Abstract
Ainda como iniciante na pesquisa etnográfica, tomei conhecimento da memória oral que se relaciona às ilhas de Porto Alegre, através de pesquisa exploratória que seguia a metodologia utilizada pela equipe do BIEV: escolhíamos espaços públicos significativos para o cotidiano da cidade (nesse caso, as ruas à beira do Lago Guaíba nas ilhas), para a realização de gravações em vídeo. Enquanto contemplávamos paisagens da cidade tantas vezes representadas por fotógrafos, pintores, cronistas, novas representações surgiam sobre elas: a voz de moradores, freqüentadores, admiradores de ruas, prédios, beiras de rio e outros tantos lugares da cidade. Tinha início a descoberta de narradores de itinerários de grupos urbanos, dos muitos “começos” das atuais formas da paisagem da cidade. Foi em meio a esse trabalho que nos deparamos com uma memória da cidade de Porto Alegre muito diferente, relacionada às ilhas e águas do Bairro Arquipélago. O Arquipélago é formado por 16 ilhas, circundadas pelas águas dos rios Jacuí, Gravataí, Sinos, Caí e pelo Lago Guaíba. Elas encontram-se à entrada da cidade, à noroeste do centro da capital. No atual contexto urbano-industrial da cidade, as pequenas propriedades rurais na margem das ilhas passaram a dar lugar a grandes residências e clubes náuticos destinados ao lazer de classes economicamente privilegiadas (as chamadas “mansões” das ilhas), enquanto que sua parte mais próxima das pontes e estradas de acesso transformou-se em periferia, vila de classes populares de baixíssima renda. Esse processo de transformação da paisagem do Arquipélago, em meio ao desenvolvimento da Região Metropolitana de Porto Alegre, é narrado de forma muito particular pelos chamados moradores “antigos” das ilhas, que nos contaram suas trajetórias pessoais em meio a um repertório de estórias em que figuras míticas e lendárias eram recorrentes, reconfigurando essa paisagem das ilhas. Colocava-se o desafio de representar no vídeo essa paisagem da cidade, vista das ilhas, a partir das imagens que essas narrativas iam nos revelando. Trabalhando em equipe, sob a direção das antropólogas Ana Luiza Carvalho da Rocha e Cornelia Eckert, iniciei a pesquisa sobre esse tema, junto a esse grupo, e acabei desenvolvendo minha dissertação de mestrado e a minha formação como antropólogo, a partir do duplo lugar de pesquisador e documentarista (gravando e editando em vídeo imagens da pesquisa) que se constituiu sobretudo em ouvinte/narrador das estórias descobertas no trabalho de campo. Nesse artigo, pretendo discutir como questões próprias da produção de um documentário sobre o tema da narrativa oral e da representação da paisagem em vídeo puderam ser recolocadas como um problema de pesquisa e representação da alteridade, como uma etnografia, cujo problema de interpretação é realizado a partir da imagem, e pela imagem. Ao falarem sobre a paisagem do Arquipélago, sobre as ilhas, banhados e canais de navegação, a memória dos narradores trazia outras imagens que transformavam a representação dessa paisagem. Ao invés de tentar inserir os relatos dessas pessoas em um roteiro pré-dado, era preciso mergulhar nessas estórias, ouvi-las muitas vezes, para descobrir uma estrutura e um sentido que não estava oculto, mas expresso na fala dessas pessoas, e que traziam ao seu ouvinte uma outra imagem desse espaço, atravessada pelos muitos tempos que a narrativa revela.
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Devos, R. V. (2005). Etnografia visual e narrativa oral: da fabricação à descoberta da imagem. ILUMINURAS, 6(14). https://doi.org/10.22456/1984-1191.9225
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