O uso do fogo: o manejo indígena e a piromania da monocultura

  • Leonel M
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, a urbanização, como no trabalho de Dean (1998), que embora nada elogioso aos índios, os exime da responsabilidade do crime histórico de lesa floresta. Outra contribuição que vem mostrar a capacidade regene-rativa das alfinetadas indígenas na floresta, é a que encontramos nos estu-dos ecológicos da Amazônia, como nos trabalhos clássicos de Sioli (1990). Acredita-se que os índios teriam como tradição o uso abusivo do fogo, tanto na floresta quanto no cerrado. Que os aborígenes usavam o fogo (e muitos de seus sobreviventes ainda o usam, e até descontroladamente) é mais que seguro. É certo também que a partir da convivência das alianças e laços com os autodenominados civilizados muitos de seus hábitos afrou-xam, independentemente do juízo de valor que se possa fazer deles. Hoje são numerosos os casos de índios envolvidos em garimpos e venda de ma-deira. Que usassem o fogo indiscriminadamente, é o que neste trabalho procuraremos contestar. Nosso argumento é que o uso descontrolado do fogo por todos os neobrasílicos, inclusive europeus, mestiços, caboclos, brancos e africanos resulta das plantations, que passaram a dominar a agri-cultura brasileira a partir da colonização, entre elas o algodão, a cana de açúcar, o café e, mais recentemente, a soja. A certeza disseminada de que os índios, por preguiça ou atraso no domínio de tecnologias, abusem tradicionalmente do fogo, levou um cabo-clo do Amapá a perguntar a especialistas em controle de queimadas por sensoriamento remoto quais seriam as técnicas contemporâneas dos países desenvolvidos que, uma vez introduzidas, pudessem reverter o uso descon-trolado da queimada. A resposta buscada por esse caboclo amazonida esta-va seguramente mais perto dele do que supunha: deveria voltar-se para a cultura indígena, para o legado de seus antepassados. E poderia inclusive ser informado dos esforços frustrados das autoridades coloniais em intro-duzir o arado, o adubo e a poda nas monoculturas de exportação (Dean, 1998; Pádua, 1998). A argumentação aqui desenvolvida não deve (e não pode) ser confun-dida com mais uma tentativa inconseqüente de idealização ou generaliza-ção indesejável sobre a condição indígena. Não é nosso propósito o obscu-rantismo, nem o que diviniza as culturas ditas "naturais", o bon sauvage, nem o racismo que as desfigura. O objetivo único, da ciência e da interdis-ciplinaridade, deve ser o rigor do conhecimento, que fala por si mesmo sem carecer do auxílio de retórica ideológica. Os índios não são todos iguais, eles mudam e interagem e é arriscado generalizar sobre uma tão grande diversidade cultural. Susnik (1982: 19), por exemplo, grande estudiosa dos Guarani, distingue uma corrente neolítica de povoamento, seguida por outra,

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Leonel, M. (2000). O uso do fogo: o manejo indígena e a piromania da monocultura. Estudos Avançados, 14(40), 231–250. https://doi.org/10.1590/s0103-40142000000300019

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