Abstract
RESUMO Com base em uma abordagem foucaultiana à análise do discurso e uma análise interacional de inspiração goffmaniana, este artigo investiga as micro-dinâmicas pelas quais sistemas de conhecimento que patologizam a transexualidade como uma enfermidade mental são incorporados nas ações de profissionais de saúde e usuários/as transexuais do Sistema Único de Saúde. A partir de um trabalho de campo etnográfico de 13 meses, investiga-se um dos serviços de referência no Processo Transexualizador no SUS. O artigo discute como esses discursos biomédicos disponibilizam recursos semióticos para a identificação de "transexuais verdadeiros", solidificando um modelo metapragmático de identidade. A análise focaliza trajetórias de socialização (WORTHAM, 2006) durante as quais uma usuária nova da clínica paulatinamente aprendeu a entextualizar (SILVERSTEIN E URBAN, 1996) o modelo do "transexual verdadeiro", tornando-se, assim, um corpo dócil (FOUCAULT, 1975/2011) para os propósitos do Processo Transexualizador. Esse aprendizado se deu intertextualmente pela organização sequencial de turnos-de-fala e, sobretudo, no par pergunta-resposta através dos quais a psicóloga oferece a sua interlocutora os itens semióticos para a construção de uma performance que satisfaça as demandas diagnósticas do cuidado em saúde trans-específico.ABSTRACT Grounded in a Foucauldian genealogical approach to discourse analysis and in Goffmanian-inspired interactional analysis, this paper investigates how knowledge systems that pathologize transsexuality as a mental disorder get gradually embodied in consultations at a Brazilian gender identity clinic. The research draws upon 13-month ethnographic fieldwork at one of the Brazilian gender clinics. It analyses how biomedical discourses make available semiotic resources for the identification of "true transsexuals", solidifying, thus, a metapragmatic model of identity. The analyses focus on socialization trajectories (WORTHAM, 2006) during which a new transsexual client of the clinic gradually learned how to entextualize (SILVERSTEIN AND URBAN, 1996) the identity model of "true transsexual" and, thus, gradually became a docile body for the purposes of the clinic. This learning dynamics took place in the sequential organization of turns-at-talk and, above all, in the question-answer adjacency pair in which a psychologist offered her interlocutor semiotic items for the construction of a performance that fulfills the requirements of the Brazilian trans-specific healthcare program.
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Borba, R. (2016). RECEITA PARA SE TORNAR UM “TRANSEXUAL VERDADEIRO”: DISCURSO, INTERAÇÃO E (DES)IDENTIFICAÇÃO NO PROCESSO TRANSEXUALIZADOR. Trabalhos Em Linguística Aplicada, 55(1), 33–75. https://doi.org/10.1590/010318135029178631
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