“O negro é povo no Brasil”: afirmação da negritude e democracia racial em alberto guerreiro ramos (1948-1955)

  • Campos L
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É possível identificar, no debate público sobre as atuais desigualdades raciais brasileiras, duas estratégias antirracistas fundamentais. Enquanto, de um lado, a afirmação política e identitária da negritude é encarada por alguns atores como forma de denunciar o racismo presente em nossas estruturas e práticas sociais, outros sustentam que o tradicional elogio ao caráter mestiço do povo brasileiro fornece a melhor base para um projeto nacional autenticamente pós-racial. Embora pareçam inconciliáveis, nem sempre essas posturas foram vistas como rivais. O sociólogo baiano Alberto Guerreiro Ramos é um exemplo de pensador do “problema do negro no Brasil” que via a afirmação da negritude como meio para a construção da democracia racial no país. Embora sua adesão a esses dois projetos seja considerada ambígua e incoerente, este artigo sustenta que a afirmação da negritude e o elogio da democracia racial são propostas políticas que ele tentou compatibilizar deliberadamente. Sobretudo entre 1948 e 1955, Guerreiro Ramos defendeu que a assumpção epistemológica e política da negritude seria um meio para expurgar dialeticamente do país a desconectada ideologia da brancura. Somente assim, seríamos capazes de dotar de valor a nossa mestiçagem, reconciliando a tradicional apologia da democracia racial com a constituição concreta do nosso povo.In the public debate on current racial inequality in Brazil, two fundamental anti-racist strategies may be identified. While the political assertion of black awareness is faced by some as a form of denouncing the racism present in our structures and social practices, others argue that the traditional praising of the mixed race character of the Brazilian people supplies the best foundation for an authentically post-racial national project. Although these stances may seem irreconcilable, they were not seen as rivals in the beginning. Brazilian sociologist Alberto Guerreiro Ramos is an example of someone who thinks about the “problem of the black people in Brazil”, which saw the assertion of black identity as a way to build racial democracy in the country. Although his adhesion to those two projects may be considered ambiguous and incoherent, this article argues that the assertion of black identity and the praise of racial democracy are political proposals that he has deliberately tried to harmonize. Especially between 1948 and 1955, Guerreiro Ramos argued that the epistemological and political assumption of black identity would be a way to dialectically expel from the country the unconnected ideology of whiteness. Only this way, we would be capable of giving value to our mixed heritage, reconciling the traditional apology of racial democracy with the concrete constitution of our people.Il est possible d’identifier, dans le débat politique sur les inégalités sociales raciales actuelles brésiliennes, deux stratégies antiracistes fondamentales. Alors que d’un côté l’affirmation politique et identitaire de la négritude est vue par certains acteurs comme le moyen de dénoncer le racisme présent dans nos structures et pratiques sociales, d’autres acteurs soutiennent que l’éloge traditionnel à la caractéristique métisse du peuple brésilien est la meilleure base pour un projet national vraiment post-racial. Bien qu’elles semblent être inconciliables, ces postures n’ont cependant pas toujours été considérées comme étant rivales. Le sociologue bahianais Alberto Guerreiro Ramos est l’exemple d’un penseur du « problème noir au Brésil » qui voyait l’affirmation de la négritude comme moyen de construire la démocratie raciale dans le pays. Même si son adhésion à ces deux projets est considérée ambiguë et incohérente, cet article démontre que l’affirmation de la négritude et l’éloge de la démocratie raciale sont des propositions politiques qu’il a délibérément essayé de rendre compatibles. C’est surtout entre 1948 et 1955 que Guerreiro Ramos affirme que l’assomption épistémologique et politique de la négritude pourrait être le moyen d’éliminer dialectiquement du pays l’idéologie déconnectée de la blancheur. Ce n’est que de cette manière que nous serions capables d’attribuer une valeur à notre métissage en réconciliant l’apologie traditionnelle de la démocratie raciale et la constitution concrète de notre peuple.

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Campos, L. A. (2015). “O negro é povo no Brasil”: afirmação da negritude e democracia racial em alberto guerreiro ramos (1948-1955). Caderno CRH, 28(73), 91–110. https://doi.org/10.1590/s0103-49792015000100007

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