Abstract
A NOITE DE 27 de outubro de 1921, depois de sair de uma assembléia na Escola Politécnica de Moscou e ouvindo ainda as intervenções enfáticas sobre a incompatibilidade entre o socialismo e o doce veneno da família burguesa, Alexis Kremniov estava em casa, com um livro de Herzen entre as mãos quando, sufocado por um odor estranho, pôde observar que os ponteiros do reló-gio de seu apartamento giravam cada vez mais rapidamente. Levantou-se e, sem reconhecer o rumo que tomava, caiu numa poltrona de onde só veio acordar no dia seguinte, ao som de uma voz feminina, percebendo que se encontrava num cômodo totalmente desconhecido. Pela janela viu que era Moscou, mas tudo parecia com-pletamente mudado: faltavam prédios e em seus lugares estendiam-se imensos jar-dins, além de uma efervescência de automóveis e pessoas. Estremeceu diante da data do jornal: 5 de setembro de 1984. Kremniov tinha feito um salto de 63 anos. Uma carta encontrada sobre a escrivaninha do quarto permitiu que ele com-preendesse a razão pela qual era recebido por seus anfitriões com gentileza e solici-tude. Era tomado por um norte-americano, Mr. Charlie Man, que vinha conhecer as realizações técnicas que tiveram lugar no país desde que ocorreu a grande revo-lução camponesa a qual, na década de 30, pôs abaixo as imensas aglomerações urba-nas e suprimiu a distância e a separação entre cidade e campo. Obscurantismo generalizado? Retrocesso técnico? Ao contrário, o avanço revelado a Charlie Man por seus anfitriões russos (que não cessam de se espantar com seu sotaque moscovita tão perfeito e arcaico) é de tal ordem que até a meteorologia é controlada por meio de máquinas. Apesar disso, na agricultura pre-dominam não a atividade mecânica, mas o labor cuidadoso dos jardins. Da mesma forma, a República camponesa (que conserva seu caráter soviético, um regime de sovietes camponeses) não é a volta ao isolamento e à autarcia, mas, ao contrário, um lugar de profundo e fértil convívio social em que o traço dominante é o contato cotidiano da população com toda forma de arte.
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Abramovay, R. (1998). O admirável mundo novo de Alexander Chayanov. Estudos Avançados, 12(32), 69–74. https://doi.org/10.1590/s0103-40141998000100006
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