Abstract
M DOS MAIORES obstáculos à renovação das idéias sobre o desenvolvi-mento da sociedade brasileira é a força que adquiriu nas últimas décadas o mito de sua avassaladora urbanização. Repete-se que 81,2% da popu-lação era urbana em 2000, sem saber que essa proporção resulta de uma conta das mais tolas de que se tem notícia. O chamado "grau de urbanização" corresponde à porcentagem das pessoas que residem em sedes de municípios e de distritos, independentemente de qualquer consideração sobre suas características geográ-ficas. Por exemplo, de nada importa a densidade demográfica, um dos principais indicadores das concentrações populacionais próprias às cidades, que as distin-gue dos níveis de rarefação que caracterizam o campo. O disparate é de tal or-dem, que esse "grau de urbanização", inventado pelo Estado Novo, faz do Panta-nal a região mais urbanizada do país. Mais vale essa imagem do que mil palavras. Quem procurar conhecer os critérios de classificação territorial utilizados nas duas dezenas de nações mais democráticas e mais desenvolvidas do planeta, facilmente perceberá que menos de 60% da população brasileira pode ser consi-derada urbana. Entre os censos de 1991 e 2000, o peso relativo das pessoas que residiam em municípios indiscutivelmente urbanos aumentou de 54,6% para 56,8%. Enquanto isso, a participação dos habitantes de municípios essencialmente rurais caiu de 32,5% para 30,4%, e a dos relativamente rurais manteve-se praticamente estável, muito próxima de 13%. O mais interessante, todavia, é que em um quar-to dos municípios essencialmente rurais houve crescimento populacional bem superior ao dos urbanos. Nos 1109 municípios mais atraentes do Brasil rural, a população aumentou mais de 30%, enquanto ela crescia 20% no Brasil urbano, e 15% no conjunto do país. Esses dados trazem duas constatações que não deveriam ser tão ignoradas no debate público sobre o desenvolvimento da sociedade brasileira. Em primeiro lugar, que é pura ilusão encarar a população rural como uma minoria condenada à extinção por volta de 2030, como sugere a projeção do disparate estadonovista sobre o "grau de urbanização". Em segundo, que a cadência da migração rural-urbana da última década impede que se fale genericamente do "êxodo rural". O Brasil rural ainda não encontrou seu eixo de desenvolvimento JOSÉ ELI DA VEIGA U
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Veiga, J. E. da. (2001). O Brasil rural ainda não encontrou seu eixo de desenvolvimento. Estudos Avançados, 15(43), 101–119. https://doi.org/10.1590/s0103-40142001000300010
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