Comunicação, educação e tecnologia: interação

  • Baccega M
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Abstract

Este é o primeiro número do décimo ano da revista Comunicação & Educa-ção, a qual, durante os nove anos anteriores, publicou, regularmente, a cada quatro meses, um novo número. Durante esse período, tivemos as parcerias da Editora Moderna, até o n. 15; da Segmento, até o n. 22, e da Salesiana, até o n. 27. Do final de 2003 e durante todo o ano de 2004, a revista não pôde ser publicada. Volta, agora, em parceria com Paulinas Editora, com grande entusi-asmo de ambas as partes: Paulinas e USP. Neste primeiro número, queremos ratificar os compromissos que assumimos desde o início: dialogar com o público sobre esse espaço já construído, onde educação e comunicação se encontram. Trata-se de um espaço cuja ação está presente em cada sala de aula, em cada grupo de pessoas, em cada um de nós. Enfim, vivemos todos imersos num ecossistema comunicativo, no qual se constrói nossa identidade. E por que podemos afirmar que Comunicação & Educação é um espaço já construído? Como diz Paulo Freire, nós vivemos no mundo e com o mundo. E que mundo é esse? E aquele que é trazido até o horizonte de nossa percepção, até o universo do nosso conhecimento. Afinal, não podemos ver todos os acontecimentos, em todos os lugares. É preciso que "alguém" os relate para nós. O mundo que nos é trazido, que conhecemos e a partir do qual refletimos é um mundo que nos chega editado, ou seja, ele é redesenhado num trajeto que passa por centenas, às vezes milhares de filtros até que "apareça" no rádio, na televisão, no jornal. Ou na fala do vizinho, nas conversas dos alunos, nos diálogos do cotidiano. São esses filtros -instituições e pessoas -que selecionam o que vamos ouvir, ver ou ler; que fazem a montagem do mundo que conhecemos. Aqui está um dos pontos básicos da reflexão sobre o espaço onde se encontram comunicação e educação e que gostaríamos de mostrar: que o mundo é editado e assim ele chega a todos nós; que sua edição obedece a interesses de diferentes tipos, sobretudo económicos, e que, desse modo, acabamos por per-ceber até a nossa própria realidade do jeito que ela foi editada. 7 comunicação & educação Ano X Número 1 jan/abr 2005 Portanto, editar é construir uma realidade outra, a partir de supressões ou acréscimos em um acontecimento. Ou, muitas vezes, apenas pelo destaque de uma parte do fato em detrimento de outra. Editar é reconfigurar alguma coisa, dando-lhe um novo significado, aten-dendo a determinado interesse, buscando um determinado objetivo, fazendo valer um determinado ponto de vista. É o que Entman, citado por Lima, chama de enquadramento: "A noção de enquadramento envolve basicamente seleção e saliência, sendo que esta última consiste em tornar uma informação mais 'noticiável, significativa ou memorável para a audiência'. Desta forma, 'enquadrar é selecionar certos aspectos da rea-lidade percebida e torna-los mais salientes no texto da comunicação de tal forma a promover a definição particular de um problema, de uma interpretação causal, de uma avaliação moral e/ou recomendação de tratamento para o tema descrito. Enquadramentos, tipicamente, diagnosticam, avaliam e prescrevem'. Além disso, 'o enquadramento determina se a maioria das pessoas percebe e como elas compreendem e lembram-se de um problema, da mesma forma que determina a maneira que avaliam e escolhem a forma de agir sobre ele" 1 . Até agora só falamos de um lado: o da produção do programa (de rádio ou televisão), jornais, revistas etc., o lado que edita o mundo. Mas há o outro lado: o daqueles a quem esses produtos culturais se dirigem. O outro lado somos nós, os alvos de toda essa produção. Somos um lado também muito importante, por-que não somos passivos, não somos meros recipientes onde os produtos da cha-mada indústria cultural são despejados e inteiramente absorvidos. A comunicação só acontece no encontro desses dois lados: emissor (enunciador) e receptor (enunciatário). Os programas só acontecem quando nós os vemos e ouvimos; os jornais e revistas, quando os lemos. A comunicação só se efetiva quando o enun-ciado é apropriado por quem recebe, por nós. Só então se constróem os signifi-cados. O significado não reside no que diz o emissor; também não se constrói apenas com a percepção do receptor. Os significados se instituem no território que se forma no encontro emissor/receptor. E são esses significados que regem o nosso cotidiano. Os meios de comunicação, incluídos os novíssimos -internet, por exemplo -, têm grande responsabilidade na construção e disseminação desses significados. Daí a importância de seu conhecimento. Assim, procuramos desven-dar os mecanismos usados na sua edição, conseguindo percorrer o trajeto que vai do mundo que nos entregam pronto, editado, à construção do mundo que per-mite a todos o pleno exercício da cidadania.

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Baccega, M. A. (2005). Comunicação, educação e tecnologia: interação. Comunicação & Educação, 10(1), 7. https://doi.org/10.11606/issn.2316-9125.v10i1p7-14

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