A geração superficial: o que a internet está fazendo com os nossos cérebros

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NOTAS SOBRE LIVROS BOOKNOTES A geração superficial: o que a internet está fazendo com os nossos cérebros Acir Mario Karwoski (Universidade Federal do Triângulo Mineiro - UFTM). E-mail: acirmario@letras.uftm.edu.br Carr, Nicholas. A geração superficial: o que a internet está fazendo com os nossos cérebros. Tradução de Mônica Gagliotti Fortunato Friaça. Rio de Janeiro: Agir, 2011. 312 p. ISBN 978-85-220-1005-9 Vi o livro numa livraria no aeroporto em São Paulo. O preço: R$ 49,90. Sistema de pagamento com cartões fora do ar! Interessado pelo título e após ter lido a contracapa, não resisti! Resolvi comprar e pagar com uma nota de R$ 50,00. O caixa, evidenciando não confiar em sua memória, digitou numa calculadora. Hesitou. Precisou de um tempo e de duas rápidas olhadas na calculadora para me entregar o troco de R$ 0,10. A ação de confiar o cálculo a uma máquina chamou minha atenção. Imediatamente comecei a indagar o que faz com que um jovem atendente dependa da calculadora para formalizar uma transação comercial? Hábito? Dependência... O cálculo não era complexo! Será que o jovem atendente não estaria demonstrando sintomas do que Carr chama no livro A geração superficial: o que a internet está fazendo com os nossos cérebros de "sobrecarga da informação?" (p. 26) O livro foi traduzido para o português por Mônica Gagliotti Fortunato Friaça. Best seller nos Estados Unidos em 2011, "The shallows: what the internet is doing to our brains" foi escrito por Nicholas G. Carr, mestre em língua e literatura americana formado pela Universidade de Harvard. O autor atuou em importantes jornais tais como The Guardian, The Atlantic, The New York Times, The Wall Street Journal e o The Financial Times, dentre outros. Foi editor do Harvard Business Review. Escreve sobre economia, cultura e tecnologia. Seu artigo mais divulgado é "Is Google Making Us Stupid?". Os seis primeiros capítulos formam um excelente ensaio a respeito da história da leitura no mundo ocidental. Embasado em boas leituras clássicas e científicas, o texto permite ao leitor viajar pela história da escrita. Discute com propriedade os assuntos relacionados à memória e ao cérebro. Reconstitui a trajetória do surgimento do relógio, do livro, das tecnologias utilizadas para a leitura. Segundo Carr, "toda tecnologia intelectual incorpora uma ética intelectual, um conjunto de suposições sobre como a mente humana funciona ou deveria funcionar. (...) É a ética intelectual de uma invenção que tem o efeito mais profundo sobre nós. A ética intelectual é a mensagem que um meio ou outro instrumento transmite às mentes e cultura de seus usuários." (p. 71). O autor defende a importância da leitura profunda contida nas páginas dos livros impressos. "Uma longa sequência de páginas reunidas dentro de duas capas duras revelou ser uma tecnologia extraordinariamente robusta, permanecendo útil e popular por mais de meio milênio." (p. 141) O capítulo 6 é destinado à reflexão a respeito da leitura impressa e em ambiente digital. Segundo Carr, "tão logo injetamos em um livro links e o conectamos à web - tão logo o 'estendemos' e o 'intensificamos' e o tornamos mais 'dinâmico' - mudamos o que ele é e também mudamos a experiência de lê-lo. Um e-book não é um livro, da mesma forma que um jornal on-line não é um jornal." (p. 146). Os capítulos seguintes, do sétimo ao décimo, apresentam informações acerca de pesquisas sobre o cérebro, a memória, o excesso de informações, a web e a tecnologia dos hipertextos. Segundo o autor, "a divisão da atenção exigida pela multimídia estressa ainda mais nossas capacidades cognitivas, diminuindo nossa aprendizagem e enfraquecendo a nossa compreensão. Quando se trata de suprir a mente com a matéria-prima do pensamento, mais pode ser menos." (p. 180). E polemiza: o que a net apequena é a fonte primária de conhecimento: "a capacidade de saber, em profundidade, um assunto por nós mesmos, e construir, dentro das nossas próprias mentes, o conjunto rico e idiossincrático de conexões que dão origem a uma inteligência singular." (p. 198) Para encerrar essa nota e deixar o leitor motivado a tirar suas próprias conclusões transcrevo uma passagem: "A ironia do esforço da Google para trazer maior eficiência à leitura é que ele solapa o tipo de eficiência muito diferente que a tecnologia do livro trouxe à leitura - e às nossas mentes - em primeiro lugar. Ao nos libertar da luta para decodificar o texto rapidamente - lemos, se é que lemos, mais rápido do que nunca -, mas não mais somos levados a uma compreensão profunda, construída pessoalmente, das conotações do texto. Em vez disso, somos apressados para ir adiante até um outro pedaço de informação relacionada, e outra, e outra. O garimpo superficial do 'conteúdo relevante' substitui a lenta escavação do significado." (p. 227) Guardar informação na própria cabeça parece cada vez menos essencial. Voltei a me lembrar do atendente da livraria e sua calculadora! Se o sistema de cartões estivesse funcionando, a calculadora seria deixada de lado; ela tem memória artificial. "Memória biológica é viva. Memória computacional, não." (p. 260). Como diz Carr: "é difícil resistir às seduções da tecnologia, e na nossa era de informação instantânea, os benefícios da velocidade e da eficiência parecem ser genuínos, e seu desejo, indiscutível." (p. 304). O livro destina-se a pessoas interessadas na influência da tecnologia nos hábitos de leitura e de escrita em ambientes digitais - letramentos múltiplos e multimodalidade.

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Karwoski, A. M. (2012). A geração superficial: o que a internet está fazendo com os nossos cérebros. DELTA: Documentação de Estudos Em Lingüística Teórica e Aplicada, 28(1), 177–179. https://doi.org/10.1590/s0102-44502012000100010

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