Grammaticalization/discoursivization of lexical items from verbal origin: functions and forms in competition
Estudos Linguísticos (2002)
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Abstract
Based on both the notion of continuum of semantic and categorial change and language variation, the group analyses in corpus from VARSUL the multifunctionality of some discoursive items and proposes to treat them as linguistic variants.
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Grammaticalization/discoursivization of lexical items from verbal origin: functions and forms in competition
GRAMATICALIZAÇÃO/DISCURSIVIZAÇÃO DE ITENS DE BASE VERBAL: FUNÇÕES E FORMAS
CONCORRENTES
(GRAMMATICALIZATION/DISCOURSIVIZATION OF LEXICAL ITEMS FROM VERBAL ORIGIN:
FUNCTIONS AND FORMS IN COMPETITION)
Edair Maria GORSKI (Universidade Federal de Santa Catarina)
Adriana GIBBON (PG - Universidade Federal de Santa Catarina)
Carla VALLE (PG - Universidade Federal de Santa Catarina)
Cláudia ROST (PG - Universidade Federal de Santa Catarina)
Diane DAL MAGO (PG - Universidade Federal de Santa Catarina)
Raquel Meister Ko. FREITAG (PG - Universidade Federal de Santa Catarina)
ABSTRACT: Based on both the notion of continuum of semantic and categorial change and language variation, th
group analyses in corpus from VARSUL the multifunctionality of some discoursive items and proposes to treat them a
linguistic variants.
KEYWORDS: change; grammaticalization; continuum; variation; discourse marker.
0. Introdução
Gramaticalização/discursivização de formas de base verbal: funções e formas concorrentes é um projeto
integrado que analisa amostras sincrônicas do Banco de Dados VARSUL[1], privilegiando a interface sintaxe/discurso.
É comum a todos os subprojetos: a) o estudo de elementos lingüísticos de base verbal com traços de cognição/
percepção/ enunciação que, em sua trajetória de mudança, sofrem alteração em sua configuração gramatical associada a
mudanças semânticas, o que se reflete num continuum multifuncional; b) uma abordagem apoiada nos paradigmas da
gramaticalização/ discursivização e da variação lingüística, considerando tanto a trajetória de uma mesma forma por
diferentes funções, como a utilização de mais de uma forma para a mesma função.
Os itens analisados têm sido identificados na literatura como ‘marcadores discursivos’ (MDs) ou ‘marcadores
conversacionais’, entendidos como elementos que “amarram o texto não só enquanto estrutura verbal cognitiva, mas
também como estrutura de interação interpessoal” (Urbano, 1997:85). As autoras propõem o recorte de regras variáveis
tomando como variantes as formas dos seguintes conjuntos[2]: a) entende? ~ sabe? ~ não tem?: requisitos de apoio
discursivo (Carla Valle); b) olhe ~ veja: chamadas de atenção do ouvinte (Cláudia Rost); c) quer dizer ~ vamos dizer:
reformuladores (Diane Dal Mago e Adriana Gibbon); d) acho ~ parece: modalizadores epistêmicos (Raquel Ko. Freitag).
Em todos os subprojetos foi possível isolar uma propriedade caracterizadora dos elementos sob análise, de caráter mais
interpessoal, e depreender funções a ela relacionadas, determinadas por pressões contextuais (cf. Risso, 1999). Como as
pesquisas encontram-se ainda em curso, não são apresentados resultados conclusivos.
1. Enquadre teórico
As investigações baseiam-se no funcionalismo lingüístico, que concebe a gramática como maleável, emergente,
motivada pela situação comunicativa e pela função cognitiva (Givón, 1995). Nesse contexto têm lugar a gramaticalização
e a discursivização (pós-gramaticalização para alguns) como dois processos especiais de mudança. No primeiro caso,
itens lexicais e construções sintáticas passam a assumir, no curso do tempo, um novo estatuto como elemento gramatical,
tendendo a se tornar mais regular e previsível (cf. Hopper & Traugott, 1993; entre outros). No segundo caso, os
elementos assumem função de marcadores discursivos, relacionada ao processamento do discurso e à interação entre os
interlocutores, ou de pontuantes (cf. Vincent et al., 1993; Martelotta et al., 1996).
Numa direção oposta, considerando que nos estágios iniciais de gramaticalização pode ocorrer fortalecimento
pragmático[3], Traugott (1995) propõe que os marcadores discursivos podem ser adequadamente recobertos pelo
paradigma da gramaticalização, definindo esta como “o processo pelo qual um item lexical, impulsionado por um certo
contexto pragmático e morfossintático, torna-se gramatical” (p. 01). A autora, portanto, descarta a necessidade de se lidar
com dois processos distintos de mudança. A pertinência de se considerar um ou dois processos de mudança para recobrir
os itens de base verbal em estudo é uma das indagações dos membros integrantes do GT, cuja resposta está atrelada ao
término das respectivas análises.
As pesquisas seguem também os postulados de Weinreich, Labov & Herzog (1968), que propõem um modelo
de linguagem que acomoda os fatos de uso variável e seus determinantes sociais e estilísticos, rompendo com a
identificação estrutura = homogeneidade. Para um fenômeno ser considerado variável, há dois requisitos: manutenção do
significado e possibilidade de ocorrência num mesmo contexto (Labov, 1978). Tomando-se a noção de ‘mesmo
significado’ como ‘mesmo valor de verdade’/ ‘mesmo significado referencial’, é possível que fenômenos discursivos
sejam considerados como regra variável. A respeito da variação e funcionalidade, vale lembrar a observação de Naro
(1998) de que é possível estudar fenômenos variáveis cujas variantes envolvem diferenças de sentido, desde que se
controle este fator como qualquer outro fator relevante.
Ao adquirir um novo estatuto gramatical, uma forma pode ocupar o lugar de outra no desempenho de uma
CONCORRENTES
(GRAMMATICALIZATION/DISCOURSIVIZATION OF LEXICAL ITEMS FROM VERBAL ORIGIN:
FUNCTIONS AND FORMS IN COMPETITION)
Edair Maria GORSKI (Universidade Federal de Santa Catarina)
Adriana GIBBON (PG - Universidade Federal de Santa Catarina)
Carla VALLE (PG - Universidade Federal de Santa Catarina)
Cláudia ROST (PG - Universidade Federal de Santa Catarina)
Diane DAL MAGO (PG - Universidade Federal de Santa Catarina)
Raquel Meister Ko. FREITAG (PG - Universidade Federal de Santa Catarina)
ABSTRACT: Based on both the notion of continuum of semantic and categorial change and language variation, th
group analyses in corpus from VARSUL the multifunctionality of some discoursive items and proposes to treat them a
linguistic variants.
KEYWORDS: change; grammaticalization; continuum; variation; discourse marker.
0. Introdução
Gramaticalização/discursivização de formas de base verbal: funções e formas concorrentes é um projeto
integrado que analisa amostras sincrônicas do Banco de Dados VARSUL[1], privilegiando a interface sintaxe/discurso.
É comum a todos os subprojetos: a) o estudo de elementos lingüísticos de base verbal com traços de cognição/
percepção/ enunciação que, em sua trajetória de mudança, sofrem alteração em sua configuração gramatical associada a
mudanças semânticas, o que se reflete num continuum multifuncional; b) uma abordagem apoiada nos paradigmas da
gramaticalização/ discursivização e da variação lingüística, considerando tanto a trajetória de uma mesma forma por
diferentes funções, como a utilização de mais de uma forma para a mesma função.
Os itens analisados têm sido identificados na literatura como ‘marcadores discursivos’ (MDs) ou ‘marcadores
conversacionais’, entendidos como elementos que “amarram o texto não só enquanto estrutura verbal cognitiva, mas
também como estrutura de interação interpessoal” (Urbano, 1997:85). As autoras propõem o recorte de regras variáveis
tomando como variantes as formas dos seguintes conjuntos[2]: a) entende? ~ sabe? ~ não tem?: requisitos de apoio
discursivo (Carla Valle); b) olhe ~ veja: chamadas de atenção do ouvinte (Cláudia Rost); c) quer dizer ~ vamos dizer:
reformuladores (Diane Dal Mago e Adriana Gibbon); d) acho ~ parece: modalizadores epistêmicos (Raquel Ko. Freitag).
Em todos os subprojetos foi possível isolar uma propriedade caracterizadora dos elementos sob análise, de caráter mais
interpessoal, e depreender funções a ela relacionadas, determinadas por pressões contextuais (cf. Risso, 1999). Como as
pesquisas encontram-se ainda em curso, não são apresentados resultados conclusivos.
1. Enquadre teórico
As investigações baseiam-se no funcionalismo lingüístico, que concebe a gramática como maleável, emergente,
motivada pela situação comunicativa e pela função cognitiva (Givón, 1995). Nesse contexto têm lugar a gramaticalização
e a discursivização (pós-gramaticalização para alguns) como dois processos especiais de mudança. No primeiro caso,
itens lexicais e construções sintáticas passam a assumir, no curso do tempo, um novo estatuto como elemento gramatical,
tendendo a se tornar mais regular e previsível (cf. Hopper & Traugott, 1993; entre outros). No segundo caso, os
elementos assumem função de marcadores discursivos, relacionada ao processamento do discurso e à interação entre os
interlocutores, ou de pontuantes (cf. Vincent et al., 1993; Martelotta et al., 1996).
Numa direção oposta, considerando que nos estágios iniciais de gramaticalização pode ocorrer fortalecimento
pragmático[3], Traugott (1995) propõe que os marcadores discursivos podem ser adequadamente recobertos pelo
paradigma da gramaticalização, definindo esta como “o processo pelo qual um item lexical, impulsionado por um certo
contexto pragmático e morfossintático, torna-se gramatical” (p. 01). A autora, portanto, descarta a necessidade de se lidar
com dois processos distintos de mudança. A pertinência de se considerar um ou dois processos de mudança para recobrir
os itens de base verbal em estudo é uma das indagações dos membros integrantes do GT, cuja resposta está atrelada ao
término das respectivas análises.
As pesquisas seguem também os postulados de Weinreich, Labov & Herzog (1968), que propõem um modelo
de linguagem que acomoda os fatos de uso variável e seus determinantes sociais e estilísticos, rompendo com a
identificação estrutura = homogeneidade. Para um fenômeno ser considerado variável, há dois requisitos: manutenção do
significado e possibilidade de ocorrência num mesmo contexto (Labov, 1978). Tomando-se a noção de ‘mesmo
significado’ como ‘mesmo valor de verdade’/ ‘mesmo significado referencial’, é possível que fenômenos discursivos
sejam considerados como regra variável. A respeito da variação e funcionalidade, vale lembrar a observação de Naro
(1998) de que é possível estudar fenômenos variáveis cujas variantes envolvem diferenças de sentido, desde que se
controle este fator como qualquer outro fator relevante.
Ao adquirir um novo estatuto gramatical, uma forma pode ocupar o lugar de outra no desempenho de uma
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função lingüística, caracterizando um processo de mudança, ou pode coexistir com outra(s) forma(s), caracterizando um
processo de variação. O fenômeno está, de certo modo, previsto em um dos princípios da gramaticalização - o da
estratificação: "Dentro de um domínio funcional amplo, novas camadas estão continuamente emergindo. Quando isso
acontece, as camadas antigas não são necessariamente descartadas, mas podem permanecer coexistindo e interagindo
com as novas camadas" (Hopper, 1991:22). Esse é o ponto de contato entre a gramaticalização e a variação.
2. Sabe? ~ entende?[4] ~ não tem? – recorte da regra variável
Os itens sabe? entende? e não tem? compartilham funções e contextos. Os significados veiculados pelos seus
verbos de origem (saber, entender, ter) têm se expandido desde o latim, passando, em português, a desenvolver também
significados ligados a conhecimento, compreensão e existência, respectivamente. Inseridos em início de construções
plenamente interrogativas, incorporam traços pragmáticos de interpessoalidade, relacionados a atos de fala diretos. Esses
elementos passam por trajetória de mudança semelhante: deslocam-se para outras posições na frase, fixam sua forma e
assumem funções mais pragmáticas relacionadas com a interação falante/ ouvinte e com a organização textual.
Ao voltarem-se para o texto, os itens atuam em dois níveis, não excludentes mas superpostos: a) de fora para
dentro do texto, focalizam elementos variados (como participantes, opiniões do falante, situações etc), por razões
diversas (ativar algo na memória do ouvinte, pedir a concordância dele ou sua compreensão acerca do que foi dito ou,
ainda, apenas para testar o canal comunicativo); e b) entre as partes do texto, acabam assumindo, em virtude do tipo de
contexto em que se encontram, a função de assinalar relações textuais (especificação, explicação, conclusão, finalidade
etc). Identificam-se, assim, dois tipos de função: uma de focalização, outra relacional. Apesar dessa multifuncionalidade,
paira sobre todos os itens a propriedade de requisito de apoio discursivo, o que nos permite tratá-los como formas
concorrentes dentro de um mesmo domínio. Observem-se os exemplos onde as três palavras em destaque podem ser
intercambiáveis:
(01) Foi como eu te falei no começo da entrevista, eu não gosto de pessoas, sabes? que ficam na solidão (FLP-
J 04, L1171)
(02) Aí também nós fizemos lá uns:: uns trabalhos assim que:: de comida, não tem? Aí um amigo meu levou
um, o tang para o colégio.(FLP-J 14, L145)
(03) ...... não era aquilo também, entendeu? pra mim era outra coisa, pra mim eu queria fazer outra coisa além
daquilo. *Estava meio confuso também na época... (FLP-J 01, L279)
Não se descarta a hipótese de que dado item se especialize em determinado contexto relacional, o que não está
em desacordo com as perspectivas teóricas assumidas. Eventuais especializações, bem como a caracterização dos
contextos de uso das formas e funções, podem ser controladas através de variáveis independentes, tais como: atuação
como elemento de focalização, relação textual que assinala, escopo, status informacional, posição estrutural.
3. Olha ~ veja: multifuncionalidade e variação
Os itens olha e veja[5] têm em comum a propriedade de chamar a atenção do ouvinte, uma vez que ocorrem
numa dada situação dialógica, caracterizada inicialmente como um ato de fala de natureza imperativa. A partir desse us
mais específico, tais itens expandem seu sentido de base e passam a expressar outras significações, podendo sinaliza
diferentes atitudes do falante, como: atenuação, avaliação, advertência, tentativa simultânea da manutenção do contato
de tempo para a organização textual, entre outras. Tal movimento mostra um desbotamento semântico do caráte
imperativo e do matiz de percepção visual e um ganho de valor pragmático-discursivo, preservando-se, entretanto,
propriedade de chamar a atenção do interlocutor, que se volta, agora, para algo do texto.
Uma análise do funcionamento dos itens olha e veja, a partir da observação de traços mais salientes encontrados
no contexto discursivo, permitiu identificar duas funções mais amplas, macrofunções que recobrem funções específicas:
a) macrofunção articuladora interacional (voltada para as atitudes do falante em relação ao texto que ele está
produzindo, tendo em vista o interlocutor) – reunindo as funções: atenuadora, avaliativa, interjetiva, prefaciadora, de
planejamento e retórica; b) macrofunção articuladora textual (voltada para a seqüenciação do texto, assinalando relações
textuais de caráter coesivo) – agrupando as funções: exemplificativa, adversativa, finalizadora e reintrodutora. Espera-se
que a definição criteriosa das funções permita delinear uma trajetória de abstratização dos itens olha e veja, com funções
dispostas e interligadas ao longo de um continuum que vai desde uma situação interativa de maior envolvimento entre
falante/ouvinte até uma situação de chamada da atenção do interlocutor para determinados elementos dentro do texto.
Uma vez identificadas as macrofunções, há dois caminhos para o recorte da regra variável: a) isolar cada uma
das macrofunções como domínio de uma regra variável; ou b) tratar a propriedade geral como condição suficiente para o
recorte da regra variável. Em qualquer um dos casos, as funções (atenuadora, finalizadora etc.) são controladas como
uma variável independente, cujos resultados podem apontar para especialização de certos usos. Vejam-se os exemplos
em que os itens destacados aparecem com valor de atenuação:
(04) E: Eu queria saber mais uma coisa, tu gostas de cozinhar?
F: Olha, não é meu forte. Não sou muito chegada na cozinha, mas dá pra quebrar um galhinho. Mas eu
processo de variação. O fenômeno está, de certo modo, previsto em um dos princípios da gramaticalização - o da
estratificação: "Dentro de um domínio funcional amplo, novas camadas estão continuamente emergindo. Quando isso
acontece, as camadas antigas não são necessariamente descartadas, mas podem permanecer coexistindo e interagindo
com as novas camadas" (Hopper, 1991:22). Esse é o ponto de contato entre a gramaticalização e a variação.
2. Sabe? ~ entende?[4] ~ não tem? – recorte da regra variável
Os itens sabe? entende? e não tem? compartilham funções e contextos. Os significados veiculados pelos seus
verbos de origem (saber, entender, ter) têm se expandido desde o latim, passando, em português, a desenvolver também
significados ligados a conhecimento, compreensão e existência, respectivamente. Inseridos em início de construções
plenamente interrogativas, incorporam traços pragmáticos de interpessoalidade, relacionados a atos de fala diretos. Esses
elementos passam por trajetória de mudança semelhante: deslocam-se para outras posições na frase, fixam sua forma e
assumem funções mais pragmáticas relacionadas com a interação falante/ ouvinte e com a organização textual.
Ao voltarem-se para o texto, os itens atuam em dois níveis, não excludentes mas superpostos: a) de fora para
dentro do texto, focalizam elementos variados (como participantes, opiniões do falante, situações etc), por razões
diversas (ativar algo na memória do ouvinte, pedir a concordância dele ou sua compreensão acerca do que foi dito ou,
ainda, apenas para testar o canal comunicativo); e b) entre as partes do texto, acabam assumindo, em virtude do tipo de
contexto em que se encontram, a função de assinalar relações textuais (especificação, explicação, conclusão, finalidade
etc). Identificam-se, assim, dois tipos de função: uma de focalização, outra relacional. Apesar dessa multifuncionalidade,
paira sobre todos os itens a propriedade de requisito de apoio discursivo, o que nos permite tratá-los como formas
concorrentes dentro de um mesmo domínio. Observem-se os exemplos onde as três palavras em destaque podem ser
intercambiáveis:
(01) Foi como eu te falei no começo da entrevista, eu não gosto de pessoas, sabes? que ficam na solidão (FLP-
J 04, L1171)
(02) Aí também nós fizemos lá uns:: uns trabalhos assim que:: de comida, não tem? Aí um amigo meu levou
um, o tang para o colégio.(FLP-J 14, L145)
(03) ...... não era aquilo também, entendeu? pra mim era outra coisa, pra mim eu queria fazer outra coisa além
daquilo. *Estava meio confuso também na época... (FLP-J 01, L279)
Não se descarta a hipótese de que dado item se especialize em determinado contexto relacional, o que não está
em desacordo com as perspectivas teóricas assumidas. Eventuais especializações, bem como a caracterização dos
contextos de uso das formas e funções, podem ser controladas através de variáveis independentes, tais como: atuação
como elemento de focalização, relação textual que assinala, escopo, status informacional, posição estrutural.
3. Olha ~ veja: multifuncionalidade e variação
Os itens olha e veja[5] têm em comum a propriedade de chamar a atenção do ouvinte, uma vez que ocorrem
numa dada situação dialógica, caracterizada inicialmente como um ato de fala de natureza imperativa. A partir desse us
mais específico, tais itens expandem seu sentido de base e passam a expressar outras significações, podendo sinaliza
diferentes atitudes do falante, como: atenuação, avaliação, advertência, tentativa simultânea da manutenção do contato
de tempo para a organização textual, entre outras. Tal movimento mostra um desbotamento semântico do caráte
imperativo e do matiz de percepção visual e um ganho de valor pragmático-discursivo, preservando-se, entretanto,
propriedade de chamar a atenção do interlocutor, que se volta, agora, para algo do texto.
Uma análise do funcionamento dos itens olha e veja, a partir da observação de traços mais salientes encontrados
no contexto discursivo, permitiu identificar duas funções mais amplas, macrofunções que recobrem funções específicas:
a) macrofunção articuladora interacional (voltada para as atitudes do falante em relação ao texto que ele está
produzindo, tendo em vista o interlocutor) – reunindo as funções: atenuadora, avaliativa, interjetiva, prefaciadora, de
planejamento e retórica; b) macrofunção articuladora textual (voltada para a seqüenciação do texto, assinalando relações
textuais de caráter coesivo) – agrupando as funções: exemplificativa, adversativa, finalizadora e reintrodutora. Espera-se
que a definição criteriosa das funções permita delinear uma trajetória de abstratização dos itens olha e veja, com funções
dispostas e interligadas ao longo de um continuum que vai desde uma situação interativa de maior envolvimento entre
falante/ouvinte até uma situação de chamada da atenção do interlocutor para determinados elementos dentro do texto.
Uma vez identificadas as macrofunções, há dois caminhos para o recorte da regra variável: a) isolar cada uma
das macrofunções como domínio de uma regra variável; ou b) tratar a propriedade geral como condição suficiente para o
recorte da regra variável. Em qualquer um dos casos, as funções (atenuadora, finalizadora etc.) são controladas como
uma variável independente, cujos resultados podem apontar para especialização de certos usos. Vejam-se os exemplos
em que os itens destacados aparecem com valor de atenuação:
(04) E: Eu queria saber mais uma coisa, tu gostas de cozinhar?
F: Olha, não é meu forte. Não sou muito chegada na cozinha, mas dá pra quebrar um galhinho. Mas eu
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tenho duas receitinhas bem legais. (FLP 01, L224)
(05)F: Aquele tempo que eu era solteira ainda acho que nem tinha esse operário aí.
E: Não tinha ainda? Claro que tinha porque meu pai acho que é mais velho que você.
F: Não, que veja bem, eu casei com dezoito anos. Então estou com trinta e nove, vou fazer quarenta casei
novinha. Acho que nem tinha, nem existia acho. Sei lá. (CTB 08, L168)
4. Quer dizer ~ vamos dizer: funções e contextos de variação
A expressão quer dizer inicia um processo de gramaticalização a partir do momento em que querer e dizer
perdem suas características de verbos plenos e agregam-se: primeiramente querer funciona como modal, e depois como
auxiliar, ao se juntar exclusivamente a dizer, formando então a locução verbal quer dizer (= significa). Os traços verbais
de origem destes itens, tanto semânticos como categoriais, tornam-se ainda menos transparentes quando, fundidos numa
expressão, passam a assumir outras funções no discurso.
A análise de ocorrências de quer dizer permitiu identificar uma variedade de funções, determinadas pela
configuração discursiva dos contextos, as quais se expandem a partir do valor parafrástico de ‘significa’. Foi possível,
então, isolar como característica comum a todas as ocorrências a propriedade de reformulação: o falante reformula trecho
de seu discurso para ratificar uma informação dada previamente, ou para retificar uma informação julgada equivocada ou
muito asseverativa. Esses dois movimentos podem caracterizar-se como duas macrofunções: de ratificação (= ou seja) e
de retificação (= aliás) – a primeira, mais parafrástica, agregando as funções de retomador, explicativo, conclusivo e
esclarecedor (de caráter mais textual); e a segunda recobrindo as funções de atenuador, retificador de conteúdo e de
forma (de caráter mais pragmático).
A forma que mais claramente se candidata a concorrente de quer dizer em suas múltiplas funções é vamos dizer.
O item vamos dizer atravessa um percurso de gramaticalização que surge com a perífrase (IR + infinitivo) para expressar
o tempo futuro. Em determinados contextos, vamos dizer ganha reforço pragmático, ao se colocar como um ato de fala
manipulativo (imperativo), passando a desempenhar, a partir daí, funções mais discursivas em contextos nos quais se
comporta como variante da expressão quer dizer.
Uma análise preliminar dos dados mostra que vamos dizer compartilha com quer dizer as duas macrofunções
acima estabelecidas, sendo os itens alternantes em inúmeros contextos. Assim, torna-se possível dar um tratamento
variacionista a esses elementos lingüísticos, seja através do estabelecimento de uma regra variável mais ampla a partir da
propriedade de reformulação, seja mediante o recorte de regras variáveis circunscritas pelas macrofunções. Em qualquer
uma das situações, as funções menores devem ser controladas à parte, com o intuito de se identificar eventuais
especializações de uso. Vejam-se os exemplos a seguir.
(06) Não é como aqui, quando a gente estudava aqui era tudo pertinho, né? entrava no centro, era tudo
pequenininho, quer dizer, era tudo pertinho, né? A igreja pertinho, o cinema, o teatro é pertinho. (LDN11,
L1020)
(07) E: Que filmes tu gostavas de assistir antigamente?
F: Uns filmes de amor de...de, vamos dizer, filmes de caubói, faroeste, que se falava na época. (FLP02,
L162)
5. (Eu) acho (que) e parece (que): variantes na expressão da modalização epistêmica
As expressões (eu) acho (que) e parece (que), sujeito + verbo introduzindo cláusula complemento e cláusula
subjetiva, respectivamente, cristalizaram-se como expressões que indicam o grau de adesão do falante ao conteúdo
proposicional da sentença, ou, mais especificamente, como modalizadores epistêmicos. Observem-se os exemplos:
(08) é meio delicado falar de novela porque eu acho que: elas escondem muito com a realidade, né? das
pessoas (FLP 07, L1331)
(09) parece que uma babá está na cozinha, o boneco foi lá e pegou e matou ela com uma faca (FLP 06, L418)
(10) eu quando- quando eu estava na: acho que era no primeiro ano, teve uma campanha por causa da carteira
de estudante para pagar meia entrada no cinema, teatro, essas coisas (FLP 07, L1198)
(11) não me lembro o nome, parece que era chorão, assim, uma árvore grande, o tronco, não era alto, mas era
médio, e meu pai tirou por que ela estava perigosa mesmo, assim (FLP 16, L594)
(12) é, o meu pai disse que de repente ele botava no cursinho, antes de eu acho que no segundo, ou no terceiro
ano, não sei (FLP 16, L398)
(13) fizeram agora, um aterro que fizeram ali, lá na beira mar, aterraram e fizeram um campinho de futebol ali,
faz uns seis anos já, eu acho (FLP 15, L513)
(14) as pessoas ficam todas numa sala escura, né? que só tem uma luz lilás, assim, uma luz roxa, parece (FLP
(05)F: Aquele tempo que eu era solteira ainda acho que nem tinha esse operário aí.
E: Não tinha ainda? Claro que tinha porque meu pai acho que é mais velho que você.
F: Não, que veja bem, eu casei com dezoito anos. Então estou com trinta e nove, vou fazer quarenta casei
novinha. Acho que nem tinha, nem existia acho. Sei lá. (CTB 08, L168)
4. Quer dizer ~ vamos dizer: funções e contextos de variação
A expressão quer dizer inicia um processo de gramaticalização a partir do momento em que querer e dizer
perdem suas características de verbos plenos e agregam-se: primeiramente querer funciona como modal, e depois como
auxiliar, ao se juntar exclusivamente a dizer, formando então a locução verbal quer dizer (= significa). Os traços verbais
de origem destes itens, tanto semânticos como categoriais, tornam-se ainda menos transparentes quando, fundidos numa
expressão, passam a assumir outras funções no discurso.
A análise de ocorrências de quer dizer permitiu identificar uma variedade de funções, determinadas pela
configuração discursiva dos contextos, as quais se expandem a partir do valor parafrástico de ‘significa’. Foi possível,
então, isolar como característica comum a todas as ocorrências a propriedade de reformulação: o falante reformula trecho
de seu discurso para ratificar uma informação dada previamente, ou para retificar uma informação julgada equivocada ou
muito asseverativa. Esses dois movimentos podem caracterizar-se como duas macrofunções: de ratificação (= ou seja) e
de retificação (= aliás) – a primeira, mais parafrástica, agregando as funções de retomador, explicativo, conclusivo e
esclarecedor (de caráter mais textual); e a segunda recobrindo as funções de atenuador, retificador de conteúdo e de
forma (de caráter mais pragmático).
A forma que mais claramente se candidata a concorrente de quer dizer em suas múltiplas funções é vamos dizer.
O item vamos dizer atravessa um percurso de gramaticalização que surge com a perífrase (IR + infinitivo) para expressar
o tempo futuro. Em determinados contextos, vamos dizer ganha reforço pragmático, ao se colocar como um ato de fala
manipulativo (imperativo), passando a desempenhar, a partir daí, funções mais discursivas em contextos nos quais se
comporta como variante da expressão quer dizer.
Uma análise preliminar dos dados mostra que vamos dizer compartilha com quer dizer as duas macrofunções
acima estabelecidas, sendo os itens alternantes em inúmeros contextos. Assim, torna-se possível dar um tratamento
variacionista a esses elementos lingüísticos, seja através do estabelecimento de uma regra variável mais ampla a partir da
propriedade de reformulação, seja mediante o recorte de regras variáveis circunscritas pelas macrofunções. Em qualquer
uma das situações, as funções menores devem ser controladas à parte, com o intuito de se identificar eventuais
especializações de uso. Vejam-se os exemplos a seguir.
(06) Não é como aqui, quando a gente estudava aqui era tudo pertinho, né? entrava no centro, era tudo
pequenininho, quer dizer, era tudo pertinho, né? A igreja pertinho, o cinema, o teatro é pertinho. (LDN11,
L1020)
(07) E: Que filmes tu gostavas de assistir antigamente?
F: Uns filmes de amor de...de, vamos dizer, filmes de caubói, faroeste, que se falava na época. (FLP02,
L162)
5. (Eu) acho (que) e parece (que): variantes na expressão da modalização epistêmica
As expressões (eu) acho (que) e parece (que), sujeito + verbo introduzindo cláusula complemento e cláusula
subjetiva, respectivamente, cristalizaram-se como expressões que indicam o grau de adesão do falante ao conteúdo
proposicional da sentença, ou, mais especificamente, como modalizadores epistêmicos. Observem-se os exemplos:
(08) é meio delicado falar de novela porque eu acho que: elas escondem muito com a realidade, né? das
pessoas (FLP 07, L1331)
(09) parece que uma babá está na cozinha, o boneco foi lá e pegou e matou ela com uma faca (FLP 06, L418)
(10) eu quando- quando eu estava na: acho que era no primeiro ano, teve uma campanha por causa da carteira
de estudante para pagar meia entrada no cinema, teatro, essas coisas (FLP 07, L1198)
(11) não me lembro o nome, parece que era chorão, assim, uma árvore grande, o tronco, não era alto, mas era
médio, e meu pai tirou por que ela estava perigosa mesmo, assim (FLP 16, L594)
(12) é, o meu pai disse que de repente ele botava no cursinho, antes de eu acho que no segundo, ou no terceiro
ano, não sei (FLP 16, L398)
(13) fizeram agora, um aterro que fizeram ali, lá na beira mar, aterraram e fizeram um campinho de futebol ali,
faz uns seis anos já, eu acho (FLP 15, L513)
(14) as pessoas ficam todas numa sala escura, né? que só tem uma luz lilás, assim, uma luz roxa, parece (FLP
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08, L1024)
Em (08) e (09), as expressões ainda retêm a sua forma sintática original, que vai sendo gradativamente perdida
em (10), (11) e (12), com o uso de verbo copulativo ligando a expressão epistêmica e o elemento a ser modalizado, até se
apresentarem como em (13) e (14), onde os itens têm comportamento sintático semelhante ao de um item da categoria
advérbio. Paralelamente à mudança de estatuto sintático, o conteúdo semântico das expressões vai também se alterando:
os itens vão gradativamente reforçando o traço de modalização epistêmica.
É possível definir três estágios para a mudança sintático-semântica e discursiva das expressões (eu) acho (que) e
parece (que), decorrentes do processo de gramaticalização: (a) sujeito + verbo introdutor de cláusula complemento e
oração subjetiva, respectivamente, introduzem comentário avaliativo/opinião do falante, como os exemplos (08) e (09),
que são reanalisadas pelo falante como expressões de modalização epistêmica (estágio (b)). No estágio (b), as
expressões modalizam cláusulas com verbos copulativos, como (10) e (11), que vão perdendo a cópula, como em (12),
até chegarem ao estágio (c), onde as expressões atuam como modalizadores epistêmicos e têm comportamento sintático
livre, muito semelhante ao de itens da categoria advérbio, como (13) e (14).
O contexto de variação das formas na disputa pelo estatuto de regra na expressão da modalização epistêmica
pode ser definido pelos estágios (b) e (c), quando os itens têm comportamento sintático e valor semântico que podem ser
considerados equivalentes.
6. Considerações finais
Ficou evidente na exposição dos integrantes do GT uma preocupação prática com a reconstituição de possíveis
percursos de mudança, semântica e categorial, para os itens sob análise; com o estabelecimento de uma hierarquia de
funções; e com a testagem da substituibilidade dos itens em cada contexto de ocorrência. A questão teórico-metodológica
de fundo é a possibilidade de tratar como variantes os itens agrupados sob o escopo gradiente de uma propriedade >
macrofunção > função.
São problemas remanescentes que o grupo pretende continuar discutindo: a) da perspectiva da teoria da variação
– até onde alargar o domínio da regra variável?; b) da perspectiva da teoria funcionalista – como equacionar a relação
duas formas/ uma função (variação) com a premissa funcionalista da correlação uma forma/ uma função?; c) da
perspectiva do continuum de mudança – há necessidade de se postular um processo de discursivização para dar conta dos
chamados ‘marcadores discursivos’, ou eles são recobertos pela gramaticalização, ou ainda parte desses itens estão se
gramaticalizando e parte se discursivizando?; d) da pertinência do rótulo ‘marcador discursivo’ – esta denominação é
adequada para identificar os diferentes itens analisados?
RESUMO: Tendo como pano de fundo o continuum de mudança semântica e categorial e a noção de variação lingüística,
o grupo analisa, em amostras do banco de dados VARSUL, a multifuncionalidade de alguns itens discursivos e discute a
possibilidade de serem tratados como variantes lingüísticas.
PALAVRAS-CHAVE: mudança; gramaticalização; continuum; variação; marcador discursivo.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
DAL MAGO, Diane. Quer dizer: percurso de mudança via gramaticalização e discursivização. Florianópolis, UFSC,
2001. [Dissertação de Mestrado]
GIBBON, Adriana. A expressão do tempo futuro na língua falada de Florianópolis: gramaticalização e variação.
Florianópolis, UFSC, 2000. [Dissertação de Mestrado]
GIVÓN, Talmy. Functionalism and grammar. Amsterdam/Philadelphia: J. Benjamins, 1995.
HOPPER, Paul. On some principles of grammaticization. In: TRAUGOTT, E. & HEINE, B. (eds.) Approaches to
grammaticalization.V.1: focus on theoretical and methodological issues. Amsterdam/Philadelphia: J. Benjamins,
1991.
HOPPER, Paul & TRAUGOTT, Elizabeth. Grammaticalization. Cambridge: Cambridge University Press, 1993.
LABOV, William. Where does the linguistic variable stop? A response to Beatriz Lavandera. In: Working Papers in
Sociolinguistics, n.44, Texas, 1978.
MARTELOTTA, Mário; CESÁRIO, M. Maura & VOTRE, Sebastião. (orgs.) Gramaticalização no português do Brasil:
uma abordagem funcional. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1996.
NARO, Anthony .J. Variação e funcionalidade. In: Revista de estudos da linguagem v.7, n.2. Belo Horizonte: Faculdade
de Letras da UFMG. jul./dez.1998. pp.109-120.
RISSO, Mercedes S. Aspectos textuais-interativos dos marcadores discursivos de abertura Bom, Bem, Olha, Ah, no
português culto falado. In: NEVES, M.H.M. (org.) Gramática do português falado, Vol.VII. Campinas, SP: Editora
da UNICAMP, 1999.
ROST, Cláudia. Olhe e veja: multifuncionalidade e variação. Florianópolis, UFSC, 2001. [Projeto de Dissertação de
Mestrado]
SILVA, Giselle M. de O & MACEDO, Alzira T. Análise sociolingüística de alguns marcadores conversacionais. In
MACEDO, A.T., RONCARATI, C. & MOLLICA, M.C. (orgs.) Variação e discurso. Rio de Janeiro: Temp
Brasileiro, 1996.
Em (08) e (09), as expressões ainda retêm a sua forma sintática original, que vai sendo gradativamente perdida
em (10), (11) e (12), com o uso de verbo copulativo ligando a expressão epistêmica e o elemento a ser modalizado, até se
apresentarem como em (13) e (14), onde os itens têm comportamento sintático semelhante ao de um item da categoria
advérbio. Paralelamente à mudança de estatuto sintático, o conteúdo semântico das expressões vai também se alterando:
os itens vão gradativamente reforçando o traço de modalização epistêmica.
É possível definir três estágios para a mudança sintático-semântica e discursiva das expressões (eu) acho (que) e
parece (que), decorrentes do processo de gramaticalização: (a) sujeito + verbo introdutor de cláusula complemento e
oração subjetiva, respectivamente, introduzem comentário avaliativo/opinião do falante, como os exemplos (08) e (09),
que são reanalisadas pelo falante como expressões de modalização epistêmica (estágio (b)). No estágio (b), as
expressões modalizam cláusulas com verbos copulativos, como (10) e (11), que vão perdendo a cópula, como em (12),
até chegarem ao estágio (c), onde as expressões atuam como modalizadores epistêmicos e têm comportamento sintático
livre, muito semelhante ao de itens da categoria advérbio, como (13) e (14).
O contexto de variação das formas na disputa pelo estatuto de regra na expressão da modalização epistêmica
pode ser definido pelos estágios (b) e (c), quando os itens têm comportamento sintático e valor semântico que podem ser
considerados equivalentes.
6. Considerações finais
Ficou evidente na exposição dos integrantes do GT uma preocupação prática com a reconstituição de possíveis
percursos de mudança, semântica e categorial, para os itens sob análise; com o estabelecimento de uma hierarquia de
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de fundo é a possibilidade de tratar como variantes os itens agrupados sob o escopo gradiente de uma propriedade >
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duas formas/ uma função (variação) com a premissa funcionalista da correlação uma forma/ uma função?; c) da
perspectiva do continuum de mudança – há necessidade de se postular um processo de discursivização para dar conta dos
chamados ‘marcadores discursivos’, ou eles são recobertos pela gramaticalização, ou ainda parte desses itens estão se
gramaticalizando e parte se discursivizando?; d) da pertinência do rótulo ‘marcador discursivo’ – esta denominação é
adequada para identificar os diferentes itens analisados?
RESUMO: Tendo como pano de fundo o continuum de mudança semântica e categorial e a noção de variação lingüística,
o grupo analisa, em amostras do banco de dados VARSUL, a multifuncionalidade de alguns itens discursivos e discute a
possibilidade de serem tratados como variantes lingüísticas.
PALAVRAS-CHAVE: mudança; gramaticalização; continuum; variação; marcador discursivo.
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TRAUGOTT, Elizabeth. The role of the development of discourse markers in a theory of grammaticalization. Manchester
Stanford University, 1995.
URBANO, Hudinilson. Marcadores conversacionais. In: PRETI, D. (org.) Análise de textos orais. 3. ed. São Paulo
Humanitas Publicações, FFLCH/USP, 1997.
VALLE, Carla. De verbos a requisitos de apoio discursivo: recorte de regras variáveis.. Florianópolis, UFSC, 2001
[Projeto de Dissertação de Mestrado]
VICENT, Diane; VOTRE, Sebastião & LAFOREST, Marty. Grammaticalisation et post grammaticalization. In: Langues
et Linguistique. Quebec: Universite Laval, 1993.
WEINREICH, Uriel; LABOV, William & HERZOG, M. Empirical foundations for a theory of linguistic change. In
LEHMANN, W. & MALKIEL, Y. (eds.) Directions in historical linguistic. Austin: University of Texas Press, 1968
[1] Variação Lingüística Urbana na Região Sul do Brasil.
[2] Uma proposta de divisão dos MDs em subgrupos, cada um identificado por uma função, é apresentada por Silva & Macedo (1996).
[3] Significados inicialmente voltados para a situação externa vão se deslocando para a situação interna (avaliativa, perceptual) e para a situação
textual, com aumento da expressão do envolvimento do falante (atitudes e crenças).
[4] A forma sabe? recobre também as ocorrências de sabes?, e a forma entende? identifica a variante que pode se realizar também como entendes?,
entendeu?, entendesse?, tá entendendo?.
[5]
As formas olha e veja foram as escolhidas para representar as duas variantes em estudo. A primeira recobre as realizações olhe e olha; e a segunda,
veja, vê/vês.
Stanford University, 1995.
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[1] Variação Lingüística Urbana na Região Sul do Brasil.
[2] Uma proposta de divisão dos MDs em subgrupos, cada um identificado por uma função, é apresentada por Silva & Macedo (1996).
[3] Significados inicialmente voltados para a situação externa vão se deslocando para a situação interna (avaliativa, perceptual) e para a situação
textual, com aumento da expressão do envolvimento do falante (atitudes e crenças).
[4] A forma sabe? recobre também as ocorrências de sabes?, e a forma entende? identifica a variante que pode se realizar também como entendes?,
entendeu?, entendesse?, tá entendendo?.
[5]
As formas olha e veja foram as escolhidas para representar as duas variantes em estudo. A primeira recobre as realizações olhe e olha; e a segunda,
veja, vê/vês.
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