Abstract
A Psicologia é apresentada despida de suas pendências naturalizantes. O ser humano é visto como aquele que cria a história ao invés de sofrê-la passivamente. O artigo recoloca, seriamente, a Psicologia como participante do elenco das ciências sociais. Vários estudos têm sido apresentados sobre a formação do psicológico. Pretendemos aqui, acrescentar a essa discussão um aspecto pouco abordado: a visão sobre o fenômeno psicológico e sobre o homem que tem embasado nossas propostas de formação. É importante explicitar algumas referências teórica básicas que guiam nossa reflexão e que guiam aqui nossa visão sobre a formação: a concepção sócio-histórica em Psicologia, que, resumidamente, está fundada em cinco pontos básicos: 1. Não existe a natureza humana: o homem tem sido pensado, na Filosofia e em várias ciências, a partir da idéia de Natureza Humana concebida como uma essência universal e abstrata, o que o caracteriza desde sua origem. É a forma humana do Absoluto. Nestas concepções há sempre um homem apriorístico dentro do homem; há um homem que se atualizará, que se realizará, se as condições adequadas forem dadas. Há uma natureza em cada homem, natureza esta que o faz homem e que determina suas possibilidades. Para nós, essa idéia de natureza humana tem um caráter ideológico, pois camufla a determinação social do homem, pensando-o de forma descolada de sua realidade social, realidade essa que o constitui e lhe dá sentido. O homem e todo pensamento teórico e sistemático sobre ele tem origem na realidade social. No entanto, o resultado que temos nas ciências é uma idéia de homem como autônomo, como uma entidade, dotado de uma essência que o caracterfza como homem. A realidade social passa a ser pensada como o local onde essa essência se desenvolve, atualiza-se, dasabrocha e realiza-se. Toda a determinação social do homem fica oculta sob essas idéias e conceitos, que se tornam representações ilusórias. 2. Existe a condição humana: A condição humana estaria dada por dois elementos: o homem constrói as formas de satisfação de suas necessidades e faz isso com os outros homens. A idéia de condição humana é fundamental para darmos o salto da concepção naturalista do homem para uma concepção sócio-histórica. Na idéia de condição humana, nada no homem está aprioristicamente concebido. Não há nada em termos de habilidade, faculdade, valores, aptidões ou tendências que nasçam com o ser humano. As condições biológicas hereditárias do homem são a sustentação de um desenvolvimento sócio-histórico, que lhe imprimirá possibilidades, habilidades, valores, aptidões e tendências historicamente conquistadas pela humanidade e que se encontram condensadas nas formas culturais desenvolvi-das pelos homens em sociedade. 3.O homem é um ser ativo, social e histórico: O homem produz sua sobrevivência com os outros homens. A relação do homem com a natureza, através de suas atividades, e a relação com os outros homens constituem o ser humano. Como essa atividade sobre o mundo é um processo histórico, pois os homens vão construindo novas formas de satisfação de suas necessidades e vão também construindo novas necessidades, há um permanente movimento e um permanente processar do homem. 4. O homem é criado pelo homem: Não há natureza humana pronta. Não há aptidões. A única aptidão do homem é poder desenvolver várias aptidões. E o desenvolvimento do indivíduo se dá através do contato com a cultura e com os outros homens. Os objetos da cultura materializam a história e cristalizam as aptidões desenvolvidas pela humanidade no decorrer de sua história. O indivíduo, ao entra em contato com esses objetos, "descongela" essas aptidões e adquire as habilidades necessárias a sua sobrevivência na cultura humana. O homem se constitui e aprende a ser homem. O indivíduo, ao adquirir as condições para sobreviver, adquire também uma visão de mundo, adquire um conjunto de significados, pois essa relação do homem com a cultura, mediada que está pelos outros homens, tem como elemento mediador fundamental a linguagem. No conjunto das relações sociais, mediadas pela linguagem, o indivíduo vai desenvolvendo sua consciência. Com o desenvolvimento da consciência, o homem sabe seu mundo, sabe-se no mundo, antecede as coisas do seu mundo, partilha-as com os outros, troca, constrói e reproduz significados. Quando atua sobre o mundo, relacionando-se, apropria-se da cultura e adquire linguagem; apropria-se dos significados e constrói um sentido pessoal para suas vivências. Tem, assim, todas as condições para atuar com os outros, criar cultura e elaborar significados. O homem, se faz homem ao mesmo tempo que constrói seu mundo. 5.O homem concreto é objeto da Psicologia: A Psicologia deve buscar compreender o indivíduo a partir da inserção desse homem na sociedade. O indivíduo só pode ser realmente compreendido em sua singularidade, quando inserido na totalidade social e histórica que o determina e dá sentido a sua singularidade. A Psicologia não tem trabalhado assim. Tem descolado o homem dessa totalidade que o determina, estudando-o de forma isolada. Com esse procedimento, a Psicologia tem naturalizado o homem e o psiquismo acaba sendo tomado como algo já existente no homem, que se realiza, desabrocha, atualiza-se; o psiquismo é tomado como um a prior no homem. A realidade social
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Bock, A. M. B. (1997). Formação do psicólogo: um debate a partir do significado do fenômeno psicológico. Psicologia: Ciência e Profissão, 17(2), 37–42. https://doi.org/10.1590/s1414-98931997000200006
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