Abstract
Embora as análises da globalização feitas pelo sociólogo britânico Antonny Giddens e por seu colega da Universidade de Munique, Ulrich Beck, não sejam plenamente coincidentes, elas não são propriamente incompatíveis, apresentando princípios orientadores comuns. Mesmo aquela distinção, notável nas primeiras obras dos dois autores, entre os graus de sistematiza-ção e rigor teóricos, muito maiores nos trabalhos do sociólogo de Londres, parece cada vez mais difícil de ser observada. Ambos tenderam, nos últi-mos anos, a flexibilizar os cânones da disciplina movidos pelo desejo de se aproximar do público leigo. A estratégia tem se revelado bem-sucedida: os autores vêm logrando difundir suas idéias para um público que cresce em tamanho e interesse, despertando igualmente a atenção de políticos e to-madores de decisão. Comparecem também com regularidade nos suple-mentos culturais dos principais jornais do mundo, atenuando, com suas categorias-metáfora, a angústia geral diante da opacidade da sociedade mundial. A desenvoltura no trato com a sociedade da informação vale a ambos posição e reputação ambivalentes. De um lado, eles se tornam a materialização viva da condição humana na modernidade tardia, conforme figurada em seus próprios escritos, e cuja marca particular é exatamente a auto-reflexão, entendida nos termos da sociedade que se vê confrontada com seus limites. Ao mesmo tempo, o prestígio público crescente de am-bos é acompanhado com reserva pelos colegas de ofício. Quase crítica: insuficiências da sociologia da modernização reflexiva, pp. 73-100 Tempo Social, revista de sociologia da USP, v. 16, n. 2 74 A força e a vulnerabilidade do trabalho recente de ambos têm uma ori-gem comum – a rigor se confundem. Com efeito, é a mesma faculdade dos autores em explorar o limite do cânone científico, traduzindo em lingua-gem leiga, as experiências cotidianas e os processos contemporâneos, que desperta a suspeita dos pares e, simultaneamente, a admiração pública. É verdade que, como notam Lash e Urry, Beck e Giddens corporificam, no conjunto de sua obra, dois tipos muito distintos de sociólogos: Beck é em parte um ensaísta e em parte um sociólogo das instituições
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Costa, S. (2004). Quase crítica: insuficiências da sociologia da modernização reflexiva. Tempo Social, 16(2), 73–100. https://doi.org/10.1590/s0103-20702004000200004
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