Abstract
A publicação em Portugal de um número da revista Labore-al cujo dossier é dedicado inteiramente à psicodinâmica e à psicopatologia do trabalho constitui um acontecimento científico de relevo. Este dossier temático surge no segui-mento do sexto Congresso Internacional de Psicopatologia e Psicodinâmica do Trabalho, realizado em Abril de 2010 em São Paulo, Brasil, e este número da revista Laboreal permi-te desta forma dar um seguimento às discussões iniciadas nessa ocasião. Herdeira dos trabalhos pioneiros da psicopatologia do tra-balho e da ergonomia desenvolvidos em França na segunda metade do século XX, a psicodinâmica do trabalho surge definitivamente enquanto disciplina autónoma na década de noventa e dedica-se ao estudo dos processos psicodinâmi-cos mobilizados pelas situações de trabalho, interessando--se particularmente pela relação entre trabalho e saúde. Esta relação está sempre enraizada num acto, numa activi-dade, numa conduta individual sobre o «real do trabalho». Daí que também a realização do EU, passe necessariamen-te por uma mediatização, na relação ao REAL que constitui o trabalho. Assim, a negação e/ou o não reconhecimento da realidade do trabalho duma pessoa pode ser fonte de sofri-mento mental. Mas em contrapartida, o reconhecimento no trabalho é um elemento determinante da realização pesso-al e contribui para a construção da identidade, sendo fonte de prazer no trabalho: a relação com os pares donde emer-ge o reconhecimento e a identidade de pertença a um colec-tivo; a relação com a hierarquia que pode fazer reconhecer a utilidade do operador, a relação com os subordinados donde pode emergir o reconhecimento da autoridade e das suas competências. Destas primeiras considerações pode-remos deduzir a importância considerável da questão da intersubjectividade e da organização do trabalho enquanto causas de aparecimento de sofrimento ou ao contrário de prazer no trabalho. Tanto a psicodinâmica como a psicopatologia do trabalho conhecem actualmente um desenvolvimento notável, no-meadamente no plano internacional, como atestam os arti-gos reunidos neste dossier. Com efeito, a divulgação das questões do sofrimento no trabalho (podemos referir entre 11 Apresentação do dossier • Clara de Araújo & Duarte Rolo outros acontecimentos a vasta mediatização dos suicídios ocorridos na empresa francesa France Telecom em 2009) representa uma consequência dos trabalhos desenvolvidos em psicopatologia e psicodinâmica do trabalho, que trouxe-ram estas questões para debate público, assim como o re-sultado de uma evolução do pedido social. Estes desenvol-vimentos, dos quais ainda não podemos certamente medir os efeitos, terão sem dúvida repercussões importantes para o crescimento futuro da disciplina. A evolução actual do mundo do trabalho, marcada pelo de-senvolvimento de métodos de organização do trabalho e de gestão dos recursos humanos que tendem a individualizar os trabalhadores e a favorecer uma lógica de concorrência em detrimento de uma lógica de cooperação, não augura nada de bom. No entanto, a situação actual não é irremedi-ável e cabe à comunidade científica produzir conhecimentos que contribuam para inverter esta tendência. Foi com este intuito que procurámos reunir contribuições de variados autores acerca deste tema. Os artigos aqui reunidos não pretendem oferecer uma visão exaustiva da disciplina, mas apenas uma perspectiva do estado actual das pesquisas na área da psicodinâmica e psicopatologia do trabalho. Desta forma, as contribuições dos diversos autores que participaram neste número têm em comum um interesse partilhado pelo estudo da relação entre saú-de e trabalho, mas na sua maioria abordam temas diferen-tes e utilizam material empírico proveniente de sectores profissionais distintos. O texto introdutório de Christophe Dejours, para além de descrever o itinerário histórico da psicodinâmica do traba-lho enquanto disciplina, expõe igualmente de forma precisa as questões teóricas e práticas que enfrentamos actual-mente nesta área da clínica do trabalho. Para que haja uma redução do sofrimento no trabalho e das patologias labo-rais, a produção de conhecimentos não basta. É necessário desenvolver por igual uma teoria da acção que permita uma transformação racional da organização do trabalho. O primeiro artigo deste dossier temático, da autoria de Leda Leal Ferreira, dá visibilidade a uma dimensão fulcral em psicodinâmica do trabalho – o afastamento entre trabalho prescrito e trabalho real. É neste afastamento que pode es-tar a fonte de saúde ou de sofrimento dependendo do grau de flexibilização potencial da organização do trabalho. A psicodinâmica do trabalho insiste no facto de que este afas-tamento mobiliza a subjectividade de cada sujeito na cons-trução da organização do trabalho e sobretudo no facto de, em contrapartida a esta contribuição na organização, o su-jeito esperar uma retribuição de cariz simbólico que assen-ta no reconhecimento, não tanto da pessoa mas sobretudo do que a pessoa faz. Na verdade é conclusão deste estudo o valor do conhecimento e compreensão do trabalho real face à justa determinação do número de trabalhadores em
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Araújo, C. de, & Rolo, D. (2011). Apresentação do Dossier Temático : Psicodinâmica e Psicopatologia do Trabalho. Laboreal, 7(1). https://doi.org/10.4000/laboreal.8012
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