A materialidade e o social

  • Thomas J
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Abstract

Pode-se argumentar que sobre nossa disci­ plina pesa uma maneira de pensar que é típica da modernidade e que podemos caracterizar como "cartesianismo". Sugiro que isso realmente im­ pede nosso entendimento da cultura material do passado pré-moderno. Mas, ao mesmo tempo, estou consciente da ironia de que a Arqueologia é, ela própria, um produto da era moderna. Foi o de­ senvolvimento paralelo do tempo de trabalho line­ ar e mercadificado e do estado nacional que esti­ mulou um interesse nas origens de determinados povos e nações (p. ex. Trigger 1989). Contudo, não pretendo argumentar que havia um ponto específi­ co a partir do qual o mundo ocidental "tomou-se moderno" Antes, sugiro que a modernidade re­ presenta um relacionamento particular entre as pes­ soas e seu mundo que ganhou coerência após um longo período (Foucault 1984). Como argumenta Bruno Latour, um dos ele­ mentos característicos no pensamento moderno tem sido a separação ou segmentação dos elemen­ tos ricos e complexos que compõem o mundo em categorias distintas e limitadas. E o entendimen­ to é que as coisas que nos cercam dividem-se, naturalmente, em classes, que são descobertas pela Ciência, mais do que criadas pelo discurso. À medida que a extensão de categorias discursi­ vas se multiplicou, novos campos analíticos fo­ ram gerados e a Arqueologia foi um destes. Com sua prática de desvendar o passado escondido e retirar camadas de detritos a fim de revelar mais antigas e profundas realidades, a Arqueologia fornece o paradigma perfeito para o pensamen­ to moderno. A Lingüística estrutural, em sua bus­ (*) Traduzido por A lin e Vieira de Carvalho, Patrícia Dalcanale M eneses, Silvana Santiago e Cauê Uchôa Sa­ raiva e revisado por Pedro Paulo A. Funari. Versão final de Maria Isabel D 'A gostino Fleming. (* *) Departam ento de A rq u eologia, U niversidade de Southam pton, Grã-Bretanha. ca de geradores profundos de linguagem, ou psi-coanálises freudianas, identificando a camada sedimentada da personalidade, ambas confiaram na metáfora da Arqueologia em estabelecer uma separação entre superfície e profundidade. Há a impressão de que, como meio de ganhar um co­ nhecimento do passado, a Arqueologia tem um modelo de profundidade e superfície, ou de uma verdade antiga que necessita ser recuperada de uma ruína contem porânea, escrito desde sua constituição. Quero defender a idéia de que a revolução cien­ tífica e o Iluminismo não descobriram tanto a or­ dem da natureza quanto a construíram, e que, por conseqüência, o pensamento moderno esteve envolvido em um processo geral de alienação. Essa não é, simplesmente, a alienação dos trabalha­ dores de seus produtos, mas dos seres humanos do mundo das coisas materiais. A esse respeito, o trabalho etnográfico recente tem sido muito instrutivo em demonstrar os meios nos quais modos de pensar não ocidentais enfatizam o cará­ ter relacionai da existência (p. ex. Strathem 1988). Assim que pudermos dividir o mundo em cate­ gorias conexas de coisas, muitos dos relaciona­ mentos nos quais se encontram as pessoas esta­ rão rompidos, ou ao menos obscurecidos. Dessa forma, as pessoas poderão surgir como unida­ des auto-suficientes e internamente motivadas e "seu ambiente" poderá ser reduzido a uma sé­ rie de caixas em um diagrama de blocos. Apresen­ tadas como entidades separadas, coisas ou uni­ dades podem ser valorizadas uma em relação a outra (Jordanova 1989). Uma entidade pode ser suposta mais sólida que a outra, ou estar subja­ cente a outra, ou, ainda, dar origem a outra, ou ser mais fundamental que outra. Esse é o princípio que nos dá a lógica da base econômica e da supe-restrutura cultural, o eu inconsciente e consci­ ente, essência e substância, autenticidade e su­ perficialidade. E muito interessante que, nesse modo de pensar, podemos, igualmente bem, ar-15

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Thomas, J. (1999). A materialidade e o social. Revista Do Museu de Arqueologia e Etnologia. Suplemento, (supl.3), 15. https://doi.org/10.11606/issn.2594-5939.revmaesupl.1999.113454

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