Uma ilha em crescimento: imagens mostram alterações da ilha do Cardoso nos últimos 30 anos
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Uma ilha em crescimento: imagens mostram alterações da ilha do Cardoso nos últimos 30 anos
CYAN MAGENTA AMARELO PRETO TAB 36
JORNAL DO BRASIL Domingo, 20 de janeiro de 2008
Convênio firmado entre o
Jornal do Brasil e o Instituto
Ciência Hoje apresenta todo
domingo textos baseados em
artigos publicados na revista
JB
6
6
HISTÓRIA
Jardim Botânico: pesquisa e lazer
Primeiros anos da história da instituição revelam constante busca de sua função adequada
GEOGRAFIA
Uma ilha em crescimento
Imagens mostram alterações da ilha do Cardoso nos últimos 30 anos
Fernando Shinji Kawakubo
Rúbia Gomes Morato
Mônica Pavão
UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO
O Paraná está perdendo área, en-
quanto São Paulo está ganhando,
graças a um fenômeno interessante: o
crescimento de uma ilha decorrente
da erosão e deposição de sedimentos
arenosos provocados por correntes
marinhas. O fenômeno está ocor-
rendo na ilha do Cardoso. Parte dos
sedimentos que ondas e marés tiram
do litoral paranaense é depositada ao
sul dessa ilha, que vem aumentando
em média 33 metros por ano.
A ilha do Cardoso é separada da
ilha de Superagüi, no Paraná, pelo
canal de Ararapira. Estudos mos-
tram que, devido à erosão no lado
paranaense e ao crescimento da ilha
do Cardoso, a desembocadura do
canal de Ararapira sofreu um des-
locamento de 1,2 km entre 1953 e
1980. A direção principal do canal
de Ararapira é nordeste-sudoeste,
mas ocorre uma mudança abrupta,
para noroeste-sudeste, em sua de-
sembocadura. Essa mudança de di-
reção favorece a erosão do canal na
margem sul (lado paranaense).
Em períodos de clima mais es-
tável, o sentido predominante das
ondas é nordeste-sudoeste, mas du-
rante frentes frias a direção se in-
verte. Ao encontrar as ondas ge-
radas nessas ocasiões, os sedimentos
retirados da margem sul formam
bancos de areia perto da desem-
bocadura do canal. Quando as fren-
tes frias deixam de atuar, as ondas
erodem esses bancos, lançando se-
dimentos na margem paulista.
O aumento da ilha foi com-
provado, em detalhe, por meio da
análise de imagens obtidas por sa-
télites. As imagens revelam que nos
últimos 30 anos a linha da costa
mudou várias vezes. O crescimento
da Ilha do Cardoso para sudoeste fez
com que, nesse período, o litoral do
estado de São Paulo crescesse cerca
de 1 km, o que permite calcular
uma taxa anual média de 33 m.
O fenômeno que ocorre na ilha
do Cardoso pode acontecer em
qualquer lugar onde a linha da costa
é instável. Portanto, cuidado ao
adquirir um terreno à beira-mar.
Flavia Moraes Lins-de-Barros
UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO
O Jardim Botânico do Rio de
Janeiro completa 200 anos oficial-
mente em 2008 e há muitas razões,
além das comemorações, para vi-
sitá-lo. Ali é possível conhecer es-
pécies de plantas de todo o mundo,
apreciar o lago Frei Leandro, par-
ticipar de cursos ou estudar, já que
a instituição conta com diversos
laboratórios de pesquisa. Mas, se
hoje atividades tão diferentes con-
vivem bem nesse espaço, nem sem-
pre foi assim. A história dos pri-
meiros 100 anos desse jardim evi-
dencia uma constante busca de sua
função adequada e um permanente
conflito entre ciência e lazer.
Em 13 de maio de 1808, pouco
depois da chegada da família real
portuguesa ao Brasil, o príncipe
regente Dom João (1767-1826) or-
denou a fundação de uma fábrica de
pólvora no antigo engenho de açú-
car pertencente à família de Ro-
drigo de Freitas Mello e Castro.
Muitos historiadores associam a
criação do Jardim Botânico do Rio
de Janeiro a esse momento, embora
a primeira referência à instalação de
um jardim de aclimatação de plantas
no local tenha surgido meses de-
pois, quando João Gomes da Sil-
veira Mendonça (1771-1827), pri-
meiro diretor da fábrica e futuro
Marquês de Sabará, decidiu anexar
a esta um pequeno horto, que cha-
mou de Real Horto.
A ordem para a criação de um
jardim botânico só apareceu em
1811, quando um alvará determi-
nou a criação da Real Junta dos
Arsenais do Exército, Fábricas e
Fundições, cujo presidente deveria
também dirigir “(...) um jardim
botânico da cultura em grande de
plantas exóticas (...)". Acredita-se,
porém, que as primeiras espécies
exóticas foram plantadas no local
em 1809, quando o oficial por-
tuguês Luis de Abreu Vieira e Silva
deu ao príncipe regente plantas
roubadas do Jardim Real da Ilha da
França (atual ilha Maurício), entre
as quais estaria a palmeira imperial,
plantada no horto por Dom João.
Em 1818, quando Dom João foi
coroado rei de Brasil, Portugal e
Algarves, o agora denominado
Real Jardim Botânico foi anexado
ao Real Museu, local destinado ao
“estudo das ciências naturais” e em
1822 passou de fato a funcionar
como centro de convergência e
divulgação de espécies botânicas.
Frei Leandro do Santíssimo Sa-
cramento (1778-1829), professor
de botânica da Academia Médi-
co-Cirúrgica do Rio de Janeiro,
assumiu sua direção em 1824 em
um momento em que as viagens
exploratórias ganhavam papel im-
portante e o Brasil tornava-se des-
tino de naturalistas. O Real Jardim
Botânico logo se tornou um local
de estudos botânicos reconhecido
internacionalmente. As ações de
Frei Leandro marcaram esse início
da função científica do jardim, tor-
nando-o referência para viajantes e
para a cidade, pois apesar da di-
ficuldade de acesso, as visitas au-
mentaram, incentivando, em 1850,
o aparecimento de hotéis e res-
taurantes em seu entorno.
A estrutura interna e as funções
principais do Jardim Botânico fo-
ram mantidas até 1860, quando este
foi vinculado ao Imperial Instituto
Fluminense de Agricultura. O en-
genheiro militar Frederico Leopol-
do César Burlamaqui (1803-1866),
diretor do Instituto, propôs, entre
outras ações, a realização de ex-
periências com culturas novas,
úteis, por exemplos, às indústrias.
Assim, passaram a ter importância
central para o jardim os conhe-
cimentos ligados à agricultura, fato
que motivou muitas críticas.
A retomada da tradição
Em 1887, o Jardim Botânico foi
desvinculado do instituto de agri-
cultura. Pouco depois, João Bar-
bosa Rodrigues (1842-1909) foi
nomeado diretor. Autodidata e po-
lêmico, mas respeitado por seus
trabalhos em botânica e em outras
áreas, ele reorganizou a instituição e
restabeleceu o que considerava ser
seu caráter científico. Criou vi-
veiros e estufas, classificou as plantas
e organizou um museu e uma bi-
blioteca (hoje a Biblioteca Barbosa
Rodrigues). Quanto às visitas, Ro-
drigues fez reformas por meio de
um projeto que "moralizou o jar-
dim, suprimindo entrevistas e
pic-nics". Em sua gestão, o jardim
foi ampliado, atingindo área pró-
xima à atual, ganhou o traçado das
aléias ainda mantido, e o número de
árvores, que não passava de 500,
aumentou para mais de 3 mil.
O próprio Barbosa Rodrigues
define seu período na direção da
instituição como de retomada da
função plena de um jardim bo-
tânico. Enxergando uma distinção
entre ciência e lazer, jardim bo-
tânico e parque, ele escreveu, em
1908, uma amarga crítica ao estado
anterior do jardim, revelando preo-
cupação em recuperar seu papel
científico: “Plantas inteiramente
diferentes achavam-se reunidas, al-
gumas majestosas e gigantescas, ou-
tras formando moitas belíssimas, tu-
do, porém, em parque que o pú-
blico conhecia e admirava. Como
organizar assim um jardim me-
tódico e científico?
Hoje, o Jardim Botânico do Rio
de Janeiro abriga muitas atividades
distintas, mas a preocupação de Bar-
bosa Rodrigues ainda é tema de
debates. A noção de incompati-
bilidade entre jardim botânico e
parque de passeio e entre ciência e
lazer, presente nesses debates, re-
presenta um desafio histórico para
essa instituição.
DESCONTRAÇÃO – três crianças brincam sobre ponte no jardim
Leia mais na revista Ciência Hoje,
edição de janeiro/fevereiro
Arquivo JB
JORNAL DO BRASIL Domingo, 20 de janeiro de 2008
Convênio firmado entre o
Jornal do Brasil e o Instituto
Ciência Hoje apresenta todo
domingo textos baseados em
artigos publicados na revista
JB
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HISTÓRIA
Jardim Botânico: pesquisa e lazer
Primeiros anos da história da instituição revelam constante busca de sua função adequada
GEOGRAFIA
Uma ilha em crescimento
Imagens mostram alterações da ilha do Cardoso nos últimos 30 anos
Fernando Shinji Kawakubo
Rúbia Gomes Morato
Mônica Pavão
UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO
O Paraná está perdendo área, en-
quanto São Paulo está ganhando,
graças a um fenômeno interessante: o
crescimento de uma ilha decorrente
da erosão e deposição de sedimentos
arenosos provocados por correntes
marinhas. O fenômeno está ocor-
rendo na ilha do Cardoso. Parte dos
sedimentos que ondas e marés tiram
do litoral paranaense é depositada ao
sul dessa ilha, que vem aumentando
em média 33 metros por ano.
A ilha do Cardoso é separada da
ilha de Superagüi, no Paraná, pelo
canal de Ararapira. Estudos mos-
tram que, devido à erosão no lado
paranaense e ao crescimento da ilha
do Cardoso, a desembocadura do
canal de Ararapira sofreu um des-
locamento de 1,2 km entre 1953 e
1980. A direção principal do canal
de Ararapira é nordeste-sudoeste,
mas ocorre uma mudança abrupta,
para noroeste-sudeste, em sua de-
sembocadura. Essa mudança de di-
reção favorece a erosão do canal na
margem sul (lado paranaense).
Em períodos de clima mais es-
tável, o sentido predominante das
ondas é nordeste-sudoeste, mas du-
rante frentes frias a direção se in-
verte. Ao encontrar as ondas ge-
radas nessas ocasiões, os sedimentos
retirados da margem sul formam
bancos de areia perto da desem-
bocadura do canal. Quando as fren-
tes frias deixam de atuar, as ondas
erodem esses bancos, lançando se-
dimentos na margem paulista.
O aumento da ilha foi com-
provado, em detalhe, por meio da
análise de imagens obtidas por sa-
télites. As imagens revelam que nos
últimos 30 anos a linha da costa
mudou várias vezes. O crescimento
da Ilha do Cardoso para sudoeste fez
com que, nesse período, o litoral do
estado de São Paulo crescesse cerca
de 1 km, o que permite calcular
uma taxa anual média de 33 m.
O fenômeno que ocorre na ilha
do Cardoso pode acontecer em
qualquer lugar onde a linha da costa
é instável. Portanto, cuidado ao
adquirir um terreno à beira-mar.
Flavia Moraes Lins-de-Barros
UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO
O Jardim Botânico do Rio de
Janeiro completa 200 anos oficial-
mente em 2008 e há muitas razões,
além das comemorações, para vi-
sitá-lo. Ali é possível conhecer es-
pécies de plantas de todo o mundo,
apreciar o lago Frei Leandro, par-
ticipar de cursos ou estudar, já que
a instituição conta com diversos
laboratórios de pesquisa. Mas, se
hoje atividades tão diferentes con-
vivem bem nesse espaço, nem sem-
pre foi assim. A história dos pri-
meiros 100 anos desse jardim evi-
dencia uma constante busca de sua
função adequada e um permanente
conflito entre ciência e lazer.
Em 13 de maio de 1808, pouco
depois da chegada da família real
portuguesa ao Brasil, o príncipe
regente Dom João (1767-1826) or-
denou a fundação de uma fábrica de
pólvora no antigo engenho de açú-
car pertencente à família de Ro-
drigo de Freitas Mello e Castro.
Muitos historiadores associam a
criação do Jardim Botânico do Rio
de Janeiro a esse momento, embora
a primeira referência à instalação de
um jardim de aclimatação de plantas
no local tenha surgido meses de-
pois, quando João Gomes da Sil-
veira Mendonça (1771-1827), pri-
meiro diretor da fábrica e futuro
Marquês de Sabará, decidiu anexar
a esta um pequeno horto, que cha-
mou de Real Horto.
A ordem para a criação de um
jardim botânico só apareceu em
1811, quando um alvará determi-
nou a criação da Real Junta dos
Arsenais do Exército, Fábricas e
Fundições, cujo presidente deveria
também dirigir “(...) um jardim
botânico da cultura em grande de
plantas exóticas (...)". Acredita-se,
porém, que as primeiras espécies
exóticas foram plantadas no local
em 1809, quando o oficial por-
tuguês Luis de Abreu Vieira e Silva
deu ao príncipe regente plantas
roubadas do Jardim Real da Ilha da
França (atual ilha Maurício), entre
as quais estaria a palmeira imperial,
plantada no horto por Dom João.
Em 1818, quando Dom João foi
coroado rei de Brasil, Portugal e
Algarves, o agora denominado
Real Jardim Botânico foi anexado
ao Real Museu, local destinado ao
“estudo das ciências naturais” e em
1822 passou de fato a funcionar
como centro de convergência e
divulgação de espécies botânicas.
Frei Leandro do Santíssimo Sa-
cramento (1778-1829), professor
de botânica da Academia Médi-
co-Cirúrgica do Rio de Janeiro,
assumiu sua direção em 1824 em
um momento em que as viagens
exploratórias ganhavam papel im-
portante e o Brasil tornava-se des-
tino de naturalistas. O Real Jardim
Botânico logo se tornou um local
de estudos botânicos reconhecido
internacionalmente. As ações de
Frei Leandro marcaram esse início
da função científica do jardim, tor-
nando-o referência para viajantes e
para a cidade, pois apesar da di-
ficuldade de acesso, as visitas au-
mentaram, incentivando, em 1850,
o aparecimento de hotéis e res-
taurantes em seu entorno.
A estrutura interna e as funções
principais do Jardim Botânico fo-
ram mantidas até 1860, quando este
foi vinculado ao Imperial Instituto
Fluminense de Agricultura. O en-
genheiro militar Frederico Leopol-
do César Burlamaqui (1803-1866),
diretor do Instituto, propôs, entre
outras ações, a realização de ex-
periências com culturas novas,
úteis, por exemplos, às indústrias.
Assim, passaram a ter importância
central para o jardim os conhe-
cimentos ligados à agricultura, fato
que motivou muitas críticas.
A retomada da tradição
Em 1887, o Jardim Botânico foi
desvinculado do instituto de agri-
cultura. Pouco depois, João Bar-
bosa Rodrigues (1842-1909) foi
nomeado diretor. Autodidata e po-
lêmico, mas respeitado por seus
trabalhos em botânica e em outras
áreas, ele reorganizou a instituição e
restabeleceu o que considerava ser
seu caráter científico. Criou vi-
veiros e estufas, classificou as plantas
e organizou um museu e uma bi-
blioteca (hoje a Biblioteca Barbosa
Rodrigues). Quanto às visitas, Ro-
drigues fez reformas por meio de
um projeto que "moralizou o jar-
dim, suprimindo entrevistas e
pic-nics". Em sua gestão, o jardim
foi ampliado, atingindo área pró-
xima à atual, ganhou o traçado das
aléias ainda mantido, e o número de
árvores, que não passava de 500,
aumentou para mais de 3 mil.
O próprio Barbosa Rodrigues
define seu período na direção da
instituição como de retomada da
função plena de um jardim bo-
tânico. Enxergando uma distinção
entre ciência e lazer, jardim bo-
tânico e parque, ele escreveu, em
1908, uma amarga crítica ao estado
anterior do jardim, revelando preo-
cupação em recuperar seu papel
científico: “Plantas inteiramente
diferentes achavam-se reunidas, al-
gumas majestosas e gigantescas, ou-
tras formando moitas belíssimas, tu-
do, porém, em parque que o pú-
blico conhecia e admirava. Como
organizar assim um jardim me-
tódico e científico?
Hoje, o Jardim Botânico do Rio
de Janeiro abriga muitas atividades
distintas, mas a preocupação de Bar-
bosa Rodrigues ainda é tema de
debates. A noção de incompati-
bilidade entre jardim botânico e
parque de passeio e entre ciência e
lazer, presente nesses debates, re-
presenta um desafio histórico para
essa instituição.
DESCONTRAÇÃO – três crianças brincam sobre ponte no jardim
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