O tribunal dos tribunais: onde se julgam aqueles que julgam raças

  • Anjos J
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Abstract

Menos do que a questão das cotas parece estar em jogo, no artigo de Maio e Santos, o debate sobre a definição dos pesos relativos e das fronteiras dos lugares de enunciação do cientista e do político-militante quando o que está em jogo são identidades étnicas. Ou, pelo menos, é desse modo que o leitor é conduzido às "suas próprias" mais "razoáveis" reavaliações das questões envolvidas na problemática das cotas, sem que se sinta tomado pelo arrastão de uma posição política explícita e bem "fundada na razão". A rodada de debates em torno da questão racial está sendo particularmente importante ao mundo acadêmico brasileiro por, de modo particularmente urgente, concreto e intenso, impor a discussão sobre a relação entre os lugares de enunciação do cientista e do político-militante. E o artigo não deixa dúvidas quanto ao lugar privilegiado de onde está emergindo. Trata-se da ciência refletindo sobre seus próprios excessos, restaurando o tribunal de suas próprias práticas, discernindo as imposturas das trilhas seguras da razão. Nenhum outro lugar é tão razoável. E que réu poderia ser tão apropriado quanto o incauto que, nos descaminhos dessa política infeliz, que é a política de raças, coloca em risco a purificação de uma ciência que já trilhou o purgatório? Sem dúvida, dentre as ciências, nenhuma constitui tribunal tão adequado para expurgação do racialismo quanto a antropologia, já que se ela ajudou a criar o monstro, é também o lugar de onde mais cedo e radicalmente se deitou o olhar mais distanciado sobre as pretensões de diferenças essenciais entre os humanos. É buscando um assento no tribunal crítico do fazer com pretensões científicas que o artigo de Maio e Santos convida o julgamento-leitor à proscrição de práticas como a do antropólogo que aceitou fazer parte da comissão que iria analisar fotografias de 4 mil indivíduos para distinguir dentre eles brancos e negros.

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Anjos, J. C. dos. (2005). O tribunal dos tribunais: onde se julgam aqueles que julgam raças. Horizontes Antropológicos, 11(23), 232–236. https://doi.org/10.1590/s0104-71832005000100017

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