Abstract
Basta um olhar atenta ao redor para reconhecer a ação das ima-gens. Elas passeiam-plebéias[ mas altivas-por todas as cidades. Imagens simulam situações possíveis que são úteis para as realizações científicas. Nossa identidade depende do retrato na carteira que afinal nos certifica, autoriza e constrói. Além de muito mais. Para entendermos o que a imagem faz, é preciso ir além do que parece ser correspondência ponto-a-ponto e imitação realista e fidedigna. Representações remetem a representações, duplicando-se até se multiplicarem ao infinito, deixando os referentes[ os estados de coisa[ as atualidades, para trás. Esse é o itinerário da experiência social contemporânea: mesas de fórmica imitam madeira; o plástico oferece-se a qualquer forma: é o grau zero da matéria; fossilizamos andorinhas e pingüins em porcelana; corantes dão a refrigerantes a aparência mais que perfeita de uva ou larania. A duplicação obssessiva das imagens nos afasta dos referentes, purificando nossa experiên-cia até a alucinação. 'A imagem torna-se mais que real; a natureza é reduzida à aparên-cia da aparência. O objeto representado passa a ser um mero pretexto que procuramos esquecer. Obcecados pelo realismo, podemos discutir inutilmentea autencidade da imagem até que nossos discursos nos anestesiem. Assim, nos acostumamos à perda do referente. A realidade atual, física e concreta que nos chega aos sentidos passa a ser de uma irrealidade vertiginosa que temos difi-culdade em admitir. Só é real aquilo que for traduzido em imagens. Quando uma noiva entra numa igreja, a marcha nupcial não é encenada apenas para os convida
Cite
CITATION STYLE
Neiva, E. (1993). Imagem, história e semiótica. Anais Do Museu Paulista: História e Cultura Material, 1(1), 11–29. https://doi.org/10.1590/s0101-47141993000100002
Register to see more suggestions
Mendeley helps you to discover research relevant for your work.