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Diversidade das assembléias de peixes nas quatro unidades geográficas do rio Paraíba do Sul

by Tatiana P Teixeira, Benjamin C T Pinto, Bianca De Freitas Terra, Eduardo O Estiliano, Daniel Gracia, Francisco G Araújo
Terra (2005)

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Diversidade das assembléias de peixes nas quatro unidades geográficas do rio Paraíba do Sul

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Iheringia, Sér. Zool., Porto Alegre, 95(4):347-357, 30 de dezembro de 2005
Diversidade de assembléias de peixes nas quatro unidades geográficas do rio...
Diversidade das assembléias de peixes nas quatro unidades geográficas
do rio Paraíba do Sul
Tatiana P. Teixeira1,2, Benjamin C. T. Pinto1,3, Bianca de Freitas Terra1,2, Eduardo O. Estiliano1,4,
Daniel Gracia1 & Francisco G. Araújo1
ABSTRACT. Diversity of fish assemblages in the four geographic units of the Paraíba do Sul river. Diversity patterns of fish
assemblages along the four geographic units (upper, middle-upper, middle-lower and lower reaches) of the Paraíba do Sul river were studied
aiming to assess spatial (geographic units) and seasonal (wet/dry periods) variations. Twenty-five sites were sampled between December
2002 and March 2003 (summer/wet) and, August to November 2003 (winter/dry). Fish were caught by a standardized effort, using gill
nets, cast nets and mesh trays. A total of 81 species were recorded comprised in 9 orders, 29 families and 55 genera. Characiformes showed
the highest number of species (28) followed by Siluriformes (23). Perciformes, mainly Tilapia rendalli and Geophagus brasiliensis, and
Cyprinodontiformes, mainly Poecilia vivipara and Poecilia reticulata, were the most numerically abundant groups, while Siluriformes,
mainly Hypostomus luetkeni, and Perciformes, mainly Geophagus brasiliensis showed the highest biomass. Poecilia vivipara was
recorded only in dry period. Spatially, Hoplosternum littorale predominated in the middle-upper reaches, Pimelodus fur, Hypostomus
luetkeni, Glanidium albescens in the middle-lower, and Loricariichtys spixii and Prochilodus lineatus, in the lower reach. Number of
species and Margalef’s richness showed an increase from the upper to the lower river reaches, mainly during the wet period. Species widely
distributed along all over the river extent (G. brasiliensis, Oligosarcus hepsetus e P. reticulata) are opportunistic and can use the available
resources despite poor environmental conditions, reflecting the state alteration of the river. Differentiation on the physiography
throughout the longitudinal extent of the basin does not match shifts in fish assemblages, suggesting that factors associated to habitat
alterations could be structuring fish community at local scale.
KEYWORDS. Fish assemblages, spatial patterns, fish distribution, ichthyofauna, neotropical rivers.
1. Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, Laboratório de Ecologia de Peixes, IB/DBA, km 47, Antiga Rodovia Rio São Paulo,
23.851-970 Seropédica, RJ. (gerson@ufrrj.br)
2. Bolsista PIBIC/CNPq.
3. Programa de Pós-Graduação em Biologia Animal, Instituto de Biologia, Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro.
4. Programa de Pós-Graduação em Ciências Ambientais e Florestais, Instituto de Floresta, Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro.
89/04
PM - 4° Versão
RESUMO. Padrões na diversidade de peixes ao longo de quatro unidades geográficas (superior, médio-superior, médio-inferior e inferior)
no rio Paraíba do Sul foram estudados com a finalidade de avaliar tendências de variações espaciais (unidades geográficas) e temporais
(períodos de cheia e seca). Vinte e cinco locais foram amostrados entre Dezembro de 2002 e Março de 2003 (verão/cheia) e, entre Agosto
e Novembro de 2003 (inverno/seca). Os peixes foram capturados com um esforço padronizado, utilizando redes de espera, tarrafas e
peneiras. Um total de 81 espécies foram registradas compreendendo 9 ordens, 29 famílias e 55 gêneros. Characiformes apresentaram
maior número de espécies (28) seguido de Siluriformes (23). Perciformes, principalmente Tilapia rendalli e Geophagus brasiliensis, e
Cyprinodontiformes com destaque para Poecilia vivipara e Poecilia reticulata, foram os grupos numericamente mais abundantes,
enquanto Siluriformes, principalmente Hypostomus luetkeni, e Perciformes com Geophagus brasiliensis apresentaram maior contribuição
em biomassa. Poecilia vivipara foi encontrada apenas no período de seca. Espacialmente, Hoplosternum littorale predominou no trecho
médio-superior, Pimelodus fur, Hypostomus luetkeni, Glanidium albescens no trecho médio-inferior, e Loricariichtys spixii e Prochilodus
lineatus no trecho inferior. O número de espécies e a riqueza de Margalef apresentaram um aumento do trecho superior para o inferior,
principalmente durante o período de cheia. Espécies que apresentaram ampla distribuição ao longo do rio (G. brasiliensis, Oligosarcus
hepsetus e P. reticulata) são consideradas oportunistas por se aproveitarem dos recursos disponíveis em ambientes pobres, refletindo o
estado de alterações do rio. Diferenciações na fisiografia ao longo da extensão longitudinal da bacia não coincidiram com mudanças nas
assembléias de peixes, sugerindo que fatores associados a alterações de hábitats poderiam estar estruturando a comunidade de peixes a nível
local.
PALAVRAS-CHAVE. Assembléias de peixes, padrões espaciais, distribuição de peixes, ictiofauna, rios neotropicais.
O rio Paraíba do Sul é um dos mais utilizados
sistemas lóticos do Brasil, por situar-se entre os maiores
centros urbano-industriais do país, e tem sofrido
alterações de origem antrópica ao longo dos últimos
quatro séculos. A intensa urbanização e industrialização
são os maiores causadores dos efeitos negativos na
qualidade da água e dos hábitats, onde a precariedade
do saneamento básico (esgotamento sanitário e resíduos
sólidos), o uso de efluentes para escoamento de resíduos
industriais, o desmatamento da vegetação ripariana e o
uso indiscriminado de insumos agrícolas resultam na
baixa qualidade da água (AMORIN et al., 1983). A
determinação da biodiversidade, especialmente das
assembléias de peixes e dos seus padrões de variação
espaciais e temporais, é de grande relevância para avaliar
a qualidade ambiental, uma vez que os peixes ocupam
variadas posições na teia trófica. O monitoramento
biológico da ictiofauna em rios também é essencial para
identificar as respostas do ambiente aos impactos
causados pela ação antrópica, além de fornecer subsídios
para regulamentação dos usos dos recursos hídricos,
possibilitando o desenvolvimento de alternativas para
minimizar a degradação dos rios.
Os hábitats de um rio desempenham importante
papel na integridade ecológica, com os peixes utilizando
as dimensões espaciais e temporais do nicho de várias
maneiras. Algumas espécies são altamente dependentes
da integridade dos hábitats, pois são residentes com todo
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TEIXEIRA et al.
o ciclo de vida ocorrendo em uma área limitada,
apresentando movimentos restritos para desova e
alimentação; outras espécies são migratórias e utilizam
diferentes partes do curso do rio durante o ciclo de vida
(FREIRE & AGOSTINHO, 2000). Algumas espécies ocorrem
principalmente no canal principal e outras são adaptadas
aos pequenos tributários. Neste trabalho procurou-se
abordar a distribuição espacial e temporal das espécies
que ocupam o canal principal e os maiores tributários do
rio Paraíba do Sul.
É esperado que a comunidade de peixes se
modifique conforme os trechos do rio, como resultado
dos processos evolutivos e históricos de adaptações
peculiares de cada espécie, modulados por influências
ambientais, condições de hábitats e alteradas por
influências de origem antrópica (MARTIN-SMITH, 1998;
MEADOR & GOLDESTEIN, 2003). De acordo com a teoria do
Rio Contínuo (VANNOTE et al., 1980), as variáveis físicas
de um rio natural apresentam gradiente contínuo de
montante para jusante, com as comunidades biológicas
se ajustando, através da substituição de espécies, no
sentido de usar com maior eficiência a energia. Trechos
de rios cujo contenuo longitudinal é artificialmente
fragmentado, mas que são ricos em estruturas físicas,
podem suportar populações viáveis por fornecerem
suficiente alimento e áreas de reprodução (JUNGWIRTH et
al., 2000). Alterações dos hábitats, tais como, canalização
das margens, destruição da vegetação ripária ou
barramentos, além de introduções de espécies não-nativas
e a deterioração da qualidade da água, exercem uma
profunda e negativa influência no ecossistema, podendo
causar variações na distribuição espaço-temporal na
comunidade de peixes (WAITE & CARPENTER, 2000). Tais
modificações precisam, portanto, ser avaliadas e
monitoradas, diagnosticando os possíveis padrões
estruturadores destas assembléias.
A variação sazonal no nível de fluxo da água é outro
fator estruturador das comunidades de peixe dos rios
(WOOTTON, 1992). Nos trechos de planícies de
inundações, a diversidade e densidade de peixes são
determinadas pelo regime de fluxos; a inundação aumenta
a homogeneização das características limnológicas do
ambiente (THOMAZ et al., 1997) e os ambientes passam a
responder aos fatores regionais independentemente,
aumentando a heterogeneidade da fauna na medida que
os microhábitats são isolados no período de seca.
O presente trabalho teve por objetivo descrever os
padrões espaço-temporais da diversidade da ictiofauna do
rio Paraíba do Sul ao longo das quatro unidades geográficas
do trecho longitudinal e dos períodos cheia/seca.
MATERIAL E MÉTODOS
A bacia do rio Paraíba do Sul encontra–se
compreendida entre os paralelos 20º26’ e 23º38’ sul e os
meridianos 41º00’ e 46º30’ oeste. Ao norte seu divisor de
águas se faz entre os rios Grande (bacia do Paraná) e
Doce (sistema do leste brasileiro) por intermédio da Serra
da Mantiqueira; ao Sul, a Serra do Mar separa esta bacia
de diversos pequenos rios que fluem diretamente para o
Oceano Atlântico.
Quatro unidades geográficas foram definidas por
Ab’Saber & Bernardes (1958) apud BIZERRIL (1999) para
o rio Paraíba do Sul, com base em características
topográficas e ambientais: trecho superior, médio-
superior, médio-inferior e inferior. O trecho superior, por
situar-se em região de maior altitude, onde não se inserem
grandes centros urbanos ou industriais, é
conseqüentemente, o menos alterado. Os trechos mais à
jusante, todos drenam áreas onde estão inseridos grandes
centros urbano-industriais, como é o caso do trecho
médio superior, onde se localiza o vale Paulista do Paraíba,
destacando-se os municípios de São José dos Campos,
Taubaté e Cachoeira Paulista; o trecho médio-inferior, com
o complexo industrial de Resende a Volta Redonda, e o
trecho inferior, com destaque para monocultura de cana-
de-açúcar e indústrias associadas se destacam com
atividades de grande importância.
Os maiores fluxos correspondem ao período do
verão (chuvoso) e os menores ao inverno (seco). O
período chuvoso apresenta certa regularidade, iniciando-
se geralmente em novembro e prolongando-se até o início
de outono. Os máximos ocorrem em janeiro e,
ocasionalmente, em março. Em um dos locais amostrados
no trecho médio-inferior (Piraí) os valores históricos de
pluviosidade encontrados no verão e inverno foram de
599 mm e 151 mm respectivamente (BARBIERE &
KRONEMBERG, 1994). No verão, as maiores pluviosidades
carreiam para o rio maior quantidade de material alóctone,
aumentando a disponibilidade de alimento; em áreas de
intensa atividade humana, perturbações podem ser
causadas por picos de pluviosidade, devido ao aumento
do material em suspensão.
Foi estudada toda a extensão do rio Paraíba do Sul,
desde as nascentes formadas pela confluência dos rios
Paraitinga e Paraibuna na serra da Bocaina no Estado de
São Paulo, até as proximidades do estuário, no município
de São João da Barra no norte do Estado do Rio de
Janeiro. Um total de 25 locais foi amostrado (Fig. 1; Tab.
I), sendo 23 deles no período de cheia, e 18 no período de
seca, compreendendo além do canal principal do rio
Paraíba do Sul, os dois formadores deste rio (Rios
Paraibuna e rio Paraitinga) e os tributários de grande
porte: Paraibuna (de Minas Gerais), Preto, Piabanha,
Pomba, Muriaé e Grande. O número de amostras variou
entre os trechos devido às diferentes extensões dos
mesmos e limitações de acessibilidade a locais que
permitissem a utilização de um esforço padronizado. Foram
investigados os dois períodos de maior diferenciação na
pluviosidade e, por conseqüência, do fluxo da água:
período chuvoso, entre novembro de 2002 e março de
2003; e período de seca, entre agosto e novembro de
2003. A maioria dos locais foi amostrada em ambos os
períodos, outros locais foram substituídos e eliminados
por dificultarem a padronização do esforço amostral.
O gradiente espacial foi avaliado através de
amostragens em locais distribuídos ao longo do trecho
longitudinal do rio, tendo-se utilizado as unidades
geográficas estabelecidas por Ab’Saber & Bernardes
(1958) apud BIZERRIL (1999): 1) trecho superior (locais 1 a
5), com 280 km a partir da nascente, limitado à jusante
pela cidade de Guararema; 2) trecho médio-superior (locais

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