Notas introdutórias ao pragmatismo clássico

  • Kinouchi R
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Abstract

A palavra pragmatismo é um daqueles termos filosóficos polissêmicos, para os quais o primeiro passo na análise costuma ser o levantamento de sua origem etimológica. Re-correndo à etimologia, aprendemos que o termo vem do grego prámatiké, significando " conjunto de regras ou fórmulas que regulam as cerimônias oficiais ou religiosas " (Weiszflog, 1998, p. 1679). Então o pragmatismo filosófico, originalmente, deveria ser entendido como a consideração das questões filosóficas a partir de determinadas re-gras ou fórmulas reguladoras. Não obstante, há outro significado segundo o qual essa doutrina consistiria na " consideração das coisas a partir de um ponto de vista prático " (Weiszflog, 1998, p. 1679). Nesse sentido, um indivíduo pragmático é aquele que não se prende de antemão a princípios ideológicos ou fundamentações metafísicas, mas sim lida com as questões tendo em vista suas conseqüências práticas. Essas duas defi-nições, conquanto não sejam mutuamente excludentes, acabam informando duas vi-sões diferentes de filosofia: uma mais normativa e outra mais utilitária. Aqui nosso trabalho consistirá, em sua maior parte, em contrastar as concepções filosóficas dos fundadores do pragmatismo — a saber, Charles Sanders Peirce, William James e John Dewey — tendo em vista pôr em evidência suas diferenças mais significativas. Todavia, existe um ponto que justifica dizer que há uma base comum a todos eles. O pragmatis-mo pode ser sucintamente entendido como sendo, de certo modo, um expediente — que por sua vez significa um " meio de sair de um embaraço, de vencer uma dificuldade, de lograr bom êxito em alguma coisa " (Weiszflog, 1998, p. 922). Por um lado, o expedien-te certamente tem sua utilidade prática; e, por outro, trata-se de uma regra ou de uma fórmula para lidar com questões que demandam uma solução. No final das contas, um expediente transmite a idéia de um método para abordar os problemas. Desse modo, para apreendermos o sentido completo da palavra pragmatismo, temos sim que consi-derar o papel da utilidade prática, mas não podemos esquecer que o pragmatismo se coloca, antes de tudo, como uma questão de método. Comecemos por explicitar o pragmatismo em sua formulação original. Sem meias pa-lavras, o pragmatismo nasce como uma teoria relativa ao modus operandi da ciência, pois se refere essencialmente ao auxílio prestado por certas fórmulas ou regras na prá-tica científica. De fato, a primeira aparição do pragmatismo em forma escrita, embora o termo não tenha sido empregado, acontece em uma série de seis ensaios coletiva-mente intitulados de Ilustrações da lógica da ciência. A propósito, se examinarmos a trajetória intelectual de Peirce, veremos que a maior parte de sua vida foi dedicada a questões ligadas à ciência, tanto no campo teórico como no experimental. No campo teórico, ele investigava questões principalmente ligadas à matemática e à lógica. No que tange à experimentação, Peirce indica que praticamente " morou em um laborató-rio desde a idade de seis anos até bem depois da maturidade e, tendo toda uma vida relacionada com experimentalistas, sempre teve a sensação de compreendê-los e de ser por eles compreendido " (Peirce, 2000b [1905], p. 282). Cabe remarcar que Peirce não foi apenas um filósofo bem informado em ciência. Ele foi realmente um pesquisa-dor profissional e, com efeito, para ele o método científico oferece a maneira mais apropriada de raciocinar. Conforme assinalam alguns críticos: " Quando vista como um todo, a filosofia de Peirce pode ser caracterizada de diferentes maneiras, mas, seja como for, deve dizer-se que é uma filosofia científica " (Houser & Kloesel, 1992, p. xxxiv). Pois bem, tratar-se-ia então de alguma variante daquilo que usualmente chamamos de positivismo? Não exatamente, pois o positivismo, em linhas gerais, sustenta que somente a ciência teria importância crucial; a metafísica seria um mero palavrório sem sentido que de-veria ser o quanto antes eliminado. Peirce, por sua vez, enquanto nutre uma alta esti-ma pela ciência, não propõe o abandono da metafísica, mas antes sua reformulação, por meio da utilização do método científico. Isso é o que ele chama de " prope-positi-vismo " — onde o prefixo prope significa algo como largo, amplo — isto é, um tipo de positivismo não sectário que, ao invés de repudiar o que é inobservável, diga-se a me-tafísica como um todo, procura lançar as luzes da ciência sobre ela, para esclarecê-la: Na minha opinião, a atual condição infantil da filosofia [...] é devido ao fato de que durante este século [xix] ela foi principalmente alvo da dedicação de homens que não se educaram em laboratórios e salas de dissecção e, conseqüentemente, não foram estimulados pelo verdadeiro Eros científico (Peirce, 1998 [1898], p. 29).

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Kinouchi, R. R. (2007). Notas introdutórias ao pragmatismo clássico. Sba: Controle & Automação Sociedade Brasileira de Automatica, 5(2). https://doi.org/10.1590/s1678-31662007000200005

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