Abstract
Evocar a Geopolítica brasileira faz inevitavelmente pensar – nos meios interessados no tema – nos generais da época da ditadura militar (1964-1985) que, na verdade, se apoiaram muito em argumentos geopolíticos para justificar suas políticas internas e externas. Sem negar o uso muito ideológico da Geopolítica durante este período, devemos, no entanto, colocá-la em perspectiva — os militares deixaram o poder há quase trinta anos — e ter em conta as mudanças no Brasil, que se tornou atualmente um dos grandes "países emergentes", para ver ao mesmo tempo como evoluiu o pensamento geopolítico brasileiro e como a mudança de status do país se reflete -ou não -na visão que os brasileiros têm do mundo que os cerca e o lugar que eles ocupam nesse mundo. Analisaremos, assim, em primeiro lugar, a nova Geopolítica brasileira, que se " civilizou " gradualmente, no sentido próprio do termo, à medida que passava das mãos dos militares para a dos civis, dando atenção especial a dois conjuntos estratégicos para o Brasil, a América do Sul e a Amazônia. Por este prisma e em função da nova situação do Brasil na divisão internacional do trabalho, poderemos então tentar medir o fluxo de relações que daí emanam, ou são conduzidas (analisando suas ligações aéreas e seu comércio exterior), de modo a tentar compreender como o mundo é visto do Brasil e qual é atualmente o seu lugar no mundo. Uma nova Geopolítica brasileira A evolução do pensamento geopolítico brasileiro e de sua influência direta ou indireta nas questões que chamamos de estratégicas para o desenvolvimento do Brasil desde as primeiras décadas do século passado (soberania nacional, integridade e coesão territoriais, integração das populações indígenas, independência energética) pode ser resumida em três características principais. Em primeiro lugar, como já foi observado no estudo de Costa (1991), a Geopolítica no Brasil foi durante sessenta anos – de 1920 a 1980 -uma atividade quase exclusivamente reservada aos meios militares do aparelho de Estado. Ela refletia, então, em grande parte, a hegemonia do pensamento autoritário e político do Estado e inspirava as políticas de organização interna do território, as políticas territoriais (ocupação da Amazônia, distribuição da população, redução dos desequilíbrios e tensões entre as regiões) e a projeção externa do poder nacional (satelização dos países vizinhos mais fracos, rivalidade com os mais poderosos, sobretudo a Argentina).
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Thiery, H., & Costa, W. M. da. (2016). OITENTA ANOS DE GEOPOLÍTICA NO BRASIL: DA GEOGRAFIA MILITAR A UM PENSAMENTO ESTRATÉGICO NACIONAL. Revista Tamoios, 12(2). https://doi.org/10.12957/tamoios.2016.26780
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