Abstract
Afinal, o que é a democracia racial brasileira? Depois de denunciada como mito (cf. Fernandes, 1965) e transformada, nos anos de 1980, no principal alvo dos ataques do movimento negro, como sendo uma ideologia racista 1 , a " democracia racial " passou na última década a ser objeto de investigação mais sistemática de cientistas sociais e historiadores. A princípio, prevaleceu a compreensão de que se tratava realmente de um mito fundador da nacio-nalidade. Afinal, o Brasil teria sido percebido historicamente como um país onde os brancos tinham uma fraca, ou quase nenhuma, consciência de raça (cf. Freyre, 1933); onde a miscigenação era, desde o período colonial, disse-minada e moralmente consentida; onde os mestiços, desde que bem-educa-dos, seriam regularmente incorporados às elites 2 ; enfim, onde o preconceito racial nunca fora forte o suficiente para criar uma " linha de cor " . Viotti da Costa (1985) fez talvez a mais completa síntese dessa interpretação. Em meados dos anos de 1990, com o recrudescimento dos ataques dos ativistas negros à " democracia racial " e à sua redução a ideologia dominante (e da raça opressora), alguns antropólogos (cf. Maggie, 1996; Fry, 1995-1996; Schwarcz, 1999) lembraram que o mito, antes de ser uma " falsa consciência " , é um conjunto de valores que tem efeitos concretos nas práti-cas dos indivíduos. O mito da democracia racial, portanto, não poderia ser interpretado apenas como " ilusão " , pois em grande medida fora e ainda é um ideário importante para amainar e coibir preconceitos.
Cite
CITATION STYLE
Guimarães, A. S. A. (2006). Depois da democracia racial. Tempo Social, 18(2), 269–287. https://doi.org/10.1590/s0103-20702006000200014
Register to see more suggestions
Mendeley helps you to discover research relevant for your work.