Abstract
A complexidade dos problemas que caracterizam o processo de articular cuidados de saúde impõe uma perspectiva de análise do sistema de saúde radicalmente diferente daquela que é utilizada habitualmente. Neste sentido, optou-se pela realização de um estudo de caso que permitiu uma leitura em profundidade das representações e das práticas que tecem a densa malha social dos processos que os profissionais e os doentes protagonizam para conseguir atingir objectivos e desenvolver estratégias que maleabilizam o sistema de saúde à integração da diversidade das suas culturas. Assim, foram colocados frente a frente uma comunidade com os seus recursos globais e um sistema com as suas instituições legitimadas, como duas ordens sociais igualmente complexas e com fundamentos culturais igualmente diversos. Este estudo permitiu determinar a equação fundamental da resistência do sistema de saúde aos processos de mudança, emergentes nas trajectórias sociais definidas pelos indivíduos nos consumos de saúde e que se vão pronunciando ao longo da análise das representações dos profissionais sobre os cuidados de saúde e nas posições por eles tomadas face à articulação dos cuidados. A construção das representações dos saberes dos doentes e das formas sociais que adquirem no seu accionamento constituíram um instrumento analítico, de valor inestimável, para identificar e interpretar as posições tomadas quanto ao seu reconhecimento e legitimidade. O sistema de saúde ganha visibilidade como um sistema global de resistência ao funcionamento dos saberes profanos e à diversidade de estratégias sociais a que estes saberes dão lugar. A complexidade dos problemas que caracterizam o processo de articular cuidados de saúde, no âmbito da organização e do funcionamento do sistema de saúde português, impõe uma perspectiva de análise do sistema de saúde para a qual propomos uma metodologia centrada no estudo de caso. Este estudo foi realizado numa comunidade localizada na área peri-urbana de Coimbra. A principal razão para a escolha desta comunidade foi o facto de dispor de uma unidade de saúde local (a extensão de um centro de saúde de Coimbra) que está muito próxima (a dez quilómetros) da cidade que constitui o pólo da mais alta concentração de recursos de saúde no país em proporção com o número de habitantes. Assim, as escolhas das unidades prestadoras de cuidados de saúde feitas pela população desta comunidade e os percursos de articulação que esta mesma população define, torna este estudo de caso paradigmático para a compreensão das variáveis estruturais,
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Carapinheiro, G. (2001). Inventar percursos, reinventar realidades: doentes, trajectórias sociais e realidades formais. Etnografica, (vol. 5 (2)), 335–358. https://doi.org/10.4000/etnografica.2819
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