Abstract
Um encontro de concepções foi maquinado na proposta deste dossiê, entre o que se chama "Pen-samento Computacional" e "Ensino de Computação". Proposta que nos pareceu muito oportuna-sem deixar de ser arriscada-e que agora, depois de todo o trabalho realizado, julgamos ter sido uma inicia-tiva mais do que justificada, cujo resultado nos deixa muito felizes. É o caso, nesse momento, de desdo-brar o caminho percorrido, caprichando no convite à leitura dos trabalhos que seguem, cujo conjunto se qualifica tanto pela substância quanto pela representatividade do pensamento que se desenvolve no país ligado aos temas em questão, e outros, correlatos. Encontro estranho esse, inquietante mesmo, que vale a pena esmiuçar aqui, mas sem descosturar. Seria o caso, pode parecer, de imaginar que se trata de coisas bem definidas-pensamento c. e en-sino de c.-entre as quais haveria uma aproximação, sinergia, tensões, enfim, todo tipo de composição, influência mútua, estranhamento. É possível, entretanto, sugerir outra hipótese, porque essa foi a inten-ção original, e porque pensamos que a contemplação do material a isso nos (re)autoriza, a saber, de que se trata, em ambos os casos, mais de problemas do que de conceitos. Afirmar que há um Pensamento Computacional pode ser antes de mais nada uma provocação. Essa provocação tem origem longínqua no trabalho de Seymour Papert, que imaginou ser o computador (e naquela época essa era a metáfora) uma máquina que pertence às crianças. Faz pensar que o computador seria uma máquina-criança ele mesmo, ou seja, uma máquina-potência, ou uma potência de máquina. Passaram-se os anos, os compu-tadores desertaram do imaginário comum, para que nele entrassem as redes, as interfaces, os protocolos e os padrões daquilo que veio a se chamar por um certo tempo de ciberespaço, Internet, e que hoje é um ecossistema de ecossistemas que acaba sendo referido apenas pelo apelido: "tecnologia", ou tech, simplesmente. Desistimos das definições, aparentemente. É nesse contexto que se situa historicamente a proposição de Jeannette Wing, ancorada no seu trabalho organizador, de que haveria um Pensamento Computacional, cuja individuação se impõe, porque é preciso colocar a Computação no debate episte-mológico que se desenvolve no senso comum. É necessário que a Computação seja entendida ordinaria-mente como disciplina, não basta a referência aos consensos acadêmicos e à arquitetura institucional da ciência. Ou seja, não é suficiente dizer às pessoas que a Computação existe por que está nos livros e nas revistas, e existem departamentos dedicados ao tema, entidades científicas, eventos, títulos e prêmios. É preciso sair do apelido místico ("tech") e entrar em acordo quanto ao fato de que se trata de um conheci-mento, ou melhor, de um pensamento específico. Isso é urgente, talvez antes de tudo, porque é preciso trazer essa "coisa" à escola, e não mais como curiosidade instigante, ou mitologia, mas como algo que pode pertencer ao campo do normal, à tessitura do currículo, do material didático, do arcabouço institucional da educação. Ou seja, a existência de um Pensamento Computacional seria o pedágio a ser pago por esse campo problemático para a entrada nos espaços da educação formal, agora pela porta da frente. Não é mais fenômeno a ser estudado com as
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Cambraia, A. C., & Lemos, A. S. (2021). ENSINO DA COMPUTAÇÃO E PENSAMENTO COMPUTACIONAL: POR UMA EDUCAÇÃO OUTRA. Revista Contexto & Educação, 36(114), 5–9. https://doi.org/10.21527/2179-1309.2021.114.5-9
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