Abstract
Introdução Considerando a grande complexidade que atravessa os mundos do trabalho no Brasil, entendemos ser necessário que diversos vocábulos frequentemente utilizados (nem sempre com rigor conceitual) tenham aqui uma definição suficientemente clara, de modo que uma análise psicoló-gica do trabalho e as questões aqui tratadas possam avan-çar fora de um terreno movediço e mais ideologizado. No campo das ciências econômicas e jurídico-polí-ticas circulam noções sobre as quais não há consenso. Como exemplo, há intensa polêmica em torno do que se-ria mercado, (des)emprego, (in)formalidade, cuja concei-tuação extrapola a Psicologia. Para nossa análise avançar, registramos a diferenciação entre trabalho e emprego, considerando que este último se define por uma relação jurídica de natureza contratual, regulamentando o vínculo obrigacional de subordinação do empregado ao emprega-dor, contemplando também as obrigações deste frente às imposições da legislação sobre o trabalho no Brasil, que tem como grande marco a promulgação da Consolidação das Leis do Trabalho em 1943 (BRASIL, 1943), diversas vezes modificada desde então e cuja recente modificação defere duros golpes nos direitos dos trabalhadores com as alterações estabelecidas pela (BRASIL, 2017a). Assim, quando no artigo usarmos o vocábulo "emprego", esta-remos considerando exclusivamente o trabalho daqueles que têm este enquadramento jurídico-político. Não obstante, sabemos que os mundos do trabalho no Brasil apresentam um complexo e cinzento cenário, com a presença do que alguns denominam economia "infor-mal", assim como um mercado "informal". Mais grossei-ra é a denominação "emprego informal", que recusamos, como também a de "subemprego", dado que ambas mais escondem que revelam a dura realidade vivida pelos hu-manos em tais situações. Toda formação social, em diferentes conjunturas, apresenta uma polimorfia em suas relações de trabalho. E o que de mais importante consideramos para a análise a ser apresentada é o registro de que a grande maioria dos que trabalham fora do salariato (regime salário-em-prego) está com suas condições de sobrevivência ainda mais profundamente fragilizadas do que aquele que está no sistema. Seja ao se encontrar excluído de seu trabalho habitual, seja ao adoecer. Tal temática já estava presente na obra de Dejours (1992) desde seu início, como encontramos em A lou-cura do trabalho: estudo de psicopatologia do traba-lho, publicado no Brasil em 1987. Neste livro, o autor se interessa pela situação de trabalho, vida e saúde do subproletariado, pessoas que trabalham frequentemente sem vínculo empregatício. Como o presente artigo insere-se em um dossiê de caráter histórico, convém ainda pontuar que este livro, fundamental para a difusão da obra de Dejours em vários países, tem seu título original como "Travail: usure men-tale", lançado na França em 1980, cuja tradução literal para o português seria "Trabalho: desgaste mental". Em-bora não seja público o processo que levou os editores a proporem o título que foi atribuído no Brasil, a alusão Resumo A partir da Psicodinâmica do Trabalho, reflete-se sobre a dinâmica psíquica de trabalhadores afastados do emprego por doença surgida e/ou agravada no trabalho. Entre os conceitos desta abordagem que contribuem para a compreensão do fenômeno desta-cam-se: trabalho e sua relação com a subjetividade, sofrimento, coletivo, e reflexões sobre relações entre rupturas involuntárias da atividade profissional e adoecimento. Aponta-se a urgência da investigação: da relação de modelos gestionários com as formas de adoecimento e afastamento do emprego; da problemática da reabilitação profissional; e das possiblidades de utilização da metodologia desta abordagem para grupos de profissionais oriundos de distintos meios de trabalho. Palavras-chave: trabalho; adoecimento; dinâmica psíquica; psicodinâmica do trabalho. Abstract From the Psychodynamics of Work, it is analyzed the psychic dynamics of workers away from work due to illness arising and/or aggravated at work. Among the concepts of this approach contributing to the understanding of the phenomenon stand out: work and its relation with subjectivity, suffering, collective, and reflections on the relations between involuntary ruptures of professional activity and illness. It urges to investigate: the relation of management models with forms of sickness and absence from work; the problem of professional rehabilitation; and the possibilities of using the methodology of this approach for groups of professionals from different working environments.
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ZAMBRONI-DE-SOUZA, P. C., & MORAES, T. D. (2018). Reflexões sobre a dinâmica psíquica de trabalhadores afastados do trabalho. Fractal: Revista de Psicologia, 30(2), 103–111. https://doi.org/10.22409/1984-0292/v30i2/5866
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