Abstract
Recebido em 26/4/05; aceito em 24/10/05; publicado na web em 6/7/06 JUSTUS VON LIEBIG, 1803-1873. PART ONE: LIFE,PERSONALITY, THINKING. This first of two papers allusive to the 200 th birthday of Justus von Liebig (1803-1873) deals with the origins, life, education, ideas and influence of one of the great 19 th century chemists. The principal characteristics of his "Giessen model of teaching research in chemistry" are presented, as well as the role played by many of his students in the evolution of chemical research in various countries. Liebig's strong personality, his controversies, his contribution to the chemical scene in Giessen and Munich are presented. Although few, the connections with Latin-American chemistry are focused. Keywords: Justus von Liebig; History of Chemistry; History of chemistry teaching. "Meu contato com a Natureza e suas leis induziu-me à convicção de que não deveríamos ter preocupações sobre a morte e sobre o futuro, pois tudo está ordenado de maneira tão infinitamente sábia, que o medo sobre o que será de nós após a morte não pode firmar-se no espírito do homem de ciências. Tudo foi provido, e o que será de nós será certamente o melhor".(Justus von Liebig) INTRODUÇÃO É consenso que na historiografia da Ciência como hoje prati-cada não mais cabem as hagiografias de personagens sem os quais a moderna Ciência não seria como a conhecemos. Mas está igual-mente fora de discussão que a Ciência é feita por pessoas: tem o cientista todas as virtudes e defeitos existentes também no comum dos mortais. Ainda, ninguém duvida que cientistas há que em fun-ção de seus conhecimentos e ações, temperamento, dinamismo, capacidade de liderança, por vezes favorecidos pelo contexto his-tórico-geográfico-social em que atuaram, e sem desprezar também uma certa dose de sorte, tiveram influência maior sobre seus con-temporâneos e seus pósteros que outros cientistas igualmente com-petentes, e que por essas felizes circunstâncias marcaram decisiva-mente sua Ciência em dada época, tanto com seus acertos como por seus erros. Na Química, Lavoisier foi o líder óbvio de seu tempo, e depois de sua morte a Química francesa encontrou seus líderes sucessiva-mente em Berthollet (1748-1822) e Gay-Lussac (1778-1850). No cenário químico europeu, as primeiras décadas do século XIX en-contram-se sob a indiscutível autoridade de Berzelius (1778-1848), e depois de seu ocaso, da de Jean Baptiste Dumas (1800-1884) e de Justus von Liebig (1803-1873). Os historiadores da Química alemães consideram Liebig o mais importante químico alemão da sua época, e incluem-no na trindade máxima dessa ciência em seu país no século XIX: Liebig, Wöhler, Bunsen. Os 200 anos do nascimento de Liebig, em maio de 2003, moti-varam o presente trabalho, que quer mostrar, no conjunto de sua assombrosa produção na pesquisa científica, algumas das pesqui-sas fundamentais para o surgimento da Química Orgânica, ao lado de pesquisas de cunho francamente tecnológico; mas que quer mostrar também o líder influente de uma ciência em formação (em-bora professor de qualidades até limitadas), o combativo defensor das idéias que professava, o temperamento explosivo mas de mão amiga, o divulgador da química, um literato na química: mostrar, enfim, o cientista e o homem, homem com suas grandezas e misé-rias: "no fundo uma existência fracassada", no dizer da historiado-ra E-M. Felschow 1 , da Universidade de Giessen, "uma existência salva pela paixão pela química", ciência que sem a grandeza de Liebig, sem sua "paixão" por ela não seria mais a mesma. Embora tantas e tantas biografias de Liebig tenham sido escritas, apesar dos registros autobiográficos, ainda não temos o verdadeiro retrato de Liebig, se possível for chegar a um retrato "verdadeiro", dado que a biografia se enquadra na História, e esta, apesar de ser ciên-cia, não pode perder seu aspecto de descrição e interpretação ao tratar dos dados objetivos de que dispõe. Por outro lado, as biogra-fias, seja na história da Ciência, seja na história em geral, servem, no entender de Ledermann 2 , como "modelos para estudos socioló-gicos", na análise das origens sociais e estruturas familiares, di-nastias, fenômenos migratórios, isto é, fornecem o pano de fundo diante do qual se desenvolve a Ciência. Assim, fica justificado por-que preocupar-se com aspectos biográficos dos cientistas. A ciência não é efetivamente produto de 'heróis' de mente pri-vilegiada; mas não sendo a ciência um produto, será um processo, e os cientistas que operam esse processo são homens como nós, cujas convicções e histórias intervêm no processo, e devem os ci-entistas, portanto, ser estudados no que se refere a influências so-fridas e exercidas, à evolução de suas idéias e metodologias, e as-sim por diante, sem esquecer o contexto histórico e social em que viveram e produziram. Por outro lado, também aquele que historia o faz influenciado pelo contexto histórico e social em que atua, tem sua metodologia historiográfica, suas convicções filosóficas e ideológicas, e tudo isso estará presente no produto de seu trabalho, e em função disso valorizará ou deixará de valorizar determinadas características do biografado, dará ênfase a algo que outro talvez desconsidere, ou desprezará fatos e posturas que outro considerará importantes. Muito se escreveu e se escreve sobre Liebig, e além de diversas referências específicas, nortearão o presente artigo principalmente dois
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Maar, J. H. (2006). Justus Von Liebig, 1803-1873. Parte 1: vida, personalidade, pensamento. Química Nova, 29(5), 1129–1137. https://doi.org/10.1590/s0100-40422006000500039
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