Abstract
Eu nunca teria sido o sociólogo em que me converti sem o meu passado e sem a socialização pré e extra-escolar que recebi através das duras lições da vida. Para o bem e para o mal-sem invocar-se a questão do ressentimento, que a crítica conser-vadora lançou contra mim-a minha formação acadêmica superpôs-se a uma formação humana que ela não conseguiu distorcer nem esteri-lizar. Portanto, ainda que isso pareça pouco ortodoxo e antiintelectua-lista, afirmo que iniciei a minha aprendizagem sociológica aos seis anos, quando precisei ganhar a vida como se fosse um adulto e penetrei, pelas vias da experiência concreta, no conhecimento do que é a convivência humana e a sociedade em uma cidade na qual não prevalecia a ordem das bicadas, mas a relação de presa, pela qual o homem se alimentava do homem, do mesmo modo que o tubarão come a sardinha ou o gavião devora os animais de pequeno porte. A criança estava perdida nesse mundo hostil e tinha de voltar-se para dentro de si mesma para procurar nas técnicas do corpo e nos ardis dos fracos os meios de autodefesa para a sobrevivência. Eu não estava sozinho. Havia a minha mãe. Porém a soma de duas fraquezas não compõe uma força. Éramos varridos pela tempestade da vida e o que nos salvou foi o nosso orgulho selvagem, que deitava raízes na concepção agreste do mundo rústico, imperante nas pequenas aldeias do norte de Portugal, onde as pessoas se mediam com o lobo e se defendiam a pau do animal ou de outro ser humano. Há pouco interesse em descrever a variedade de ocupações a que precisei dedicar-me ou as venturas e desventuras que pontilharam uma infância e uma adolescência tão marcadas pela necessidade de ganhar a vida, de buscar no trabalho-por vezes humilhante e degradante-um A autobiografía intelectual de Florestan Fernandes pareceu à Editoria a sondagem mais funda que já se fez no sentido de compreender os fatos e os valores que marcaram a fase de solidificação dos cursos de Ciências Sociais na antiga Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras. Dela transcrevemos alguns passos, mas convidamos o leitor a conhecê-la na íntegra. O texto foi extraído de: Florestan Fernandes-A Sociologia no Brasil, 2ª ed., Petrópolis, Vozes, 1980, p. 142-179.
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Fernandes, F. (1994). Ciências Sociais: na ótica do intelectual militante. Estudos Avançados, 8(22), 123–138. https://doi.org/10.1590/s0103-40141994000300011
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