O mundo artístico brasileiro esteve, durante grande parte do século XIX, pautado pela referên-cia à Academia Imperial de Belas Artes e ao siste-ma de valores artísticos por ela propagados. 1 Por muito tempo, a pintura histórica foi concebida como o mais importante gênero, impondo-se sobre aquelas faturas menores, como o retrato, a natureza-morta, a paisagem etc. Entre os artistas nacionais que se dedicaram ao gênero não há se-quer um nome feminino até 1922, ano emblemá-tico, ao menos segundo uma historiografia da arte modernista, da " crise " do academismo. 2 Somente então, num período de contestação direta da legi-timidade da Academia como instituição propaga-dora de valores para o campo das artes, é que uma mulher se realiza no gênero. Refiro-me à tela Sessão do Conselho de Estado (1922) (1) realizada por Georgina de Albuquerque. A primeira observação dessa obra é sur-preendente, pois ela contraria claramente determi-nadas expectativas que orientam a visão comum a respeito do que deve ser uma pintura histórica, sobre atributos específicos da autoria e sobre os motivos que melhor figuram um momento gran-dioso da história nacional. Georgina solucionou de forma singular a questão do tema, relativo à comemoração do centenário da Independência. Em vez de abordar um evento histórico triunfal, como uma cena de batalha, tal como o repertório acerca da pintura histórica nacional poderia lhe sugerir, apresentou um episódio diplomático den-tro de um gabinete oficial. Ainda mais destoante é a figura heróica aí representada: uma mulher! Após uma leitura breve da legenda explicativa sabe-se, afinal, quem é a personagem central
Mendeley helps you to discover research relevant for your work.
CITATION STYLE
Simioni, A. P. C. (2002). Entre convenções e discretas ousadias: Georgina de Albuquerque e a pintura histórica feminina no Brasil. Revista Brasileira de Ciências Sociais, 17(50). https://doi.org/10.1590/s0102-69092002000300009