Abstract
Resumo: A relação entre tecnologia e emprego foi seguidamente reduzida à sua expressão mais simples. Este artigo rediscute essa relação, considerando sua complexidade e conflito, sempre imersa em relações macroeconômicas e sociais mais amplas. Nesse sentido, observa-se que hoje essa relação se constrói em meio a um processo de globalização financeira, de desregulação dos mercados e de redução da capacidade regulatória e de gasto do Estado. Esse processo, por sua vez, teria gerado um novo regime de crescimento, no qual as principais variáveis relacionadas ao emprego (produto, produtividade, tempo de trabalho, demanda e investi-mento) apresentariam um desempenho medíocre, se comparadas às de outros períodos. Palavras-chave: inovação tecnológica; mudanças e emprego; trabalho. esde a primeira revolução industrial até os dias de hoje têm sido acirrados os debates sobre a relação entre inovação tecnológica e emprego. Esses debates, no entanto, ocorreram por ondas, como que favorecidas pelo ciclo econômico. Nesse sentido, em períodos de forte crescimento as teses dominantes tende-ram a valorizar os efeitos positivos do progresso técnico. Em contrapartida, em períodos de crise e de introdução mais intensa de novas máquinas, equipamentos e formas de produção, proliferaram as análises que viam o progresso técnico como o grande e único responsável pela redução de empregos. Com o desenrolar da crise iniciada nos anos 70 do século XX, essa discussão voltou à cena, ampliada pela desordem do trabalho que se abateu sobre muitos paí-ses. Nesta passagem de século, os processos de globali-zação financeira, desregulação dos mercados e intensas transformações tecnológicas geraram novas ou amplia-ram velhas tensões, em meio à dificuldade em situá-las historicamente e à carência de alternativas coletivas trans-formadoras. Ampliaram-se, por isso, as tensões das so-ciedades capitalistas modernas neste final de século, re-sultantes:-da globalização financeira e de seu impacto sobre a ins-tabilidade e o dinamismo do investimento e da acumula-ção produtiva;-do caráter cada vez mais concentrado dos capitais e desregulado da concorrência e dos mercados;-da tendência do capital eliminar trabalho vivo no pro-cesso de produção (até para verse livre de uma força de trabalho sempre imprevisível, mas, sobretudo, para am-pliar os seus ganhos de produtividade vis-à-vis seus con-correntes) e da necessidade de uma demanda final sufi-cientemente dinâmica para realizar a produção no mercado;-do caráter cada vez mais internacionalizado do capital e nacional da gestão da força de trabalho (o direito, as relações de trabalho, a regulação do Estado, etc.). Nesse quadro, tendeu-se a menosprezar essas tensões do presente, assim como a necessidade de transformá-las. Um descaso com o presente que, muitas vezes, privile-giou uma volta ao passado ou um salto ao futuro e consi-derou que o direito ao trabalho e o pleno emprego seriam questões obsoletas. Dessa forma, terminou-se por admitir como fatalidade o baixo crescimento do produto e como inevitável, o desemprego e a "precarização" das condi-ções e relações de trabalho, propondo-se apenas a buscar a elevação da capacidade de geração de empregos, que apresentou crescimento medíocre. Esse descaso com o presente favorece o menosprezo das relações macroeconômicas, sociais e institucionais mais amplas em que está imersa a inovação tecnológica,
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MATTOSO, J. (2000). Tecnologia e emprego: uma relação conflituosa. São Paulo Em Perspectiva, 14(3), 115–123. https://doi.org/10.1590/s0102-88392000000300017
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