Doença de Chagas, doença do Brasil: ciência, saúde e nação, 1909-1962

  • Kropf S
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O objetivo deste estudo é analisar o processo pelo qual a doença de Chagas ou tripanossomíase americana (descoberta em 1909, em Minas Gerais, por Carlos Chagas, médico e pesquisador do Instituto Oswaldo Cruz/IOC) foi estabelecida e reconhecida como um fato científico e uma questão de saúde pública no Brasil. Para isso, focalizamos dois momentos deste processo, no qual a definição da nova doença tropical como entidade nosológica específica deu-se de modo indissociado de sua caracterização como fato social, a representar uma dada visão da ciência e da sociedade brasileiras. Numa primeira fase, abordamos as pesquisas realizadas por Chagas e seus colaboradores, no IOC, desde 1909 até o seu falecimento, em 1934. Desde 1910, os enunciados sobre o quadro clínico e a importância médico-social da nova enfermidade ensejaram o debate sobre as condições do atraso das regiões do interior do país, a relação entre endemias rurais e identidade nacional e o papel social da ciência. Tal debate culminaria no chamado movimento pelo saneamento dos sertões, entre 1916 e 1920. Ao mesmo tempo, tais enunciados foram objeto de críticas, formuladas inicialmente na Argentina, entre 1915 e 1916, e aprofundadas no campo médico brasileiro, entre 1919 e 1923. Estes questionamentos marcaram de modo decisivo o encaminhamento dos estudos sobre a doença. Um segundo momento de nossas análise diz respeito às pesquisas realizadas, após 1934, por dois discípulos de Carlos Chagas em Manguinhos: Evandro Chagas, seu filho mais velho e criador do Serviço de Estudo das Grandes Endemias (SEGE), e, principalmente, Emmanuel Dias, que dirigiu o Centro de Estudos e Profilaxia da Moléstia de Chagas (CEPMC), posto do IOC na cidade de Bambuí, Minas Gerais, desde sua criação, em 1943, até seu falecimento em 1962. Nesta fase, foram estabelecidos um novo enquadramento para a fisionomia clínica da doença e os recursos técnicos para a sua profilaxia, mediante aplicação de inseticidas. Tal processo transcorreu sob as condições históricas específicas da sociedade brasileira pós- 1930 e sob os significados particulares conferidos à relação entre saúde e desenvolvimento nos cenários internacional e nacional, especialmente a partir da II Guerra Mundial. Mediante intensa mobilização dos cientistas para difundir os conhecimentos sobre a doença e conquistar o interesse de distintos grupos sociais, foram produzidos os meios para que, durante a década de 1950, a tripanossomíase americana fosse reconhecida publicamente e se institucionalizasse como objeto científico e tema inscrito nas políticas sanitárias do Estado brasileiro.

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Kropf, S. P. (2009). Doença de Chagas, doença do Brasil: ciência, saúde e nação, 1909-1962. Doença de Chagas, doença do Brasil: ciência, saúde e nação, 1909-1962. Editora FIOCRUZ. https://doi.org/10.7476/9788575413159

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