Abstract
Diego Grácia, a "atitude ética" que deve caracterizar a clínica. ‡ João Lobo Antunes, 2 em obra recente, manifesta a sua ad-miração com os extraordinários progressos alcançados pela medicina, sobretudo ao longo da segunda metade do séc. XX. Mas, simultaneamente, teme que se tenha desincenti-vado a escuta do relato do doente (o médico interrompe-o, em média, ao fim de 18 segundos), que se desvalorize a ob-servação física em favor dos meios auxiliares de diagnósti-co e assim se perca de vista a singularidade de cada caso clí-nico, que tendencialmente passa a ser encarado como mera ilustração dum caso tipificado e enquadrado por dados es-tatísticos. 2:29-30 Por aí se confunde a singularidade biológica do doente (sem dúvida crucial) com a, não menos impor-tante, individualidade deste, a qual, segundo o autor, deve continuar a estar também no cerne da atenção do clínico. Por reacção a este quadro, tem-se desenvolvido a MN que procura combater as tendências atrás descritas, ao mes-mo tempo que ultrapassa a medicina hipocrática e a posi-tivista pela agência que concede ao doente. Mas quando surgiu e o que traz de novo a MN? Ainda que tenha havido manifestações de insatisfação e mal-estar perante este estado de coisas, já na década de 50 do século passado § e, sobretudo nas décadas de 80 e 90 do mesmo século, que se fizeram notar de forma mais decidi-da publicações e iniciativas conducentes a um movimento que hoje se manifesta a nível mundial, mas muito em par-A pertinência da Medicina Narrativa na prática clínica Q uando, há meses, recebi o convite da Directo-ra desta revista, Dr. Paula Broeiro, para abor-dar o tema da Medicina Narrativa (MN), * além de me sentir muito honrada e agradecida pela confiança em mim depositada, experimentei simultaneamente algum constrangimento, pois o espaço atribuído a um editorial não permite fazer jus ao muito que há a dizer sobre o tema. Entendam, pois, os leitores o que se segue como esboço meramente introdutório. Falar da novidade da abordagem narrativa nas práticas de saúde é incorrecto e injusto. Desde o célebre triângulo hipocrático-médico/doença/doente-que a narrativa da doença por parte do último foi reconhecida como elemen-to integrante do encontro clínico. Não se trata, pois, de no-vidade. Contudo, ao arrepio desta longa tradição, a evolu-ção histórica da prática médica recente, sobretudo a partir da Escola Clínica de Paris (1789), acentuou o pendor cien-tificizante, de cunho positivista e valorizador do regime dos factos que marcou um novo modo de entender e praticar medicina, actuante até aos nossos dias, em que o relato do doente foi perdendo terreno. Naquilo que pensadores como Michel Foucault 1 caracterizam como um momento novo em termos epistemológicos, † passam a reconhecer-se ape-nas como factos clínicos os dados objectivos, encarados como os únicos fiáveis. É com factos que o médico lida e tudo o que o não seja é menosprezado. Valores religiosos ou crenças de índole cultural, por exemplo, são desvalorizados. Tais aspectos, em geral, não se detectam pela observação objectiva; só podem ser veiculados oralmente-quando muito poderão emergir na anamnese, mas este é justamente o momento hoje menos valorizado do encontro clínico. Para ultrapassar esta depreciação, é necessário rever o conceito de história clínica, reconhecendo-o como um relato que vai ser decisivo para uma deliberação. Ora, a deliberação não serve para coisas demonstráveis, antes se aplica à incerte-za, ao que não é totalmente racional-as decisões penden
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Fernandes, I. (2014). A pertinência da Medicina Narrativa na prática clínica. Revista Portuguesa de Clínica Geral, 30(5), 289–290. https://doi.org/10.32385/rpmgf.v30i5.11384
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