não o oposto do Concretismo, mas um uso do aspecto
semântico como um “em si” estético e, portanto, um uso que pode também ser criativo e
original. E, embora nos ocupemos neste trabalho de uma poesia que salienta valores plásticos
e sonoros, é necessário recordar que uma parte significativa da obra poética de Salette Tavares
é motivada pelo onírico e pelo surreal, que se exprimem através do mesmo trabalho semântico
que, no contexto da poesia experimental, relativiza e até rejeita. Como explica, “esta posição
das novas poéticas da poesia e das novas literaturas não invalidam aquelas poéticas que se
estruturam sobre o significado semântico”.18
Mas a informação semântica não interessa à poesia experimental porque aquela
foi absorvida pelos canais de comunicação de massas, tais como a rádio, o cinema e a televisão,19
passando a ser função da poesia ocupar-se da coordenada estética, reivindicando uma
maior quantidade de informação e colocando o jogo verbal criativo contra o nível
generalizado de banalização oferecido pelo espectáculo mediático.
Este cenário de reflexão que acabámos de enunciar serve para enquadrar a poesia
gráfica e espacial de Salette Tavares, que passamos agora a apresentar.
TRANSPOSIÇÃO E VARIAÇÃO NA POESIA GRÁFICA E ESPACIAL DE SALETTE TAVARES
A poesia de Salette Tavares articula uma plasticidade tão marcada (sonora, visual,
ou através da sugestão dos objectos) que com alguma naturalidade se verifica a
transposição da palavra escrita para imagens, colagens, objectos ou performances. Esta
14 TAVARES. Forma poética e tempo, p. 57.
15 TAVARES. Arquitectura, semiologia e mass média, p. 197.
16 TAVARES. Arquitectura, semiologia e mass média, p. 198.
17 TAVARES. Arquitectura, semiologia e mass média, p. 198.
18 TAVARES. Arquitectura, semiologia e mass média, p. 198.
19 TAVARES. Arquitectura, semiologia e mass média, p. 198.
uma vez que se trata do “domínio marginal da forma usada não como ser, crescente e
vivo, mas como ter…”14
A originalidade é, então, pela transformação e pela metamorfose, o trabalho próprio
do poeta: “[o] poeta tem o dever de inovar, de alterar, é essa a verdadeira missão do artista”.15
E, por isso, a poesia experimental não se faz com “sentidos, significados, imagens literárias,
etc., todo o intrincado semântico da poesia tradicionalista”.16 Na verdade, esta informação
semântica pouco interessa à poesia experimental. Como refere,
[a]s mais sérias e únicas grandes inovações na poesia moderna consistiram na
transcendência da palavra semântica pela adopção de uma palavra ou de uma rede
expressiva que transcende os valores semânticos colocando a tónica da autêntica
comunicação não ao nível semântico mas ao nível da pura comunicação estética
desenvolvendo-se ou em valores plásticos ou em valores sonoros, valores responsáveis
em todo o tempo da verdadeira comunicação literária no plano estético.17
Claro que esta “receita” não invalida outras formas de distribuição dos significados no
nível semântico. Ao contrário de outros concretistas, Salette Tavares não repudiava o
Surrealismo, no qual preferia ver, não o oposto do Concretismo, mas um uso do aspecto
semântico como um “em si” estético e, portanto, um uso que pode também ser criativo e
original. E, embora nos ocupemos neste trabalho de uma poesia que salienta valores plásticos
e sonoros, é necessário recordar que uma parte significativa da obra poética de Salette Tavares
é motivada pelo onírico e pelo surreal, que se exprimem através do mesmo trabalho semântico
que, no contexto da poesia experimental, relativiza e até rejeita. Como explica, “esta posição
das novas poéticas da poesia e das novas literaturas não invalidam aquelas poéticas que se
estruturam sobre o significado semântico”.18
Mas a informação semântica não interessa à poesia experimental porque aquela
foi absorvida pelos canais de comunicação de massas, tais como a rádio, o cinema e a televisão,19
passando a ser função da poesia ocupar-se da coordenada estética, reivindicando uma
maior quantidade de informação e colocando o jogo verbal criativo contra o nível
generalizado de banalização oferecido pelo espectáculo mediático.
Este cenário de reflexão que acabámos de enunciar serve para enquadrar a poesia
gráfica e espacial de Salette Tavares, que passamos agora a apresentar.
TRANSPOSIÇÃO E VARIAÇÃO NA POESIA GRÁFICA E ESPACIAL DE SALETTE TAVARES
A poesia de Salette Tavares articula uma plasticidade tão marcada (sonora, visual,
ou através da sugestão dos objectos) que com alguma naturalidade se verifica a
transposição da palavra escrita para imagens, colagens, objectos ou performances. Esta
14 TAVARES. Forma poética e tempo, p. 57.
15 TAVARES. Arquitectura, semiologia e mass média, p. 197.
16 TAVARES. Arquitectura, semiologia e mass média, p. 198.
17 TAVARES. Arquitectura, semiologia e mass média, p. 198.
18 TAVARES. Arquitectura, semiologia e mass média, p. 198.
19 TAVARES. Arquitectura, semiologia e mass média, p. 198.
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A L E T R I A - jul.-dez. - 2 0 0 62 7 2 Disponível em: http://www.letras.ufmg.br/poslit
potencialidade multisensorial do texto é, por outro lado, complementada pelo princípio
da estetização da experiência humana. Se a arte, como pretendia Shklovsky, serve para
mostrar as propriedades estéticas do objecto de uma forma desautomatizada – “para
provar que pedra é pedra, existe o que se chama arte”20 – é no objecto encontrado que
Salette Tavares mais vai insistindo: “a percepção orientada do artista suprime o sentido
anterior de um objecto encontrado ao torná-lo figura sobre um novo fundo”.21 Integrando
uma actividade criativa que é fundamentalmente perceptiva, o poema-objecto existe
como resultado de “um simples gesto de propor a percepção original à compreensão dos
outros, deslocando o objecto tal qual ele é do fundo onde se compreendia ou do contexto
onde estava, para o isolar e tornar num em si meu para os outros”.22
Este tipo de recontextualização surgiu em 1913, quando Marcel Duchamp expôs,
no Philadelphia Museum of Art, a sua Bycicle Wheel, e, em 1917, com o pseudónimo de
R. Mutt e em colaboração com Joseph Stella, colocou o seu famoso urinol, intitulado
Fountain, em exposição na Society of Independent Artists de Nova Iorque. Este assunto
é tema de um poema de Tavares, precisamente intitulado “Objet trouvé”:
Em casa de meus Pais havia
grandes chávenas de loiça para fazer chichi.
No museu de Arte Moderna em Nova Iorque há
uma chávena de pêlo mas não vi
nenhum penico. para Duchamp fico
na secção de Design a esperar vê-lo.23
Também a poesia gráfica e espacial de Salette Tavares é uma resposta à automatização
da percepção do objecto na sociedade do consumo. Os seus poemas espaciais encenam uma
(re)descoberta da objecticidade dos objectos. Para isso, a poeta coloca-(n)os frequentemente
no domínio do pedagógico, como é visível nos “Diálogos criativos” com os seus filhos, de
quem recebe tábuas, brinquedos e até “lixo”, que nomeia de poesia espacial. Na mistura de
diferentes formas de expressão, na reciclagem e na recontextualização, Salette Tavares propõe
modos de intermedialidade que nos alertam para a dialéctica das formas a que aludimos
anteriormente.
“Ourobesouro” é o seu “primeiro poema”, a sua primeira tomada de consciência em
relação à componente lúdica da linguagem: ouro-bes-ouro, besouro de ouro, a inscrição de
uma palavra em outra. “Ourobesouro, caixinha de minha infância” foi, na verdade, um
brinquedo da autora aos 12 anos, feito poema na “concepção” da palavra “ourobesouro”.24
Em Março de 1962, Salette Tavares escreve “Um lago mais azul caiu de branco”, previsto
para o “Livro do soporífero”, e que foi reproduzido na Obra Poética (1992):
20 SHKLOVSKY. A arte como procedimento, p. 45.
21 TAVARES. Forma e criação, p. 599.
22 TAVARES. Forma e criação, p. 599.
23 TAVARES. Obra poética, p. 429.
24 “A palavra ‘ourobesouro’ foi concebida por mim em 1934”. TAVARES. Obra Poética, p. 294.
potencialidade multisensorial do texto é, por outro lado, complementada pelo princípio
da estetização da experiência humana. Se a arte, como pretendia Shklovsky, serve para
mostrar as propriedades estéticas do objecto de uma forma desautomatizada – “para
provar que pedra é pedra, existe o que se chama arte”20 – é no objecto encontrado que
Salette Tavares mais vai insistindo: “a percepção orientada do artista suprime o sentido
anterior de um objecto encontrado ao torná-lo figura sobre um novo fundo”.21 Integrando
uma actividade criativa que é fundamentalmente perceptiva, o poema-objecto existe
como resultado de “um simples gesto de propor a percepção original à compreensão dos
outros, deslocando o objecto tal qual ele é do fundo onde se compreendia ou do contexto
onde estava, para o isolar e tornar num em si meu para os outros”.22
Este tipo de recontextualização surgiu em 1913, quando Marcel Duchamp expôs,
no Philadelphia Museum of Art, a sua Bycicle Wheel, e, em 1917, com o pseudónimo de
R. Mutt e em colaboração com Joseph Stella, colocou o seu famoso urinol, intitulado
Fountain, em exposição na Society of Independent Artists de Nova Iorque. Este assunto
é tema de um poema de Tavares, precisamente intitulado “Objet trouvé”:
Em casa de meus Pais havia
grandes chávenas de loiça para fazer chichi.
No museu de Arte Moderna em Nova Iorque há
uma chávena de pêlo mas não vi
nenhum penico. para Duchamp fico
na secção de Design a esperar vê-lo.23
Também a poesia gráfica e espacial de Salette Tavares é uma resposta à automatização
da percepção do objecto na sociedade do consumo. Os seus poemas espaciais encenam uma
(re)descoberta da objecticidade dos objectos. Para isso, a poeta coloca-(n)os frequentemente
no domínio do pedagógico, como é visível nos “Diálogos criativos” com os seus filhos, de
quem recebe tábuas, brinquedos e até “lixo”, que nomeia de poesia espacial. Na mistura de
diferentes formas de expressão, na reciclagem e na recontextualização, Salette Tavares propõe
modos de intermedialidade que nos alertam para a dialéctica das formas a que aludimos
anteriormente.
“Ourobesouro” é o seu “primeiro poema”, a sua primeira tomada de consciência em
relação à componente lúdica da linguagem: ouro-bes-ouro, besouro de ouro, a inscrição de
uma palavra em outra. “Ourobesouro, caixinha de minha infância” foi, na verdade, um
brinquedo da autora aos 12 anos, feito poema na “concepção” da palavra “ourobesouro”.24
Em Março de 1962, Salette Tavares escreve “Um lago mais azul caiu de branco”, previsto
para o “Livro do soporífero”, e que foi reproduzido na Obra Poética (1992):
20 SHKLOVSKY. A arte como procedimento, p. 45.
21 TAVARES. Forma e criação, p. 599.
22 TAVARES. Forma e criação, p. 599.
23 TAVARES. Obra poética, p. 429.
24 “A palavra ‘ourobesouro’ foi concebida por mim em 1934”. TAVARES. Obra Poética, p. 294.
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De ouro visto
ouro pintado e desbotado. Mas
de constância ilumino
ourobesouro brinquedo cristalino
meu penteado jogo que me infância.25
Note-se a colocação do substantivo “infância” numa função verbal, no último verso
citado, ou a posição ambígua da palavra “visto” no primeiro verso, podendo ser lida como
particípio passado do verbo “ver” ou como a primeira pessoa do singular do presente do
indicativo do verbo “vestir”. Estas transferências no nível semântico da linguagem traduzem
as recontextualizações iniciais na poesia de Salette Tavares: de verbo a substantivo-objecto,
de objecto a linguagem sobre o objecto. Em 1963, antes da publicação dos primeiros Cadernos
da Poesia Experimental, esse “ouro besouro brinquedo cristalino” foi concretizado,
espacializado num objecto de cristal e ouro, como se pode ver na Figura 1.26
A participação de Salette Tavares nos primeiros cadernos da Poesia Experimental27
foi descrita em carta a Ana Hatherly. De acordo com esse documento, os editores teriam
aceitado a inclusão de vários poemas-cartaz, tendo porém rejeitado a publicação de um
poema em que a palavra “maravilha” era desconstruída, porque “outra pessoa já tivera
a mesma ideia”.28 Embora, em razão dessa rejeição, a versão em cartaz continue inédita,
25 TAVARES. Obra Poética, p. 294.
26 Agradecemos a Salette Brandão e aos restantes filhos de Salette Tavares a autorização para publicação
das reproduções dos poemas de sua mãe.
27 A revista Poesia Experimental, também conhecida como Cadernos da PO.EX, foi uma publicação colectiva
com apenas 2 volumes editados, o primeiro em 1964 e o segundo em 1966. O primeiro volume teve organização
de António Aragão e Herberto Helder; o segundo foi organizado por Aragão, Helder e E. M. de Melo e
Castro. Nestes Cadernos, assim apelidados por cada autor ter um caderno volante, desdobrável, para publicar
trabalhos de cariz experimental, participaram, além dos organizadores, Salette Tavares, António Ramos Rosa,
António Barahona da Fonseca, Ana Hatherly, José-Alberto Marques, Luiza Neto Jorge, Álvaro Neto e Jorge
Peixinho. No primeiro volume foi também publicada uma Antologia de Poesia com poemas de, por exemplo,
Camões e Ângelo de Lima, tendo o segundo volume contado com colaborações internacionais, de Haroldo
de Campos e Pedro Xisto a Henri Chopin e Pierre Garnier. Os cadernos de Salette Tavares tiveram como título
“Brincadeiras”, mais especificamente “Brin Cadeiras” (primeiro volume) e “Brincade Iras” (segundo volume).
28 TAVARES. Carta, p. 17.
Fig. 1: Ourobesouro. 1963, cristal e ouro, 33 x 12 x 33 cm. Cortesia Salette Brandão (S.B.).
De ouro visto
ouro pintado e desbotado. Mas
de constância ilumino
ourobesouro brinquedo cristalino
meu penteado jogo que me infância.25
Note-se a colocação do substantivo “infância” numa função verbal, no último verso
citado, ou a posição ambígua da palavra “visto” no primeiro verso, podendo ser lida como
particípio passado do verbo “ver” ou como a primeira pessoa do singular do presente do
indicativo do verbo “vestir”. Estas transferências no nível semântico da linguagem traduzem
as recontextualizações iniciais na poesia de Salette Tavares: de verbo a substantivo-objecto,
de objecto a linguagem sobre o objecto. Em 1963, antes da publicação dos primeiros Cadernos
da Poesia Experimental, esse “ouro besouro brinquedo cristalino” foi concretizado,
espacializado num objecto de cristal e ouro, como se pode ver na Figura 1.26
A participação de Salette Tavares nos primeiros cadernos da Poesia Experimental27
foi descrita em carta a Ana Hatherly. De acordo com esse documento, os editores teriam
aceitado a inclusão de vários poemas-cartaz, tendo porém rejeitado a publicação de um
poema em que a palavra “maravilha” era desconstruída, porque “outra pessoa já tivera
a mesma ideia”.28 Embora, em razão dessa rejeição, a versão em cartaz continue inédita,
25 TAVARES. Obra Poética, p. 294.
26 Agradecemos a Salette Brandão e aos restantes filhos de Salette Tavares a autorização para publicação
das reproduções dos poemas de sua mãe.
27 A revista Poesia Experimental, também conhecida como Cadernos da PO.EX, foi uma publicação colectiva
com apenas 2 volumes editados, o primeiro em 1964 e o segundo em 1966. O primeiro volume teve organização
de António Aragão e Herberto Helder; o segundo foi organizado por Aragão, Helder e E. M. de Melo e
Castro. Nestes Cadernos, assim apelidados por cada autor ter um caderno volante, desdobrável, para publicar
trabalhos de cariz experimental, participaram, além dos organizadores, Salette Tavares, António Ramos Rosa,
António Barahona da Fonseca, Ana Hatherly, José-Alberto Marques, Luiza Neto Jorge, Álvaro Neto e Jorge
Peixinho. No primeiro volume foi também publicada uma Antologia de Poesia com poemas de, por exemplo,
Camões e Ângelo de Lima, tendo o segundo volume contado com colaborações internacionais, de Haroldo
de Campos e Pedro Xisto a Henri Chopin e Pierre Garnier. Os cadernos de Salette Tavares tiveram como título
“Brincadeiras”, mais especificamente “Brin Cadeiras” (primeiro volume) e “Brincade Iras” (segundo volume).
28 TAVARES. Carta, p. 17.
Fig. 1: Ourobesouro. 1963, cristal e ouro, 33 x 12 x 33 cm. Cortesia Salette Brandão (S.B.).
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A L E T R I A - jul.-dez. - 2 0 0 62 7 4 Disponível em: http://www.letras.ufmg.br/poslit
é-nos possível identificar o poema que esteve na sua origem. De facto, o jogo com a
palavra “maravilha”, dando origem a uma divisão em três partes significantes, MAR
AVE ILHA, parte de um poema escrito em Março de 1961, que estava previsto ser
publicado com o livro Quadrada, mas que apenas foi reproduzido na Obra Poética:
As maravilhas ficaram
soando sim.
As mar av ilhas voaram
sem já de mim.
As maravilhas morreram
de ave fim,
as mar
avi-lhas finaram
em mar de im.
As marav
ilhas fecharam oiro marfim
das marav ilhas fugiu
o Mandarim!29
É difícil determinar de que “outro” poema se trataria. Edgard Braga, por exemplo, faz
um jogo idêntico com a palavra ilha: “ilha / brilha / tranqüila”, e outros poetas concretos,
possivelmente antes e certamente depois, fizeram experiências semelhantes. Mesmo assim,
uma versão manuscrita do poema acima citado foi ampliada, tendo dado origem a uma
serigrafia sobre acrílico, que pode ser observada no objecto espacial de 1979, “A porta das
maravilhas”, reproduzido na Figura 2.
29 TAVARES. Obra Poética, p. 279.
Fig. 2: A porta das maravilhas. 1979, serigrafia
sobre acrílico, 75 x 180 cm. In: Obra Poética,
p. 499.
é-nos possível identificar o poema que esteve na sua origem. De facto, o jogo com a
palavra “maravilha”, dando origem a uma divisão em três partes significantes, MAR
AVE ILHA, parte de um poema escrito em Março de 1961, que estava previsto ser
publicado com o livro Quadrada, mas que apenas foi reproduzido na Obra Poética:
As maravilhas ficaram
soando sim.
As mar av ilhas voaram
sem já de mim.
As maravilhas morreram
de ave fim,
as mar
avi-lhas finaram
em mar de im.
As marav
ilhas fecharam oiro marfim
das marav ilhas fugiu
o Mandarim!29
É difícil determinar de que “outro” poema se trataria. Edgard Braga, por exemplo, faz
um jogo idêntico com a palavra ilha: “ilha / brilha / tranqüila”, e outros poetas concretos,
possivelmente antes e certamente depois, fizeram experiências semelhantes. Mesmo assim,
uma versão manuscrita do poema acima citado foi ampliada, tendo dado origem a uma
serigrafia sobre acrílico, que pode ser observada no objecto espacial de 1979, “A porta das
maravilhas”, reproduzido na Figura 2.
29 TAVARES. Obra Poética, p. 279.
Fig. 2: A porta das maravilhas. 1979, serigrafia
sobre acrílico, 75 x 180 cm. In: Obra Poética,
p. 499.
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2 7 52 0 0 6 - jul.-dez. - A L E T R I ADisponível em: http://www.letras.ufmg.br/poslit
Esta reinscrição de uma versão em caligrafia do poema numa porta é mais do que
a transferência entre mediações distintas. Além da passagem do papel para o acrílico
(do opaco para o transparente), há a considerar a passagem do livro para a porta enquanto
suporte simbólico de mediação do espaço. A porta é, como Salette Tavares escreveu em
Lex Icon, “o instrumento / que corta / a relação do dentro / com o fora”.30 E se a porta
estabelece fronteiras, abre também novos espaços dentro do espaço demarcado por esses
mesmos limites: “As casas estão cheias de portas / porque as casas estão cheias / de
dentros comunicáveis […]”.31
De qualquer modo, as obras que saíram publicadas no caderno de Salette Tavares dessa
primeira revista da PO.EX, que tinha como título um sugestivo “Brin Cadeiras”, ajudam a
entender fenómenos de transposição, remediação e intermediação na sua poesia. Os poemas
em tipografia – a “Aranha”; “Os efes” e os outros poemas em “F”; e as kinetofonias “Taki
Taki” e “Ri M Ri Ri” – constituem a totalidade das obras apresentadas nessa primeira
publicação colectiva. Estes trabalhos de Salette Tavares, como a própria tornou explícito,
implicam um conhecimento das noções de informação estética e informação semântica
propostas por Abraham Moles, que tinham sido divulgadas em Portugal por vários
experimentalistas. Elas visam um “tratamento poético-semântico puramente estético, com
a delimitação muito estrita dos repertórios de símbolos”.32 Salette Tavares explica que
estes repertórios são constituídos por grupos de palavras escolhidas “numa zona limitada”
do dicionário, tal como as que começam por “f” ou em “al”, ou as quatro (4) letras que
compõem as kinetofonias, “t”, “a”, “k” e “i” em “Taki Taki”; e “r”, “u”, “m” e “i” em “Ri
M Ri Ri”. Nestes poemas, o manejamento semântico é abandonado para dar relevo ao
valor estético,33 uma vez que é o ponto de vista sonoro que interessa explorar. A
reprodução dessas kinetofonias, na Figura 3, ilustra bem esse hibridismo. Trata-se de
pautas de poemas sonoros que sustentam, ao mesmo tempo, uma espacialização e uma
visualidade extremamente significativas. Além disso, são formas virtualmente abertas,
como o confirma a revisão para serigrafia sobre papel vegetal que Salette Tavares
empreendeu em 1978. Estes textos intersemióticos montam-se, portanto, através da
convergência de vários sistemas de signos e não surpreende o facto de quase todos estes
poemas gráficos terem sofrido vários tipos de transformação ao longo da vida literária da
autora.
30 TAVARES. Obra Poética, p. 448.
31 Obra Poética, p. 448.
32 TAVARES. Teoria da Informação e Abraham Moles, p. 169.
33 TAVARES. Teoria da Informação e Abraham Moles, p. 169.
Esta reinscrição de uma versão em caligrafia do poema numa porta é mais do que
a transferência entre mediações distintas. Além da passagem do papel para o acrílico
(do opaco para o transparente), há a considerar a passagem do livro para a porta enquanto
suporte simbólico de mediação do espaço. A porta é, como Salette Tavares escreveu em
Lex Icon, “o instrumento / que corta / a relação do dentro / com o fora”.30 E se a porta
estabelece fronteiras, abre também novos espaços dentro do espaço demarcado por esses
mesmos limites: “As casas estão cheias de portas / porque as casas estão cheias / de
dentros comunicáveis […]”.31
De qualquer modo, as obras que saíram publicadas no caderno de Salette Tavares dessa
primeira revista da PO.EX, que tinha como título um sugestivo “Brin Cadeiras”, ajudam a
entender fenómenos de transposição, remediação e intermediação na sua poesia. Os poemas
em tipografia – a “Aranha”; “Os efes” e os outros poemas em “F”; e as kinetofonias “Taki
Taki” e “Ri M Ri Ri” – constituem a totalidade das obras apresentadas nessa primeira
publicação colectiva. Estes trabalhos de Salette Tavares, como a própria tornou explícito,
implicam um conhecimento das noções de informação estética e informação semântica
propostas por Abraham Moles, que tinham sido divulgadas em Portugal por vários
experimentalistas. Elas visam um “tratamento poético-semântico puramente estético, com
a delimitação muito estrita dos repertórios de símbolos”.32 Salette Tavares explica que
estes repertórios são constituídos por grupos de palavras escolhidas “numa zona limitada”
do dicionário, tal como as que começam por “f” ou em “al”, ou as quatro (4) letras que
compõem as kinetofonias, “t”, “a”, “k” e “i” em “Taki Taki”; e “r”, “u”, “m” e “i” em “Ri
M Ri Ri”. Nestes poemas, o manejamento semântico é abandonado para dar relevo ao
valor estético,33 uma vez que é o ponto de vista sonoro que interessa explorar. A
reprodução dessas kinetofonias, na Figura 3, ilustra bem esse hibridismo. Trata-se de
pautas de poemas sonoros que sustentam, ao mesmo tempo, uma espacialização e uma
visualidade extremamente significativas. Além disso, são formas virtualmente abertas,
como o confirma a revisão para serigrafia sobre papel vegetal que Salette Tavares
empreendeu em 1978. Estes textos intersemióticos montam-se, portanto, através da
convergência de vários sistemas de signos e não surpreende o facto de quase todos estes
poemas gráficos terem sofrido vários tipos de transformação ao longo da vida literária da
autora.
30 TAVARES. Obra Poética, p. 448.
31 Obra Poética, p. 448.
32 TAVARES. Teoria da Informação e Abraham Moles, p. 169.
33 TAVARES. Teoria da Informação e Abraham Moles, p. 169.
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A L E T R I A - jul.-dez. - 2 0 0 62 7 6 Disponível em: http://www.letras.ufmg.br/poslit
O poema “Os efes”, que é uma “ironia contra a clássica e ridícula ideia de dividir
a obra de arte em forma e conteúdo”34 e que é representado pela forma de três (3)
grandes letras “f” encenando a forma como globalidade, contextualiza os outros poemas
do caderno, que têm em comum o trabalho morfológico (forma e transformação) e fonético
com essa sexta letra do alfabeto.35 O texto em prosa que preenche “Os efes” fora escrito
um ano antes, para o “Livro do soporífero”:36 “é grave, sério e exige de ti grande precaução
[…]”.
34 TAVARES. Poesia gráfica, p. 17.
35 Estes Três efes são, naturalmente, também uma alusão aos fatídicos “três efes” lusitanos: fado, futebol
e Fátima.
36 Republicado em 1973 na Antologia da Poesia Concreta em Portugal, organizada por E. M. de MELO e
CASTRO e José-Alberto MARQUES.
Fig. 3: Kinetofonias. Serigrafia sobre papel vegetal. RI M RI RI, 21 x 30 cm; TAKI TAKI, 21 x 30 cm.
De Brin cadeiras, in: Poesia Experimental-1, 1964.
O poema “Os efes”, que é uma “ironia contra a clássica e ridícula ideia de dividir
a obra de arte em forma e conteúdo”34 e que é representado pela forma de três (3)
grandes letras “f” encenando a forma como globalidade, contextualiza os outros poemas
do caderno, que têm em comum o trabalho morfológico (forma e transformação) e fonético
com essa sexta letra do alfabeto.35 O texto em prosa que preenche “Os efes” fora escrito
um ano antes, para o “Livro do soporífero”:36 “é grave, sério e exige de ti grande precaução
[…]”.
34 TAVARES. Poesia gráfica, p. 17.
35 Estes Três efes são, naturalmente, também uma alusão aos fatídicos “três efes” lusitanos: fado, futebol
e Fátima.
36 Republicado em 1973 na Antologia da Poesia Concreta em Portugal, organizada por E. M. de MELO e
CASTRO e José-Alberto MARQUES.
Fig. 3: Kinetofonias. Serigrafia sobre papel vegetal. RI M RI RI, 21 x 30 cm; TAKI TAKI, 21 x 30 cm.
De Brin cadeiras, in: Poesia Experimental-1, 1964.
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2 7 72 0 0 6 - jul.-dez. - A L E T R I ADisponível em: http://www.letras.ufmg.br/poslit
Fig. 5: Aranha. Tipografia, 40cm x 40 cm. De
Brin cadeiras, in: Poesia Experimental-1, 1964.
Fig. 4: Os efes. Tipografia, 62 x 87 cm. De Brin
cadeiras, in: Poesia Experimental-1, 1964.
“Aranha” (Fig. 5) foi outro dos poemas
publicados neste primeiro número da revista,
sendo talvez o trabalho mais conhecido de
Salette Tavares, por ter sido reproduzido em
algumas antologias internacionais de poesia
visual e concreta.
Fig. 5: Aranha. Tipografia, 40cm x 40 cm. De
Brin cadeiras, in: Poesia Experimental-1, 1964.
Fig. 4: Os efes. Tipografia, 62 x 87 cm. De Brin
cadeiras, in: Poesia Experimental-1, 1964.
“Aranha” (Fig. 5) foi outro dos poemas
publicados neste primeiro número da revista,
sendo talvez o trabalho mais conhecido de
Salette Tavares, por ter sido reproduzido em
algumas antologias internacionais de poesia
visual e concreta.
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A L E T R I A - jul.-dez. - 2 0 0 62 7 8 Disponível em: http://www.letras.ufmg.br/poslit
A autora considerava a reprodução publicada no seu Caderno uma versão
empobrecida, tendo por várias vezes realçado o desenho do original, em caneta fina,
que reflectia o seu gosto pela escrita à mão.37 De qualquer modo, a forma da aranha é
desenhada com as palavras “arre” (nas patas da aranha) e “arrranha” (no corpo da
aranha), além de “arrranhisso” e “arranh / aço”. Este poema é paradigmático por sintetizar
duas preocupações de Salette Tavares: a escrita e a forma; a utilização do corpo como
ferramenta da caligrafia e a escultura do conteúdo na forma. Não admira, por isso, que esta
aranha se tenha reproduzido, qual algoritmo poeticamente programado para a metamorfose.
Ela reaparece na “Borboleta”, que figura no catálogo da exposição “Concreta–Experimental–
Visual”, que teve lugar na Universidade de Bolonha, em 1989.38 Essa borboleta, que é a
“Aranha” multiplicada de forma a criar uma borboleta, foi interpretada por Melo e Castro
como “uma metáfora da relação ambígua entre vítima e predador”.39 Essa mesma relação
de devoração preside ao carácter dialógico da poesia portuguesa de invenção.
Entretanto, surgem ainda o “Aranhão” (Fig. 6) e os “Cágados”, todos propondo
transformações derivadas de processos de montagem e mistura, multiplicação e replicação.
São ainda desta época vários poemas que, aparecendo inicialmente em texto,
depois em cartaz, são posteriormente inscritos e recriados em vários objectos. Um exemplo
destas revisitações é o cartaz de “O menino Ivo”, que seria transformado num tapete,
manufacturado pelas Tapeçarias de Portalegre, em Tapeçaria do Menino Ivo.
37 TAVARES. Poesia gráfica, p. 17.
38 TAVARES, “Borboleta”.
39 MELO E CASTRO. Visões do Espelho Cego, p. 9.
Fig. 6: Aranhão. 1978, serigrafia, 62 x
72 cm. Cortesia S.B.
A autora considerava a reprodução publicada no seu Caderno uma versão
empobrecida, tendo por várias vezes realçado o desenho do original, em caneta fina,
que reflectia o seu gosto pela escrita à mão.37 De qualquer modo, a forma da aranha é
desenhada com as palavras “arre” (nas patas da aranha) e “arrranha” (no corpo da
aranha), além de “arrranhisso” e “arranh / aço”. Este poema é paradigmático por sintetizar
duas preocupações de Salette Tavares: a escrita e a forma; a utilização do corpo como
ferramenta da caligrafia e a escultura do conteúdo na forma. Não admira, por isso, que esta
aranha se tenha reproduzido, qual algoritmo poeticamente programado para a metamorfose.
Ela reaparece na “Borboleta”, que figura no catálogo da exposição “Concreta–Experimental–
Visual”, que teve lugar na Universidade de Bolonha, em 1989.38 Essa borboleta, que é a
“Aranha” multiplicada de forma a criar uma borboleta, foi interpretada por Melo e Castro
como “uma metáfora da relação ambígua entre vítima e predador”.39 Essa mesma relação
de devoração preside ao carácter dialógico da poesia portuguesa de invenção.
Entretanto, surgem ainda o “Aranhão” (Fig. 6) e os “Cágados”, todos propondo
transformações derivadas de processos de montagem e mistura, multiplicação e replicação.
São ainda desta época vários poemas que, aparecendo inicialmente em texto,
depois em cartaz, são posteriormente inscritos e recriados em vários objectos. Um exemplo
destas revisitações é o cartaz de “O menino Ivo”, que seria transformado num tapete,
manufacturado pelas Tapeçarias de Portalegre, em Tapeçaria do Menino Ivo.
37 TAVARES. Poesia gráfica, p. 17.
38 TAVARES, “Borboleta”.
39 MELO E CASTRO. Visões do Espelho Cego, p. 9.
Fig. 6: Aranhão. 1978, serigrafia, 62 x
72 cm. Cortesia S.B.
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Em 1965, realizam-se a exposição “Visopoemas” e o “Concerto e audição pictórica”,
momentos altos da intermedialidade na poesia portuguesa do século XX. Na exposição,
Salette Tavares participou com um conjunto de doze poemas espaciais que apontavam
uma direcção que seguirá em Lex Icon e na sua futura poesia espacial, dando lugar de
relevo aos objectos. Alguns dos poemas reproduzidos nos primeiros Cadernos puderam
nessa altura ver-se no seu formato original, o cartaz. E no “Concerto e audição pictórica”
apresentou uma “Ode à Cri… cri… cri… tica… da nossa terra”, ironizando, logo no
título, com o discurso da crítica literária do período. Este “Concerto” deve ser ainda
avaliado como a única possibilidade de apresentação de toda uma produção visual (gráfica
e/ou espacial) que tinha sido pobremente reproduzida nas edições em livro e revista,
bem como uma oportunidade para potenciar as características performativas desta poesia
plural, através do happening.
Passados quinze anos destes acontecimentos, a retrospectiva “Brincar”, na Galeria
Quadrum, Lisboa, em 1979, foi uma nova oportunidade para Salette Tavares trabalhar
em variações da sua poesia gráfica e espacial. Nessa exposição, foram apresentados
muitos dos trabalhos que temos vindo a referir, bem como outros, inéditos, entre os
quais um poema-objecto que está desaparecido, a “Baylia de Ayras Nunes de Santiago”,
em ferro cromado, que traz(ia) três estrofes de um texto na estrutura, espacializada, do
objecto.
Fig. 7: Tapeçaria do Menino Ivo. 1979. 80 x 120 cm.
In: Obra Poética, p. 503. Cortesia S.B.
Cf. Prancha 11, p. 381.
Fig. 8: Baylia de Ayras Nunes de Santiago
[pormenor]. 1979, ferro cromado.
Desaparecido. Cortesia S.B.
Em 1965, realizam-se a exposição “Visopoemas” e o “Concerto e audição pictórica”,
momentos altos da intermedialidade na poesia portuguesa do século XX. Na exposição,
Salette Tavares participou com um conjunto de doze poemas espaciais que apontavam
uma direcção que seguirá em Lex Icon e na sua futura poesia espacial, dando lugar de
relevo aos objectos. Alguns dos poemas reproduzidos nos primeiros Cadernos puderam
nessa altura ver-se no seu formato original, o cartaz. E no “Concerto e audição pictórica”
apresentou uma “Ode à Cri… cri… cri… tica… da nossa terra”, ironizando, logo no
título, com o discurso da crítica literária do período. Este “Concerto” deve ser ainda
avaliado como a única possibilidade de apresentação de toda uma produção visual (gráfica
e/ou espacial) que tinha sido pobremente reproduzida nas edições em livro e revista,
bem como uma oportunidade para potenciar as características performativas desta poesia
plural, através do happening.
Passados quinze anos destes acontecimentos, a retrospectiva “Brincar”, na Galeria
Quadrum, Lisboa, em 1979, foi uma nova oportunidade para Salette Tavares trabalhar
em variações da sua poesia gráfica e espacial. Nessa exposição, foram apresentados
muitos dos trabalhos que temos vindo a referir, bem como outros, inéditos, entre os
quais um poema-objecto que está desaparecido, a “Baylia de Ayras Nunes de Santiago”,
em ferro cromado, que traz(ia) três estrofes de um texto na estrutura, espacializada, do
objecto.
Fig. 7: Tapeçaria do Menino Ivo. 1979. 80 x 120 cm.
In: Obra Poética, p. 503. Cortesia S.B.
Cf. Prancha 11, p. 381.
Fig. 8: Baylia de Ayras Nunes de Santiago
[pormenor]. 1979, ferro cromado.
Desaparecido. Cortesia S.B.
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A L E T R I A - jul.-dez. - 2 0 0 62 8 0 Disponível em: http://www.letras.ufmg.br/poslit
Outros versos dos seus poemas houve que também foram transpostos para a
escultura em arame ou ferro cromado. O “Maquinin”, por exemplo, partindo do texto
“Eu visto o que vesti ao manequim / sou poeta que mente o que se sente / e só fico
contente quando visto / aquilo que se ri atrás de mim”,40 acaba sendo uma metáfora do
processo criativo da poeta: a máquina-manequim é a estrutura variável pronta a receber
na sua forma as mais variadas roupa(gen)s. E, em (mais um) diálogo intertextual com
Fernando Pessoa,41 Salette Tavares usa o manequim – que também é “máquina” no jogo
verbal que o título introduz – como motivo para o seu próprio refazer-se, vestir-se,
transformar-se.
“Alquerubim” é outro poema gravado em alumínio que, com todo o seu brilho e
luminosidade, esgrime pelo seu lugar entre as fronteiras das artes. Mas é na leitura
anagramática que propõe que a sua poeticidade melhor se exprime. Na dobra da repetição da
palavra, Salette Tavares promove um arranjo visual combinatório com a palavra
“ALQUERUBIM”42 em maiúsculas que nos permite lê-la em várias direcções numa
sucessão de onze linhas, criando uma estrutura viva de leituras circulares.
40 TAVARES. Obra Poética, p. 215.
41 Lembramos os versos da “Autopsicografia” de Fernando Pessoa: “O poeta é um fingidor. / Finge tão
completamente / Que chega a fingir que é dor / A dor que deveras sente”.
42 De Alquerubim apenas sabemos tratar-se de uma freguesia portuguesa do concelho de Albergaria-a-
Velha, mas desconhecemos a razão da sua utilização por Salette Tavares, além da óbvia musicalidade.
Fig. 9: Maquinin. 1963, mobile em alumínio
anodizado. Cortesia S.B.
Outros versos dos seus poemas houve que também foram transpostos para a
escultura em arame ou ferro cromado. O “Maquinin”, por exemplo, partindo do texto
“Eu visto o que vesti ao manequim / sou poeta que mente o que se sente / e só fico
contente quando visto / aquilo que se ri atrás de mim”,40 acaba sendo uma metáfora do
processo criativo da poeta: a máquina-manequim é a estrutura variável pronta a receber
na sua forma as mais variadas roupa(gen)s. E, em (mais um) diálogo intertextual com
Fernando Pessoa,41 Salette Tavares usa o manequim – que também é “máquina” no jogo
verbal que o título introduz – como motivo para o seu próprio refazer-se, vestir-se,
transformar-se.
“Alquerubim” é outro poema gravado em alumínio que, com todo o seu brilho e
luminosidade, esgrime pelo seu lugar entre as fronteiras das artes. Mas é na leitura
anagramática que propõe que a sua poeticidade melhor se exprime. Na dobra da repetição da
palavra, Salette Tavares promove um arranjo visual combinatório com a palavra
“ALQUERUBIM”42 em maiúsculas que nos permite lê-la em várias direcções numa
sucessão de onze linhas, criando uma estrutura viva de leituras circulares.
40 TAVARES. Obra Poética, p. 215.
41 Lembramos os versos da “Autopsicografia” de Fernando Pessoa: “O poeta é um fingidor. / Finge tão
completamente / Que chega a fingir que é dor / A dor que deveras sente”.
42 De Alquerubim apenas sabemos tratar-se de uma freguesia portuguesa do concelho de Albergaria-a-
Velha, mas desconhecemos a razão da sua utilização por Salette Tavares, além da óbvia musicalidade.
Fig. 9: Maquinin. 1963, mobile em alumínio
anodizado. Cortesia S.B.
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Este tipo de trabalhos, em que se fundem as artes gráficas, a escultura e a literatura,
foram realizados e apresentados para esta retrospectiva integrando um conjunto no qual
se assinalava o “objecto encontrado” como parte da sua produção poética. Para isso, Tavares
enquadrou todos os seus “objectos espaciais” (como lhes chamava no catálogo da exposição43)
sob o título genérico de “Brincar”. Esta poesia espacial está associada ao “brincar” uma
vez que brincar exprime a relação criativa da criança com o mundo que aprende. “Brincar”,
diz Salette Tavares no texto da sua exposição retrospectiva, “é um estado natural e
permanente tal qual o foi na escola e em casa” (s.p.). Não há espaços vazios no crescimento
de uma criança: tudo é novo. Na ausência de estímulo, na ausência de objectos-
brinquedo, outras coisas os substituem, mas sempre o lugar do objecto (a sua necessidade)
é mantida. É por isso que Salette Tavares fala da presença do objecto na própria
linguagem: “Bastava a palavra que se coisificava. Era tão fácil jogar com ela como jogar
à bola”. Os trabalhos em exposição são o resultado, também, e por isso, de “Dialogos
criativos” entre Salette Tavares e os seus três filhos.
São também desta fase vários poemas que não foram ainda reproduzidos em livro,
a que só é possível ter acesso quando são expostos em museus – e a obra de Salette
Tavares precisa de ser vista no museu devido precisamente ao facto de se tratar de
textos que recorrem a vários sistemas de signos e que demandam novos espaços e suportes
de divulgação por forma a que os seus aspectos visuais, sonoros, cinéticos ou performativos
sejam devidamente articulados.
PERSPECTIVAS PARA A REMEDIAÇÃO DA POESIA DE SALETTE TAVARES
Embora a edição da Obra Poética 1957-1971 (Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1992;
Prémio P.E.N. Clube, 1993) represente um esforço inicial para reunir a obra publicada, assim
como parte da obra não-publicada, de Salette Tavares, tem que ser dada continuidade
à edição da obra da autora que permanece inédita. Mas se a edição em livro, a fazer-se, é
importante para a publicação de tantos textos ainda inéditos, o mesmo não parece ser possível
dizer em relação à poesia visual, que (sobre)vive apenas em exposição e em performance.
Uma importante, mas insuficiente, tentativa de corrigir as lacunas da Obra poética em
43 TAVARES. Brincar.
Fig. 10: Alquerubim. 1979, alumínio
polido, 70 x 70 cm [aprox.].
Desparecido; imagem cedida por S.B.
Cf. Prancha 10, p. 381.
Este tipo de trabalhos, em que se fundem as artes gráficas, a escultura e a literatura,
foram realizados e apresentados para esta retrospectiva integrando um conjunto no qual
se assinalava o “objecto encontrado” como parte da sua produção poética. Para isso, Tavares
enquadrou todos os seus “objectos espaciais” (como lhes chamava no catálogo da exposição43)
sob o título genérico de “Brincar”. Esta poesia espacial está associada ao “brincar” uma
vez que brincar exprime a relação criativa da criança com o mundo que aprende. “Brincar”,
diz Salette Tavares no texto da sua exposição retrospectiva, “é um estado natural e
permanente tal qual o foi na escola e em casa” (s.p.). Não há espaços vazios no crescimento
de uma criança: tudo é novo. Na ausência de estímulo, na ausência de objectos-
brinquedo, outras coisas os substituem, mas sempre o lugar do objecto (a sua necessidade)
é mantida. É por isso que Salette Tavares fala da presença do objecto na própria
linguagem: “Bastava a palavra que se coisificava. Era tão fácil jogar com ela como jogar
à bola”. Os trabalhos em exposição são o resultado, também, e por isso, de “Dialogos
criativos” entre Salette Tavares e os seus três filhos.
São também desta fase vários poemas que não foram ainda reproduzidos em livro,
a que só é possível ter acesso quando são expostos em museus – e a obra de Salette
Tavares precisa de ser vista no museu devido precisamente ao facto de se tratar de
textos que recorrem a vários sistemas de signos e que demandam novos espaços e suportes
de divulgação por forma a que os seus aspectos visuais, sonoros, cinéticos ou performativos
sejam devidamente articulados.
PERSPECTIVAS PARA A REMEDIAÇÃO DA POESIA DE SALETTE TAVARES
Embora a edição da Obra Poética 1957-1971 (Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1992;
Prémio P.E.N. Clube, 1993) represente um esforço inicial para reunir a obra publicada, assim
como parte da obra não-publicada, de Salette Tavares, tem que ser dada continuidade
à edição da obra da autora que permanece inédita. Mas se a edição em livro, a fazer-se, é
importante para a publicação de tantos textos ainda inéditos, o mesmo não parece ser possível
dizer em relação à poesia visual, que (sobre)vive apenas em exposição e em performance.
Uma importante, mas insuficiente, tentativa de corrigir as lacunas da Obra poética em
43 TAVARES. Brincar.
Fig. 10: Alquerubim. 1979, alumínio
polido, 70 x 70 cm [aprox.].
Desparecido; imagem cedida por S.B.
Cf. Prancha 10, p. 381.
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relação à poesia visual é a publicação, em 1995, pela Casa Fernando Pessoa, da Poesia
gráfica de Salette Tavares.
Entretanto, novas modalidades de representação deste tipo de poesia visual
começam a emergir com os meios digitais e com o desenvolvimento das linguagens
multimédia e hipermédia. Torna-se a esse propósito pertinente mencionar que está em
curso, no Centro de Estudos de Texto Informático e Ciberliteratura, da Universidade
Fernando Pessoa, Portugal, um projecto que tem como objectivo recolher, classificar,
digitalizar, traduzir e reproduzir em formato electrónico, a produção da poesia concreta
e visual portuguesa associada ao movimento da Poesia Experimental dos anos 60, com o
fim de produzir um CD-ROM e um Portal na Internet (http://po-ex.net/) para divulgação
da mesma. O projecto44 considera como corpus da PO.EX os Cadernos, Suplementos,
objectos, catálogos e panfletos, dispersos actualmente. Pelas razões acima nomeadas,
Salette Tavares será um dos poetas representados nesta base de dados. E, de facto, o
meio digital, além de permitir reproduzir e disponibilizar imagens de alta resolução,
facilita a publicação de outros registos multimedia, tais como som, texto ou vídeo.
Este projecto de digitalização da PO.EX pretende ainda promover uma reflexão
acerca dos mecanismos de transposição e remediação dos meios analógicos para os meios
digitais. Estão nesse sentido previstas várias versões interactivas, em formato hipermédia,
para alguns dos poemas aqui mencionados. E, dada a complexidade sintáctica e semântica
de muitos destes textos, serão estudadas as formas mais apropriadas à sua correcta
reprodução e recriação. Ora, tal tarefa pressupõe uma avaliação e um estudo prévios
que poderão ajudar a criar um contexto teórico e conceptual que nos permita entender,
uma vez mais, estas transposições entre paradigmas diferentes como mecanismos de
alerta para a constituição arbitrária da linguagem, dos códigos e de todas as fronteiras.
Deste modo, além de permitir a divulgação e em muito facilitar a acessibilidade de
toda uma herança literária que corre o risco de se perder, este projecto amplia a reflexão
acerca dos processos de intermedialidade em poesia para novos campos de investigação,
envolvendo os meios digitais e as cibertextualidades daí resultantes.
A B S T R A C T
The goal of this article is to present the visual poetry of Salette
Tavares in the light of the intersemiotic processes which it
articulates in the transpositions between text, sound, images,
and objects. The work of Salette Tavares is contextualized
within the poetics of the Portuguese experimental poetry
movement, which appeared in the second half of the
twentieth-century and is known for the creation of hybrid
poetic forms that motivate transposition and variation.
K E Y W O R D S
Portuguese experimental poetry, concrete and visual poetry,
transposition and transformation, intersemiosis
44 Este projecto é financiado pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia, do Ministério da Ciência,
Tecnologia e Ensino Superior, Portugal.
AA
relação à poesia visual é a publicação, em 1995, pela Casa Fernando Pessoa, da Poesia
gráfica de Salette Tavares.
Entretanto, novas modalidades de representação deste tipo de poesia visual
começam a emergir com os meios digitais e com o desenvolvimento das linguagens
multimédia e hipermédia. Torna-se a esse propósito pertinente mencionar que está em
curso, no Centro de Estudos de Texto Informático e Ciberliteratura, da Universidade
Fernando Pessoa, Portugal, um projecto que tem como objectivo recolher, classificar,
digitalizar, traduzir e reproduzir em formato electrónico, a produção da poesia concreta
e visual portuguesa associada ao movimento da Poesia Experimental dos anos 60, com o
fim de produzir um CD-ROM e um Portal na Internet (http://po-ex.net/) para divulgação
da mesma. O projecto44 considera como corpus da PO.EX os Cadernos, Suplementos,
objectos, catálogos e panfletos, dispersos actualmente. Pelas razões acima nomeadas,
Salette Tavares será um dos poetas representados nesta base de dados. E, de facto, o
meio digital, além de permitir reproduzir e disponibilizar imagens de alta resolução,
facilita a publicação de outros registos multimedia, tais como som, texto ou vídeo.
Este projecto de digitalização da PO.EX pretende ainda promover uma reflexão
acerca dos mecanismos de transposição e remediação dos meios analógicos para os meios
digitais. Estão nesse sentido previstas várias versões interactivas, em formato hipermédia,
para alguns dos poemas aqui mencionados. E, dada a complexidade sintáctica e semântica
de muitos destes textos, serão estudadas as formas mais apropriadas à sua correcta
reprodução e recriação. Ora, tal tarefa pressupõe uma avaliação e um estudo prévios
que poderão ajudar a criar um contexto teórico e conceptual que nos permita entender,
uma vez mais, estas transposições entre paradigmas diferentes como mecanismos de
alerta para a constituição arbitrária da linguagem, dos códigos e de todas as fronteiras.
Deste modo, além de permitir a divulgação e em muito facilitar a acessibilidade de
toda uma herança literária que corre o risco de se perder, este projecto amplia a reflexão
acerca dos processos de intermedialidade em poesia para novos campos de investigação,
envolvendo os meios digitais e as cibertextualidades daí resultantes.
A B S T R A C T
The goal of this article is to present the visual poetry of Salette
Tavares in the light of the intersemiotic processes which it
articulates in the transpositions between text, sound, images,
and objects. The work of Salette Tavares is contextualized
within the poetics of the Portuguese experimental poetry
movement, which appeared in the second half of the
twentieth-century and is known for the creation of hybrid
poetic forms that motivate transposition and variation.
K E Y W O R D S
Portuguese experimental poetry, concrete and visual poetry,
transposition and transformation, intersemiosis
44 Este projecto é financiado pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia, do Ministério da Ciência,
Tecnologia e Ensino Superior, Portugal.
AA
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2 8 32 0 0 6 - jul.-dez. - A L E T R I ADisponível em: http://www.letras.ufmg.br/poslit
R E F E R Ê N C I A S
BARBOSA, Pedro. Camões e as voltas que o computador (lhe) dá. In: BARBOSA. A
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CLÜVER, Claus. Estudos Interartes: Introdução Crítica. Trad. Yun Jung Im e Claus
Clüver, revisão Helena Carvalhão Buescu. In: BUESCU, Helena; DUARTE, João
Ferreira; GUSMÃO, Manuel (Org.). Floresta Encantada: novos caminhos da literatura
comparada. Lisboa: Dom Quixote, 2001, p. 333-62.
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