A dor e os seus aspectos multidimensionais

  • Marquez J
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Abstract

meses, ou as que persistem após a cura da lesão inicial. Algumas vezes não se consegue um nexo causal, o que não invalida o seu diagnóstico e sua existência. As dores crônicas permitem discussões conceituais da medicina clássica, havendo a necessidade de argumentações que fogem do modelo dito biomédico clássico, com implicações filosóficas, sociais e emocionais, daí o emprego do modelo biopsicossocial. Assim, o pensamento de Shakespeare " Todos são capazes de dominar a dor, exceto quem a sente " contraria as abordagens atuais, desde que um dos objetivos terapêuticos em uso é de técnicas que permitam aos pacientes conviver e interagir com a dor e o sofrimento. Outro afo‑ rismo clássico da medicina, " sublata causa tollitur effectus " (retirada a causa o efeito desaparece), também é invalidado pelo próprio con‑ ceito de dor crônica. O homem da atualidade muitas vezes ainda encara a dor com uma série de conceitos complexos, entre eles os com conotações religio‑ sas, sentimentos de culpa e expiação, que somente dificultam a abor‑ dagem e aumentam o sofrimento. Como refere Ojugas (1) " Ante a dor reagem igualmente o homem do século XX e o das cavernas. Buscam no fundo algo sobrenatural " . Daremos maior ênfase aos aspectos psicossociais em detrimento dos neurosensitivos (media‑ dores químicos, receptores, vias de transmissão e de modulação). O entendimento da dor não deve se limitar a sua expressão neu‑ rosensitiva, e sim também como uma mensagem emocional, uma metáfora perceptiva. Pode ser uma sensação adaptativa, um alerta precoce para proteger o corpo de lesões teciduais, ou eventualmente ser uma má adaptação, refletindo um funcionamento patológico do sistema nervoso. De tal forma que existe a dor como uma experiên‑ cia sensitiva e a dor como uma metáfora perceptiva de sofrimento, de aflição ou mágoa. Pode ser como um sistema de alarme ativado para impedir danos ao organismo. Essa nocicepção (2) é ativada so‑ mente por estímulos lesivos, atuando em receptores especializados. A nocicepção uma vez presente, após o desaparecimento do sinal de alarme, toma características motivacionais, semelhantes à fome, sede ou desejo sexual. O limiar para despertar a dor tem que ser ele‑ vado o suficiente para que a mesma seja evocada, antes que ocorra O tema a ser abordado no presente Núcleo Temá‑ tico diz respeito à dor. Serão analisados tópicos referentes apenas às dores crônicas, com atenção ao seu complexo clínico de interações causais, e em um contexto biopsicossocial. Também os as‑ pectos bioéticos, algumas manifestações frequentes, tais como as ce‑ faleias e as lombociatalgias. Quanto ao seu tratamento será feita uma explanação referente à abordagem complementar da acupuntura e de técnicas modernas, conhecidas como técnicas minimamente in‑ vasivas, melhor conceituadas no texto pertinente. Os aspectOs multidimensiOnais das dOres crônicas A As‑ sociação Internacional para o Estudo da Dor (IASP, International Association for the Study of Pain), conceitua dor como sendo " uma experiência sensitiva e emocional desagradável, associada a uma lesão tecidual atual, potencial, ou descrita em termos de tal lesão " . Já McCaffery em uma visão mais humanística, diz que " dor é o que o paciente diz ser, e existe quando ele diz existir " , colocando uma ideia de uma experiência pessoal e peculiar a cada indivíduo. Fer‑ reira F (2004), modificada por Marquez JO (2008), procura uma conceituação mais abrangente, referindo que " dor é a consciência de uma sensação nociceptiva, induzida por estímulos químicos ou físicos, de origem exógena ou endógena, assim como por disfun‑ ções psicológicas, tendo como base um mecanismo biopsicossocial, causando emoções normalmente desagradáveis, com possibilida‑ des de variáveis graus de comportamentos aversivos " .

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Marquez, J. O. (2011). A dor e os seus aspectos multidimensionais. Ciência e Cultura, 63(2), 28–32. https://doi.org/10.21800/s0009-67252011000200010

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