A moradia

  • Kropotkin P
  • Rizek C
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3 2[2006 revista de pesquisa em arquitetura e urbanismo programa de pós-graduação do departamento de arquitetura e urbanismo eesc-usp r sco referência I queles que acompanham com atenção as transformações espirituais dos trabalhadores, certamente observaram que um acordo se estabeleceu, sorrateiramente, a respeito de uma importante questão: a questão da habitação. Um fato é certo: tanto nas grandes quanto em várias pequenas cidades da França, os trabalhadores, pouco a pouco, concluem que as moradias habitadas não podem ser, em absoluto, de propriedade daqueles que são reconhecidos pelo Estado como seus proprietários. Trata-se de uma evolução que se completa nos espíritos, de forma que não será mais possível levar o povo a acreditar que o direito de propriedade das moradias é justo. A moradia não foi construída pelos proprietários; foi construída, decorada, coberta por papéis de parede, por centenas de trabalhadores que a fome empurrou para os canteiros de obras e que foram compelidos a aceitar um salário diminuto pelas necessidades de sobrevivência. O dinheiro gasto pelo pretenso proprietário não é um produto de seu próprio trabalho. Ele o acumulou, assim como se acumulam todas as riquezas, pagando aos trabalhadores dois terços ou apenas a metade daquilo que lhes era devido. Enfim, a moradia adquire seu valor atual graças ao lucro-e é sobretudo aqui que a enormidade salta aos olhos-que o proprietário consegue extrair dela. Ora, este lucro é resultante das circunstâncias relativas ao fato de que a moradia foi construída em uma cidade pavimentada, iluminada a gás, em comunicação regular com outras cidades, que reúne no seu interior estabelecimentos industriais, de comércio, ciência e arte; ao fato de que esta cidade está equipada com pontes, estações, monumentos de arquitetura que oferecem ao habitante mil elementos de conforto e mil prazeres desconhecidos nas aldeias; pelo menos vinte, trinta gerações trabalharam para tornar a cidade habitável, para saneá-la e embelezá-la. O valor de uma moradia em certos bairros de Paris é milionário, não porque ela contenha milhões em trabalho em suas paredes, mas porque ela está em Paris; porque depois de séculos, os operários, os artistas, os pensadores, os estudiosos e literatos contribuíram para fazer de Paris o que ela é hoje em dia: um centro industrial, comercial, político, artístico e científico; porque ela tem um passado; porque , graças à literatura, suas ruas são conhecidas, tanto no interior da França como nos países estrangeiros; porque ela é o produto do trabalho de dezoito séculos, de cinqüenta gerações de toda a nação francesa. Assim, quem tem o direito de se apropriar da mais ínfima parte desse terreno ou da última de suas construções, sem cometer uma injustiça gritante? Quem, portanto, tem o direito de vender a quem quer que seja a menor parcela desse patrimônio comum? Afirmamos que, a esse respeito, estabeleceu-se um acordo entre os trabalhadores. A idéia da moradia gratuita se manifestou durante a ocupação de Paris,

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Kropotkin, P., & Rizek, C. S. (2006). A moradia. Risco: Revista de Pesquisa Em Arquitetura e Urbanismo (Online), 0(3), 105. https://doi.org/10.11606/issn.1984-4506.v0i3p105-109

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