Abstract
O conceito de " fetichismo da mercadoria " foi cunhado por Karl Marx para demonstrar como o coração da civilização capitalista era a morada de um fenô-meno até então considerado como exclusivo do pensamento primitivo: culto de objetos inanimados que parecem ter propriedades mágicas e vida própria. Marx teve de recorrer ao vocabulário religioso para demonstrar que a racionalidade e o progresso que caracterizam a era capitalista trazem no seu bojo a feitiçaria que achavam deixar para trás. Alguns anos mais tarde, Max Weber detectou o pro-cesso de " desencantamento do mundo " , anunciando o capitalismo como uma era de secularização. No crepúsculo da modernidade, às vésperas da noite escura do nazismo, Weber descreveu como a humanidade encontrava-se presa a uma " jaula de aço " ou a um " habitáculo duro como o aço " [stahlhartes Gehäuse], na nova tradução de Michael Löwy, que figurava como seu trágico destino. Weber, assim como Marx, percebeu que, no decorrer da história da humanidade, o destino havia fugido ao nosso controle e se voltado contra nós, tal como na história do médico e do monstro, escrita por Robert L. Stevenson. Para Weber, o manto leve da as-cese intramundana e da secularização protestante aos poucos se descolou de seu contexto original para tornar-se uma jaula de aço. Mas afinal, o que se pode dizer do mundo? Que está cada vez mais encantado ou cada vez mais desencantado? A relação entre Marx e Weber é um tema tanto consagrado quanto controverso na Sociologia. É justamente essa ligação entre os dois autores que Michael Löwy assume como tema de suas reflexões em seu novo livro A jaula de aço: Max Weber e o marxismo weberiano. Löwy investiga a conhecida expressão " jaula de aço " que Weber utilizou na conclusão de seu livro Ética protestante e o espírito do capitalismo para demonstrar o justificado interesse que os pensadores marxistas manifestaram (e devem manifestar) pelas reflexões desse pensador. A " jaula de aço " é um tema caro ao marxismo na medida em que atina para o processo de autonomização daquilo que é produzido pelos homens em relação aos próprios homens. O espírito do capitalismo descrito por Weber vai paulatinamente assumindo o " [...] caráter de uma máxima de vida eticamente coroada " (Weber), de modo que o trabalhar torna-se um fim em si mesmo. Não há a perspectiva de tra-balhar para atingir uma vida mais confortável, para adquirir mais posses materiais ou para satisfazer necessidades – sejam elas da mente ou do corpo –, o ethos em questão, esse modo de ver o mundo e conduzir a vida visa apenas o trabalhar pelo trabalhar. Daí aquilo que havia começado como uma prática religiosa combina-se com o sistema capitalista de forma indissociável, transformando o leve manto da ascese puritana nessa " jaula de aço " do trabalho capitalista. O livro é divido em três partes. Na primeira parte, Löwy se detém na leitura de Weber e de Marx mostrando como eles possuem uma análise do capitalismo como sistema que não se resume, em nenhum deles, a uma determinação econômica da vida social. Lição, essa, importantíssima para a Sociologia do hic et nunc cujo empirismo exagerado tende a lidar com esse tipo de teoria como algo do âmbito " macrossociológico " e que muitas vezes utiliza a sociologia weberiana para justificá-lo. Além disso, Löwy chama a nossa atenção para o caráter pessimista do pensamento de Weber, que lhe permite contestar alguns aspectos ingênuos do liberalismo e da modernidade ao destacar a natureza empobrecedora do trabalho no capitalismo, ao reconhecer a desigualdade como componente desse sistema e ao enfatizar a perda de autonomia e de liberdade do indivíduo moderno. Na segunda parte do livro, Löwy apresenta um inventário dos usos que Weber faz da expressão " afinidades eletivas " , oriunda da química e tornada célebre pelo romance de Goethe com o mesmo nome. Segundo o autor, um de seus interes-santes usos por Weber possuiria um caráter negativo, ao rechaçar o lugar comum da teoria liberal de que capitalismo e democracia seriam afins. Ademais, Löwy mostra, a partir de algumas pistas deixadas por Weber e inspirado nas experiências da luta católica anticapitalista na América Latina, como o catolicismo possuiria uma relação de " afinidade negativa " com o capitalismo. Na terceira e última parte do livro, Löwy discute a ressonância que a obra de Weber teve para autores que também se debruçaram sobre as convergências entre capitalismo e religião como, por exemplo, Walter Benjamin, Ernst Bloch e Erich Fromm. Esses autores aproveitaram-se das ambiguidades da teoria de Weber para fazer uma crítica de inspiração romântica e socialista a esse sistema, cuja divindade Miolo_Rev_Critica_Marxista-43_(GRAFICA).indd 168 Miolo_Rev_Critica_Marxista-43_(GRAFICA).indd 168
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Py, F. (2015). A jaula de aço: Max Weber e o marxismo weberiano. Polis (Santiago), 14(41), 553–557. https://doi.org/10.4067/s0718-65682015000200033
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