Abstract
Quando recorremos à História e Filosofia da Ciência vemos que a busca pela construção do conhecimento deu-se especialmente por conta de debates e controvérsias e não somente pelo suposto caminho linear e cumulativo da Ciência. Debates e controvérsias que ocorreram em vários episódios históricos, não exclusiva-mente com a religião (como o de Galileu diante da Igreja, por exemplo), mas se estenderam pelo senso comum (quando se fez necessária a revisão das práticas cotidianas, dos preconceitos, do conhecimento tácito, etc.), passaram pela Filosofia (num sentido geral, quando o amar o saber, diante de várias frentes, delegou à Ciência a preocupação com a verdade, caracterizando-a pelo seu sentido realístico, seu viés empírico, técnico, especialista e prático) e chegaram ao próprio interior da (própria) Ciência (ciência x ciência). A Ciência que melhor se desenvolve é aquela que também se volta sobre si mesma, garante a prática de se des-mitificar e se desmistificar permanentemente, inclusive sobre seus próprios postulados e seus apologetas. Por muitas vezes, estes debates, para um pensamento essencialmente positivista, são aceitos até certo ponto, já que ficam limitados ao maniqueísmo de só enxergar os que estão certos contra os que estão errados, entre os que fizeram a pesquisa correta contra os que erraram com os procedimentos, entre os que têm a verdade (episteme) contra os que não a alcançaram. Porém, não é só isso! César Lattes disse que a "História é a mais importante das ciências. [...] Sei que sem história não há realidade objetiva" (SOUZA-BARROS; NUSSENZVEIG; VIEIRA, 1995, p. 21). A partir dele, (especulando só um pouco) é curioso que não seja a Física que lhe dê a realidade objetiva, mas sim tudo aquilo que veio das mulheres e homens que o antecederam (e nos antecederam): o legado, o registro, a interpretação, a pesquisa anterior, a memória, o viés, o recorte, o que se determinou como sendo importante ou não... Assim sendo, a Ciência, apesar de seu viés prático, materialista, não deve se realizar de forma vulgar (no sentido que Marx deu ao Materialismo de Feuerbach), pois seu percurso esteve e está entre as mulheres e homens encarnados, com todos os seus defeitos, preferências, limitações e possibilidades. Desta maneira, o debate não é para aparar arestas, mas deve acon-tecer até para definir caminhos.
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Rôças, G., & Bomfim, A. M. do. (2018). Do embate à construção do conhecimento: a importância do debate científico. Ciência & Educação (Bauru), 24(1), 3–7. https://doi.org/10.1590/1516-731320180010001
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