Michael Faraday e o manuscrito Matter: uma solução metafísica para o problema da ação a distância

  • Dion S
N/ACitations
Citations of this article
4Readers
Mendeley users who have this article in their library.

Abstract

O texto aqui traduzido, intitulado simplesmente Matéria, revela um Faraday muito pouco conhecido. É notório que Michael Faraday (1791-1867) fez grandes contribuições para a ciência do eletromagnetismo; dentre elas, duas merecem destaque: a descoberta ex-perimental da indução eletromagnética e a elaboração teórica do conceito de linhas de força, alternativa à explicação (de perspectiva newtoniana) baseada na ação a distân-cia; alternativa teórica que se tornou o germe para o desenvolvimento da visão moder-na do eletromagnetismo, fundamentada na teoria do campo. A obra Experimental researches in electricity (Pesquisas experimentais em eletricida-de), publicada por Faraday em 1839, é um compêndio de ciência eminentemente expe-rimental, no qual o autor apresenta, com um detalhamento minucioso, suas pesquisas experimentais. Essa precisão no campo experimental contrasta com as reflexões teó-ricas, que não são fáceis de expor, pois não se encontram explicitamente formuladas, de modo que a interpretação das teses teóricas depende de uma ampla contextualiza-ção. A essa dificuldade agrega-se outra decorrente do fato de que suas posições sofre-ram transformações ao longo de sua carreira; o que é natural, pois a própria ciência com a qual trabalhava estava sendo simultaneamente elaborada. Na época de Faraday (a primeira metade do século xix), a física de Newton, especialmente aquela desenvol-vida pelos físicos e matemáticos posteriores, havia erigido uma demarcação, definin-do claramente o tipo de questão a ser respondida pela ciência e aquele que deveria ser remetido à metafísica. Dessa forma, enquanto a descrição da ação gravitacional era considerada como perfeitamente estabelecida, a procura de suas razões não fazia parte do trabalho científico, sendo amplamente relegada à metafísica. No entanto, embora a mecânica newtoniana já estivesse plenamente desenvol-vida, a tentativa de transposição desse referencial para outros domínios da física colo-cava novos problemas e desafios; as descobertas experimentais nas áreas da eletrici-dade e do eletromagnetismo exigiam um tratamento teórico; em particular, a descoberta scientiae zudia, São Paulo, v. 4, n. 4, p. 615-20, 2006 documentos científicos 615 Sonia Maria Dion scientiae zudia, São Paulo, v. 4, n. 4, p. 615-20, 2006 616 de Faraday levantava a questão da transmissão da indução eletromagnética seja entre os objetos macroscópicos, seja microscopicamente no interior da matéria. É nesse con-texto que Faraday, um físico de linhagem experimental, passa a preocupar-se com o problema teórico da explicação: Penso que não podemos ir muito adiante na investigação das leis da eletricidade sem um entendimento mais profundo de sua natureza (Faraday, 1952, 1162, p. 440). Pensando inicialmente na indução eletrostática, ele dirige sua atenção para o problema de " como " as forças elétricas são transmitidas através do espaço e entre as partículas de matéria, questão que, do ponto de vista gravitacional, já não se colocava mais, pois havia, de certo modo, sido esgotada pela discussão kantiana das bases meta-físicas da mecânica newtoniana. Faraday, que tinha uma visão física da natureza dos fenômenos elétricos e magnéticos, colocava a gravitação numa categoria à parte, e con-siderava que ela estava satisfatoriamente explicada a partir da noção de ação a distância. Quanto aos fenômenos elétricos e magnéticos, recusava-se a aceitar a ação a distân-cia como forma de transmissão, postulando, pelo menos no início de suas investiga-ções teóricas, a necessidade da presença de algum tipo de matéria no espaço interve-niente entre os dois corpos ou entre as duas partículas de matéria. Faraday pensava a matéria como sendo composta de partículas. Em sua tentativa de explicação inicial, a matéria, quando submetida à indução eletromagnética, tinha suas partículas polarizadas, assumindo partes negativas e positivas, que se reorganiza-vam num estado não natural, forçado; era nessa reorganização que se transmitia a ação. Percebe-se que é necessário, nesse modelo, que as partículas de matéria tenham, de alguma forma, contato ou sejam " contíguas " . O modelo exige a existência de um meio contínuo onde se possa exercer a ação eletromagnética mediante a reorganização das partes contíguas. No entanto, essa concepção conduziu rapidamente a uma dificuldade envolvendo a noção de contigüidade: quão próximos deveriam estar dois átomos para serem considerados como " contíguos " ? A resposta de Faraday consiste em apresentar uma caracterização vaga de contigüidade atômica: Por partículas contíguas quero referir-me àquelas que estão próximas umas das outras, não que não haja nenhum espaço entre elas (Faraday, 1952, nota ao 1665, p. 552; grifo do autor).

Cite

CITATION STYLE

APA

Dion, S. M. (2006). Michael Faraday e o manuscrito Matter: uma solução metafísica para o problema da ação a distância. Scientia Agricola, 4(4). https://doi.org/10.1590/s1678-31662006000400005

Register to see more suggestions

Mendeley helps you to discover research relevant for your work.

Already have an account?

Save time finding and organizing research with Mendeley

Sign up for free