Abstract
"Grande parte dos livros que se publicam nos paí-ses dosenvolvidos sôbr« os problemee dos países sub-desenvolvidos são superficiais e completamente ina-plicáveis." -GUNNAR MYRDAL A frase de GUNNARMYRDAL que transcrevemos acima diz respeito aos trabalhos dos economistas dos países indus-trializados sôbre o desenvolvimento econômico dos países subdesenvolvidos. Portanto, segundo MYRDAL, a teoria do desenvolvimento, que especialmente a partir da Segunda Guerra Mundial, vem sendo formulada, pouco valor tem, porque é superficial e inaplicável. Sem a menor sombra de dúvida, o grande economista sueco tem razão. Entretan-to, neste artigo, nosso objetivo principal não é fazer a crítica dessa teoria do desenvolvimento. Ainda que con-traditória, imprecisa, são-sistemática, desadaptada, eiva-da de juízo de valor não confessado é ela uma esperança, um caminho para a formulação de uma ciência econô-mica efetivamente adequada aos países subdesenvolvidos. Pretendemos com êste trabalho apresentar uma crítica preliminar ao próprio cerne da teoria econômica dos países desenvolvidos -uma crítica da micro e da macroecono-mia -na medida em que também se pretende aplicá-la aos países subdesenvolvidos. E com vistas a êsse objetivo, a afirmação de MYRDALé preciosa. Se a teoria do desenvolvimento, que vem sendo formulada pelos economistas dos países desenvolvidos, é inaplicável, o que dizer da teoria econômica básica, da micro e da macroeconomia? Naturalmente, será ela tam-bém inaplicável por redobradas razões. Isto que parece tão evidente face a esta rápida análise, não o é para um grande número de economistas dos países subdesenvolvidos. A prova do que afirmamos é o simples exame dos currículos e programas das Escolas de Economia e de Administração de Emprêsas no Brasil. Nas boas eSC'O-las há um domínio dos programas pela análise econômica desenvolvida, pela teoria' marginalista marshalliana e pela macroeconomia keynesiana. Quanto às más escolas, nem a êsse estágio ainda conseguiram chegar. Estão na fase da economia conceitual, que se compraz e limita a definições; da economia descritiva, muitas vêzes, reduzida a uma po-bre geografia econômica, e da história das doutrinas eco-nômicas. Não nos interessa aqui o caso das Escolas de Economia e Administração de segunda categoria. Signifi-cativo é que o ensino da análise econômica desenvolvida constitui-se um sinal distintivo das melhores escolas do país. Muito mais grave do que isto, porém, é o fato de ser a po-lítica econômica dos governos da maioria dos países sub-desenvolvidos freqüentemente ineficiente e mesmo preju-dicial aos respectivos países. Isto ocorre, geralmente, por-que êsses governos procuram aplicar a teoria econômica ortodoxa. A teoria econômica dos países capitalistas, em suas economias subdesenvolvidas. É conhecido, por exem-plo, o imenso prejuízo que a aplicação da teoria do comér-cio internacional causou aos países subdesenvolvidos. No Brasil, enquanto nossos governos, até o fim da Primeira República, acreditaram nessa teoria e a aplicaram, o Brasil não teve condições de desenvolver-se industrialmente. Atualmente, em problemas como o combate à inflação, o tratamento a ser dado a capitais estrangeiros, o sistema de planejamento econômico etc., geram enormes dificul-dades para os países subdesenvolvidos quando os mesmos tentam aplicar de forma ortodoxa a teoria econômica dos desenvolvidos.
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Pereira, L. C. B. (1967). A teoria econômica e os países subdesenvolvidos. Revista de Administração de Empresas, 7(24), 15–40. https://doi.org/10.1590/s0034-75901967000300001
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