Abstract
Foi divulgado, em 2003, o relatório de uma pesquisa multicêntrica internacional, realizada sob os auspícios da Organização Internacional do Trabalho, sobre a violência nos ambientes de trabalho no setor saúde 1 . Este estudo foi realizado em países com diferentes graus de desenvol-vimento socioeconômico: Brasil, África do Sul, Bulgária, Tailândia, Líbano, Portugal e Austrália. A idéia era quantificar e qualificar o fenômeno da violência nesses ambientes. No Brasil, o estudo foi realizado na cidade do Rio de Janeiro 2 . Entre as grandes surpresas evidenciadas pelos estudos, encontra-se a violência perpetrada contra profissionais de saúde por profissionais de saúde. A violência entre colegas. A violência entre chefes e subordinados. Embora a violência física também tenha sido observada, foi a violência moral, denominada assédio moral, a que mais chamou a atenção da equipe. Ela refere-se a um comportamento ofensivo, humilhante, que desqualifica ou desmoraliza, repetido e em excesso, através de ataques vingativos, cruéis e maliciosos que objetivam rebaixar um indivíduo ou grupo de trabalhadoras/es 2 . Um dos fatos que ajudou a dar destaque à violência entre estes atores foi observado num dos locais pesquisados. Uma pesquisadora foi procurada por um profissional de nível superior que não havia sido selecionado na amostra para ser entrevistado e ele, chorando, agradeceu que alguém estivesse preocupado com a violência que assume a forma do assédio moral. Dizia ele: esta prática faz com que a gente acabe quase acreditando no que dizem da gente, de tanto que a pressão e as humilhações se repetem. Este fenômeno, o assédio moral, vem ganhando espaço na literatura especializada e na grande imprensa em geral e tem nomes específicos em inglês: mobbing e moral harassment. O assédio moral não tem nada a ver com uma administração rigorosa ou exigente, mas tem a ver, cada vez mais, com uma forma perversa de administrar que tem sido, assustadoramente, tolerada. Se refletirmos um pouco mais amplamente, veremos que tal fenômeno não é exclusivo dos ambientes de trabalho. Hoje, cada vez mais, tal prática vem sendo denunciada e mais ações têm sido realizadas para coibi-la nas escolas de primeiro e segundo graus. É o bullying termo que tem sido utilizado para designar uma prática perversa de humilhações sistemáticas de crianças e adolescentes no ambiente escolar. Tem sido, inclusive, objeto de política explícita de combate em estabelecimentos de ensino. A dimensão do problema pode ser identificada, por exemplo, com a quantidade de comunidades virtuais no Orkut que vêm tratando do tema, incentivando a constituição de redes de proteção e apoio. Assustadoramente, porém, também se encontram comunidades de incentivo ao bullying e à violência no trote. O bullying pode ser identificado por meio de algumas ações, como ressalta a Abrapia 3 : colocar apelidos, ofender, zoar, gozar, encarnar, sacanear, humilhar, fazer sofrer, discrimi-nar, excluir, isolar, ignorar, intimidar, perseguir, assediar, aterrorizar, amedrontar, tiranizar, dominar, agredir, bater, chutar, empurrar, ferir, roubar, quebrar pertences. Estudo realizado por essa associação em 2002 mostrou, em pesquisa realizada em 11 escolas no Rio de Janeiro com alunos da 5ª à 8ª série, que 16,9% dos alunos foram vítimas de bullying, 10,9% foram vítimas e autores, e 12,7% foram somente autores no último ano. v .30, nº 1, jan./abr. 2006 4 Entre a escola, em especial de ensino médio, e o ambien-te de trabalho há o espaço da formação profissional e a que aqui nos interessa particularmente a formação médica. Já se observa certa preocupação com as causas e conseqüências do bullying nas escolas, assim como com o assédio moral nos ambientes de trabalho. Por que não atentarmos para o pro-blema deste tipo de violência em nossas escolas médicas? E o que temos feito para combater o bullying? É inegável que existe um grande esforço em muitas esco-las para combater o trote violento, especialmente após os trá-gicos acontecimentos ocorridos na virada do século. Da mes-ma forma, são louváveis e também contribuem para o apoio ao estudante os serviços de apoio psicológico e educacional que se multiplicam em várias escolas. Mas será que o proble-ma está sendo adequadamente considerado apenas com esse tipo de intervenção? Decerto que não. Em primeiro lugar, o bullying é um tema praticamente ausente nas discussões em nossos congressos e em nossa revista, sugerindo que o que falta inicialmente é reconhecer o problema como um proble-ma ou ao menos disseminar essa percepção. É verdade que temos falado com alguma freqüência do trote, mas ainda pa-rece haver um longo caminho a percorrer. Pensar no bullying ou assédio moral na escola médica é ter que incluir não apenas o espaço educacional propriamen-te dito, mas também o espaço de trabalho, em decorrência da integração existente entre esses espaços. Logo, não pode-mos nos ater apenas ao tradicional entendimento de bullying como um problema estudantil. É preciso focar também o problema do assédio moral, típico dos ambientes de traba-lho onde a relação entre professor e aluno passa também a ser considerada. Estudos realizados em outros países de-monstram a freqüência e a relevância do problema 4-8 . Um estudo realizado pela British Medical Association Medical Stu-dents Committee 9 revelou dados particularmente preocupan-tes: um terço dos estudantes entrevistados sofreram o bullying; um em cada quatro foram vitimados por um(a) médico(a), e um em cada seis por enfermeiro(a). As formas de bullying compreenderam desde discriminação racial e se-xual a humilhações na frente de pacientes, não excluindo as que ocorreram em salas de cirurgia. No Brasil, analisando a percepção de problemas morais por estudantes de medici-na, Rego obteve depoimentos de estudantes que aponta-vam esta prática no cotidiano das escolas, como o de que existem professores que gostam de sacanear os alunos e existem professores que são grosseiros e não respeitam os alunos 10 . Não se pretende, neste editorial, colocar sobre os pro-fessores a responsabilidade por todo bullying que ocorre nas escolas, mas assinalar com clareza que o bullying não é ape-nas um problema dos alunos e nem o resultado natural da competição. É necessário que a Escola Médica tenha uma posição muito clara de enfrentamento deste problema, con-tribuindo para romper a espiral de violência que se repro-duz ano após ano e mesmo entre gerações. É preciso que os valores morais que a escola considera significativos para a formação profissional não sejam apenas apontados estrita-mente para o momento da relação profissional-paciente. É preciso que a formação moral seja de fato uma preocupação da escola e que seja implementada uma política de tolerância zero com o bullying, o assédio moral e qualquer outro tipo de violência, venha de onde vier. Os atores sociais que têm que estar envolvidos incluem tanto as direções de faculda-des de medicina e diretores de hospitais e dos demais espa-ços de ensino, como diretórios acadêmicos, associações de docentes e sindicatos, entre outros. Não é, nem pode ser, tarefa de apenas um grupo social, mas de todos.
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Palácios, M., & Rego, S. (2006). Bullying: mais uma epidemia invisível? Revista Brasileira de Educação Médica, 30(1), 3–5. https://doi.org/10.1590/s0100-55022006000100001
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